Morreu esta quarta-feira na Argentina o desenhador Joaquín Salvador Lavado, mundialmente conhecido pela criação da personagem de banda desenhada Mafalda. A notícia da morte de Quino, como se tornou conhecido enquanto artista, foi confirmada pelo seu editor, Daniel Divinsky, na rede social Twitter. Tinha 88 anos e nos últimos tempos deslocava-se em cadeira de rodas e afastara-se dos holofotes. Vivia em Mendoza, cidade onde nasceu e se instalou em 2017 após a morte da mulher, a engenheira química de origem italiana Alicia Colombo.

Foi o “humorista gráfico mais internacional e mais traduzido da língua espanhola”, escreveu o El País. “Não há geração neste momento, em dezenas de países, que não chore a perda de um dos autores argentinos mais traduzidos, de par com Borges, Sabato e Cortázar”, acrescentou o diário argentino La Nación. “Que Mafalda ficou desconsoladamente órfã, é hoje o lugar-comum mais triste do mundo.”

Através da inconformada Mafalda, menina de seis anos da classe média argentina, fã dos Beatles e de panquecas, sempre avessa a comer sopa, Quino veiculou as suas angústias existenciais e críticas perante as injustiças sociais, recordou a Folha de S. Paulo. Mafalda preocupava-se com o rumo da humanidade e a paz no mundo. E o autor também.

Esta e outras personagens de Quino pautaram-se pelo humor negro e corrosivo acerca de realidades sociais e políticas. Tinham-no marcado os efeitos da Guerra Civil Espanhola e da II Guerra Mundial e os debates políticos que em criança ouvia em casa entre a avó comunista e os pais republicanos. “Criado entre lutos e guerras, parece mover-se entre uma sensibilidade ardente pelo sofrimento dos fracos e uma repulsa escancarada por qualquer tipo de poder”, qualificou um repórter do El País, que o visitou em 2014.

Vendeu milhões de livros em todo o mundo e a sua banda desenhada encontra-se traduzida em mais de trinta línguas, incluindo inglês, português, francês e japonês. Mafalda, A Contestatária foi o primeiro álbum de Quino publicado em Portugal, com chancela das Publicações Dom Quixote, em 1972. Este mesmo livro tinha tido uma primeira edição italiana com prefácio do filósofo Umberto Eco, que se contava entre os admiradores da personagem.

Filho de andaluzes que emigraram para a Argentina

Joaquín Salvador Lavado nasceu a 17 de julho de 1932 em Mendoza, junto aos Andes. Os pais, Cesário e Antonia, eram espanhóis e por volta de 1919 tinham emigrado de Fuengirola, em Málaga (Andaluzia), para a Argentina. Ainda em criança decidiu que queria ser cartoonista, ao ver desenhar um tio designer gráfico que vivia na mesma casa. A família era remedida, o pai trabalhava como empregado de mesa, havia mais dois irmãos.

Quino não gostava de jogar futebol nem de sair com as raparigas e também não via televisão. Reservado e solitário, passava os dias da infância a fazer desenhos na mesa da cozinha, literalmente em cima do tampo da mesa. Na cidade viviam muitos imigrantes sírio-libaneses, italianos, espanhóis. Mas ele “nunca deixou que os estímulos do mundo real o fizessem perder muito tempo”, narrou La Nación.

Interessava-lhe um mundo imaginário e infantil, o lugar onde tudo é possível. “De cada vez que calçava os sapatos e notava que estavam a ficar apertados, invadia-me um desespero enorme. Não queria ser grande. Achava péssimo. Quando somos pequenos, os outros é que cuidam de nós”, disse uma vez. “A velhice é uma porcaria que assusta muito. Dou um sentido político à velhice. É como se Pinochet lhe caísse em cima e começasse a proibir coisas: isto não, aquilo tampouco”, afirmou em 2014.

Nos primeiros anos de escola, a obrigação de desenhar mapas, rios ou corpo humano correspondeu a um tempo de júbilo perante a hipótese de pôr em prática aquilo de que mais gostava. Mas entre os 10 e os 18 anos perdeu a mãe (com cancro) e o pai (ataque cardíaco), e nem chegou a terminar o ensino secundário. Frequentou um curso de belas-artes, mas abandonou-o, sem concluir. Tinha já a vocação genial, como quem tivesse passado anos a ser corrigido e moldado na instrução formal. O rigor de filigrana que haveria de o acompanhar vinha-lhe também de empréstimo pelos autores que mais admirava: Sempé, Jean-Maurice Bosc, Harvec, Faizant, Claude Serre ou Chaval, escreveu a imprensa argentina.

