Assim que chegamos à aldeia de Santa Susana, em Alcácer do Sal, somos brindados com uma imagem digna de quadro: Emília, filha de Carla e Flávio, sentada num banco à beira da estrada, junto da vizinha, à espera do pão. Se em Lisboa o tempo parece que nos escapa por entre os dedos, aqui, o ato de esperar vem carregado de uma leveza e ingenuidade capaz de entreter até uma criança. Assim que o pão chega, é pousado em cima da mesa da cozinha e as fatias são cortadas pelas mãos de Carla, acompanhadas da dose certa de manteiga. E assim se começa uma manhã, com calma.
“Eu vou falar por mim”, começa Carla, continuando: “Eu sou uma pessoa que tem uma arquitetura de vida complicada. E os planos eu faço com o que vai acontecendo à minha volta. Por isso, para mim, foi um feliz acaso. Eu venho de um subúrbio de Lisboa e o campo era uma coisa que me criava um bocado de tédio, na verdade. Mas depois com a pressão do trabalho, isto tornou-se uma das melhores coisas que aconteceu. Mas foi mesmo um acaso. Nenhum de nós, durante 10 anos, disse: o que eu quero mesmo é uma casa de campo. Aqui, eu encontro um esvaziamento. Isso para mim, neste momento, é super importante. Esta solicitação constante que a cidade te provoca, tanto no telefone como nas 150 mil atividades que tens que estar sempre a fazer, eu aqui tenho os estímulos suficientes para estar quieta”.
Já para Flávio, se há coisa que a casa trouxe foi espaço, mas não só. “O que eu acho é, sendo muito prático, aqui encontramos espaço que em Lisboa, na casa anterior, não tínhamos. Portanto, a decisão desta casa acontecer foi pelo espaço, e nós aqui temos. Há também uma coisa que a vida na aldeia tem que eu, em Lisboa, ainda não consegui encontrar. Nós aqui estamos limitados ao espaço que é nosso, mas depois a aldeia também é nossa. Os miúdos não conhecem essa fronteira, não há propriamente o muro. Em Lisboa, depois de bateres a porta estás na rua. Aqui perde-se essa noção de fronteira. A Emília facilmente atravessa a estrada e vai esperar o pão, o António, desde pequeno, cruzava a estrada para ir para o jardim infantil e é isso. Aqui o espaço é maior e transcende a própria casa. Por outro lado, aqui estás muito mais ligado às coisas à tua volta”.
Nas palavras de Carla e Flávio, aquilo que mais custa é voltar para Lisboa. É caso para dizer que o sentimos na pele. Porque na hora de regressar, a vontade era pouca. Deixámos para trás o Flávio, a Carla, a Emília e o António, mas trouxemos na mala os seus sonhos, as noites de cinema em frente à lareira, os mergulhos na piscina e a certeza de que, se um dia quiséssemos voltar, seríamos recebidos de braços abertos por toda a família. Se uma casa se faz de memórias, esta é feita, com certeza, das mais felizes.
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