Pessoas que perderam o emprego e o rendimento devido à pandemia fazem circuitos diários por instituições de solidariedade do Porto, procurando refeições, adiantaram à Lusa os responsáveis da Casa Mãe Clara e da Porta Solidária esta quarta-feira.

A segunda vaga da pandemia de Covid-19 fez aumentar desde o final do verão a procura por refeições no Porto, elevando os números “muito além da dimensão dos sem-abrigo”, passando a haver “pessoas de vários países” e até famílias que, conhecendo o circuito dos apoios na cidade, tentam resolver a necessidade surgida com a perda de emprego obtendo o almoço num lado e o jantar noutro, disse o padre Rubens Marques.

Segundo o responsável da Porta Solidária, resposta social que há anos, na Igreja Paroquial de Nossa Senhora da Conceição, na Praça do Marquês de Pombal, oferece diariamente refeições aos carenciados, os números de abril “foram largamente ultrapassados”, passando a “média diária de 400 para 550 refeições”.

“Desde 12 de março [dia seguinte à declaração da pandemia pela Organização Mundial de Saúde] até 24 de novembro servimos 109.667 refeições”, revelou o pároco, especificando que, desse total, “6.428 foram para crianças com menos de 10 anos de idade”.

Segundo Rubens Marques, os números atuais superam também “a média diária de 160 [refeições] verificada em 2019 ou de 300 contabilizada durante a intervenção da troika, entre 2009 e 2013”.

Essa procura vê-se, também, entre aqueles que “pedem cabazes, para poderem cozinhar em casa”, e que estão identificados como pessoas que perderam o emprego após o verão, referiu, acrescentando que estes cidadãos fazem um “circuito para mitigar a fome, sobretudo ao fim de semana”.

A obra solidária depende de terceiros e o padre Rubens revelou terem passado “algumas situações aflitivas quando, durante duas semanas, não houve carne nem fruta para as refeições”, porque “diminuíram as ofertas”, o que obrigou a “lançar novas campanhas de angariação de fundos”.

“Sem contar com os cabazes, já ultrapassámos em 2020 os 400 mil euros em refeições”, disse o padre, explicando que este cálculo passa pela “atribuição simbólica de quatro euros a cada refeição”.

E prosseguiu: “Quando passa das 600 refeições por dia é uma aflição total e os voluntários estão a fazer um esforço enorme, pelo que não podemos ir muito mais além. A sociedade civil não vai aguentar muito mais tempo”.

Na Casa Mãe Clara, projeto de responsabilidade social da Casa de Saúde da Boavista, o cenário é idêntico, testemunhou à Lusa a freira Regina Sousa, assinalando terem “ultrapassado as 200 refeições/dia desde setembro, estando a média atual em 205”.

Continuando em serviço de take-away, de segunda a sexta-feira, entre as 12h00 e as 13h00, “há agora cidadãos da Rússia, Roménia, Moldávia, Polónia e também africanos e brasileiros” a procurar as refeições, disse.

Até de Lisboa já nos chegou um sem-abrigo, que me pediu roupa e cobertores. Disse que veio tentar a sorte no Porto”.

E entre as histórias de sempre, há agora as que chegam por causa da pandemia, ou de quem nunca acautelou o futuro, como a de “um professor de música que deixou de dar aulas e porque nunca passou recibos se vê sem apoios e, muito envergonhado, vem perto do fim para não se encontrar com outros, buscar o seu almoço”, acrescentou a responsável.

Questionada pela Lusa como resolviam essas pessoas a sua vida, por exemplo ao fim de semana, em que o serviço de take-away não abre, respondeu: “aos fins de semana vão buscar às carrinhas de rua, aos refeitórios solidários e à noite, durante a semana, vão ao Marquês”.

Em Portugal, desde o início da pandemia, março, já morreram 4.056 pessoas dos 268.721 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.

A doença é transmitida por um novo coronavírus detetado no final de dezembro de 2019, em Wuhan, uma cidade do centro da China.