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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Borba. Ninguém quer acreditar que Fortunato é uma das vítimas da pedreira /premium

Todos os dias, Fortunato ia ao café do Sr. Silva. Na 2ª feira, estava fechado e decidiu ir a Vila Viçosa pela estrada que ruiu para a pedreira. Os vizinhos recusam acreditar que é uma das vítimas.

Ainda guarda consigo o papel com a matrícula do carro onde seguia Fortunato. Foi com esse papel na mão e esperança no olhar que José percorreu as ruas e os cafés que o reformado de 85 anos frequentava, na expectativa de encontrar um carro cuja matrícula correspondesse àquela que tinha escrito. Foi a Vila Viçosa e a Bencatel. Foi a dois supermercados — a mulher tinha-lhe dito que Fortunato ia comprar “uns biscoitos que gostava de comer com o café”. “Podia o senhor sentir-se mal e ter ficado dentro do carro”, explica. José ou o Sr. Silva, como muitos lhe chamam, passou horas nisto — não sabe bem quantas.

Já a noite ia longa quando acabou por regressar ao Alandroal, onde também vive e tem um restaurante. “Dona Irene, eu não encontrei o carro em lado nenhum. Você quer ir comunicar às autoridades o desaparecimento do seu marido?”, conta o Sr. Silva, recordando a conversa que teve naquela segunda-feira. “Ela ficou transtornada”, acrescenta. A mulher, também com 85 anos, aceitou a sugestão do vizinho, embora estivesse certa sobre o que lhe tinha acontecido. Assim que viu as notícias de que um troço da estrada que liga Vila Viçosa a Borba tinha desabado numa pedreira, Irene juntou a isso o facto de o marido ter ido a Vila Viçosa àquela hora. “Só pode estar além”, acredita.

Fortunato de 85 anos vivia com a mulher em Alandroal (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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José e a mulher, Rita, só acreditam que Fortunato — “era vizinho e amigo, era da casa”, dizem — esteja no poço da pedreira quando de lá tirarem o carro. Pensam até na possibilidade de ter sido raptado. “Estava aqui a comer e a dizer para o meu marido: ‘Já viste o que era agora o homem estar preso, desprenderem o homem e ele aparecer?‘”, conta Rita. O olhar de José Silva continua a ser de esperança. O papel continua guardado no balcão do restaurante. “Não vá a polícia ver o carro e precisar de confirmar“, diz.

Foi a mulher de Fortunado que alertou o casal. Estava acostumada a que o marido, reformado do Exército, chegasse a casa “ao sol posto”. “Ele costumava dar a sua voltinha, ia ali até à praça, vinha aqui ao restaurante e voltava a casa”, explica José. Mas, à segunda-feira, o restaurante fecha e Fortunato foi até a uma loja de informática em Vila Viçosa “ver de um computador que estava a arranjar”. O sol pôs-se e o marido não chegou. Irene ligou para o vizinho. Sabia que também ele estava em Vila Viçosa. “A minha mãe também tem 85 anos e todas as segundas-feiras eu vou lá. A casa é ao lado da loja e ela sabia que eu, àquela hora, devia estar lá na da minha mãe. Ligou-me duas vezes, mas eu não tinha rede “, conta o dono do restaurante.

O Sr. Silva e a mulher Rita não quiseram dar a cara para a fotografia. Dizem que a única coisa que fizeram foi ajudar Irene a procurar o marido. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Apesar de ter o restaurante fechado, os proprietários jantam sempre lá. Por isso, Irene, que continuava sem saber do marido, ligou, desesperada, para o telefone fixo — sabia que àquela hora o casal estaria por ali a jantar — para perguntar ao Sr. Silva se o tinha visto na loja de informática, em Vila Viçosa.

— Não. O que é que se passa?

— É que ele, a esta hora, ainda não regressou a casa.

— Não o vi.

— Então e agora? O que é que eu faço?

Apercebendo-se de que Irene estava assustada, José Silva e a mulher foram até à sua casa, não muito longe do restaurante. “Quando a pessoa está acostumada àquele horário das pessoas, chega àquela hora e não aparece, alguma coisa se passa. E a pessoa com aquele idade, podia ter acontecido alguma coisa“, apontou o José. O casal já tinha visto as notícias mas não calcularam que pudessem estar ligadas ao desaparecimento do vizinho.

“Ai Zé, não sei o que hei-de fazer”, disse Irene, assim que o casal entrou porta dentro. “Olhe, mas tenha calma”, respondeu-lhe, sugerindo então que fossem dar “uma volta” aos sítios que Fortunato costumava frequentar e até à loja de informática onde tinha ido. As buscas não deram em nada. Restou-lhes fazer companhia a Irene “para ver se se acalmava”. Às 7h00 do dia seguinte, antes de abrirem o restaurante, voltaram lá “para fazer companhia à viúva”, diz José Silva pondo imediatamente a mão à frente da boca, como se tivesse dito uma barbaridade: “Viúva não. Não é viúva ainda”.

O troço da estrada ruiu na passada segunda-feira. Ao momento estão dois mortos confirmados e três desaparecidos, um deles Fortunato. (JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR)

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Irene está certa de que o marido só pode estar no fundo do poço da pedreira. Os vizinhos nem tanto. “Às vezes há tantas coisas dessas de levarem os velhotes, roubarem-nos, prenderem-nos“, conta Rita, interrompida depois pelo marido: “Só depois de tirarem de lá o corpo é que a gente pode dizer que a pessoa lá está. Vamos imaginar que agora depois de recolherem os carros que lá estão, se lá estão, se ele lá não está e não está lá o carro dele? Vamos imaginar que foi raptado. O carro está escondido, a pessoa está raptada”.

José Silva encontra esperança numa história que ouviu na segunda-feira numa pastelaria, em Vila Viçosa, ainda antes de saber que Fortunato estava desaparecido. “Estavam a dizer que uma moça que é educadora de infância tinha caído. Alguém disse que tinham visto um Opel a cair lá para dentro. E que era o dela e que ela tinha caído para além. E que só podia ser ela porque ela tinha dito que ia para Borba. Afinal, estava em Espanha quando isto aconteceu“, conta o vizinho, embora saiba que o Opel de que falam possa ser o de Fortunato. “Continuam a falar num Opel. Era um Opel que o homem trazia. Se realmente é ou não é? Só podemos dizer que é depois de o tirarem de lá“, termina.

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