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Como é que vamos trabalhar no futuro?

O isolamento mostrou as vantagens do teletrabalho e agora há quem não o queira largar. As novas formas de trabalhar foram o mote de uma conversa – digital, claro – moderada por João Miguel Tavares.

Surpreendidos pelo ritmo do teletrabalho imposto pela quarentena, muitos anseiam voltar ao escritório e ao contacto com os colegas, mas outros podem preferir continuar no registo caseiro, fugindo ao trânsito e às correrias. Mas será que o recurso ao teletrabalho veio mesmo para ficar ou rapidamente as chefias vão querer os colaboradores por perto outra vez? E quem optar por trabalhar à distância, será que vai ter acesso às mesmas condições de progressão de carreira ou acabará por ser esquecido porque não vai à copa tomar café? Quanto aos escritórios do futuro, será que estes vão ser concebidos à prova de pandemia? Estas e outras questões fizeram parte do Conversas com Futuro dedicado ao tema “Novas formas de estar a trabalhar”, numa parceria entre a JLL e o Observador. A conversa foi digital, como não podia deixar de ser, e juntou na mesma plataforma o arquiteto Caetano de Bragança, Head of Workplace Strategy na JLL, a psicóloga e psicoterapeuta Teresa Espassandim, e ainda Susana Almeida Lopes, Managing Partner na SHL Portugal. A moderação esteve a cargo de João Miguel Tavares, publisher das revistas Observador, que começou por querer saber quão boa – ou má – foi a experiência dos convidados durante o isolamento, já que a sua, confidenciou, lhe mostrou “a importância fundamental de partilhar o mesmo espaço com os colegas de trabalho”, mas admitindo, com humor, que o facto de ter quatro filhos relativamente pequenos pode ter contribuído para isso.

Para Caetano de Bragança, que admite ter-se tornado “um eremita desde o dia 11 de março”, a experiência tem sido positiva, desde logo porque conseguiu passar mais tempo com os filhos, percebendo que “é possível conciliar a família com o trabalho e com a produtividade”, ao ponto de concluir que até terá trabalhado mais do que o habitual. Mas houve outra razão que contribuiu para a forma otimista como viveu o isolamento: “Senti profundamente que estava a viver um momento histórico, isto é um momento marcante da minha história.”

“É possível conciliar a família com o trabalho e com a produtividade”
Caetano de Bragança, Head of Workplace Strategy JLL

Também Teresa Espassandim fez um relato positivo ao partilhar sobre a sua quarentena, consciente das “condições de fazer inveja” que teve a sorte de conseguir reunir. Nesse sentido, deixou claro que esta experiência só é possível porque “há Internet de luxo, há espaço, há jardim, há ar para respirar, mas acima de tudo há um trabalho com muito significado”, referindo-se à importância de ter um trabalho que confere propósito, o que, no caso dos adultos, “ajuda a gerir a ansiedade e todas as situações que são angustiantes numa privação de liberdade”.

Quem também não se queixa do tempo passado em isolamento é Susana Almeida Lopes. Mas a verdade é que, como a própria assume, “já era adepta do teletrabalho”, vivendo a 50 quilómetros de Lisboa por opção. Desde 2006, a Managing Partner da SHL trabalha, pelo menos um dia por semana, a partir de casa, pelo que tem já “uma rotina bastante vincada”. Todavia, reconhece que a experiência atual, embora seja positiva, é bastante diferente daquela a que está habituada, porque desta vez incluiu as crianças em casa.

E depois da pandemia, vai ficar tudo como antes?

Esta é outra das perguntas que muitos dos que agora estão em teletrabalho fazem: como é que o trabalho se vai organizar depois da pandemia? Recorrendo aos resultados de um estudo realizado recentemente pela JLL em Portugal, Caetano de Bragança não tem dúvidas em considerar que “vai haver uma transformação”. No referido inquérito, 95% dos profissionais portugueses revelaram a intenção de continuar a trabalhar em casa, pelo menos um dia por semana, sendo que 84% responderam desta forma por razões profissionais, ou seja, porque acham que assim são mais produtivos. As conclusões levam o Head of Workplace Strategy da JLL a sublinhar a “perceção muito positiva em relação ao teletrabalho”, o que o surpreendeu, tendo em conta que, tradicionalmente, “se achava que o teletrabalho teria uma conotação negativa nas empresas por estar associado a alguns estigmas”. Ao mesmo tempo, e recorrendo a dados de um outro estudo sobre o tema, este promovido pela Confederação Empresarial de Portugal (CIP), refere que também do lado do empregador a leitura da realidade é idêntica. Por isso, considera que “o teletrabalho vai ficar, já se massificou, houve uma aceitação positiva e, por isso, tudo leva a crer que as empresas se vão adaptar”.

