O Presidente francês Emmanuel Macron vai adotar “atos simbólicos” destinados a reconhecer os erros da era colonial francesa na Argélia, mas não está a considerar um pedido de “desculpas” oficial pretendido por Argel, indicou esta quarta-feira o seu gabinete.

Para o Eliseu, que pretende melhorar a complexa relação entre os dois países, o importante consiste em “sair do não dito e da negação” sobre a guerra da Argélia (1954-1962), que continua a dividir as duas margens do Mediterrâneo.

A declaração surge como reação a um relatório muito aguardado do historiador francês Benjamin Stora.

Trata-se de uma “iniciativa de reconhecimento” da verdade, mas “está fora de questão um arrependimento” ou “apresentar desculpas”, insistiu o Eliseu, numa referência ao relatório que cita como exemplo o precedente das desculpas apresentadas pelo Japão à Coreia do Sul e à China sobre a Segunda Guerra Mundial, e que não permitiam “reconciliar” estes países.

A Argélia permanece presente nas memórias familiares de milhões de pessoas em França, os colonos repatriados pieds-noirs, os harkis locais que combateram pela França, e os imigrantes argelinos.

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Na Argélia, a memória da guerra cimentou o sentimento nacional após a independência e forneceu ao poder uma legitimidade na qual ainda se apoia, passados 60 anos.

Emmanuel Macron vai participar em três comemorações simbólicas no âmbito do 60.º aniversário do fim da guerra da Argélia em 1962: o dia nacional dos harkis em 25 de setembro, a repressão de uma manifestação de argelinos no dia 17 de outubro de 1961 em Paris e os Acordos de Evian em 19 de março de 1962 impuseram um cessar-fogo na Argélia, precisou a Presidência.

O Presidente francês deverá estudar diversas propostas do relatório Stora, designadamente o reconhecimento do assassínio pelo exército francês do dirigente nacionalista argelino Ali Boumendjel em 1957, e a entrada no Panteão, que acolhe os heróis da história de França, da advogada anticolonialista Gisèle Halimi, que morreu em 28 de julho de 2020.

Benjamin Stora, um reconhecido especialista da história contemporânea da Argélia, entregou esta quarta-feira à tarde ao Presidente Macron o relatório, que lhe foi solicitado em julho.

O documento de 150 páginas, destinado a “fornecer uma abordagem justa e precisa do caminho percorrido pela França sobre a memória da colonização e da guerra da Argélia”, será depois divulgado publicamente.

Macron, o primeiro Presidente francês a nascer após esta guerra, tem manifestado a intenção em apaziguar e desbloquear este complexo dossiê, e tentar reforçar as voláteis relações bilaterais entre dos dois países, particularmente agravadas desde a conquista e a colonização em 1830 à Guerra da independência.

Em 2017, antes de ser eleito em maio, Macron denunciou em Argel a colonização como “um crime contra a humanidade”, uma declaração muito criticada pelos repatriados e pela extrema-direita, mas que “não lamenta”, sublinhou o Eliseu.

Para a Presidência, trata-se de “olhar a História de frente” e de “uma forma serena e tranquila”, para “construir uma memória da integração”, uma “iniciativa de longo prazo” e não forçosamente com gestos diplomáticos imediatos.

O Eliseu também assegurou que “nos próximos meses” vão ocorrer “palavras e atos”, precisando que será iniciado “um período de consultas”.

Entre diversas medidas, o autor do documento referiu-se a propostas “simples e práticas”, e que incluem a abertura de arquivos, identificação de locais, ou busca dos restos dos desaparecidos.

Na Argélia, o Presidente Abdelmadjid Tebboune encarregou o diretor dos arquivos nacionais, Abdelmadjid Chikhi, de trabalhar na questão da recuperação da memória em consonância com Benjamin Stora, após uma iniciativa comum e concertada dos dois chefes de Estado.