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A Junta de Freguesia da Azambuja revelou, através do Facebook, que para espetáculos futuros “terá em consideração” as posições dos artistas que vier a contratar sobre as tradições da terra. A publicação, que está a ser entendida como uma limitação à liberdade de expressão, surge depois de 240 personalidades, incluindo músicos e humoristas, terem assinado uma carta aberta pelo fim da transmissão de touradas na RTP. Ao Observador, a presidente da Junta — que rompeu com o PS em abril e será candidata à Câmara da Azambuja pelo Chega em outubro — diz não entender a polémica. “Acha que sendo uma festa com corrida de touros, desfile de bois, etc., faz sentido convidar um artista que nem sequer se identifica com isso?“, reage.

Na publicação no Facebook, entretanto retirada, a junta escreve: “Comunica-se que em todo e qualquer espetáculo que eventualmente venha ainda a realizar-se este executivo terá em consideração na escolha dos artistas o facto de os mesmos se terem ou não manifestado contra as nossas tradições!”.

Ao Observador, Maria Inês da Graça Louro diz que se referia às festas anuais da freguesia, em setembro, que “giram em torno da tauromaquia”. “Nem sequer consigo perceber a polémica. Penso que nenhum artista que subscreve uma petição daquele género tem qualquer interesse em vir atuar a uma festa ligada ao mundo dos touros”, reage. E acrescenta que “seria afrontar os nosso parceiros da festa e as pessoas que participam trazer alguém que subscreve uma coisa para acabar com as nossas tradições“.

As festas a que se refere Maria Inês da Graça Louro incluem largada e corrida de touros, assim como uma procissão, e costumam também ter a presença de artistas musicais. Questionada sobre se não considera que a publicação pretende limitar a liberdade de expressão dos artistas, a ex-socialista rejeita. “A única coisa que digo [na publicação] é que vamos ter em atenção. Não digo que não vamos contratar. Digo que vamos ter em consideração, será um dos critérios que vamos ter em atenção”, responde. “Certamente os artistas que não gostam de tauromaquia nem quererão vir à Azambuja“, refere ainda.

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As festas do ano passado foram canceladas e as deste ano “é muito pouco provável” que se realizem por causa da pandemia. Mas se se realizarem, a junta vai perguntar aos artistas a sua posição sobre as touradas? “Não tenho de perguntar, a lista [da carta aberta] é pública”, responde.

Maria Inês da Graça Louro rompeu em abril com o PS por “divergências políticas”, explica, tendo sido a “gota de água” a instalação de painéis fotovoltaicos na Quinta da Torrebela, onde foram abatidas centenas de animais numa montaria, no ano passado. A agora apoiante do Chega diz que é contra o projeto, e que não encontrou a mesma posição no PS. E justifica a aproximação ao partido de André Ventura com a “identidade rural que o partido tem, nomeadamente a nível tauromáquico”.

Publicação foi motivada por carta aberta assinada por vários artistas

A publicação foi feita pela própria presidente da Junta depois de conhecida uma carta aberta, enviada para o ministro das Finanças, João Leão, e o Secretário de Estado do Cinema, Audiovisual e Media, Nuno Artur Silva, e que foi assinada por músicos como Agir, Paulo de Carvalho, Ana Bacalhau, Bárbara Bandeira, Benjamim, Blaya e Carolina Deslandes. Assinaram também as atrizes Beatriz Batarda e Eunice Muñoz, a modelo Sara Sampaio, os humoristas Diogo Faro e Nuno Markl e as deputadas Catarina Martins (BE) e Inês Sousa Real (PAN). Os signatários pedem uma “televisão pública livre da transmissão de espetáculos que se baseiam na violência contra animais e normalizam tais comportamentos, como sucede na tauromaquia”.

Catarina Martins, Inês Sousa Real, Rodrigo Guedes de Carvalho entre as 240 personalidades que defendem fim das touradas na RTP

Além disso, apelam a que seja promovida a inclusão de programas que divulguem “atividades nas áreas dos direitos humanos, inclusão das pessoas com deficiência, igualdade do género, saúde, educação e defesa do consumidor, ambiente sustentável, bem-estar dos animais, ou de outras de reconhecido interesse público”.

Nuno Markl já reagiu, no Instagram, à posição da Junta de Freguesia a Azambuja. “Um artista ter uma opinião contra as touradas vale lista negra na Azambuja. Não tinha nada marcado para lá, mas posso dizer desde já a todos os azambujenses que apreciem o meu trabalho que serão sempre bem vindos nos meus espectáculos, sejam eles onde forem”, respondeu.

Antes da carta a pedir o fim da transmissão das touradas, uma outra, a favor, já tinha sido divulgada. Foram 125 as personalidades a assinar uma carta a favor da “liberdade de programação” da RTP, depois de o canal público ter anunciado que as touradas não fazem parte dos programas a emitir em 2021. Os signatários, entre os quais, Manuel Alegre, dois ex-ministros da cultura socialistas (Gabriela Canavilhas e Luís Castro Mendes) e deputados do PS, PCP, PSD, CDS, criticam a “censura” da “diversidade”.

Manuel Alegre, Carlos César e ex-ministros da Cultura entre as 125 personalidades que assinam carta contra o fim de touradas na RTP