Embora concordando que o teletrabalho veio para se instalar, Teresa Espassandim não se mostra tão entusiasta quanto o colega de painel. “Não acredito que algumas lideranças estejam tão capazes de prescindir dos seus poderes”, diz, até porque “muitas empresas tiveram de se adaptar, mas à força, e as que não o conseguiram fecharam as portas ou puseram as pessoas em lay-off”. Ainda assim, a psicóloga considera que “as pessoas continuarão a querer voltar ao local de trabalho, mas talvez não a semana inteira”, entendendo que tal dependerá da autonomia que lhes for dada, pois “é muito mediterrânica esta cultura focada no controlo”.

“As pessoas continuarão a querer voltar ao local de trabalho, mas talvez não a semana inteira”
Teresa Espassandim, psicóloga especialista

Progredir na carreira é possível em teletrabalho?

Ainda baseado no estudo realizado pela JLL, Caetano de Bragança notou que cerca de 70% dos inquiridos disseram que o teletrabalho não impede a progressão nas carreiras, ao contrário do que se poderia pensar. Mas será que é mesmo assim na prática? Questionada sobre a sua própria experiência, Susana Almeida Lopes referiu nunca se ter sentido prejudicada, mas admitindo que chegou às funções que ocupa atualmente “já com bastante autonomia”. Quanto a situações que acompanhou de perto, indica que a experiência do teletrabalho “não é assim tão positiva”, pois “a tendência é para haver algum prejuízo em termos de carreira”, mesmo que tal não aconteça propositadamente. Como justificação, aponta a “menor proximidade”, que leva muitas vezes a esquecimentos nem sempre deliberados, mas apenas porque “não me cruzei com a pessoa hoje no pequeno-almoço”.

Na perspetiva da especialista em recursos humanos, “um dia ou dois em teletrabalho é uma coisa perfeitamente gerível e integrável na cultura da organização e das equipas”, o que é bem diferente de “uma pessoa estar permanentemente em teletrabalho quando todas as outras não estão”. Desta forma, contribui-se para que “os laços não se percam”, porque “uma permanência em teletrabalho tem de lidar com fenómenos inconscientes e de enviesamento de proximidade, quer com as chefias quer com os colegas”. Tendo em conta que “somos humanos”, ou seja, permeáveis a este tipo de interferências, a também docente no Instituto Superior de Economia e Gestão antecipa que “estes fenómenos vão surgir na avaliação do desempenho e na gestão das carreiras”.

Aliás, apontando exemplos de empresas que optam por ter alguns colaboradores em teletrabalho, refere que aqui se encontram “as pessoas que estão claramente fora do percurso de carreira mais típico e de maior ascensão”. Significa isto que quem está em teletrabalho não chega a CEO?, quis saber o moderador. Susana Almeida Lopes foi taxativa na resposta: “Eu digo que não, pelo menos quem está 100% em teletrabalho quando uma parte significativa [da empresa] não está.”

“Um dia ou dois em teletrabalho é uma coisa perfeitamente gerível e integrável na cultura da organização e das equipas”
Susana Almeida Lopes, Managing Partner na SHL Portugal

Como vão ser os escritórios do futuro?

Para Caetano de Bragança, “um ou dois dias em teletrabalho pode ser altamente positivo” para todos e até para o ambiente, ajudando a atingir metas de sustentabilidade ambiental. Mas será que a disseminação desta realidade vai ditar o fim dos escritórios tal como os conhecemos hoje? O arquiteto tem uma perspetiva muito favorável do que está para chegar. “Nós estamos em evolução contínua, podemos desenhar o futuro”, afirma, prevendo que “os espaços de trabalho vão ser muito mais virados para a socialização”. Quer isto dizer que, na sua perspetiva, “os espaços não vão deixar de existir, bem pelo contrário, vão melhorar”, pois “as pessoas já não vão passar oito horas por dia sentadas a uma secretária, isso já não faz sentido”, vaticina. Em concreto, prevê que “os escritórios vão tornar-se espaços em que a colaboração tem de ser feita com mais qualidade”. Mesmo não passando tanto tempo no escritório, as pessoas virão aqui para “colaborar, trocar ideias e inovar”. “Inovar o mais possível está muito dependente da rápida e boa colaboração entre talentos e para se ter estes talentos nas empresas é preciso dar-lhes um contexto”, pormenorizou, realçando a “importância de um bom espaço”.

E será que é a colocar mesas de matraquilhos e de pingue-pongue nos espaços de trabalho que estes vão passar a corresponder ao que os colaboradores querem ou precisam? Caetano de Bragança frisa que esta “é uma estratégia pensada ao centímetro” para que as pessoas queiram lá passar a maior parte do seu tempo, não só a trabalhar, mas também a fazer amigos e a divertirem-se. A este propósito, alerta para os perigos de as pessoas se estarem a “fundir com a tecnologia” e defende mesmo a necessidade de se criar uma “etiqueta digital”, que determine a hora a partir da qual não devem ser enviados e-mails de trabalho, por exemplo.

