A diretora da CONCORD Europe lamentou esta quarta-feira a “falta de liderança” demonstrada pela presidência portuguesa do Conselho da União Europeia (UE) em relação ao estabelecimento de uma ordem mundial pós-pandemia de Covid-19.

Tanya Cox falava numa videoconferência organizada pela Plataforma Portuguesa das Organizações Não-Governamentais para o Desenvolvimento (Plataforma ONGD), que contou também com a presença do secretário de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação, Francisco André, e Renaud Savignat, do Gabinete da comissária europeia para as Parcerias Internacionais, Jutta Urpilainen.

A diretora da CONCORD Europe (Confederação Europeia das ONG de Ação Humanitária e Desenvolvimento) começou por criticar o slogan da presidência portuguesa – “Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital” -, o qual reflete as prioridades de Portugal para os próximos seis meses de presidência do Conselho da UE.

“Se eu tivesse ouvido isto antes do surgimento da Covid-19, não teria achado estranho, pois reflete as prioridades da Comissão Europeia para o seu mandato de cinco anos. Mas quando oiço essas prioridades, as mesmas prioridades quase um ano depois da Covid-19 ter assoberbado o mundo, tenho de admitir que parecem fora da linha”, considerou Tanya Cox.

Segundo a diretora britânica, não é que as prioridades portuguesas “sejam pouco importantes, mas falta-lhes o reconhecimento da forma negativa como a Covid-19 afetou as pessoas em todo o mundo”.

“Questiono-me por que é que o maior desafio da presidência portuguesa não é realmente perceber como abordar a questão da recuperação na transição digital e climática? Porque a recuperação vai ser a palavra-chave”, salientou, lembrando que “os principais impactos da covid-19 ainda não se notaram”.

Para Tanya Cox, o programa apresentado pela presidência do Conselho da UE “não dá uma resposta à crise” como esperava. Além disso, a diretora esperava ver “mais liderança”.

“Por exemplo, esperava que a presidência portuguesa fizesse mais pela reconstrução das relações com o nosso parceiro transatlântico, os Estados Unidos da América, tendo em conta a importância da geopolítica e mesmo em termos de competição política”, indicou.

“Esperava que a presidência propusesse a liderança da UE para responder ao vácuo de liderança que atualmente se assiste na esfera internacional, de modo a aproveitar de melhor forma a tensão existente entre os EUA e a China”, acrescentou.

A diretora, que assumiu o cargo na CONCORD em 2018, acredita que “este é o momento em que a UE pode desenhar o mundo pós-Covid para melhor”. “Tenho a certeza de que África e a América Latina seriam parceiros muito dedicados nesta ambição. É tempo de olhar para fora, não para dentro”, vincou.

Tanya Cox lamentou ainda o facto de o programa da presidência portuguesa da UE não dar relevo ao desenvolvimento humano.

“Sem pessoas bem nutridas, saudáveis e educadas em todo o mundo, podemos investir todo o dinheiro que quisermos na digitalização, mas será um desperdício se apenas beneficiar a pequena percentagem dos mais ricos do mundo”, defendeu.

Por fim, a diretora fez um apelo à presidência portuguesa para “colocar as pessoas no centro do seu programa” e “mostrar liderança em moldar uma ordem mundial pós-Covid”.

A representante da Comissão Europeia em Portugal, Sofia Colares Alves, considerou, por seu lado, que “as pessoas estão no centro da preocupação da transição verde e digital” que ocupa a agenda da presidência portuguesa da UE.

Sofia Colares Alves concordou que “o trabalho da Comissão Europeia e da presidência portuguesa vai ser muito moldado pela resposta à crise sanitária e à crise económica”, mas lembrou que o “Next Generation EU”, juntamente com o novo orçamento comunitário para 2021-2027, são “um pacote sem precedentes”.

“Temos agora o dinheiro para fazer com que as coisas aconteçam, portanto para minimizar o impacto económico que esta crise está a ter em todas as economias da União Europeia”, salientou.

Este pacote financeiro é muito importante para darmos o passo seguinte e sermos mais resilientes em crises futuras. E por isso é tão importante falar de transições verde e digitais. As outras questões não deixaram de ser prioritárias, […] mas precisamos que o nosso investimento seja feito de forma inteligente em termos de sustentabilidade e em termos digitais, de modo a colmatar o enorme fosso que há em formação digital de todos os cidadãos”, defendeu, lembrando que “Portugal é um país que sofre muito com isso”.

A representante da Comissão Europeia em Portugal salientou que “a presidência tem sublinhado esse aspeto, não só para tornar a administração pública mais eficiente, para ter casas mais quentes para os portugueses e fazer a onda de renovação, mas para dar formação às pessoas”.

“É muito importante que as pessoas que estão agora no desemprego se possam reconverter e encontrar depois emprego mais facilmente”, considerou.

O projeto Por uma Europa aberta, justa e sustentável mundo, esta quarta-feira divulgado no seminário virtual, apresenta as linhas de ação para a presidência portuguesa da UE identificadas por cerca de 100 organizações de sociedade civil.