E assim nasceu Mafalda

Deixou Mendoza aos 22 anos e dirigiu-se para Buenos Aires, depois de uma primeira tentativa que durara pouco tempo. “Vivi em pensões, com três tipos num quarto, com bastante prostituição. Impressionava-me muito. Era muito estranho para mim. Pouco tempo depois conheci Alicia, que era amiga da namorada de um primo. Mas durante cinco ou seis anos fomos amigos, não nos ocorreu que podíamos ficar juntos”, contou numa entrevista. Casaram-se em 1960 e passaram a lua-de-mel no Rio de Janeiro.

Publicou os primeiros desenhos em 1954 na revista Esto Es. A personagem Mafalda surgiu no início dos anos 60, por causa de um trabalho de publicidade. Tinha encontrado emprego como artista publicitário e nessa condição encomendaram-lhe  tiras cómicas para jornais, que mostrassem uma família a usar eletrodomésticos da marca Mandsfield — nome que deu origem a “Mafalda” pela proximidade fonética. As tiras foram rejeitadas pelos jornais, por as considerarem uma publicidade demasiado parecida com a banda desenhada que costumavam publicar.

Quino acabaria por recuperar Mafalda pouco depois, já sem qualquer propósito publicitário. A primeira história saiu em 1964 na revista Primera Plana, de Buenos Aires. Continuou a publicar tiras de Mafalda até 1973: na revista Siete Días, a 25 de junio de 1973, saiu a última, exatamente 1.928 tiras depois. Dizia-se esgotado pelos prazos apertados dos jornais. A personagem era já eterna.

Nos últimos anos, relatou a Folha de S. Paulo, Mafalda foi adotada por movimentos feministas argentinos, com o aval do próprio artista, e chegou a ser utilizada em campanhas a favor da legalização do aborto.

Em entrevistas na década de 90 chegou a dizer que o ponto final nas histórias de Mafalda se teria devido não apenas a vontade própria, mas a pressões políticas. “Se continuasse a desenhar, poderia ter sido baleado”, afirmou. Naqueles inícios de 70, com Isabelita Perón na presidência, a Argentina vivia a ferro e fogo, com perseguição de artistas e intelectuais e uma profunda crise económica e social, que desembocou na ditadura de 1976-83. Nesse mesmo período, Quino e a mulher exilaram-se em Milão.

Sem Mafalda, Quino dedicou-se a outros trabalhos, muitas vezes ao serviço de causas: campanhas da UNICEF, da Cruz Vermelha e mais tarde do próprio governo argentino. Entre 1989 e 2006 desenhou para a revista de domingo do jornal portenho Clarín. Retirou-se, doente, com um glaucoma.

Recebeu a ordem oficial da Legião de Honra de França, o Prémio de Caricatura La Catrina, da Feira do Livro de Guadalajara, em 2003; e o Prémio Príncipe das Astúrias de Comunicação e Humanidades, em 2014. Até 2017, viveu em Buenos Aires, num pequeno apartamento do Bairro Norte.

“As paredes estão repletas de desenhos de amigos — REP, Crist, Fontanarrosa —, diplomas e prémios vários. Atrás da sua mesa há uma estante com livros de arte, as portas de vidro cobertas por desenhos e fotos. O pulso treme-lhe um pouco e parece ter uma perna um tanto rígida, mas quando fala a voz é firme e, por detrás dos óculos, os olhos focam claramente o olhar do interlocutor”, contou o El País, que o visitou há seis anos.

Reações em Espanha e na Argentina

Pablo Iglesias, vice-primeiro ministro de Espanha, reagiu à morte do “grande Quino, pai de Mafalda e de milhares de histórias que nos fizeram sorrir e pensar”. Ireno Montero, ministra espanhola da Igualdade, fez eco das palavras de Iglesias, afirmando: “Mafalda e as outras criações de Quino acompanharam-nos sempre, ajudando-nos a rir e a pensar. E nunca deixarão de o fazer”.

Em reconhecimento pelo trabalho de Quino, também a Real Academia Espanhola publicou na quarta-feira à tarde uma mensagem no Twitter, pondo em destaque o facto de se tratar de “um dos mais internacionais desenhadores da língua espanhola”, cujas “palavras certeiras viajaram entre ambos os lados do Atlântico”.

O conhecido desenhador argentino Miguel Rep escreveu esta quarta-feira nas redes sociais que Quino foi para ele um segundo pai. E a vice-presidente Cristina Kirchner prestou tributo ao artista com um “até sempre, mestre”. O filósofo argentino José Pablo Feinmann escreveu no jornal Página 12 que Mafalda era “literatura desenhada” e que os desenhos do autor “são obras-primas obsessivamente trabalhadas”.