É mais um caso de um treinador que tem de falar através de terceiros nas competições europeias. Mário Silva, técnico do Rio Ave, não tem o nível exigido pela UEFA para dar a cara pela equipa na Liga Europa e, por isso mesmo, foi o adjunto Augusto Gama a realizar a antevisão da visita ao Besiktas. Uma antevisão que teve pouco de complexo de inferioridade em relação aos turcos e muito de vontade de seguir em frente na competição europeia.

“Este jogo é como uma final e aí não há favoritos. Sendo uma partida disputada a uma só mão, antecipo que será equilibrada (…) É um desafio grande para o Rio Ave mas gostamos de estar nestes palcos e já não somos inexperientes nestas andanças. Queremos seguir em frente nesta eliminatória e, mesmo sabendo que vamos defrontar um adversário valoroso, iremos entrar no jogo com ambição”, explicou o adjunto vilacondense, recordando que a equipa esteve nas competições europeias quatro vezes nos últimos seis anos. Uma visão que era acompanhada por Carlos Mané, um dos nomes mais influentes do ataque do Rio Ave.

“Qualquer jogador sonha em chegar à fase de grupos da Liga Europa. Não há que esconder que esse é um objetivo. Vamos com tudo e vamos jogar para ganhar este jogo, queremos entrar fortes para o conseguir (…) [O Besiktas] é uma equipa que ofensivamente gosta de construir e fá-lo bem mas também defende bem. Pelo que vimos nas análises, vai ser um jogo equilibrado”, disse o avançado ex-Sporting.

Certo é que o Rio Ave não podia desde logo contar com Gelson Dala, avançado que entrou bem na eliminatória anterior e acabou por ser decisivo na eliminação do Borac, devido a uma lesão no ombro. Contra o Besiktas, os vilacondenses discutiam a terceira pré-eliminatória de acesso à Liga Europa e a passagem ao playoff — onde o adversário, já conhecido, seria desde logo o vencedor da eliminatória entre o AC Milan e o Bodø/Glimt da Noruega. Depois da vitória perante o Borac na Bósnia, com golos de Tarantini e Jambor já nos instantes finais, o Rio Ave ainda entrou em falso no Campeonato, com um empate fora frente ao Tondela.

Tarantini, o capitão que marcou no último minuto e atirou o Rio Ave para a próxima fase da Liga Europa

Esta quinta-feira, Mário Silva lançava Mané, Francisco Geraldes e Lucas Piazon no onze inicial, enquanto que o ex-V. Guimarães Tyler Boyd era titular no Besiktas. Em Istambul, depressa se percebeu que seriam os turcos a tomar a dianteira da partida: o Rio Ave tinha dificuldades em aplicar uma pressão elevada e restringir a saída de bola da equipa adversária e o Besiktas tinha tempo e espaço para avançar de forma ponderada e apoiada.

Sem grande surpresa, foi o Besiktas a adiantar-se no marcador à passagem do quarto de hora inicial. Numa jogada desbloqueada a partir de uma transição da esquerda para a direita, o capitão Uysal cruzou para o segundo poste e Yalcin, praticamente sozinho, cabeceou para inaugurar o marcador (15′). Mesmo depois de marcar, a equipa turca manteve-se muito subida no terreno e podia ter aumentado a vantagem em duas ocasiões antes do intervalo, ambas evitadas pelo guarda-redes Kieszek: primeiro desviou um remate para o poste (34′), na sequência de uma perda de bola de Tarantini em zona proibida, e depois com uma boa defesa por instinto a um pontapé de Yalcin (42′). Pelo meio, o Rio Ave mal conseguia chegar ao último terço adversário e Piazon, principalmente, continuava demasiado pressionado e marcado para conseguir desequilibrar. Ao intervalo, a passagem ao playoff da Liga Europa estava muito dificultada para a equipa portuguesa.

Besiktas v Rio Ave: UEFA Europa League

Os turcos colocaram-se em vantagem no marcador à passagem do primeiro quarto de hora

Na segunda parte, o Rio Ave deu a ideia de querer assumir as despesas do jogo e ainda ir atrás da eliminatória. A equipa de Mário Silva pegou na bola e colocou a primeira linha de construção na zona do meio-campo, beneficiando também da postura do Besiktas, que desceu no relvado e apresentou um modo de gestão declarado logo depois do intervalo. Bruno Moreira teve uma boa oportunidade para empatar, com um cabeceamento à trave (57′) na sequência de um cruzamento de Mané vindo da esquerda — e parecia que todos os lances de ataque da equipa portuguesa apareciam dos pés do avançado ex-Sporting e daquele corredor. Mané era o mais inconformado dos jogadores vilacondenses e o único que conseguia quebrar as linhas turcas para chegar a terrenos mais avançados e desequilibrar.

Mário Silva mexeu pela primeira vez na equipa quando faltavam 20 minutos para o apito final, trocando Piazon por Diego Lopes, e tanto Geraldes como Mané estiveram perto do empate (78′ e 82′). O Rio Ave passou a procurar mais os corredores e o jogo exterior, algo que não tinha feito durante toda a primeira parte e que se revelou um dos grandes problemas dos portugueses, já que o Besiktas ocupava sempre a faixa central e não permitia espaços ao adversário. Os vilacondenses estavam melhor no jogo e aproximavam-se cada vez mais da baliza turca, no culminar de um domínio que foi visível durante o segundo tempo, acabando por empatar a partida já nos instantes finais. Mané cruzou a partir da direita, num exemplo da grande mobilidade do ataque montado por Mário Silva, e Bruno Moreira atirou para dentro da baliza (85′). O Besiktas ainda acertou no poste (90+1′) mas a decisão da eliminatória foi mesmo para prolongamento.

Depois de mais meia-hora sem golos, Rio Ave e Besiktas resolveram o jogo nas grandes penalidades: Welinton e Larin falharam para os turcos, Bruno Moreira, Aderllan, Jambor e Matheus Reis marcaram para os portugueses (2-4). O Rio Ave superou as expectativas, ultrapassou uma primeira parte pouco conseguida com um segundo tempo acima da média e assentou na fortuna dos penáltis para garantir o passaporte para a próxima fase. O sonho europeu da equipa de Mário Silva continua e encontra o vencedor da eliminatória entre o AC Milan e o Bodø/Glimt em Vila do Conde.