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AFP/Getty Images

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A história da bolsa de Lisboa. Ganhou 11% por ano desde 1900 e bateu, de longe, os depósitos a prazo

Os investidores perderam 81% após o 25 de Abril, mas as ações conseguiram um ganho anual de 11%. Esta é apenas uma das conclusões dos três investigadores que estudaram 100 anos de bolsa de Lisboa.

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A bolsa de Lisboa rendeu mais de 13.000.000% desde 1900, o equivalente a perto de 11% por ano. São números que surpreenderam os três investigadores — Maria Eugénia Mata, José Rodrigues da Costa e David Justino — que estiveram quase quatro anos a recolher e a trabalhar informação sobre o mercado acionista português. É particularmente surpreendente ao saber-se que os portugueses perderam 81% nos investimentos bolsistas com o fecho da bolsa após a Revolução de 25 de Abril de 1974.

David Justino (esq.), José Rodrigues da Costa e Maria Eugénia Mata. “Eu sou o mais quantitativo, o professor é a história mais longa e a professora é a história económica”, explica Rodrigues da Costa.

RAFAEL ANTUNES / OBSERVADOR

Nove anos após o arranque do estudo, a investigação culmina agora na publicação do livro The Lisbon Stock Exchange in the Twentieth Century. O Observador fez diversas entrevistas com os autores — bem como com outras pessoas — para perceber como se estuda a bolsa, como funcionava há mais de 100 anos e que conclusões devem retirar os empresários e os investidores da análise. Esta é a compilação dessas conversas.

A ideia não foi deles

Estiveram desde 2008 à volta de boletins de cotações e relatórios de empresas. Antes, David Justino esteve alguns anos a estudar a origem da bolsa portuguesa. Mesmo assim, são modestos: a ideia da investigação nasceu na cabeça de outra pessoa.

José Rodrigues da Costa lecionou Finanças na Universidade Nova de Lisboa e no ISCTE. Trabalhou, em paralelo, na Bolsa de Valores de Lisboa, atual Euronext Lisbon, da qual está prestes a aposentar-se.

RAFAEL ANTUNES / OBSERVADOR

José Rodrigues da Costa: A origem disto tudo não foi de nenhum de nós. Foi um senhor que esteve na bolsa durante 40 anos, o doutor Rui Ambrósio, que veio para a bolsa quando ainda estava fechada a seguir ao 25 de Abril.

Rui Ambrósio Tribolet, ex-assessor do conselho de administração da Euronext Lisbon: Em 1993-94, a Associação da Bolsa de Lisboa, que geria a bolsa, decidiu patrocinar uma investigação para melhorar o conhecimento da história da bolsa de Lisboa. Não se sabia a sua antiguidade nem o papel que a bolsa teve em períodos remotos.

José Rodrigues da Costa: Ele falou comigo: “É importante fazer a história da bolsa”. Porque havia a história da bolsa de Londres, a de Nova Iorque. “Será que na Universidade [Nova de Lisboa], não há lá ninguém?” Andei à procura e acabei por encontrar o professor David Justino.

David Justino: A bolsa é a instituição económica que funciona há mais tempo em Portugal para além do Ministério da Finanças. E é privada. Estamos a falar de sete séculos praticamente.

Maria Eugénia Mata: Logo na altura em que falaram no livro [que viria a chamar-se] História da Bolsa de Lisboa, disse que não poderia participar. Estava a escrever a História Económica de Portugal.

Rui Ambrósio Tribolet: [O lançamento do livro História da Bolsa de Lisboa] coincide com a mudança da sede e da velha sala de sessões da Praça do Comércio para perto da Praça de Espanha.

David Justino: É o primeiro livro que abarca a história da bolsa de Lisboa desde a realização sistemática de operações de bolsa até aos princípios dos século XX. Tentei identificar desde quando havia operações de bolsa: praticamente desde o século XV. É um bocado difícil dizer que a bolsa de Lisboa foi a primeira [no mundo]. A bolsa de Lisboa nunca teve um edifício até finais do século XVIII. Os mercadores reuniam-se regularmente num pequeno local que havia na Rua Nova dos Mercadores, que era a artéria mais opulenta da cidade de Lisboa. Havia uma zona a nascente da rua que era a chamada “zona dos ferros”, que era um gradeamento que definia uma área onde os mercadores se encontravam.

