Salvador Malheiro, vice-presidente de Rui Rio e um dos homens fortes da direção do PSD, mantém o tabu sobre a sua recandidatura a Ovar, isto apesar de ser dada como adquirida há muito e ter sido anunciada como tal ainda esta quarta-feira, durante um vídeo apresentado na sede do PSD, em Lisboa.

“Agradeço muito a confiança e a deferência do meu partido, contudo quero esclarecer que continuo Presidente da Câmara Municipal de Ovar e no seu devido tempo decidirei se sou ou não recandidato para mais um mandato”, escreveu o autarca no Facebook.

Esta quarta-feira, na sede nacional do partido, José Silvano, secretário-geral do PSD, apresentou uma lista de 100 nomes, com 77 autarcas que serão recandidatos e 23 novidades. Salvador Malheiro, a par de Carlos Carreiras e outros presidentes de Câmara sociais-democratas, foi dado como recandidato.

Horas depois dessa apresentação, Salvador Malheiro recorreu ao Facebook para escrever que apesar de constar da lista de 100 personalidades entregue pelo próprio partido aos jornalistas ainda não decidiu se será candidato ou não.

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Contactado pelo Observador, o vice-presidente do PSD negou qualquer divergência com a direção do partido e disse que a única coisa que quis sublinhar com a aquela publicação era que a seu tempo dirá se é ou não candidato a Ovar.

Minutos depois de falar com o Observador, Salvador Malheiro voltou ao Facebook para tentar esclarecer: “Perante as dúvidas que estão a surgir, sobre as minhas palavras, quero dizer o seguinte: Não desminto a Direção Nacional, bem pelo contrário! Estou de Alma e Coração com a mesma! Tal como muito bem foi explicado pelo Coordenador Autárquico José Silvano, em breve anunciarei a minha decisão!”.

Na terça-feira, Rui Rio anunciou que o partido ia apresentar “cerca de 100 candidatos” às próximas eleições autárquicas na sede do partido. Na convocatória que foi enviada aos jornalistas, lê-se o mesmo: “Amanhã [quarta-feira], pelas 12h00, José Silvano, secretário-geral e coordenador autárquico nacional do PSD, apresenta em conferência de imprensa um conjunto de candidatos às próximas eleições autárquicas”.

No entanto, ao Observador, fonte do partido explicou que os 77 presidentes autárquicos serão candidatos se o quiserem fazer e têm luz verde para tal. Não há, portanto, garantias que o façam. Isto apesar de terem sido apresentados no mesmo dia e nos mesmos termos em que foram anunciados candidatos a outras autarquias.

Aliás, foi feita uma apresentação em vídeo onde circularam os nomes dos 77 autarcas em funções que seriam recandidatos nas próximas eleições assim o entendessem fazer. É essa imagem, de resto, que Salvador Malheiro aproveita para ilustrar a sua publicação no Facebook.

Durante a sessão, José Silvano detalhou que, dos 98 presidentes de câmara atuais do PSD, “há 13 que não se podem recandidatar, porque já cumpriram três mandatos”, há “quatro ou cinco que não querem recandidatar-se” e outros tantos que “ainda estão em processo de decisão nas respetivas estruturas e serão apresentados nas próximas semanas”.

O secretário-geral do PSD distinguiu os 23 candidatos já homologados dos restantes 77, apresentados igualmente como candidatos, num vídeo com os seus nomes e câmaras.”Vamos apresentar agora os 10o candidatos, divididos em duas partes: são 23 candidatos novos, que não são presidentes de câmara, e 77 que são presidentes de câmara recandidatos a um novo mandato“, explicou.

Depois, Silvano fez de facto uma ressalva: “Estes 77, quando quiserem ser candidatos, apresentar a sua candidatura formal, poderão fazê-lo no tempo e na forma que entenderem, com a garantia da homologação na própria semana”, disse. Salvador Malheiro, vice-presidente de Rui Rio, no entanto, prefere não dar como adquirida a sua recandidatura.

As reações dos outros autarcas do PSD

Entretanto, já vários autarcas apontados como recandidatos reagiram à iniciativa da direção do PSD. Carlos Carreiras, de Cascais, escreveu no Facebook: “Agradeço a confiança mas será o povo de Cascais a reeleger-me ou não, porque acima de tudo o meu Partido é Cascais. Viva Cascais.”

“Sinto-me muito honrado por o PSD já ter autorizado a minha eventual recandidatura antes de saber a minha opinião, porque isso representa um voto de confiança prévia no meu trabalho, mas sou da opinião de que este é um modelo de comunicação errado, porque prejudica o planeamento dos candidatos e desvaloriza o papel das estruturas locais e distritais”, disse, por sua vez, Emídio Sousa, de Santa Maria da Feira, já depois de criticar o “modelo de comunicação” usado pelo partido.

Fernando Marques Jorge, presidente da Câmara de Oleiros, diz ter sido “um abuso de confiança” a integração do seu nome na lista de recandidatos do PSD às autárquicas e estranha que ninguém o tenha contactado. “Antes de se anunciar o nome de alguém deve ser dado conhecimento ao próprio, mas demonstra a forma de ‘dialogar’ de determinados políticos”, sublinhou o autarca.

Ricardo Rio, de Braga, manifestou “surpresa” por este anúncio, considerando que ainda não houve a “tramitação formal” na concelhia e na distrital. Ainda assim, admitiu que a sua recandidatura é uma “não notícia”, porque sempre deixou claro que o seu projeto era a 12 anos.

“Naturalmente sinto-me lisonjeado, mas não passa disso. Não é sequer altura de pensar em eleições autárquicas. É altura de pensarmos em resolver esta questão da crise sanitária [causada pela pandemia de covid-19] que essa sim, preocupa-me e de que maneira. É altura de continuar a governar que é para isso que cá estamos. Nesta altura, eleições autárquicas é um não assunto”, afirmou também António Barbosa, autarca de Monção, no distrito de Viana do Castelo.

*Artigo atualizado com explicações de Salvador Malheiro e da direção do PSD