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A ideia é uma e só uma: o PSD tem de ser uma alternativa clara ao PS. Por isso, Paulo Rangel recusa colocar qualquer cenário que não o de uma vitória ampla para os sociais-democratas, caso seja eleito líder do partido nas eleições diretas deste sábado e concorra às legislativas de janeiro. E não admite que o PS possa ganhar — nem adianta exatamente quais seriam os moldes da relação do ‘seu’ PSD com o PS.

Em entrevista no Observador, no programa Sob Escuta, a dois dias das diretas do PSD, Rangel recusou responder se teria abertura para deixar passar um Governo minoritário dos socialistas ou a que entendimentos poderiam chegar no Parlamento, repetindo que o PSD não está aqui para ser “muleta”, “apoio de recurso”, “complemento nem suplemento” do PS, como tem sugerido que aconteceu durante a liderança de Rui Rio.

“Para sermos alternativa, não podemos fazer de substituto do PS, temos de ter um projeto alternativo“, resumiu Rangel.”Não vou pôr esse cenário” de o PS ganhar e precisar de que o Governo seja viabilizado pelo PSD, excluiu.  “Não vale a pena, eu não vou sair desta ideia. Não vou contribuir para este jogo, esta ideia de que vivemos numa maionese em que somos todos iguais. Não vou dar um único argumento para dizer que no fim vamos ter governação igual ou parecida com o PS”.

A preferência de Rangel, como tem insistido, seria mesmo conseguir uma “maioria estável”, idealmente “absoluta” — mas isso, garantiu, não será uma “obsessão”.”Vou focar-me nisso, não vou fazer jogos de xadrez”. E se não houver maioria? “Também podemos governar com um Governo minoritário, que terá de garantir que as suas leis vão passando. Eu lembro-me bem do Governo minoritário de Cavaco Silva, dos mais reformistas. E a seguir ganhou com maioria absoluta, em 1987. O meu ponto é claro: até hoje nunca vi o PS a dar apoio ao PSD em nenhum Governo minoritário. Aconteceu o contrário, muitas vezes de forma não negociada”.

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Rangel não diz se sai se perder e promete listas inclusivas

Rangel recusou ainda esclarecer se fica como líder do PSD caso seja eleito mas perca as legislativas. Mas deixou uma pista: Rio disse que saía, mas “já é líder há quatro anos”… “Vou assumir as responsabilidades que tiver de assumir”, arrumou. De seguida, aproveitou para atirar contra o atual líder do PSD: a crise dos professores prejudicou Rangel enquanto candidato às eleições europeias, em 2019. “Não aceito é que outros digam que não tiveram responsabilidade nenhuma”.

Sobre a construção das listas de deputados, caso ganhe as eleições diretas do PSD assegurou que deve imperar “o bom senso”, deixando esse processo para o líder eleito. “A legitimidade política é fundamental. Depois de dia 27, confio no bom senso de todos os órgãos e dirigentes do partido. O prazo é exigente, mas suficiente”. E vai incluir apoiantes de Rio nas listas, nesse cenário? Rangel garantiu que sim: a ideia é incluir “sensibilidades muito diferentes” e levar esse esforço a sério — “é um imperativo de qualquer líder partidário, resolvidas as questões internas será tempo de unir e ter diálogo abrangente, sem esquecer que existem linhas maioritárias”.

Moedas? “Conceitos de lealdade andam trocados”

Ainda na quarta-feira Rangel teve um almoço com Carlos Moedas, mas diz “não compreender” que o gesto possa ser interpretado como uma deslealdade do presidente da Câmara de Lisboa para com Rui Rio e disse “guardar” a sua interpretação do almoço para si, embora deixando claro que olha para o almoço como um apoio. “Os conceitos de lealdade andam muito trocados. Ser leal, ser frontal, não é a pessoa concordar com tudo o que outra faz, nem apoiar uma pessoa se não concorda com ela. Não se trata de relações pessoais. Ser leal é muitas vezes dizer a uma pessoa: eu não concordo consigo e não a vou apoiar. Agora não temos vassalos como na Idade Média e devíamos ter alguns escrúpulos no uso das palavras. Custa-me ver esta desvalorização da palavra lealdade”.