Vista da Rua Nova dos Mercadores

Vista da Rua Nova dos Mercadores, de autor flamengo desconhecido. Esteve em exposição no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, até ao passado 9 de abril. Cortesia The Society of Antiquaries of London, Kelmscott Manor

David Justino: Independentemente da validade do quadro [em cima], retrata o que eu imaginaria que seria a bolsa até ao Terramoto. Uma das condições dos mercadores portugueses — os negociantes que pagavam uma percentagem para a reconstrução da cidade no tempo do Pombal — era um edifício para a bolsa, que foi precisamente o torreão [no Terreiro do Paço].

Annemarie Jordan Gschwend, uma das investigadoras que descobriu o quadro numa mansão em Oxfordshire, Inglaterra, em 2009: Nesta secção da rua, os banqueiros estrangeiros e homens de negócios tinham os seus escritórios para câmbios e comércio. Emitiam letras de crédito, transferiam fundos e convertiam divisas. É por isso que puseram gradeamento nesta ponta da rua, de modo a proteger os escritórios que acumulavam muito dinheiro.

David Justino: O Porto tem uma bolsa de rua até aos anos 60 ou 70 do século XIX, quando foi construído o Palácio da Bolsa, onde está a Associação Comercial do Porto. Até aí, a negociação era feita na Rua dos Mercadores.

José Rodrigues da Costa: No Terreiro do Paço, o público entrava para assistir a sessões de bolsa. Quando dava aulas, levava uns poucos alunos à bolsa. Os corretores negociavam à volta de três mesas redondas. Negociava-se por chamada, um papel de cada vez. Perguntavam: “Ó professor, diga lá se vai subir ou descer.” [Respondia:] “Vocês que estão agora no centro da bolsa, então vai subir ou vai descer?” E diziam: “Não sei.” “Nem eu sei, nem eles que estão a negociar sabem.” Ninguém sabe. As pessoas não percebem que ninguém sabe.

Maria Eugénia Mata: Tenho muita pena de uma coisa: é que quando fiz a licenciatura passava todos os dias à porta da bolsa; apanhava o 13 para ir para a Económicas [agora Instituto Superior de Economia e Gestão] e nunca entrei. É daquelas coisas que não me perdoo.

O desafio dos ingleses

Em 2002, três professores da London Business School — Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton — publicaram o livro Triumph of the Optimists: 101 Years of Global Investment Returns, em que analisam mais de um século de 16 bolsas mundiais. É um marco no mundo académico: mostraram, entre outras coisas, que as ações são os ativos financeiros que mais rendem no muito longo prazo, mas o nível de rendimento é variável de bolsa para bolsa.

Maria Eugénia Mata é docente na Nova School of Business. Dá aulas de História Económica, do Pensamento Económica e da Globalização. Presidiu à Associação Portuguesa de História Económica e Social.

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Maria Eugénia Mata: O livro do Dimson, Marsh e Staunton [DMS] mostra uma variedade muito grande de remunerações de capital. Nós quisemos acrescentar o caso português.

José Rodrigues da Costa: Fiquei muito chateado [com o livro de DMS]. “Que raio! Estão aqui 16 países, está aqui Espanha e não está Portugal?” Eu sabia que na bolsa havia a informação toda. Era um problema de tratar essa informação. Falei com a professora Maria Eugénia Mata.

Maria Eugénia Mata: Estivemos três meses a recolher dados para saber se era possível fazer a investigação.

José Rodrigues da Costa: Eu e a professora Eugénia estivemos não sei quantas tardes a lamber papel, pôr em Excel, fazer as continhas para ver se havia dados para trabalhar e como. Aqui na bolsa temos uma coleção inteira de boletins de cotações diários que cobre todo o século XX e até um bocadinho atrás, até meados do século XIX. É algo que é desconhecido. Nesses três meses fizemos 1978 a 1988. Fizemos dez anos de bolsa. Eu e a professora Maria Eugénia recolhemos os dados pessoalmente; ela lia e eu escrevia e fazíamos as contas.

Maria Eugénia Mata: Percebemos que um projeto de três anos daria para cobrir todo o século XX.

José Rodrigues da Costa: Queríamos ver se havia dados suficientes para fazer uma coisa comparável com o Dimson.

Maria Eugénia Mata: Para fazer como o Dimson e de maneira a incluir Portugal no concerto dos países que têm estimativas de remuneração do capital, tínhamos de ser capaz de construir para trás o índice bolsista, o BVL Geral [agora PSI Geral], que estava disponível de 1988 em diante. [Estendemos o índice] com frequência semanal, às quartas-feiras para evitar o efeito de fim de semana.

