Dirk Niepoort: “As pessoas acham que eu sou maluco”

29 Janeiro 20171.753

Demorou a apaixonar-se pelo vinho. Não é enólogo, mas quis produzir vinho de mesa numa altura em que o Douro era apenas conhecido pelo Porto. Aos 52 anos, diz-se um homem irrequieto e sonhador.

“Não vais mesmo conseguir tratar-me por tu, pois não?” A pergunta inesperada foi feita num tom e postura descontraídas, como já vem sendo habitual com Dirk Niepoort. O nome pode ser difícil de soletrar, mas são poucos os que, no universo do vinho, não conhecem o produtor de caracóis, óculos sempre postos e colete vestido. Aos 52 anos, Dirk está à frente da empresa familiar instituída no século XIX: é a quinta geração dedicada ao vinho e, ao contrário do que se possa pensar, é também a geração que quis (e quer) ir mais longe.

De um modo geral, as pessoas acham que Dirk Niepoort é maluco — tal como o próprio afirma em entrevista –, apesar de já ter dado provas do que é capaz. Foi ele quem ajudou a abrir caminho para a produção de vinhos de mesa no vale do Douro, quando a região e os seus produtores estavam ainda e apenas de olhos postos no vinho do Porto. Dirk não é enólogo e afirma que tudo o que sabe foi de conversar muito, e em diferentes línguas, com produtores pelo mundo fora.

Considera-se um sonhador de pés assentes na terra, um irrequieto. Revolucionário e insatisfeito, nunca. Não tem receio de tecer críticas à indústria do vinho, mas também reconhece que Portugal e o vinho que cresce nas diferentes regiões está na moda. Só tem receio que nós, os portugueses, não saibamos aproveitar a onda positiva que está a percorrer o país: “Agora vamos ver se somos os ‘aldrabõezinhos’ do costume ou se temos algum bom senso.”

Li que todos os membros da sua — desculpa, tua — família são grandes colecionadores. O avô colecionava selos, moedas e bilhetes de comboio. O pai colecionava carros antigos e armas portuguesas. O que é que colecionavas ou colecionas?
Realmente, na minha família há a tendência para colecionar. Eu tive uma panca parecida, colecionei máquinas de escrever. Só que é uma coleção um bocado complicada porque ocupa muito espaço — só os carros é que são piores… Mas deixei de colecionar. E não coleciono garrafas. Gosto de beber bom vinho e a garrafeira é para ser bebida, não é para guardar tudo. Claro que se vai guardando algumas coisas para os momentos certos, mas não é na lógica de colecionador.

Dizes que as máquinas de escrever ocupavam muito espaço. Chegaram a ocupar uma divisão inteira?
Acabaram por ter de sair da casa porque já não havia espaço para elas. Tiveram de ir para a garagem. Ainda lá estão algumas. Tinham todas mais de 80 anos. Tenho uma da qual ainda gosto muito, é uma máquina de escrever japonesa.

Vamos falar de negócios. Estás desde 1997 à frente de uma empresa familiar que foi instituída em 1842. O que fez a tua família trocar a Holanda pelo Douro?
Não sabemos por que a família veio para Portugal. Pensamos que terá tido que ver com têxteis, ou seja, nada relacionado com o vinho. Poderá ter tido também qualquer coisa que ver com bacalhau, mas não temos certezas.

"Nunca fui pressionado para entrar no mundo dos vinhos mas, no dia-a-dia, estava sempre ligado aos vinhos. Os meus pais convidavam clientes para almoçar e eu era responsável por abrir as garrafas e por decantar o vinho." 

Li que a família cresceu numa zona da Holanda onde nem sequer havia consumo de bacalhau.
É por isso que é muito vago. Não fazemos ideia.

O negócio tem passado de geração em geração — atualmente vai na quinta. Cresceste a saber que ias herdar este legado?
Não, eu nunca fui pressionado para entrar no mundo dos vinhos mas, no dia-a-dia, estava sempre ligado aos vinhos. Os meus pais convidavam clientes para almoçar e eu era responsável por abrir as garrafas e por decantar o vinho. Mas não houve amor à primeira vista. Acabei por ir fazer uns estudos na Suíça, mas de economia. No primeiro estágio que fiz pude escolher entre um banco e uma empresa que fornecia vinhos — fui parar a essa empresa, onde eles tinham um livro interno sobre vinho.

