Andriy Shevchenko nasceu para ser um líder. Começou por ser líder da seleção ucraniana como capitão, continuou a ser líder da seleção ucraniana como selecionador e hoje em dia é o líder da resistência que os atletas e antigos atletas ucranianos têm apresentado à invasão russa. Desdobrando-se em entrevistas e declarações, o ex-avançado do AC Milan tem assumido como missão pessoal a tarefa de deixar claro tudo o que se está a passar na Ucrânia. E voltou a fazê-lo.

Depois de já ter revelado que a mãe e a irmã decidiram ficar no país e que está a trabalhar com a FA, a Federação inglesa de futebol, para levar jovens jogadores ucranianos para as academias dos clubes da Premier League, Shevchenko deu agora uma longa entrevista a Jamie Redknapp, antigo jogador do Liverpool e do Tottenham que atualmente é colaborador do Daily Mail. Logo a abrir, o antigo avançado recordou o momento em que soube que a invasão tinha começado.

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“Estava a dormir. Recebi uma chamada da minha mãe. Disse que a guerra tinha começado. Não queríamos acreditar que a Rússia tinha mesmo dado esse passo, que tinham mesmo começado a guerra. Ficámos em choque”, lembrou, numa resposta em que não conseguiu esconder as lágrimas. “Sente-se cada bomba que cai no chão porque a casa treme. É assim que a guerra está neste momento. Está numa fase em que os russos cercam as cidades e bombardeiam. Não param. São implacáveis. Não abrem a possibilidade de criar corredores humanitários. A minha mãe está lá. A minha irmão, o meu tio, a minha tia, o meu primo. Os meus amigos, alguns deles na linha da frente. Estão a lutar pelo nosso país, pela nossa liberdade, pela nossa escolha, pelo nosso orgulho. Defendemo-nos. Lutamos. Tem de ser. Não temos escolha”, acrescentou Shevchenko.

O antigo selecionador da Ucrânia, que já fez parte do partido Ukrajina–Vpered! e chegou a ser o segundo nome na lista às eleições legislativas de 2012, tendo falhado a eleição para o Parlamento, voltou também a elogiar Volodymyr Zelensky. “A posição dele tem sido muito importante. Ele podia ter ido embora. Mas enviou uma mensagem clara para dizer que ia ficar e que tínhamos de defender o nosso país. Isso uniu o povo ucraniano. Ele ficou com as pessoas. Ninguém vai desistir. Lutamos pela nossa escolha, pela nossa liberdade, pela nossa democracia. As imagens das pessoas nas ruas, a enfrentar os tanques sem estarem armadas, são tão poderosas. Vamos lutar até ao fim. A Rússia não é bem-vinda”, atirou Shevchenko.

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“Limito-me a dizer a verdade. A forma correta de fazer as coisas é dizer a verdade. Lamento muito as vidas de jornalistas que já se perderam. Lamento muito as vidas daqueles que estão na linha da frente, a tentar dizer a verdade ao mundo, e estão a ser assassinados. A minha mensagem é sempre a mesma: vão para as ruas. Eu sei que não é fácil. Na Rússia, principalmente, é perigoso. Mas a única maneira de parar a guerra é dizer a verdade. A maioria das pessoas, na Rússia, não sabe a verdade”, disse o antigo avançado.

Ao longo de toda a entrevista, Shevchenko recusou-se a mencionar o nome de Vladimir Putin, deixando sempre subentendidas as referências ao presidente russo ou utilizando até o termo “aquela coisa”. O antigo selecionador ucraniano tem falado quase diariamente com Zinchenko, Mykolenko, Yaremchuk e muitos outros jogadores, a quem vai pedindo simplesmente que “continuem a jogar”, e também está em contacto direto com Vitali Klitschko, o autarca de Kiev. Está a organizar abrigos para refugiados através do programa “Homes for Ukraine”, criou uma página pessoal de angariação de fundos e também está envolvido nos esforços para retirar famílias do país.

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Em conversa com Jamie Redknapp, Shevchenko comentou ainda a atual situação do Chelsea — onde jogou, numa altura em que o dono do clube já era o russo Roman Abramovich. “A história que o Chelsea construiu não pode ser cancelada. Os adeptos do Chelsea vão sempre apoiar o clube porque adoram o clube. Eu sei que é um momento difícil. Mas também estou numa posição em que, com tudo aquilo que está a acontecer ao meu país, só posso apelar a toda a gente que faça o seu papel. Que se lembrem daquilo que é mais importante. Só quero uma coisa: que exista paz no meu país, que parem de matar inocentes, que parem de matar crianças. Todos sabemos que a guerra é cruel. Mas não podemos aceitar isto”, terminou.