David Justino: Eu entro [na equipa] com o projeto para o concurso da FCT [Fundação para a Ciência e Tecnologia]. Eu não queria entrar, porque andava de volta de outras coisas.

José Rodrigues da Costa: Percebemos que tínhamos muita informação e, se queríamos falar mais do que dos simples números do índice, o David Justino não poderia estar fora disto.

David Justino: Encostaram-me à parede.

José Rodrigues da Costa: De nós os três, eu sou o mais quantitativo, o professor é a história mais longa e a professora é a história económica, os grupos económicos. Pedimos 100 mil euros à FCT e deram-nos perto disso.

Arranca a investigação

O financiamento de 92 mil euros da Fundação para a Ciência e Tecnologia fui crucial para a continuação da investigação dos três académicos.

Maria Eugénia Mata: Se não houvesse financiamento [da FCT], continuaríamos mas não poderíamos fazer a mesma coisa. O entusiasmo era muito grande, mas a escala seria diferente.

José Rodrigues da Costa: O dinheiro era para o projeto todo: alunos que pudessem colaborar connosco, há que publicar coisas, há que comprar livros, viagens, ir a congressos. Fizemos um orçamento extremamente detalhado, porque temos de apresentar um plano. E no final temos de apresentar um relatório e mostrar onde gastámos o dinheiro. Nós, os investigadores, não somos pagos.

Maria Eugénia Mata: Os alunos eram todos mestrandos.

José Rodrigues da Costa: Tivemos cinco alunos: dois Pedros,…

Maria Eugénia Mata: O Pedro I e o Pedro II, como nós lhe chamávamos…

José Rodrigues da Costa: …a Maria Belen, que é equatoriana, um João e uma Ana Rita.

João Pereira Santos, um dos alunos que participou no projeto, atualmente doutorando na Nova School of Business and Economics: Foi o meu primeiro trabalho. Na primeira parte, andei a recolher dados na bolsa, no Banco de Portugal e em arquivos de Lisboa. Não só cotações, mas também informação relevante, como dividendos, aumentos de capital e notícias importantes. Fiz principalmente os anos de 1900 a 1925-30. Fui um dos últimos a entrar [no projeto], porque a recolha estava a ser feita de 1974 para trás.

Pedro Teixeira, outro dos alunos que participou no projeto (o Pedro II), atualmente doutorando na Universidade Livre de Berlim: Fui um dos bolseiros que esteve mais tempo, de maio de 2010 a setembro de 2012. Recolhi cotações, procurei dividendos nos relatórios e também ajudei o José Rodrigues da Costa a construir o índice.

José Rodrigues da Costa: Tivemos a sorte de ter alunos quase todos muitíssimos bons.

Pedro Teixeira: Mantemos um contacto, embora agora seja esporádico porque estou no estrangeiro. Quando vou a Portugal, vou almoçar com o José Rodrigues da Costa e com a Maria Eugénia Mata.

João Pereira Santos: Tenho agora um artigo com a professora Maria Eugénia Mata em fase de submissão para revistas científicas. É sobre uma das empresas coloniais que analisámos na altura [Companhia Agrícola de Cazengo]. A seguir, quero estudar o impacto da Guerra Civil Espanhola na nossa bolsa. Conto com os dados [da investigação]. Não há outros tão bons e completos. Até é possível encontrar outros dados, mas são anuais ou, na melhor das hipóteses, mensais. Estes são semanais.

Maria Eugénia Mata: Ao longo da investigação, publicámos oito papers [ensaios ou teses publicados em revistas académicas]. O primeiro que quisemos ter foi o da validação da metodologia de construção do índice. O segundo paper foi decisivo e, a partir daí, ficámos à vontade para construir o conjunto.

25 de Abril: uma dor de cabeça científica

A estratégia dos investigadores foi estender o índice geral de ações da bolsa de Lisboa até 1900. Todavia, o 25 de Abril representou um problema: como calcular as perdas registadas pelos investidores durante o período em que a bolsa esteve encerrada?

Maria Eugénia Mata: No princípio, era só suspender [a negociação após a Revolução], mas a bolsa ficou fechada até 1977. Nessa altura, começa com a dívida pública e, só depois, com as ações.

