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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

80 anos de carreira de Eunice Muñoz. Estreou-se no D. Maria II e foi lá que quis voltar para se despedir, ao lado da neta e do bisneto

Eunice Muñoz voltou este domingo a pisar o palco do Teatro Nacional D.Maria II no exato dia em que passavam 80 anos da sua estreia naquele teatro. No adeus, esteve com a neta e o bisneto nos camarins.

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É a própria Eunice Muñoz que deu o sinal: “É melhor ir, faltam 10 minutos”.

O camarim estava cheio, com Lídia e Eunice Muñoz já maquilhadas e penteadas, já a fazer tempo para entrar em cena no Teatro Nacional D. Maria II, precisamente 80 anos depois de aos 13 anos ter pisado aquele mesmo palco, numa encenação de Amélia Rey Colaço da peça “Vendaval”, de Vírginia Vitorino.

Sem que fosse trocada uma única palavra em palco entre avó e neta, foi no fim do espetáculo que se ouviu pela primeira vez a voz rouca de Eunice nesta tarde do adeus. Mas antes disso ouviu-se uma plateia completamente cheia, de pé, muitos de lágrimas nos olhos, a aplaudir a mulher que ali estaria a comemorar oito décadas de uma carreira ímpar, de que agora se despedia.

Os aplausos, longos, muito, muito longos, foram agradecidos por ambas, neta e avó, Lídia e Eunice, durante largos minutos. Sorriam, agradeciam com gestos e “obrigadas” tímidos. Nos bastidores, família e amigos aplaudiam também de pé, mas a melhor presença naquele teatro, na tarde deste domingo, foi a do bisneto, com poucos meses, ao colo da Raquel, a maquilhadora do espetáculo e fiel amiga da família. “É o grande amor da nossa vida, não é avó?!”, dizia Lídia durante a tarde a Eunice. Paulo Durão, marido de Lídia, subia a descia os pisos do teatro à procura dos chinelos para Lídia — esteve em cena a maior parte do tempo descalça.

"Subi pela primeira vez a este palco há 80 anos", começou por recordar. Nesse instante o público, que a continuava a aplaudir de pé, sentou-se para a ouvir. "Voltei a subir hoje, ao lado da minha neta. Este teatro foi a minha casa durante muitos anos. Fui feliz neste palco em tudo o que cá fiz",.

Eunice quis despedir-se do D. Maria, o “seu” palco, com um discurso, um pequeno discurso impresso numa folha A4 e colado em cartolina preta.

“Subi pela primeira vez a este palco há 80 anos”, começou por recordar. Nesse instante o público, que a continuava a aplaudir de pé, sentou-se para a ouvir. “Voltei a subir hoje, ao lado da minha neta. Este teatro foi a minha casa durante muitos anos. Fui feliz neste palco em tudo o que cá fiz”, continuou num tom calmo.

Agradeceu à sua avó Augusta de quem acredita ter recebido o talento, à sua mestra Amélia Rey Colaço — com quem se estreou há 80 anos, aos seus pais, mas sobretudo agradeceu ao público, que, ali diante da atriz, se voltou a levantar para a continuar a aplaudir.

Neta e avó, Lídia e Eunice, durante largos minutos sorriam, agradeciam com gestos e “obrigadas” tímidos.
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Plateia completamente cheia, de pé, muitos de lágrimas nos olhos, a aplaudir a mulher que ali estaria a comemorar oito décadas de uma carreira ímpar
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Eunice Muñoz e Lídia enquanto ouviam as palavras do primeiro-ministro: “Por favor nunca perca esse sorriso, porque esse é um dos sorrisos mais bonitos que há no mundo”
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Eunice saiu de perto de toda a gente e foi para trás do palco, sozinha. “Vai para a sua caminhada de ‘pré-cena'”. Esteve ainda minutos a sós consigo mesma, iluminada por uma luz ténue, cor de laranja
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Saiu sozinha do camarim, pelo caminho despediu-se de Cristina e dirigiu-se ao elevador. Ali, sozinha, esperou pelo assistente que a levaria então ao palco, no piso inferior.
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Últimos preparativos antes de Eunice entrar em cena
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"Merda, avó. merda, meu amor, minha Lídia". O momento deixou Lídia sem palavras e piscou-lhe simplesmente o olho
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Eunice antes de descer para palco, a ultimar o seu vestuário
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O testemunho passado à sua neta Lídia foi entregue com a “certeza de que o continuará com a mesma exigência e talento com que o carreguei”, disse Eunice. Ao lado, de mão dada, Lídia estava visivelmente emocionada. É uma herança pesada a que a avó lhe deixa.