Na entrevista, Rangel foi também questionado sobre se há caciquismo nas eleições internas do partido, incluindo em esquemas promovidos por alguns apoiantes seus. “Cada militante é livre quando vota, não está lá ninguém com uma pistola. Ninguém vai votar pressionado”, garantiu.

Recusando comentar casos concretos, como os que envolvem Luís Newton (presidente da concelhia de Lisboa) ou Vítor Martins (presidente da concelhia de Aveiro), Rangel disse que “com certeza” estas questões poderiam ser analisadas pela comissão de ética que quer criar no seio do partido para “reforçar a confiança”, mas insiste: “Eu não divido os militantes do PSD em estruturas e não estruturas. Na maior parte dos casos, dão o seu apoio a título pessoal“. Quanto a “comportamentos” que devam ser tidos em conta na escolha dos candidatos do partido, como serem arguidos ou não em casos judiciais, devem ser definidos depois pela comissão de ética — para já, Rangel não se comprometeu e falou numa análise “caso a caso”.

Sobre agência anticorrupção que propõe, Rangel esclareceu que até deve ser feita dentro do Ministério Público, o que, defendeu, não retirará competências à Polícia Judiciária nem criará aqui uma espécie de entidade “paralela”. Já quanto às propostas para reduzir a despesa pública e os prémios propostos para alguns funcionários públicos, falou numa “realidade tão vasta” que não consegue dizer para já se esses prémios podem ser atribuídos a todos os funcionários — na moção, prevê que isso se aplique em áreas em que exista alguma “poupança”. A ideia geral, insistiu, é criar “incentivos” ao bom desempenho e à produtividade dos trabalhadores.

Reformas na Saúde e na Educação, sem “choque fiscal”

Outra das propostas passa por um ajustamento dos salários dos professores. “Vamos ter um problema muito grave, uma falha na ordem das dezenas de milhar, com a questão da idade e das necessidades do país”, explicou Rangel. Mas sem nunca avançar com valores concretos. “Não tenho um valor, nesta altura, numa moção de estratégia de um partido”, admitiu. A crítica, no plano da Função Pública, vai para o aumento de trabalhadores no setor, que não contrariam as “faltas” que existem nos recursos humanos na Saúde ou na Educação. Ou seja, a solução, para Rangel, é “reequacionar” a afetação dos funcionários às várias áreas, redistribuindo-os e “requalificando-os”, sem falar em saídas.

No caso dos médicos, Rangel reconhece que as carreiras não são atrativas e classifica as declarações da ministra da Saúde como “infelicíssimas”. “Vai ter de haver uma reforma no sentido de melhorias, seja no caso dos professores ou dos médicos”, remata.

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No que toca aos impostos, admitiu: “Não podemos fazer o choque fiscal de que gostaríamos. O PSD deve apresentar-se como uma alternativa para criar riqueza, aumentar salários médios e mínimos, dar algum conforto nas pensões, sustentar o Estado Social na Saúde e na Educação. Mas para isso precisamos de fazer reformas e a primeira não pode ser um choque fiscal”. É, por isso, preciso começar por descer a taxa de IRC para aliviar as empresas, frisa. Hoje em dia, recordou, há um acordo internacional de uma taxa de mínimo de 15% e é preciso que Portugal se “aproxime” desse mínimo, mas “gradualmente”.

E as reformas precisarão de ser combinadas com o PS? “Uma reforma deste tipo não precisa de uma maioria qualificada”, frisa Rangel. Sobre Finanças, recusou fazer uma “dança de nomes” e revelar quem seria o seu “Mário Centeno”. “Ninguém deve anunciar um Governo antes de eleições e de ser chamado a formá-lo” — seria “um passo demasiado ousado”. “Só vi a crítica de não estar preparado para ser primeiro-ministro do meu adversário, não vi de mais ninguém”, atirou ainda.

A entrevista aconteceu na reta final da campanha interna do PSD: Rangel e Rui Rio vão a votos já no sábado, 27 de dezembro, numas diretas que decidirão quem vai ser o líder do partido nas eleições legislativas antecipadas de 30 de janeiro. O PSD terá ainda um congresso, de 17 a 19 de dezembro, onde o partido definirá o seu rumo já sob a liderança do líder que irá às legislativas.