José Rodrigues da Costa: Quando rearrancou não só havia muito menos empresas como as pessoas tinham medo de comprar ações.

Maria Eugénia Mata: Abdicámos de todo o ano de 77 e começámos em janeiro de 78.

José Rodrigues da Costa: Quanto valia a carteira que as pessoas tinham no dia 24 de abril [de 1974] e quanto tinham em janeiro de 78 em valor de mercado? A desvalorização foi de cerca de 98%.

A bolsa de Lisboa desvalorizou mais de 98%, mas as compensações aos investidores reduziram as perdas a 81% na sequência do 25 de Abril, segundo os investigadores.

José Rodrigues da Costa: A capitalização em abril de 74 ficou reduzida a 1,38% do valor inicial em janeiro de 78. O total de compensações dadas aos longo dos anos mas atualizada para janeiro de 78 foi 17,68%. Portando, a perda foi de 81%.

Um desvio na investigação

Durante a investigação, no final de 2011, Maria Eugénia Mata, David Justino e José Rodrigues da Costa são editores da reedição da tese de doutoramento de Ruy Ennes Ulrich, publicada originalmente em 1906. O livro Da Bolsa e suas Operações sai pelo prelo da Imprensa da Universidade de Coimbra.

David Justino foi ministro da Educação no governo de José Durão Barroso. É professor de Sociologia na Universidade Nova de Lisboa e presidente do Conselho Nacional de Educação.

Rafael Antunes/Observador

David Justino: Embora seja um livro do início do século XX, [Ruy Ennes Ulrich] faz um reporte daquilo que eram as práticas no século XIX. É o melhor retrato dos mecanismos das operações de bolsa. Era uma pena ter o único livro sobre operações de bolsa a sério em Portugal completamente desconhecido.

Delfim Ferreira Leão, diretor da Imprensa da Universidade de Coimbra: Foram eles [Mata, Rodrigues da Costa e Justino] que abordaram a Imprensa para fazer esta segunda edição anotada. Aliás, é a Imprensa que detém os direitos sobre esta obra do Ruy Ennes Ulrich.

Pedro Teixeira: Também fui eu quem transcreveu o livro do Ruy Ennes Ulrich para português atual.

Maria Eugénia Mata: Ficámos muito surpreendidos como havia tanta especialização. Ele fez aquela tese de doutoramento muito provavelmente com a ideia de vir a ser o professor de Finanças em Coimbra. Com a revolução republicana, acabou por vir para Lisboa. Fernando Ulrich [presidente do Banco BPI] lembra-se do seu tio-avô. É uma família ligada aos negócios desde o tempo do Marquês de Pombal.

Delfim Ferreira Leão: A segunda edição, em dezembro de 2011, foi exploratória com apenas 500 exemplares. A terceira edição, em março de 2012, foi maior com 1.400 cópias. Os autores conseguiram vendas institucionais — à CMVM, à Caixa Geral de Depósitos — que levaram a quase esgotar.

David Justino: A gente tem a ideia que a bolsa é uma coisa muito inovadora, os derivados, mas não é nada: há descrições de operações no século XVII.

José Rodrigues da Costa: Aliás, na Grécia Antiga, num dos clássicos, [há a descrição de] um contrato de opção. Alguém que esperava ter uma boa colheita de azeitona comprou a opção de utilização dos lagares de azeite da região.

Encontro na África do Sul

Os três investigadores começam a apresentar os seus estudos a partir de 2011 em eventos não só em Portugal — como na Comissão do Mercado de Valores Mobiliários e na Ordem dos Economistas — como no estrangeiros. Passaram por Madrid, Paris, Antuérpia e Quioto, mas é em Stellenbosch, na África do Sul, que conhecem pessoalmente uma das suas referêncais académicas.

Maria Eugénia Mata: Nos contactos do EurHiStock [uma iniciativa de universidades europeias para estudar a história das bolsas], escrevemos ao Dimson, ao Staunton e ao Marsh a dar conta do que estavamos a fazer.

José Rodrigues da Costa: Na resposta, não nos deram muita corda. Irritou-me um pouco… Não gostei da reação.

Maria Eugénia Mata: [Em 2012], organizámos uma secção de História das Bolsas na Universidade de Stellenbosch. Foi a primeira vez que se apresentou esta seção num congresso mundial [de História Económica].

José Rodrigues da Costa: Às tantas, tropeçámos no próprio professor Dimson, na África do Sul. Aí é que perceberam que isto é a sério. E quiseram logo vir falar connosco.