No fim, palavras para os colegas de profissão: “A todos os meus colegas deixo o meu agradecimento e uma palavra de coragem para que continuem porque o teatro precisa de nós. De nós no palco e de vocês que recebem o melhor que temos para dar”.

O discurso terminou de seguida com Paulo Durão, na lateral do palco, a dizer exatamente ao mesmo tempo que Eunice, palavra a palavra: “O teatro mostra-nos que apesar dos dias estranhos e difíceis, o belo continua a existir“. E existiu.

O primeiro-ministro, António Costa, que assistiu ao espetáculo sentado no meio da plateia, subiu ao palco para também ele fazer um pedido a Eunice Muñoz: “Por favor nunca perca esse sorriso, porque esse é um dos sorrisos mais bonitos que há no mundo”.

“Tantas flores. Lindas. São de quem?”

Pouco passava das 13h00 quando Eunice Muñoz chegou ao D. Maria. De andar calmo, sem pressa, vai vagueando pelos corredores daquele teatro, que a viu nascer como atriz, como se da primeira vez de tratasse. Como se não tivessem passado exatamente 80 anos.

Os funcionários do teatro sabem a importância do espetáculo que ali vai começar horas depois. Tudo está já preparado ao pormenor. No 2.º piso ficaram os camarins de Eunice e da sua neta. É o piso mas perto do palco para evitar movimentações desnecessárias.

Mas um corredor inteiro rapidamente se tornou pequeno para as flores, cartas e todo o tipo de recordações que os funcionários do teatro foram trazendo. Os chocolates que chegaram foram rapidamente distribuídos por todos ali presentes.

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A quem já esteve em bastidores de espetáculos sabe a agitação daqueles locais, a quem nunca esteve consegue imaginar que será um local tudo menos calmo. Espera-se encontrar pessoas a correr constantemente, a alertar para as horas, do quão atrasados os protagonistas estão, o que falta, o que ficou esquecido e o que ninguém consegue calcular e que acontece sempre.

Eunice foi a primeira a ficar preparada para subir a palco. Foi maquilhada e penteada, mas deixou um pormenor para ela: quem pintou os lábios foi a própria, sempre foi assim. "É o seu momento de relaxar antes da cena", explicou a neta.

Mas não este domingo. Naquele piso a única coisa que se ouviu constantemente foi o choro de um bebé com poucos meses, o bisneto de Eunice, filho de Lídia. Bisneto que ia alternando entre o choro e o silêncio, mas só com uma condição: tinha de estar ao colo do pai e com o pai a cantar o Hino da Alegria em alemão. Era automático, adormecia e parava de chorar minutos depois. Foi esta a música que Tiago Durão cantou quando viu o filho pela primeira vez ainda na maternidade. Naquela altura explicou às enfermeiras, surpreendidas, que tudo se devia ao seu gosto por música clássica: “Esteve nove meses só a ouvir música boa, vai ter de continuar”. E continua.

Este domingo foi naquele corredor estreito do D. Maria que Tiago passeou e cantou com o filho nos braços enquanto Lídia e Eunice eram preparadas para entrar em cena. A exceção foi quando todos sugeriram que pudesse ter fome e então aí Lídia teve de o amamentar enquanto estava a ser maquilhada.

Eunice foi a primeira a ficar preparada para subir a palco. Foi maquilhada e penteada, mas deixou um pormenor para ela: quem pintou os lábios foi a própria, sempre foi assim. “É o seu momento de relaxar antes da cena”, explicou a neta. Depois disso aproveitou para ir vagueando entre o seu camarim, o camarim da sua neta e o palco onde foi fazer os testes de som. “Está tudo perfeito”, disse Eunice ao ponto. Mas não ao ponto do D. Maria que todos conhecem, Cristina Vidal, e que deu vida ao espetáculo “Sopro”.

Foi de mão dada com a sua neta que Eunice ouviu uma plateia, de pé, durante vários minutos a agradecer-lhe por estes 80 anos de carreira

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Cristina Vidal, ponto do D. Maria II há 31 anos, é amiga de anos de Eunice e foi uma das figuras que permaneceu sempre junto à atriz. “Hoje não vou eu fazer o ponto. Quero ver o espetáculo”, desabafou Cristina. Foi aliás com Cristina Vidal que Eunice passou a maior parte do tempo que antecedeu o espetáculo em sua homenagem. De mãos dadas iam vendo as flores que iam chegando trazidas pelos funcionários do teatro. Ao fundo do corredor, Tiago continuava a cantar o hino da Alegria em alemão ao filho.

