Obrigado por ser nosso assinante. Pode ler este e todos os artigos do Observador em qualquer dispositivo.

O Bloco de Esquerda entrou, oficialmente, na reta final da campanha: assim se explica a nova, e constante, presença de figuras nacionais do partido na campanha de Beatriz Gomes Dias e a aposta crescente no contacto de rua (ainda que os tradicionais bombos dificultem as conversas). Esta tarde, foi a vez de Marisa Matias e Mariana Mortágua (que tem participado em mais ações) se juntarem a Beatriz pelas ruas da Ajuda, para fazer uma demonstração de apoio e força do partido.

Marisa aparece, sorridente e conversadora, na campanha, depois de os fundadores Francisco Louçã e Luís Fazenda, o líder parlamentar Pedro Filipe Soares e a mediática dirigente Mariana Mortágua já terem feito o mesmo. Um impulso bem bem vindo? “É maravilhoso e é fundamental para dialogar com as pessoas e para a mobilização do partido”, assume Gomes Dias, estreante nestas lides (tinha sido já eleita na freguesia de Arroios, mas é a primeira candidatura à câmara).

Louçã no terreno para trazer um shot de notoriedade à campanha do Bloco. “Esta é a Beatriz!”

Mesmo sendo estreante e gozando de uma notoriedade menor, vai adotando cada vez mais o discurso político: “No dia a seguir às eleições, vamos manifestar a nossa disponibilidade” para chegar a um acordo “programático” com o PS, pensando primeiro no programa e só depois nos pelouros, garante — isto apesar de esta semana já ter assumido que o partido gostaria de continuar nos comandos da pasta dos Direitos Sociais, que esteve nos últimos quatro anos a cargo do vereador bloquista Manuel Grilo, depois da saída de Ricardo Robles.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Ou seja, a escassos dias das eleições, o BE assume plenamente o papel de partido à esquerda que quer condicionar e “influenciar” uma eventual governação de Fernando Medina, caso se confirme que o socialista volta a ganhar, mas sem maioria. A ideia é deixar para trás o PCP (e os votos de esquerda que cairiam para o lado dos comunistas), já que o partido tem sido menos claro em relação aos entendimentos que gostaria — ou não — de construir com o PS.

Ainda assim, a possibilidade de PCP — que tem dois vereadores, contra apenas um do BE — e PS se entenderem é uma preocupação? “De modo nenhum”. O BE já disse ao que vem — por isso, garante a candidata, “não tem essa preocupação sobre um entendimento entre PS e PCP”.

Marisa “assustada” com discurso sobre PRR

Os recados políticos do dia até podiam estar dados, mas Marisa também chega com coisas para dizer. A meio de uma subida pelas ruas da Ajuda, pára para falar com os jornalistas. E dispara direta ao Governo. “Esta campanha tem um mistério que ainda não consegui perceber muito bem”, ironiza. “Ainda não vimos discutir as opções para o Plano de Recuperação e Resiliência”.

Quem tem falado, efetivamente, do PRR é António Costa e “alguns candidatos do PS”, mas não pelos melhores motivos, garante Marisa. “Quando muito, deixam no ar uma ideia que me assusta, uma semi-chantagem” em que se associa a proximidade de cada autarca ao Governo a uma maior facilidade em aceder aos fundos. “Na pior das hipóteses, isso poderia até configurar esquemas de corrupção”, diz. E mesmo que a eurodeputada afirme não acreditar que isso esteja em causa, há um clima da tal “semi-chantagem” no ar — “e não é assim que funcionam as coisas”, ataca. Sem discussão em pormenor do destino que terão os fundos, tornam-se “uma oportunidade perdida”, sublinha.

Se ao falar do PRR e do Governo é ácida, a conversar com as pessoas é ao contrário: confirmando a sua imagem de marca, Marisa ri-se, fala, faz perguntas, pára para cumprimentar toda a gente, até faz questão de ficar para trás a falar com uma mulher que responde de forma mais azeda a Beatriz (a comitiva pergunta-se, aliás, por várias vezes: “Onde anda a Marisa?”).

Nas ruas, a equipa bloquista ouve sobretudo queixas e histórias de dificuldades ao nível da habitação — incluindo de uma mulher que diz viver com os dois filhos num quarto –, do pequeno comércio e dos lares. A certa altura, um homem na casa dos 70 anos queixa-se da falta de apoio a idosos, zangado e lembrando que a proposta de reconverter o Hospital Militar de Belém para usos sociais se repete eleição após eleição. Ouvidas as queixas, lá vem Marisa: “Muitas vezes, a nossa frustração é tão grande, ou maior, do que a vossa, porque não temos força… É preciso equilibrar a coisa”, explica, entre a auto-justificação — afinal, o Bloco assinou o acordo com o PS que acabou por ficar aquém em vários dos seus objetivos, a habitação acessível à cabeça — e o apelo ao voto.

Beatriz Gomes Dias acaba a arruada “orgulhosa” por contar com a presença de Marisa Matias e “super entusiasmada” com a receção que tem tido nas ruas. Daqui a exatamente quatro dias saberá se isso se traduz em cruzinhas no boletim de voto. Amanhã, terá durante todo o dia a companhia de Catarina Martins pelas ruas (e mercados) de Lisboa, terminando com o maior comício da campanha.