Elroy Dimson, professor de Finanças na London Business School: [Mata e Rodrigues da Costa] propuseram continuar empenhados na investigação dos retornos de longo prazo das principais categorias de ativos em Portugal.

Maria Eugénia Mata: Depois, veio cá o Staunton.

Mike Staunton, diretor da London Share Price Database na London Business School: Fui principalmente para os conhecer e para ver os arquivos disponíveis em Lisboa. Inicialmente esperava escolher um dia que coincidisse com um jogo de futebol, mas tive de sacrificar isso porque fui em julho.

Mike Staunton, Paul Marsh e Elroy Dimson, os autores de “Triumph of the Optimists: 101 Years of Global Investment Returns”. Cortesia London Business School.

José Rodrigues da Costa: Ele ficou encantado. Sugeriu apenas uma ou outra modificação. Por exemplo, não tínhamos individualizado os dividendos.

Mike Staunton: Preferimos ver que informação local está disponível para depois decidir como proceder.

Maria Eugénia Mata: O Staunton passou connosco dois dias para afinarmos tudo. Esqueceu-se do boné e da máquina fotográfica no meu carro.

Mike Staunton: A máquina fotográfica chegou-me a Londres pelo correio em segurança poucos dias depois.

Maria Eugénia Mata: [Dimson, Marsh e Staunton] aceitaram a nossa metodologia como sendo rigorosa. Usaram a nossa série para calcular os seus dados.

José Rodrigues da Costa: Em 2014, entrámos no Credit Suisse [Global Investment Yearbook, uma atualização anual ao Triumph of the Optimists, editado por Dimson, Marsh e Staunton]. Passámos a ter uns dados que são referência.

Maria Eugénia Mata: Nós acrescentámos o caso português. Somos o 23.º caso que está disponível no Credit Suisse. Eu fiquei muito feliz com este pequeno contributo.

Mike Staunton: Portugal é provavelmente o último país com um registo completo desde 1900.

Ações para o longo prazo

Um dos objetivos da investigação de Maria Eugénia Mata, José Rodrigues da Costa e David Justino era calcular uma estimativa do custo de capital das empresas portuguesas, também conhecido na literatura académica por prémio de risco: quanto rendem as ações acima de uma aplicação sem risco ou de baixo risco, como os títulos do Tesouro ou os depósitos bancários.

Evolução das ações portuguesas entre 1900 e 2014, segundo a investigação de Maria Eugénia Mata, José Rodrigues da Costa e David Justino.

Maria Eugénia Mata: Antes do livro do Dimson, Marsh e Staunton [DMS], todos usavam o exemplo americano de [Roger] Ibbotson como grande referência mundial.

José Rodrigues da Costa: A grande referência dos Estados Unidos era [um prémio de risco] de 8,5%. DMS mostraram que não era igual para todos [os países].

Maria Eugénia Mata: A América é muito diferente do resto dos países porque é a grande potência. A grande remuneração de capitais que lá existe não pode ser generalizada aos outros parceiros a nível global. Até porque as duas guerras mundiais foram na Europa. Os Estados Unidos participaram em ambas e, na prática, decidiram as guerras, mas não foi em território americano. Não teve o mesmo impacto que teve nos países europeus.

188,61%

Este foi o retorno da bolsa em 1986, a maior subida anual do século XX, segundo os dados compilados por Maria Eugénia Mata, José Rodrigues da Costa e David Justino. Dez meses depois, após a ações terem subido mais quase 600%, o primeiro-ministro Aníbal Cavaco Silva avisa que os investidores poderiam estar a “comprar gato por lebre”.

José Rodrigues da Costa: Embora no paper intermédio tenha dado um valor próximo [com informação entre 1978 e 2009], mostrámos que em Portugal não era 8,5%. Deu 6,75%.

David Justino: A imagem que nós temos destes mercados é de volatilidade e fragilidade das instituições. A gente depois percebe que, no longo prazo, essa fragilidade não existe. São investimentos que têm um retorno muito razoável em comparação com outros. A mim surpreendeu-me.

Maria Eugénia Mata: [Também me] surpreendeu ser tão alto. Eu já contava que fosse alto pela escassez de capital. Mas surpreendeu-me que houvesse a capacidade de pagar tanto.

-48,42%

A desvalorização anual registada em 2008 foi a pior desde 1900, excluindo o impacto do encerramento da bolsa portuguesa a seguir à Revolução de Abril de 1974.

