O Presidente da República “comprometeu-se” este domingo a receber o Movimento Cidadãos Unidos, que organizou uma caravana automóvel na zona de Belém, em Lisboa, e se cruzou com o chefe de Estado, referiu um dos elementos do grupo. Em declarações à agência Lusa, Luís Freire Filipe disse que a caravana “bloqueou” o carro onde seguia Marcelo Rebelo de Sousa, que, “olhos nos olhos, se comprometeu a ouvir” as reclamações deste movimento, “isento partidariamente e sem ideologia”.

O movimento, que considera o recolher obrigatório uma medida desproporcional, realizou este domingo um “buzinão pela liberdade” em Lisboa e no Porto, apelando ainda aos cidadãos para repetir o protesto no resto do país, junto a autarquias, entre as 12h00 e as 13h00.

Segundo Luís Freire Filipe, o protesto “ultrapassou as expectativas”, por se ter conseguido falar com o Presidente, algo que este participante tentava “desde antes dos incêndios em Pedrógão”, ocorridos em junho de 2017. Questionado sobre o reduzido número de viaturas que integraram o buzinão – algumas dezenas -, o representante disse: “Os números não nos interessam, isto é um despertar, há muita gente adormecida”.

A caravana percorreu a zona de Belém, tendo ficado o trânsito condicionado entre o cruzamento da Calçada da Ajuda com a Praça Afonso de Albuquerque e o entroncamento, a poente, da Rua de Belém com o Largo dos Jerónimos. O acesso à Praça do Império a partir da Rua de Pedrouços e da Rua dos Jerónimos esteve também condicionado.

A ação policial incidiu apenas no ordenamento do tráfego, com os transportes públicos a circularem. Para muitos transeuntes, que aproveitavam o sol, a caravana foi uma surpresa e alguns manifestaram à Lusa o seu desagrado pelo buzinão.

Não sabia que isto ia acontecer. Independentemente das razões, estas buzinas incomodam o passeio nos jardins com a família”, disse à Lusa um dos cidadãos.

A caravana, que teve como lema “É hora de Agir. Ditadura Nunca Mais”, terminou junto ao Centro Cultural de Belém, pelas 13h00. A maioria das viaturas apitava e ostentava bandeiras nacionais. Dirigindo-se aos participantes, Freire Filipe realçou o “caráter apartidário” do movimento, que se propõe a “mudar Portugal”, defendendo um “maior senso preventivo” das políticas públicas.

Luís Filipe Freire salientou o facto de ter falado frente a frente com o chefe de Estado: “É assim que os políticos devem tratar os seus concidadãos. O Presidente fixou o compromisso de nos ouvir”, disse, referindo que esta foi “a primeira de muitas” ações do movimento.

No Porto, algumas dezenas de condutores buzinaram na Avenida dos Aliados, ostentando também a bandeira nacional e cantando o hino de Portugal, pela liberdade, junto à Câmara. “Fim das leis inconstitucionais”, “Teste PCR dá 90% de falsos positivos”, “É hora de agir. Ditadura nunca mais” e “Máscaras não protegem” eram algumas das frases que se podiam ler nos cartazes que os cerca de 30 manifestantes levaram para participar na iniciativa, que culminou pelas 13h00, depois de as autoridades policiais terem solicitados às pessoas para terminar com os protestos.

No local, Vítor Pinto, chefe de cozinha num restaurante que ficou desempregado na pandemia, explicou manifestar-se para pedir ao Governo que permita o regresso ao trabalho na totalidade, prevendo que se não houver alteração das medidas e do estado de emergência a crise e a fome vão ser o futuro.

“Neste momento não se justifica aquilo que está a acontecer ao nível da segunda onda […]. Neste momento vamos ter um vírus muito pior que é o vírus da fome, o vírus da miséria, o vírus da pobreza e isso já está a acontecer em muitas partes de Portugal. A nossa reivindicação principal tem a ver com o facto de não fazer sentido mais este estado de emergência. Não faz sentido estarmos a bloquear a economia neste momento e é muito importante para que os empresários não fiquem falidos que possam retomar a atividade o quanto antes e o mais próximo do normal possível”, disse à Lusa.

“A liberdade individual está a ser todos os dias aniquilada. Ditadura nunca mais. Isto é uma ditadura mundial”, declarou, por seu turno, Helena Quental, vestida com uma t-shirt em que se lia “Pela Liberdade”. Para a manifestante, a população não pode continuar a achar que o Governo pode resolver tudo: “Eu não dou esse direito ao Governo, de decidir quando é que eu vou morrer, como vou morrer”.

O movimento lembrou, em comunicado, que “o estado de sítio ou o estado de emergência são enquadramentos jurídicos previstos no artigo 19.º da Constituição” e só podem ser declarados, no todo ou em parte do território nacional, “nos casos de agressão efetiva ou iminente por forças estrangeiras, de grave ameaça ou perturbação da ordem constitucional democrática ou de calamidade pública”.