Título: Entre Eles – Recordando os Meus Pais
Autor: Richard Ford
Editora: Porto Editora

A capa de “Entre Eles”, de Richard Ford

A família continua a ser um motivo central para a literatura. Têm chegado às livrarias obras de autores portugueses e estrangeiros sobre os seus pais. Dir-se-á que é um exercício narcísico, que devia ficar no desktop. Não o é. A generalidade das pessoas, que é o mesmo que dizer, a generalidade dos leitores, tem questões a “resolver” com os pais e nada melhor do que ler os melhores autores para melhor exorcizar aquilo que sente mas não se consegue exprimir.

Não estamos a nomear relatos. Estamos a tratar de literatura. Da escolha de palavras, do uso de um estilo literário próprio, para destacar sentimentos universais. Dois exemplos recentes. Tal como Manuel Vilas em Em Tudo Havia Beleza (Alfaguara, 2019), Richard Ford em Entre Eles – Recordando os Meus Pais (Porto Editora, 2020), sabe tornar uma pesquisa pessoal sobre a forma como foi crescendo sob a sombra da uma família nuclear num exercício de partilha universal, com a qual podemos estabelecer fácil conexão. Ford, sabemos, é de uma literatura exigente mas sem heróis, sem preto e branco, à semelhança da que praticou o seu amigo Raymond Carver. Não vem para este registo memorialístico com o objetivo de ajustar contas. Vem para pesquisar, para procurar uma verdade, não a verdade, na nuvem densa das recordações.

Há um dado que marca a jornada. A circunstância de, a dado passo, o pequeno Richard ter interpretado a relação dos pais desta forma: nem um nem outro necessitavam dele para a justificarem. “Desejaram-me, mas não precisavam de mim”. E isso tornou-o um observador. Parker Ford e Edna Akin viviam uma relação sustentada em si própria. Não a faziam depender da existência do filho. Ford não era nem figurante nem protagonista. Fazia parte de uma peça a três com a ação em lugares como Jackson, o Sul da Luisiana, o Alabama ou o Arkansas. Às vezes surgia como ator secundário. Sobretudo depois de um enfarte do pai. “O facto de eles serem uma ‘unidade’ libertou-me e tornou-me mais um luxo, fruto da maneira como a vida estava a ser construída”. Foi (também) isso que o terá feito escritor.

O pai era caixeiro-viajante e isso poderia ter criado em Ford o clássico sentimento de que era filho de um “pai ausente”. Mas não. Assim ajuíza: “Foi o melhor que soube”. Aceitou a originalidade: “Os outros pais pareciam trabalhar em bancos ou farmácias, ou no ramo dos combustíveis, ou ser donos de um stand de automóveis, firmas de construção ou empresas de desinfestação. Mas seria inexato dizer que eu tinha uma sensação de perda devido a essa diferença”. Não há trauma mas há a necessidade de escrever sobre. Como se, pela escrita, tivesse necessidade de prosseguir o esforço de escavar o passado. “O conhecimento incompleto das vidas dos nossos pais não é uma condição das vidas deles. Só das nossas. Aliás, ter consciência de que não sabemos tudo é um sinal de respeito, uma vez que os filhos estreitam a moldura de tudo aquilo de que fazem parte”. Sim, o exercício é contingente e sempre redutor – embora necessário para o escriba e proveitoso para os leitores.

Será que o facto (assumido) de o autor de “Canadá” ter escrito sobre a mãe depois da morte desta assume influência no que é aqui publicado? Fica a ideia que sim. Enquanto que a pesquisa sobre o pai é a procura do som de uma voz que o filho esqueceu e quer recordar, aquela que é feita sobre a mãe tem a frescura de um convívio prolongado e recente. A vida de Edna Akin ficou, claro, marcada pelo dever de cuidar de um filho. Ainda para mais um filho que nunca foi fácil. Instável de humores, ressentiu-se muito com morte do marido. Muito mais por questões emocionais do que práticas. Até ao nascimento do escritor, o casal vivia em permanente movimento, numa vida de carros, copos, danças, mantendo a seguir a cumplicidade florescida nesses dias aventureiros.

Ford dá ao leitor um certo contexto familiar em que a mãe foi criada – padrasto com mau carácter, mãe invejosa – e refere-se à sua educação entre freiras “severas”, “cultas”, “imperiosas”, “delicadas” e com sentido de humor. Declara depois que a vida da mãe sem o pai perdera o seu verdadeiro sentido e descreve peripécias como um namoro que acabou por responsabilidade do filho, episódio lembrado muito mais tarde num desabafo. Nomeia também os empregos que Edna tivera de assumir e as conversas que com ela teve sobre televisão, filmes e basebol. Trata de um relacionamento, à sua maneira, terno entre um filho que se tenta construir como homem e como escritor e uma mãe que tenta reerguer os seus dias, ajudar o filho e a sua mulher, sem se impor, e manter amizades e ocupações depois de uma série de amargos engulhos.

Um gesto que dignifica a vida, reforçado por duas qualidades. O facto de ser ao mesmo tempo simples – porque direto, num certo estilo literário norte-americano — e complexo – porque considera todos os humanos matizes e as tramas complexas que justificam atitudes e traços de personalidade. Um tratado sobre a imperfeição humana, daqueles de que se faz a melhor literatura.