José Rodrigues da Costa: Se olharmos para o século todo até 74 havia uma volatilidade relativamente mais baixa e, portanto, uma remuneração mais baixa. Faz sentido: tivemos 48 anos de um regime que não mudava. A seguir ao 25 de Abril também exagerámos: mudou tudo. Naquele período entre 78 e 87 há um crescimento exagerado. Uma recuperação das grandes perdas exige uma remuneração mais elevada. Além desta visão de muito longo prazo, também verificamos que os mercados funcionam melhor do que imaginamos. Se há falta de confiança, o mercado exige ainda mais.

Maria Eugénia Mata: Nós temos uma remuneração de capital que é alta e isso explica, por um lado, a escassez de capitais e, por outro, uma capacidade de remunerar dessa maneira. Não é contraditório? Andámos muito tempo à volta deste problema até que construímos dois índices: um para a totalidade das empresas na bolsa e outro só para as que operavam no ultramar. O mistério foi desvendado. [O prémio de risco] é mais alto para as ultramarinas. Porque é que o risco é maior? Por um lado, porque são zonas que estavam pouco infraestruturadas: ausência de rede de estradas, ausência de redes telegráficas, ausência de redes de caminhos-de-ferro. Por outro lado, a mão-de-obra local era muito abundante e barata, mas não treinada. E faltavam quadros, o que obrigava a uma deslocalização de contabilistas, capatazes, dirigentes, gente ligada aos boards [conselhos de administração] que estava sentada em Lisboa.

José Rodrigues da Costa: Não é válido dizer que o prémio de risco é instável no curto prazo nem que é fixo. Provavelmente não será fixo, mas não variará muito. É natural que dependa muito das características do mercado, da população, das leis, da história dos países.

Prémios de risco no mundo

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Estes são os prémios de risco entre 1900 e 2016, segundo Dimson, Marsh e Staunton.

África do Sul, França: 6,2%
Alemanha, Japão: 6,1%
Austrália: 6,0%
Finlândia: 5,9%
Itália: 5,7%
Áustria, Rússia: 5,6%
Estados Unidos da América: 5,5%
Portugal: 4,6%
Países Baixos: 4,5%
Nova Zelândia, Reino Unido: 4,4%
Canadá: 4,2%
Suécia: 4,0%
Irlanda, Suíça: 3,6%
Dinamarca, Espanha: 3,3%
Noruega: 3,2%
Bélgica: 3,0%
China: -3,3%

Fonte: Credit Suisse Global Investment Returns Yearbook 2017

José Rodrigues da Costa: [Dimson, Marsh e Staunton] comparam apenas o início com o fim. Se o fim está muito baixo, como aconteceu agora, dá um valor pequeno. [O prémio de risco das ações portuguesas desde 1900 calculado pelos professores ingleses foi de 4,8% em 2013 (4,6% em 2017), abaixo dos 6,75% dos investigadores portugueses.] Tive uma conversa com o Marsh e disse-lhe: “Não concordo com o que vocês estão fazer.” Resposta do Marsh: “O valor real é este.” É verdade. Mas precisamos de uma visão de longo prazo. O prémio de risco não é estável, mas não podemos exagerar isso olhando apenas para o início e para o fim. A pergunta que interessa é: como é que isto se comporta em média. O nosso número é o mais próximo possível.

Divergência com os ingleses

O prémio de risco não é a única coisa que separa os investigadores portugueses dos britânicos. O Observador descobriu que a Morningstar, uma empresa fornecedora de informação financeira, está a comercializar a base de dados compilada por Elroy Dimson, Paul Marsh e Mike Staunton (DMS) — incluindo a informação reunida por Maria Eugénia Mata, José Rodrigues da Costa e David Justino.

Mónica Muñoz, diretora de vendas da Morningstar em Espanha: Podemos entregar a base de dados DMS pelo Direct (a nossa plataforma institucional) ou através de um ficheiro Excel. Os utilizadores têm de assinar um contrato. O preço apenas da base de dados DMS é de 4.600 euros e para os utilizadores Direct é de 3.000 euros.

José Rodrigues da Costa: Tivemos dois alunos, um português e um russo, que estão a fazer doutoramento em Bona. Vieram cá e quiseram obter dados sobre as nossas obrigações. [Disseram:] “Nós até falámos com o Dimson, mas ele só vende a informação.”

