Setembro de 1987: uma Susana com 5 anos a entrar sozinha num colégio enorme. Era o meu primeiro dia de aulas e não conhecia rigorosamente ninguém. Os outros meninos da minha turma ignoravam-me com aquela crueldade apurada das castas infantis; a professora Maria do Carmo, que ainda era adepta do vintage das reguadas, meteu-me de castigo porque eu confundia a mão esquerda com a mão direita. Todas as memórias que tenho desse dia são más, tirando uma: a minha mochila cor-de-rosa da Mafalda, que escolhi com o maior entusiasmo numa papelaria em Ayamonte e que tenho até hoje.

Outubro de 2003: uma Susana com 22 anos na Fnac do Chiado, numa sessão de autógrafos com o Quino, na altura a lançar o livro Quanta Bondade. Pedi-lhe para assinar esse e o Toda A Mafalda, o primeiro que tive na vida sem ser emprestado. Quando me perguntou o nome, tive estupidamente vergonha de o dizer, visto ser igual ao da sua personagem mais irritante e burguesa. Claro que fui apenas recebida com um sorriso, enquanto desenhou pacientemente uma Mafalda e um dos seus reconhecíveis homens narigudos nas primeiras páginas, ambos com balões de fala onde se lia “para Susana” com aquela letra icónica. É um dos objetos que salvarei se um dia a minha casa estiver a arder.

Morreu o argentino Quino, criador de Mafalda e artista de rigor que nunca quis abandonar a infância

Maio de 2014: uma Susana com 32 anos está de lua de mel na Argentina, destino escolhido em parte porque eu e o meu marido crescemos os dois com um fascínio pela Buenos Aires de Quino. Já é noite escura quando chegamos a San Telmo, o bairro do autor, onde foi colocado um banco de jardim com algumas das personagens principais do cartoonista. Tiro uma selfie desfocada com a Mafalda, eu que não sou nada de selfies. Conto ao meu marido pela décima oitava vez que tenho um autógrafo de Quino. Vamos procurar algumas das suas raridades pelas inúmeras livrarias da cidade e trazemos exemplares de Déjenme Inventar, Quién Anda Ahí? e Que Presente Impresentable.

“Toda A Mafalda”, na edição comemorativa dos 50 anos da personagem criada por Quino (Verbo)

Quino é um dos homens da minha vida. Talvez não me tenha apercebido verdadeiramente disso até hoje, tarde de mais, como a ingrata que sou. Se me perguntarem por criadores que admiro ou que me marcaram, lembro-me rapidamente de estrelas rock pelas quais suspirei ou de escritores que sublinhei. Mas talvez nenhum deles tenha sido tão constante e tão determinante como Quino, da minha mais tenra infância até aos meus agora quase 40 anos.

Foi com o argentino que comecei a refletir desde criança sobre conceitos como democracia, liberdade, reivindicação ou até otimismo. Sim, foi com Quino que me estreei a perceber que o mundo era uma balbúrdia, mas que estranhamente valia a pena lamber-lhe as feridas. Hoje, no Facebook, a atriz Joana Manuel fez a descrição que achei a mais certeira: Quino era uma ferida aberta com flores constantemente a brotar. Um pensador — acho que só o facto de usar o desenho como meio faz com que tenhamos o preconceito de não o considerar um filósofo — consciente da podridão, mas capaz de sorrir entre o entulho.

Senhor Quino: vou contar-te como a Mafalda mudou a minha vida

O espólio genial (e não uso este adjetivo de ânimo leve) do criador de banda desenhada não se esgota na pequena menina que abominava sopa, mas é incontornável começar por aí. Li o Toda A Mafalda várias vezes ao longo da minha vida, sempre com interpretações diferentes, a apanhar as mensagens que a minha puerilidade antes ocultava. “Ler”, aliás, nem é o verbo certo – começou por ser a minha mãe a ler-me, ainda não distinguia eu as letras umas das outras. Trouxemos várias vezes da biblioteca municipal de Sintra o considerável calhamaço. A determinada altura escolhi as minhas tiras preferidas para a minha mãe tirar fotocópias no emprego — tive mesmo de selecionar, o livro tem 600 páginas e o patrão da minha progenitora iria por certo dar pelo minguamento do toner e das folhas. Encadernei arcaicamente, fiz um desenho na capa e foi essa a minha versão durante alguns anos.

Só mais tarde conheci o restante trabalho de Quino fora do universo mafaldino – e que é, na verdade, o mais extenso, já que a reivindicativa criança não tem material inédito desde os anos 80. Pautado por personagens sem nome, Zé Ninguém como nós, muitas vezes sem ter sequer falas, mas com um misto do bulldozer imediato da mensagem (e da graça) com uma filigrana de detalhes que só percebemos numa releitura. Muitos desde anónimos são fisicamente parecidos com o argentino, numa espécie de autobiografia não oficial embebida em fantasia crua.

Mafalda e as tiras inesquecíveis criadas por Quino

2020 é o ano horribilis que já todos discutimos até à exaustão, mas depois cada um de nós tem a cereja cristalizada das suas tristezas a rematar. A minha foi ter perdido no mesmo ano Uderzo (o cocriador de Astérix morreu em março, tinha 92 anos) e agora Quino (tinha 88). Eram velhos, eu sei. Mas só fui a criança que fui por causa deles — e porque me trataram como uma deles, sem condescendência: capaz, permeável ao humor, disponível para o raciocínio, perspicaz com o que nos rodeia.

Setembro de 2020: uma Susana com 38 anos pega no Toda A Mafalda e no Quino: Esto No Es Tudo e leva-os para a mesa de cabeceira, que estremece com o peso. Está na hora de ler tudo outra vez.

Susana Romana é guionista e professora de escrita criativa