“As portas abriram. O PM [primeiro-ministro] já chegou e tivemos de abrir as portas mais cedo”, gritou então, apesar de calmo, um dos funcionários do teatro. Tão depressa chegou como se foi embora mas não causou qualquer pânico. Eunice continuou de mãos dadas com a sua amiga, Lídia continuou a ser maquilhada e Tiago a cantar para o filho.

Minutos antes da entrada em palco Eunice, Lídia, Tiago, Cristina e Raquel juntaram-se ainda num dos camarins e Lídia amamentou o seu filho antes de entrar em palco. Durante esse tempo, nada fez Eunice tirar o olhar daquele cenário. Em pé, colada à neta, com a mão esquerda sob o ombro direito de Lídia, via o seu bisneto de perto, manteve também um sorriso constante no rosto.

“É o grande amor da nossa vida, não é avó?!”. “É, sim”, respondeu Eunice com a voz calma, olhos nos olhos com a neta ao mesmo tempo que lhe fazia uma festa na cabeça.

“O teatro mostra-nos que apesar dos dias estranhos e difíceis, o belo continua a existir“. E existiu.

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“É melhor ir, faltam 10 minutos”

O momento de ternura entre avó, neta e bisneto foi interrompido pela própria Eunice quando se lembrou de ver as horas no relógio analógico no pulso esquerdo. Saiu sozinha do camarim, pelo caminho despediu-se de Cristina e dirigiu-se ao elevador. Ali, sozinha, esperou pelo assistente que a levaria então ao palco, no piso inferior.

"Avó, por favor, cuidado com o degrau do cenário. Levanta os pés. Estou mais nervosa que tu". Encaminharam-se para o palco e exclamaram novamente, de mãos dadas e apertadas: "Merda, avó. merda, meu amor, minha Lídia". O momento deixou Lídia sem palavras e piscou-lhe simplesmente o olho.

Entrou no palco também sozinha. Feliz, sempre a sorrir. “Estou tão feliz”, fez questão de dizer ao homem que a ajudava a andar, levando-a de braço dado.

O áudio do ponto foi verificado. Tudo ok. A sala já estava completamente cheia. Portas fechadas e a sala escureceu. Eunice saiu de perto de toda a gente e foi para trás do palco, sozinha. “Vai para a sua caminhada de ‘pré-cena'”, comentou alguém ali presente. Esteve ainda largos minutos a sós consigo mesma, iluminada por uma luz ténue, cor de laranja.

Foi maquilhada e penteada, mas deixou um pormenor para ela: quem pintou os lábios foi a própria
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Tiago cantava para o seu filho enquanto Lídia era maquilhada
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Eunice Muñoz nos testes de som
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Eunice sempre que se deslocava ao palco era acompanhada por um assistente de braço dado
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A atriz instantes depois dos testes de som a meio da tarde deste domingo
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Eunice já maquilhada e penteada vagueava entre o seu camarim e o camarim da neta
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Chegou a hora de Eunice se vestir para entrar em cena
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Tiago cantava para o seu filho o Hino da Alegria em alemão para tentar acalmar o seu choro
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Só então entrou Lídia pela porta traseira, apressada. Agarrou na avó e exclamaram juntas o famoso “merda, merda, merda”. Outra das preocupações de Lídia era que a avó não tropeçasse e caísse em palco: “Avó, por favor, cuidado com o degrau do cenário. Levanta os pés. Estou mais nervosa que tu”. Encaminharam-se para o palco e exclamaram novamente, de mãos dadas e apertadas: “Merda, avó”. “Merda, meu amor, minha Lídia”. O momento deixou Lídia sem palavras e piscou-lhe simplesmente o olho.

“3, 2, 1” e Eunice entrou em cena. Com a mão na maçaneta da porta do cenário, ficou parada a ouvir os primeiros, dos que viriam a ser muitos, aplausos. Pisou o palco, naquele momento que seria o último, 80 anos depois de o pisar a primeira vez. Todos sabiam disso. Estava ali a começar, diante dos todos, o espetáculo entre avó e neta, uma passagem de testemunho e de geração.

Estava ali a começar a prova de que “o belo continua a existir”.

Eunice quis despedir-se do D. Maria, o “seu” palco, com um discurso, um pequeno discurso impresso numa folha A4 e colado em cartolina preta.

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