Maria Eugénia Mata: Se eles estão a vender, deviam dar-nos qualquer coisa. Nós somos aquela ingenuidade académica total. Se houver algumas receitas, queremos que venham para os nossos centros de investigação da [Universidade] Nova. Nós fazemos isto de graça. Nunca recebemos um tostão.

Elroy Dimson e Mike Staunton não responderam às perguntas do Observador sobre a possibilidade de partilha de receitas com a venda da base de dados DMS, que inclui os dados de Mata, Rodrigues da Costa e Justino.

David Justino: O nosso intuito é meramente académico. Se vai render para alguém, não é para nós de certeza.

José Rodrigues da Costa: Nem temos direitos de autor.

Delfim Ferreira Leão: Desde 2014, todos os projetos financiados por entidades públicas, como a FCT, pressupõem que figurem em acesso aberto. É uma política europeia e internacional de ciência aberta que se vai acentuar. Outra forma de financiar a investigação é cobrar pela cedência de dados para financiar a investigação. São dois modelos possíveis.

Maria Eugénia Mata: Agora a nossa base de dados, vai curto-circuitar a deles. Nós temos uma base de dados de acesso livre.

Delfim Ferreira Leão: O livro tem um código QR que abre automaticamente o endereço com o ficheiro que pode ser descarregado sem custo. O endereço será mantido para sempre pela Imprensa [da Universidade de Coimbra, a editora do livro The Lisbon Stock Exchange in the Twentieth Century].

Marque na agenda: 5 de junho

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A apresentação do livro The Lisbon Stock Exchange in the Twentieth Century será no próximo dia 5 de junho, às 18 horas, no Centro de Congressos de Lisboa, na Rua da Junqueira.

Maria Eugénia Mata: Nós não temos jeito de vender.

Delfim Ferreira Leão: A tiragem inicial é de 200 cópias para a procura imediata nacional. O livro tem um objetivo internacional, daí a opção pelo inglês. Estará também disponível na Amazon. [A Amazon espanhola é a mais barata entre as várias Amazons, embora o preço seja mais baixo na própria Imprensa da Universidade de Coimbra. É também possível comprar uma versão eletrónica no Google Livros.] Qualquer pessoa no mundo poderá encomendá-lo e recebê-lo em dois a cinco dias. [Além disso,] qualquer pessoa que aceda à b-on [Biblioteca do Conhecimento Online] em instituições credenciadas, como do ensino superior, pode descarregar gratuitamente o livro. Queremos é que a investigação circule.

Recomendações para os investidores

Nenhum dos três investigadores portugueses investe agora diretamente em ações, mas reconhecem que pode ser uma boa aplicação de longo prazo para os investidores.

José Rodrigues da Costa: [Investir na bolsa] é uma mania que já vem de família. Pelo menos, o pai da minha mãe já comprava e vendia ações nos anos 30. Na minha casa sempre se falou em ações. Eu devia ter dez anos quando fui com o meu pai à baixa de Lourenço Marques [atualmente Maputo, em Moçambique] comprar ações na tesouraria de uma empresa industrial.

Maria Eugénia Mata: A gente investe naquelas coisas em que a maioria das pessoas investe. É mais o meu marido. Sou uma mulher mais ligada aos aspetos dos bens reais.

David Justino: Não sou especialista em bolsas. Nem sou consumidor. Nunca comprei uma ação na minha vida. Quando estava a fazer a História da Bolsa de Lisboa gozavam comigo: “Como é que o senhor consegue fazer uma história da bolsa se nunca comprou uma ação ou uma obrigação?” E eu dizia: “Nem um Certificado de Aforro!”

Maria Eugénia Mata: Isso eu já comprei!

José Rodrigues da Costa: Desde que estou aqui [na Euronext], o que faço é investir em fundos para a reforma, PPR [planos de poupança-reforma] e PPA [planos de poupança em ações].

David Justino: O meu objetivo de vida não é ganhar dinheiro. O meu objetivo de vida é ser feliz e fazer investigação. Isso é que me dá gozo. O dinheiro é apenas um instrumento para isso.

José Rodrigues da Costa: Valeu a pena investir em ações em todos os mercados dos países estudados — e agora sabemos que também em Portugal. Este é que é o triunfo dos otimistas [de que falam Dimson, Marsh e Staunton]. A regra dos manuais — invista em ações no longo prazo — está clara. A incerteza no curto prazo é muito grande para uma perspetiva de ganho muito pequena. À medida que vou andando a incerteza aumenta, mas aumenta menos do que aumenta a esperança de ganho. No muito longo prazo, por muita incerteza que eu tenha, a expectativa é tão grande que dá para cobrir a maior volatilidade.