Na altura não estava muito virado para ler o que quer que fosse e devorei aquele livro. Eu era muito agarrado, não gastava dinheiro nenhum — ao ponto de haver cafés e restaurantes que não me deixavam entrar porque eu era um miserável que nunca pedia nada — e um dia, por causa desse livro, resolvi gastar uma fortuna. Estamos a falar de 25 euros, o que para mim era muito dinheiro. Fui a uma loja e perguntei se tinham um Château Petrus. Disseram-me que sim e perguntaram de qual ano e eu… sei lá! Mas quando vi os preços fiquei um pouco assustado: estamos a falar de, em vez de 25 euros ou francos, 800 euros ou qualquer coisa assim. Então, mudei de tema e perguntei se tinham Château d’Yquem e era a mesma coisa. Saí da loja um pouco branco, desesperado, ao ponto de a minha namorada achar que eu estava doente. Efetivamente não percebia o mundo dos vinhos, não entendia como é que alguém gasta mil euros numa garrafa.

Depois, a primeira coisa que fiz foi ser voluntário em provas que a empresa fazia, só para servir os vinhos e ter a oportunidade de os provar. Por acaso, a primeira prova era de Château Petrus e… não percebi o vinho, continuo a não perceber. Mas pronto, continuei a ter algum contacto com vinhos e nunca quis que me pagassem nada. Dizia-lhes para no final me darem uma garrafa de qualquer coisa muito cara para eu ter uma garrafa muito cara. Assim nasceu, devagarinho, a minha panca pelos vinhos.

Lembras-te da primeira prova que fizeste com essa empresa?
Lembro-me bastante bem, foi o Petrus, ao qual não achei muita piada. Gostei mais de um vinho que eles têm chamado Château Madelaine, se calhar por ser um vinho mais óbvio. A segunda foi Guigal, um produtor do qual nem gosto muito, mas foi fascinante ter a oportunidade de provar os seus vinhos. E depois lembro-me que fui três meses para a parte francesa da empresa e tinha lá dois diretores que gostavam de mim e que todos os dias davam-me a provar qualquer coisa e explicavam-me tudo. Um dia convidei-os a jantar no meu “château“, que era uma casinha que se a cama estivesse feita já não dava para ninguém estar lá dentro — aquilo tinha para aí três metros quadrados. A minha namorada na altura disse que eu era maluco, que não podia convidar pessoas tão importantes. Mas convidei e lembro-me perfeitamente de termos bebido um Caves São João 63 e de termos comido uma lagosta — na empresa havia assim uns dias em que se podia comprar uma lagosta barata — e foi um jantar fantástico, muito simples, curioso.

O que é que os dois diretores disseram do vinho português?
Adoraram. Não conheciam mas, na altura, em 1985, gostaram muito deste vinho.

Curioso que o vinho não tenha sido a primeira paixão. É que imagino uma infância passada entre barricas e provas de vinho.
A gente já tinha o vinho do Porto e as caves de vinho do Porto. Tive uma relação muito forte com o nosso armazém, mas isso já depois de trabalhar. Antes ia lá de vez em quando, não era todos os dias. É curioso que a minha família está na quinta geração, mas paralelamente existe outra família, os Nogueira, que também estão na quinta geração. Eu passava muito, muito, tempo com o senhor José, que teve muita influência em mim. Ele basicamente ensinou-me a pensar nas coisas a 20 anos, ensinou-me a ter calma, ensinou-me a não ser nervoso demais, a dar tempo ao tempo. Eu passava muito tempo com ele a provar vinhos (quando já estava a trabalhar, antes não).

As gerações da família Nogueira — que acompanham os Niepoort há vários anos — foram e são master blenders, certo?
Eram e são os provadores que, no sentido mais lato, são também chefes de cave — as pessoas que organizam todo o trabalho das caves.

Como é que essa ligação nasceu?
Não faço ideia. Eu conheci quatro gerações. O senhor José é a terceira geração. Eu ainda conheci a segunda, mas muito mal. Aliás, nunca mais me hei-de esquecer porque foi a primeira pessoa que vi morta e ele estava branco, pensei que era um boneco e aquilo fez-me muita confusão. Por isso é que cemitérios e enterros são coisas que não me atraem assim muito. Eu era novito.

Trabalhaste quantos anos com o senhor José?
Muitos. Digamos que com o Zé Zé, que é a quarta geração, ainda hoje trabalho. Embora ele já não trabalhe oficialmente, quando a gente precisa ele aparece sempre e ajuda a fazer os lotes. Mas quando comecei a trabalhar com o meu pai… aquilo são lógicas um pouco diferentes, eu não falava com o Zé Zé, eu só falava com o pai. Uma vez perguntei-lhe: “Porque é que tu não provas também?”. E ele contou-me que sempre que eu saía, o pai provava com ele. São hábitos, maneiras de fazer as coisas.

