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Já há data para existir um plano de desconfinamento (11 de março), mas ainda não há números mágicos nem um dia no calendário para que ele comece a ser posto em prática. Ainda assim, o primeiro-ministro não colocou a mesma ênfase que o Presidente da República na necessidade de não abrir o país até à Páscoa — “o rigor pascal”. Aliás, não se comprometeu com isso e ligou o momento da abertura ao cumprimento de critérios (que estão por definir). Mas já fez saber que o desconfinamento que está a preparar — e que jurou estar a ser trabalhado “em solidariedade institucional” com o Presidente da República — será gradual e não descarta que possa acontecer de forma diferente consoante a região do país.

O desconfinamento que será apresentado dentro de 15 dias, como já tinha noticiado o Observador, será “gradual, progressivo e diferenciado em função de setores diferenciados e, porventura, em função de localizações”, como já aconteceu no passado, mas sempre associado a “critérios objetivos relativos à evolução da pandemia”. A ideia de um desconfinamento por regiões tinha sido proposta esta semana por Rui Rio, mas a ideia não terá agradado ao Presidente da República. Mas Costa admite que possa ser aplicada a este desconfinamento.

Nesta conferência de imprensa, o primeiro-ministro também não se mostrou tão rígido como Marcelo Rebelo de Sousa face à Páscoa. Na mensagem ao país desta quinta-feira, o Presidente colocou um peso grande na necessidade de proteger esse momento: “Temos de ganhar até à Páscoa o verão e o outono deste ano. Por outras palavras, a Páscoa é um tempo arriscado para mensagens confusas ou contraditórias, como por exemplo a de abrir sem critério antes da Páscoa, para nela fechar logo a seguir, para voltar a abrir depois dela. Quem levaria a sério o rigor pascal?”.

Já para António Costa, o “desejo” é que a 11 de março possa “começar a avançar para o desconfinamento. Se é possível, só poderemos dizer e verificar nessa altura”, afirmou aos jornalistas depois de questionado várias vezes sobre o tal “rigor pascal” pedido pelo Presidente da República. A intenção conhecida do Governo era, até aqui, empurrar esse processo para depois da Páscoa.

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Desacertos de mensagem entre os dois mais altos responsáveis políticos, mas com Costa a garantir “solidariedade institucional” entre as partes, ainda que admita que nem sempre partiram do mesmo ponto de vista, mas que “se chegou sempre à mesma conclusão”. E assegurou a Marcelo, desde o Palácio Nacional da Ajuda, que “não haverá nenhuma medida que não seja tomada em concordância” entre Governo e Presidente.

Quanto a estes critérios ou números mágicos, o primeiro-ministro também não os indica para já, mas vai dando como pontos de referências dois momentos concretos: a situação epidemiológica a 4 de maio de 2020, data do primeiro desconfinamento, e 15 de setembro, data do regresso à situação de contingência depois do verão. Ora, na primeira data, havia 242 casos novos e 425 em setembro, contra os 1.027 desta sexta-feira. Já os internamentos, estavam nos 813 em maio, 478 em setembro e 2.404 hoje. E em cuidados intensivos estavam internadas 143 pessoas a 4 de maio, 59 em setembro e 522 atualmente.

“As medidas adotadas estão a ter resultados, mas estamos ainda longe de nos compararmos com a situação em que estávamos no desconfinamento de maio passado”, conclui o primeiro-ministro que disse e repetiu que “este infelizmente não é ainda o tempo do desconfinamento”. E pediu aos portugueses que  tenham “a maior prudência” nos próximos dias, sublinhando que há empenho para que “nos próximos 15 dias haja mais avanços para nos colocarmos numa situação de segurança que permita fazer outra avaliação do nível de medidas”.

Em matéria de todos os cuidados com desconfinamentos precipitados, o primeiro-ministro aparece muito alinhado com o Presidente da República que ainda esta quinta-feira recomendou que “nunca se confunda estudar e planear com desconfinar. Sendo mais claro: planear o futuro é essencial, mas desconfinar a correr por causa dos números destes dias será tão tentador quanto leviano, até porque sabemos: os números sobem sempre mais depressa do que descem.”

António Costa fez ainda questão de falar sobre a vacinação para explicar que nem tudo está a correr como previsto e que, por isso, não é o momento certo para desconfinar. O objetivo de vacinar “mais de 80% das pessoas com 80 anos” vai ser cumprido, sendo que esta faixa etária estará “totalmente vacinada” até ao final de março, assim como a dos 50 aos 65 anos com doenças associadas.

Porém, devido ao facto de a vacina da AstraZeneca não ser aconselhada para maiores de 65 anos, Costa refere que não será possível cumprir a “vacinação suficiente de pessoas do grupo de risco entre os 65 e os 79 anos” com doenças associadas. Perante este cenário de “atraso na vacinação”, Costa ressalva que “estamos longe de considerar os grupos de maior risco protegidos por via da vacinação”.