David Justino: Nós temos uma cultura pouco sensível à ideia de risco. Há sempre uma parte do risco que é possível ser racionalizado. E há uma parte que decorre do que não é racional. Parte-se do princípio que todos os agentes são racionais; não são.

Quanto renderam os fundos mais antigos?

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Os 15 fundos de ações geridos em Portugal há mais tempo renderam, em média, 3,74% por ano. Nenhum bateu o rendimento dos Certificados de Aforro.

Rentabilidade anual desde lançamento
IMGA Mercados Emergentes (janeiro 1990): 2,42%
IMGA Eurocarteira (março 1990): 3,86%
BPI Europa (junho 1991): 6,59%
BPI Euro Grandes Capitalizações (junho 1992): 4,27%
Santander Acções Portugal (julho 1993): 7,01%
BPI América (agosto 1993): 2,13%
Caixagest Acções Europa (novembro 1993): 2,89%
BPI Portugal (janeiro 1994): 4,37%
NB Ações Europa (janeiro 1994): 3,89%
NB Mercados Emergentes (janeiro 1994): 1,66%
Montepio Ações (fevereiro 1994): 4,11%
Caixagest Acções Oriente (março 1994): 1,84%
IMGA Ações Portugal (julho 1995): 4,85%
Caixagest Acções Portugal (junho 1996): 4,38%
Montepio Capital (abril 1997): 1,80%

Fonte: CMVM. Cálculos: Observador. 12 de maio de 2017

José Rodrigues da Costa: Eu acho que as ações são um bom investimento. Agora, em que quantidade, em que momento, etc. é o difícil. Quanto é muito longo prazo? A maioria das pessoas não tem vida para dedicar-se à observação [da bolsa] em tempo real. Tem de investir e deixar ficar. Deve deixar ficar eternamente e nunca mais se preocupar? É uma posição exagerada. Convém com alguma periodicidade – cada um saberá qual a sua periodicidade – olhar para as ações. Os fundos [de investimento] têm um papel a desempenhar. Se os fundos que são oferecidos cá são bons, não me vou pronunciar sobre isso. Acho que há um conjunto de pessoas num conjunto de circunstâncias para os quais um fundo é uma alternativa de investimento apropriada. Quando eu subscrevo unidades de participação de um fundo, estou a pedir a alguém que faça a gestão que eu deveria fazer. Se essa pessoa faz bem a gestão, se é caro ou barato, é uma das decisões que tem de se fazer.

A investigação é para continuar

A base de dados do índice português de ações está aberta à comunidade. Os três investigadores esperam que outros avancem na pesquisa académica.

Maria Eugénia Mata: Claro que merecia haver mais investigação nesta área. Agora que há a base de dados disponível para todos, agora é que é fazer os trabalhos com a econometria mais adequada para o efeito.

José Rodrigues da Costa: Não são só as grandes empresas que vão para a bolsa. Porque é que as pequenas empresas também vão para bolsa? Merecia um estudo aprofundado. Há empresas muito pequenas a ir para bolsa no final do século XIX e início do século XX. A gente encontra uma funerária, uma empresa de penhores, uma empresa de pesca. Pequenas coisas que, curiosamente, não transacionam quase nada, mas permanecem em bolsa.

Maria Eugénia Mata: O problema é este: os centros de investigação têm de ser financiados. Estamos permanentemente a saltar de projeto em projeto. Fazemos aquilo que conseguimos ver aprovado.

José Rodrigues da Costa: Um dos trabalhos que deveria ser feito é substituir as taxas de juro. Não sei se irei fazer. Comecei, mas não tenho alunos e tenho de ir a outras fontes. Tenho de me sentar no Banco de Portugal.

Elroy Dimson: Ainda há trabalho para se fazer sobre Portugal, incluindo as rentabilidades do mercado de obrigações.

José Rodrigues da Costa: A taxa de juro sem risco fomos nós que fornecemos [ao Dimson, Marsh e Staunton]. É uma área que merecia mais desenvolvimento. Não tenho a certeza que as nossas fontes são as melhores. Espero que alguém pegue nesta coisa e ande para a frente.

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