“Os espaços não vão deixar de existir, bem pelo contrário, vão melhorar”, pois “as pessoas já não vão passar oito horas por dia sentadas a uma secretária, isso já não faz sentido”, vaticina
Caetano de Bragança, Head of Workplace Strategy JLL

Como desligar em teletrabalho?

O teletrabalho veio agravar precisamente a dificuldade que algumas pessoas já sentiam em conseguir desligar-se do trabalho. Segundo Teresa Espassandim, “durante a pandemia isso exacerbou-se”, constatando que “há problemas graves de adição tecnológica” desde idades muito jovens, até porque no decurso do isolamento este é o meio de socialização e até de frequência das aulas.

Por outro lado, a psicóloga salientou o papel das chefias na organização do trabalho e no direito ao descanso dos colaboradores, explicando que quando aquelas enviam um e-mail fora de horas e alguém responde, todos os que não o fazem “estão em desvantagem”. Apelou ainda às lideranças para permitirem ao colaborador o “desenvolvimento de outras dimensões da vida”, as quais “trazem também inputs de criatividade e de bem-estar, que não são mascaráveis com mesas de bilhar, aulas de ioga ou com a festa de Natal”. No seu entender, estas práticas “serão um gasto inútil de dinheiro se não forem acompanhadas de sumo”, sendo que o conteúdo relevante passa sobretudo pela organização do trabalho, pela definição clara das funções dos colaboradores e pela autonomia e competências destes.

Em perfeita sintonia sobre este tema, Susana Almeida Lopes corrobora que os elementos associados aos espaços físicos podem ser interessantes, mas “os principais móbeis de atuação e desempenho e de satisfação não são esses. No topo temos o feedback, a relação com as chefias e com os colegas”. “Se isso não estiver bem preservado e bem oleado escusam de pôr mesas de pingue-pongue”, rematou.

“Os principais indicativos de atuação e desempenho e de satisfação não são esses. No topo temos o feedback, a relação com as chefias e com os colegas”. “Se isso não estiver bem preservado e bem oleado escusam de pôr mesas de pingue-pongue”,
Susana Almeida Lopes, Managing Partner na SHL Portugal

Empresas que são um exemplo

Ainda assim, os líderes têm consciência da importância da qualidade dos espaços e, segundo Caetano de Bragança, este aspeto pode até ser decisivo no momento do recrutamento e, depois, na retenção dos talentos: “Não pode ser só casca.” A este propósito, refere que as empresas procuram, cada vez mais, ir ao encontro das necessidades dos colaboradores no que diz respeito à logística da vida pessoal, o que “vai desde a lavandaria até à receção de encomendas”, exemplificou, mas deixando claro que o fazem “de um ponto de vista humanizante e não interesseiro”.

Quanto a exemplos concretos de empresas cujos espaços de trabalho sejam invejáveis e inspiradores, o Head of Workplace Strategy da JLL realçou a importância de os locais traduzirem valores com os quais os colaboradores se identificam, nomeadamente a partilha de recursos e a sustentabilidade ambiental. A este propósito, deu como exemplo o edifício da Roche, em Basileia, Suíça, construído para receber duas mil pessoas e com uma “belíssima arquitetura”, mas onde foi integrado o mobiliário que a companhia farmacêutica já possuía, assinalando o intuito de que “os escritórios tenham um propósito real”.

Por seu turno, Teresa Espassandim apontou a Philips Portugal, um espaço que descreve como “muito clean” e adaptado ao facto de haver muitas pessoas em teletrabalho, logo, não havendo secretárias atribuídas nem personalizadas. Também destacou a Pipedrive, uma agência de comunicação a funcionar num “espaço contemporâneo e onde é possível trabalhar por projetos, com espaços para calls e outros espaços mais amplos”. Todavia, a psicóloga referiu que estas duas empresas incluíam outras dimensões, nomeadamente “o bem-estar e a saúde”, funcionando bem no conjunto.

Já Susana Almeida Lopes, que diz trabalhar e concentrar-se bem “em qualquer lado”, recordou o espaço da sociedade de advogados Vieira de Almeida, que, por ser muito amplo, disponibiliza trotinetes para que os colaboradores se desloquem mais facilmente no interior. Mas o seu sonho quanto a espaços de trabalho ainda está por concretizar e foi com ele que a conversa terminou, deixando a todos um sorriso plasmado nos ecrãs: “Se eu pudesse era mesmo isso que eu tinha, um escritório na árvore.”

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