Sei que fizeste viagens pela Europa com o carro cheio de vinhos, os quais trocavas com as quintas pelas quais passavas. Conta-nos essa história.
Vou responder de outra maneira. Eu não estudei nada relativamente ao vinho, de maneira que eu não sou enólogo e todo o meu saber foi visitando pessoas. Eu era um pouco preguiçoso, tinha más notas na escola. Os meus pais disseram-me sempre que eu era preguiçoso, mas aconselharam-me a aprender línguas por virem a ser importantes no futuro. Efetivamente, a língua foi muito importante porque consegui ir visitar produtores a Itália, França e Alemanha, e comunicar com eles. Eu não falo bem nenhuma língua, mas consigo desenrascar-me. Quando comecei a trabalhar com o meu pai, viajava muito. E como não tínhamos muito dinheiro, fazia muitas viagens de carro e muitas vezes dormia nele — às vezes dormia para não deixar as garrafas, porque tinha medo que me assaltassem o carro. Cheguei a fazer uma viagem de dois meses seguidos, todos os dias a visitar clientes, a almoçar com um, a jantar com outro. Fiz cerca de 20 mil quilómetros. Foi um pouco de loucos, marca uma pessoa.

Esta viagem que fizeste foi ainda a propósito do vinho do Porto?
Sim, quando eu comecei não havia vinho de mesa. Curiosamente quando saí da Califórnia [Dirk fez uma viagem aos EUA quando ainda não trabalhava com o pai], um amigo perguntou-me se ia fazer vinho do Douro quando voltasse para Portugal. Eu disse que ia fazer vinho do Porto e ele perguntou: “E vinho tinto?”. “Isso não sei, se calhar sim”, respondi. Mas era estranho porque na altura não havia [vinho de mesa]. Havia o Barca Velha e o Quinta do Côtto, mas fazer vinho no Douro não era uma coisa tão normal como hoje parece. Eu não percebia nada de vinhos, de maneira que disse: “Olha, o meu primeiro vinho vai ser um monstro, mas daqui a 25 anos acho que vou fazer um vinho fino, elegante”. É giro porque chamei o primeiro vinho de Robustos, era um vinho pesado, um pouco extraído, tinha 14 de grau [alcoólico]. Hoje ainda está muito bom, parece que está cada vez melhor. Passados 24 anos, estamos a fazer vinhos muito mais elegantes, muito mais afinados do que nos últimos 20 anos. Lá está, um pensamento a 20 anos… é um pouco estranho, eu sei.

"Eu não estudei nada relativamente ao vinho, de maneira que não sou enólogo e todo o meu saber foi visitando pessoas. Eu era um pouco preguiçoso, tinha más notas na escola. Os meus pais aconselharam-me a aprender línguas por virem a ser importantes no futuro e efetivamente a língua foi muito importante porque consegui ir visitar produtores a Itália, França e Alemanha e comunicar com eles. " 

Entraste na empresa com pouco mais de 20 anos, em 1987, e revolucionaste a sua estrutura marcadamente tradicional. O que fizeste ao certo? E que tipo de resistência encontraste?
Começou por eu achar que uma empresa como a Niepoort devia ter uma quinta. Na altura, o meu argumento foi ter a quinta nem que fosse só para vender o peixe, só para dizer que o melhor vinho é feito naquela quinta. Só para os jornalistas. Era óbvio que eu queria tocar e queria fazer, mas o meu pai achava que não tinha interesse nenhum. Acabámos por comprar a Quinta de Nápoles, a qual eu não queria comprar porque achava que não era boa para vinho do Porto. Por mim comprava uma quinta no cu de judas, em qualquer sítio, o importante era que fosse muito boa. O meu pai tinha a prioridade de não ser muito longe do Porto, de ter acessos bons, perto da Régua. Mas acabámos por comprar a Quinta de Nápoles, onde tentei fazer um vinho do Porto e detestei. Nunca mais fiz vinho do Porto naquela quinta.

A história gira no meio disto tudo é que aquela zona é muito boa para vinhos tintos. Quase sem querer fui empurrado para fazer vinho de mesa. Temos de ver que a Niepoort era uma empresa muito pequena, nós não tínhamos dinheiro, não tínhamos nada, de maneira que tive de improvisar muita coisa: as primeiras cubas que fizemos em Nápoles fui eu quem as desenhou para não terem pernas porque as pernas eram muito caras; era tudo assim um bocadinho mal feito. Mas os resultados não são maus: a gente prova hoje em dia um Redoma de 1991 e está fantástico.

