Ana para aqui, Marisa para ali. “Concordo”, “votaria”, “somos amigas” e um tratamento por tu que vai escapando entre a formalidade de um debate televisivo. Ana Gomes e Marisa Matias disputam eleitorado da mesma área política e tentaram, durante o debate, expor essas diferenças sem grande sucesso. A militante socialista até se descaiu e confessou que tinha falado com a bloquista sobre a possibilidade de uma candidatura única encabeçada por ela própria: “Falámos numa primeira fase. Mas compreendo que o partido de Marisa a tenha apoiado.” Foi mais longe e até estendeu a mão para Marisa desistir a favor dela nas próximas duas semanas: “Antes do dia a seguir às eleições, ainda há o dia antes das eleições. Não é por mim que não haverá convergência à esquerda.”

Ana Gomes dá a entender que, a alguém ter de abdicar, teria de ser Marisa Matias. A bloquista tentou descolar da socialista e lembrou que a ex-eurodeputada do PS não votou nela em 2016: “Éramos amigas, mas há cinco anos fui candidata e não me apoiou”. A atual eurodeputada acrescentou até que Ana Gomes “propôs ao seu partido apoiar Maria de Belém”, o que esta prontamente negou: “Não. Eu? Não. Apoiei Sampaio da Nóvoa. É um erro”.

O diálogo mais intenso

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Marisa Matias: “Há cinco anos fui candidata à Presidência da República e na altura a Ana Gomes até propôs ao seu partido de apresentar Maria de Belém como candidata”.

Ana Gomes: “Não. Eu?”

Marisa Matias: “Sim.”

Ana Gomes: “Não. Eu apoiei Sampaio da Nóvoa.”

Marisa Matias: “Não, isso foi o apoio. Estou a falar na sugestão inicial”.

Ana Gomes: “Não, não, não. Foi um erro.”

Marisa Matias: “Era isso pelo menos que vinha nas notícias. Era disso que me recordo há cinco anos e era isso que noticiavam

Mas isso era um detalhe para Marisa, já que o que queria provar era: amigas, amigas, apoios à parte. Além disso, recusou o papel de ser o elo mais fraco nesta dupla, desvalorizando as sondagens: “Há cinco anos estava atrás dos valores que estou agora”. A bloquista disse ainda que discordava de Ana Gomes em matérias como a política económica ou em setores como a Defesa. Na volta, a antiga embaixadora disse não compreender como a Marisa Matias disse não vetar o Orçamento e o BE ter votado contra o mesmo, acenando com a irresponsabilidade que seria o país ir para duodécimos arrastado por um chumbo bloquista.

Marisa Matias pediu para dar uma “réplica” e disse que o que não se podia era aceitar as condições do Governo e perguntou a Ana Gomes se não votaria a favor das alterações laborais que afastam os elementos impostos durante a troika e Ana Gomes respondeu: “Votaria”. Depois perguntou-lhe se votaria contra as transferências para o BES, Ana Gomes voltou a repetir: “Votaria”. Mas a socialista atiraria um aparte: “Mas não votaria contra o Orçamento”.

Relativamente à Defesa, Marisa Matias disse que o problema da Europa nessa matéria é de “segurança das pessoas”, alertando para os problemas que enfrentam os refugiados. Ana Gomes alertou que é precisamente para questões como a defesa de refugiados que devem haver forças armadas fortes. A socialista atirou ainda com o euro para cima de Marisa Matias, lembrando que foi devido ao euro que se avança no processo de mutualização da dívida e que é isso que quem faz a diferença são os que acreditam que isso é possível dentro da Zona Euro e não “quem sempre se opôs ao euro, como o Bloco.”

“Da Hola ao Político isto está nas bocas do mundo”

De resto, as candidatas concordaram em quase tudo. Sobre as falhas assumidas pela ministra da justiça — mas, para já, inconsequentes para a governante — Ana Gomes começou com uma avaliação mais politicamente correta, quando disse que “o primeiro-ministro é que sabe e que avalia como é que isto sobra para o Governo” e que era “contra a banalização de pedidos de demissão de ministros”. Mas logo subiu o tom para dizer que considerava “este caso grave porque não é boa política órgãos nacionais sobreporem-se a uma seleção feita por comités europeus.”

Marisa Matias não exigiu a demissão da ministra, mas quer explicações classificando o caso como uma situação “vergonhosa”, que dá uma “péssima imagem” do país junto das instituições comunitárias.

Sobre o estado de emergência, Ana Gomes também concordou genericamente com Marisa Matias, já  que é contra o facto de este regime de exceção “estar a ser banalizado”. Ambas deram também respostas quase tiradas a papel químico sobre o facto de não terem medo de André Ventura e sobre o facto de considerarem que não roubam eleitorado uma à outra.