Setembro de 1987: uma Susana com 5 anos a entrar sozinha num colégio enorme. Era o meu primeiro dia de aulas e não conhecia rigorosamente ninguém. Os outros meninos da minha turma ignoravam-me com aquela crueldade apurada das castas infantis; a professora Maria do Carmo, que ainda era adepta do vintage das reguadas, meteu-me de castigo porque eu confundia a mão esquerda com a mão direita. Todas as memórias que tenho desse dia são más, tirando uma: a minha mochila cor-de-rosa da Mafalda, que escolhi com o maior entusiasmo numa papelaria em Ayamonte e que tenho até hoje.

Outubro de 2003: uma Susana com 22 anos na Fnac do Chiado, numa sessão de autógrafos com o Quino, na altura a lançar o livro Quanta Bondade. Pedi-lhe para assinar esse e o Toda A Mafalda, o primeiro que tive na vida sem ser emprestado. Quando me perguntou o nome, tive estupidamente vergonha de o dizer, visto ser igual ao da sua personagem mais irritante e burguesa. Claro que fui apenas recebida com um sorriso, enquanto desenhou pacientemente uma Mafalda e um dos seus reconhecíveis homens narigudos nas primeiras páginas, ambos com balões de fala onde se lia “para Susana” com aquela letra icónica. É um dos objetos que salvarei se um dia a minha casa estiver a arder.

Morreu o argentino Quino, criador de Mafalda e artista de rigor que nunca quis abandonar a infância

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.