O Banco de Portugal reconhece que existem “riscos descendentes” mas está confiante de que a economia portuguesa irá registar em 2023 um crescimento de 1,5%, o que é três vezes mais do que a previsão do BCE, atualizada esta quinta-feira, para toda a zona euro (0,5%). Também sobre a inflação o supervisor financeiro português está confiante de que o quadro será menos preocupante do que na zona euro: o Banco de Portugal aponta para uma subida dos preços de 5,8% em 2023 (menos do que os 6,3% da zona euro), depois dos 8,1% deste ano.

A nova projeção do Banco de Portugal, divulgada esta sexta-feira no Boletim Económico de Dezembro e apresentada em conferência de imprensa pelo governador Mário Centeno, é uma revisão em baixa face à última previsão de crescimento em 2023. Essa previsão era de 2,6%, mas foi feita em junho – pelo meio, o Banco de Portugal divulgou um boletim em outubro mas essa edição não costuma incluir previsões para o ano seguinte (por estar em apresentação o orçamento do Estado).

No boletim de outubro havia, porém, uma previsão de que em 2022 a economia crescesse 6,7% – afinal, terá sido mais uma décima, 6,8%, segundo o relatório divulgado pelo supervisor financeiro esta sexta-feira.

No campo da inflação, o Banco de Portugal prevê um aumento de 5,8% nos preços em 2023, depois da inflação de 8,1% calculada para este ano. Com o Banco Central Europeu (BCE) a projetar uma inflação de 6,3% em 2023 (média ao longo do ano), também aqui o Banco de Portugal está a ser mais otimista para Portugal.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

Em junho, o supervisor financeiro previa uma inflação de 5,9% em 2022 e 2,7% em 2023, pelo que houve um agravamento muito significativo das projeções de subida dos preços. A expectativa é que em 2024 a inflação desça para 3,3% em 2024 e 2,1% em média durante 2025.

BCE azeda Natal de quem tem créditos com Euribor: Lagarde endurece discurso e subida dos juros não tem fim à vista

“A incerteza em torno da projeção é elevada, com riscos descendentes para a atividade e ascendentes para a inflação“, reconhece o Banco de Portugal.

O principal risco decorre de repercussões mais adversas da invasão da Ucrânia, nomeadamente a possibilidade de interrupções no abastecimento de gás, levando a cortes na produção e novas subidas dos preços, bem como a uma redução da confiança. Existe ainda o risco de um crescimento mais forte dos salários e das margens de lucro das empresas. A materialização destes riscos implicaria uma maior persistência das pressões inflacionistas, com impactos adversos sobre a atividade”, diz o Banco de Portugal.

A taxa de desemprego irá estabilizar em 5,9% entre 2022 e 2025, antecipa o Banco de Portugal. “Estamos numa situação de pleno emprego, níveis de desemprego baixos que têm sido um pilar” para a economia portuguesa na sua capacidade de resistir aos desafios dos últimos anos (pandemia, guerra na Ucrânia etc).

“Este é o momento para reduzir o défice e a dívida”, diz Centeno

O governador do Banco de Portugal, em conferência de imprensa em Lisboa, defendeu que “este é o momento para reduzir o défice e a dívida“. A dívida em 2025 será inferior a 100% e mais baixa do que 2010, o que implicará “um esforço muito significativo das contas públicas e da economia portuguesa”, em prol da “sustentabilidade do crescimento e das contas públicas.

A redução da inflação é responsabilidade primordial da política monetária, mas deve envolver a coordenação dos vários agentes económicos, para benefício da sociedade”, reitera o Banco de Portugal.

“Num contexto de perda de termos de troca da economia – que implica uma perda de rendimento real que deve ser partilhada – é importante a coordenação das expetativas em torno do objetivo de estabilidade de preços do Banco Central Europeu, assegurando que os aumentos dos salários e das margens das empresas não geram pressões inflacionistas persistentes, com consequências negativas para a competitividade e a estabilidade macroeconómica”, afirma o supervisor, acrescentando que “devem evitar-se estímulos orçamentais generalizados“.

Consumo privado quase estagna em 2023

Neste boletim económico de dezembro, o Banco de Portugal acredita que em 2023 a economia portuguesa vai ser impulsionada pelo consumo público (à boleia da execução do Programa de Recuperação e Resiliência, ou PRR), que cresce 1,9% – ainda assim menos do que os 2,2% que se previam em junho. Espera-se, também, um contributo decisivo do investimento (formação bruta de capital fixo), que deverá crescer 2,9% em 2023 – também menos do que os 5% que se previam em junho.

Em 2023, o aumento muito reduzido do consumo privado está associado à menor almofada financeira das famílias, ao aumento do serviço da dívida e à baixa confiança dos consumidores. A redução adicional da taxa de poupança contribui para conter a desaceleração do consumo privado”, diz o Banco de Portugal.

Onde o Banco de Portugal cortou mais agressivamente as previsões para 2023, em comparação com junho, foi no consumo privado. O supervisor passou a prever uma quase estagnação do consumo privado no próximo ano: um aumento de 0,2%. Em junho antecipava-se um crescimento de 5,2% para 2022 caindo para 1,2% em 2023.

Fonte: Banco de Portugal, Boletim Económico de dezembro

Também as exportações vão dar um impulso menor do que se previa em junho, segundo o Banco de Portugal. O crescimento esperado em 2023 é de 4,3%, uma forte desaceleração em relação ao aumento de 17,7% em 2022 e também face à previsão de junho (que era de 5,8%).

“O crescimento será contido no primeiro semestre de 2023, num quadro de incerteza global, erosão do poder de compra, aperto das condições financeiras e enfraquecimento da procura externa”, diz o Banco de Portugal. “A partir da segunda metade de 2023, a atividade acelera, refletindo a expetativa de atenuação das tensões nos mercados energéticos, a recuperação gradual do rendimento real das famílias, uma maior absorção dos fundos europeus e a melhoria do enquadramento externo”, acrescenta o supervisor.