O chef parisiense Taku Sekine, promissor novo talento da cozinha franco-chinesa que chefiava o minimalista Cheval d’Or, morreu aos 39 anos. Tanto o site de notícias sobre gastronomia Eater como o Le Figaro citam Sarah Berger, a companheira de Sekine, que utilizou as sua conta de Instagram para revelar que a morte do cozinheiro tratou-se de um suicídio. O chef Taku estava há já bastante tempo a lidar com uma grave depressão que foi desencadeada por uma onda de acusações de agressão sexual que tiveram a sua origem nas redes sociais e fizeram eco na imprensa especializada.

“As condições da morte de Taku Sekine não são aleatórias nem acidentais. Taku Sekine acabou com a sua vida, varrido por uma grave depressão levantada por um julgamento público — em redes sociais e num site especializado — implacável”, lê-se no comunicado divulgado por Berger. Numa mensagem claramente inflamada, a companheira do chef afirma perentoriamente que “certos atores, em particular a imprensa, conscientemente e em poucas semanas” arruinaram a reputação de Sekine que, diz a própria, nunca havia sido alvo de qualquer tipo de acusações. “Essas pessoas maliciosas”, conta, “desrespeitaram qualquer ética e regra de respeito pela presunção de inocência” ao espalhar “boatos falsos” nas redes sociais e, com isso, desencadeando uma “campanha brutal para destruir” o cozinheiro. Berger diz que tudo isto aconteceu sem que Sekine fosse contactado uma única vez para responder às acusações de que estava a ser alvo.

“Privado do direito de exercer o seu talento e a sua paixão, Taku Sekine, que vivia para a cozinha, em dois meses trancou-se numa violenta espiral de depressão”, reitera.

Enquanto uma das caras da nova bistronomie francesa, Sekine foi acolhido pelo mundo da gastronomia parisiense e era considerado uma jovem estrela em ascensão, um dos responsáveis por reinventar o panorama culinário asiático da capital francesa.

Treinado no Japão, Sekine  trabalhou com alguns dos maiores talentos culinários da França, de Alain Ducasse a Hélène Darroze. Segundo o Le Figaro, Taku arranjou o seu primeiro emprego no restaurante Beige, em Tóquio, sob a batuta de Ducasse — viria a reencontrar o mestre francês no icónico Plaza Athénée, em Paris, onde passou três anos. Daí seguiu para as mãos de Hélène Darroze e só mais tarde (ainda teve uma passagem importante pelo icónico Clown Bar) se lançou a solo. Em 2014 abriu o seu primeiro restaurante, o Dersou — que é considerado por muitos como o primeiro restaurante de Paris a oferecer um menu de degustação com pairing de cocktails e que ganhou o Le Fooding’s Best Restaurant de 2016, cobiçado prémio da capital gaulesa), e cinco anos de sucesso depois, em 2019, inaugurou o Cheval d’Or.

A sua espiral negativa começou a desenhar-se a 1 de agosto de 2020 quando uma utilizadora do Instagram, Bonny Peter, que se identifica como canadense, revelou a história de uma alegada “agressão sexual” de que tinha sido alvo. Sem nomear Sekine (descrevendo-o apenas como pai e famoso restaurateur), acusou um homem de a ter agredido na noite de 8 de janeiro de 2019, após uma bebedeira com amigos. “Entraste no meu quarto enquanto eu dormia, tentaste dormir comigo e começaste a agredir-me sexualmente”, escreveu na altura. “Consegui tirar-te de lá mas voltaste depois de ter adormecido. Desta vez tive que gritar alto o suficiente para a pessoa do quarto ao lado poder me ajudar e tirar-te de lá”, afirmou.

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A jovem em questão, conta o Le Figaro, não apresentou queixa na polícia evocando uma má experiência que tinha tido, dias antes, numa esquadra da cidade francesa, depois de ter sido assaltada. Na mesma revelação também menciona rumores de dez outros casos de mulheres que teriam também sido atacada pelo mesmo chef. “Eu tinha 25 anos quando isso aconteceu, você tinha 38”, terminou.

Esta declaração pôs em ebulição o mundo da gastronomia parisiense. No dia 12 de agosto, a editora-chefe da revista “Fou de Pâtisserie” publicou um texto na sua conta de Instagram (que entretanto foi tornada privada) em que anunciava, sem também citar nomes — “por respeito às palavras das vítimas, ao trabalho da justiça e ao que resta da presunção de inocência (…) e porque somos fundamentalmente contra os tribunais populares ”– a sua intenção “de deixar de falar deste chef nas revistas que dirigimos (…) e de não participar mais em eventos onde ele esteja convidado (…), e a não comer mais em nos seus restaurantes”.

Em 16 de agosto, o Atabula, um site francês dedicado a notícias de comida, publicou uma análise sobre assédio sexual e sexismo na cozinha onde mencionava este episódio, sem nomear Sekine. Poucas semanas depois, porém, a 6 de setembro, o Atabula + (um braço do Atabula somente para assinaturas) considerou “apropriado dizer o seu nome em voz alta: Taku Sekine”. “Ele está a ser acusado por várias mulheres de agressão sexual e violação”, escreveu o dito site “A decisão do Atabula de publicar o nome do cozinheiro provavelmente será criticada por alguns, outros podem ficar aliviados ao finalmente ver um nome sair claramente na imprensa. Queremos que isto permita às vítimas (e aos seguidores deste mundo) exprimir-se e, sobretudo, reclamar para que o verdadeiro debate aconteça onde deve acontecer: nos tribunais”, escreveu o o site na sua versão reservada a assinantes.

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A 9 de setembro, três dias após as acusações do Atabula serem publicadas, Sekine disse à Vanity Fair France que estava a planear refutar as acusações — nessa altura já estaria a acusar a grave depressão que o faria fechar-se sobre si mesmo. Ao Le Monde, a advogada do chef, Julie de Lassus Saint-Geniès, defende que “o suicídio está ligado ao linchamento público nos média”. “Taku Sekine nunca foi processado ou foi objeto de qualquer reclamação”, disse o comunicado da família. Acrescentando, de passagem que, ao contrário do que Atabula tinha chegado a anunciar no seu artigo de 6 de setembro, o chef não tinha fugido para o Japão.

Florent Ciccoli, co-proprietário do Cheval d’Or (e outros restaurantes de Paris), ainda não fez qualquer comentário público sobre a morte de Sekine. O chef era pai de Marlow, de três anos.