Bélgica, Alemanha, Luxemburgo e Suíça. Todos estes países da Europa central estão a sofrer inundações nunca antes vistas. Até agora, contabilizam-se mais de uma centena de mortos na Alemanha e na Bélgica, e mais de mil pessoas estão desaparecidas. A causa: chuva, muita chuva num curto espaço de tempo. Ao Observador, Ricardo Tavares, meteorologista no Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), explica que uma “região deprecionária na Europa central está a causar este tempo severo”. Porque foram estes países apanhados de surpresa e o que pode explicar tantas vítimas? As causas apontadas têm sido várias, mas ministra alemã do ambiente elege o principal culpado: “As alterações climáticas chegaram”, escreveu Svenja Schulze no Twitter.

Sobre hipótese deste “tempo severo” ser ou não fruto do aquecimento global ou tratar-se de um fenómeno atípico, o IPMA não se pronuncia. Principalmente na Alemanha, o caso está a ser visto com perplexidade e promete colocar as alterações climáticas na discussão política — principalmente num ano de eleições no país. A Chanceler alemã, Angela Merkel, que está neste momento na capital dos EUA, Washigton D.C, assume o choque e lamenta a perda de vidas humanas “neste desastre”. A governante adiantou também: “Ainda não sabemos o número [total de mortos], mas serão muitos”.

Bélgica. Cheias provocam 23 mortes e mais de 41 mil pessoas estão sem eletricidade

Várias cidades na Europa central preocupam-se agora não com a causa das cheias, mas sim em sobreviver à catástrofe. Como contou ao Observador Válter Patinha, um português que vive no Luxemburgo, “há muitas cheias no país todo”. “Nas zonas mais planas os rios os caudais transbordaram”, relata. Há “estradas cortadas” e “supermercados fechados”. Em pleno verão, os habitantes preparam-se não só para resistir ao resto das chuvas, como para superar os estragos que estas virão a deixar nas regiões afetadas.

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À Reuters, Edgar Gillessen, que vive em Schuld, refere: “Foi catastrófico”. “Todas essas pessoas que vivem aqui (…) perderam tudo”. E continua: “Um amigo tinha uma oficina ali, não há nada, a padaria, o talhou, acabou. É assustador. Inimaginável.”

Num ano normal, a Alemanha regista, nesta época do ano, cerca de 80 litros de chuva por metro quadrado por mês. No entanto, apenas nas últimas 48 horas, caíram 148 litros de chuva por metro quadrado.

Aldeias inteiras “foram reduzidas apenas a destroços”, conta a Euronews. Isto porque as “velhas casas de tijolo e madeira não resistiram ao repentino fluxo de água, muitas vezes carregando árvores e outros detritos enquanto jorrava água pelas ruas estreitas”, adianta o mesmo órgão de comunicação social.

Alemanha. 103 mortos e cerca de 1.300 desaparecidos depois de colapso de casas provocado por grandes cheias

Ao The Guardian, Bernd Mehlig, um funcionário ambiental de Renânia do Norte-Vestfália — onde já morreram dois bombeiros que tentavam acudir cidadãos –, diz que só se viam fenómenos destes no inverno. “Algo assim, com esta intensidade, é completamente incomum no verão”, refere. Nas outras regiões afetadas, é também esta a perplexidade vivida. Na cidade belga de Liège — um país que já soma seis mortos devido às cheias –, as autoridades temem que o rio possa inundar grande parte da zona urbana e a população já foi alertada para se proteger. Nos Países Baixos, as Forças Armadas já estão no terreno para improvisar diques e bloquear a passagem da água.

Cidades como Colónia e Hagen estão também a ser afetadas por estas cheias. Em Leverkusen, 400 pessoas tiveram que ser evacuadas de um hospital. Em Liége, a presidente da câmara, Christine Defraigne, pediu à população: “Pedimos, a quem pode, que saia da cidade, especialmente a quem vive às margens do rio Meuse”, como noticiou a RTBF.

Outras histórias vão surgindo à medida que o mau tempo vai afetando mais países. As autoridades da cidade de Valkenburg, no sul da Holanda, perto das fronteiras com a Alemanha e a Bélgica, evacuaram uma casa de repouso e um hospício durante a noite a meio a uma enchente que transformou a rua principal da cidade turística num autÊntico rio, informou a imprensa holandesa. O governo holandês enviou cerca de 70 soldados para a província de Limburg, no sul do país, na noite de quarta-feira, para ajudar as populações, incluindo no transporte de refugiados e enchimento de sacos de areia para tentar criar barreiras de proteção, enquanto os rios transbordam. Não houve relatos de feridos relacionados a enchentes na Holanda.

Países como a Itália e a Áustria estão a oferecer auxílio de resgate nesta inundações, disse a Comissão Europeia. Ao mesmo tempo, o sistema de satélite de emergência Copernicus, União Europeia, tem fornecido mapas para se avaliar os estragos nas áreas afetadas. Espera-se que as chuvas deixem de cair com tanta intensidade até sexta-feira.