Em 1999 eu basicamente encostei o meu pai à parede e disse lhe: “Ou a gente aposta no vinho a sério, ou então desistimos porque começamos a ter alguma notoriedade, responsabilidade, e para estar a fazer coisas mal feitas… não é assim que a Niepoort funciona”. Na altura contratámos o primeiro enólogo que alguma vez tivemos e comprámos umas barricas melhores. Aí é que começou uma era nos vinhos de mesa. Nessa altura eu já estava a gerir a empresa mas o meu pai estava lá comigo, de maneira que as coisas tinham de ser acordadas. Mas a verdade é começámos a dar alguns saltos qualitativamente e também a nível de quantidade. Foi um passo importante.

Deixa-me recuar um pouco. O primeiro vinho de mesa foi Robustos, em 1999. Qual a história por trás desse vinho?
Na altura do Robustos fiz quatro pipas e mandei-as para Gaia e fui fazer um estágio à Austrália. A certa altura o meu pai liga-me e diz: “Olha, o teu vinho é uma merda”. E eu “Olá, bom dia. Estás bom?”. Perguntei-lhe porquê e respondeu-me que cheirava muito mal. “O Zé Zé diz que cheira mal.” Se o Zé Zé achava isso, então era motivo para ficar preocupado. Desliguei o telefone e telefonei ao Zé Zé e ele muito calmamente disse: “Dirk, não cheira mal, está a fazer a malolática, de maneira que está naquela fase em que não cheira muito bem. Mas o vinho está bom”. Quando voltei, passados alguns meses, apercebi-me que o meu pai tinha usado três das quatro pipas para dar ao pessoal sem me perguntar. Não achei muita piada. Pouco depois tive uma prova com os enólogos do setor e levei o meu vinho, todo contente, e toda a gente se riu de mim e disse que o vinho era uma merda, que era pesado demais, que tinha muita cor. Lá está, ninguém fazia vinho… A verdade é que fiquei um pouco frustrado. Voltei para Gaia, para o armazém, e disse ao Zé Zé que aquele vinho ia ser para o meu filho (que já tinha nascido): “Ninguém toca nisto, só o Zé Zé e eu, não deixe o meu pai tocar nisto”. É um vinho que ficou quatro anos em pipa e que nunca vendemos, por isso é que ainda temos garrafas. O primeiro vinho comercial foi o Redoma 1991.

Como está o Robustos hoje em dia?
Está muito, muito bom.

Tiveste muita resistência da parte do teu pai quando entraste para a empresa?
O meu pai não é um bom professor, mas teve uma grande, grande virtude: deixou-me fazer muita coisa, empurrava-me para a frente, atirava-me para a água, virava as costas e ia-se embora. Imagino que olhasse para trás para ver se eu sabia ou não nadar, mas empurrava-me e deixava-me resolver certas coisas. Isso obriga uma pessoa a pensar de outra maneira. A minha mãe um dia disse-me que o meu pai queria sair da empresa. Eu ri-me. “Ele ontem à noite disse-me que já não quer ir trabalhar.” Não sei se era verdade ou não, o que sei é que não dormi bem nessa noite, adormeci para aí às cinco da manhã e acordei às seis muito bem-disposto. Naquele dia percebi que, se ia gerir uma empresa, não podia pensar nas coisas pequeninas — tinha de pensar do princípio até ao fim, tinha de controlar tudo, saber o que estava a fazer e ter um objetivo. A partir daí foi fácil para mim por causa dessa decisão mental. Obrigou-me a pensar de uma maneira completamente diferente: até àquele dia eu não sentia responsabilidade, era o meu pai o responsável. Antes, eu podia fazer as asneiras todas que a culpa era dele. A partir daquele dia senti que não podia fazer asneiras e isto muda muita coisa na cabeça de uma pessoa.

Uma vez à frente da empresa, qual é que foi a tua primeira preocupação?
Não houve uma coisa, foi de um dia para o outro mudar tudo na minha vida. Antes de tomar uma decisão pensava nos problemas, mas a partir desse dia passei a achar que o problema não é um problema, que faz antes parte de um todo. Eu acho que sou um bom comunicador, mas acho que as pessoas não me entendem. Se uma pessoa está a fazer um plano, um investimento a pensar nos próximos 20 anos, ninguém vai entender isso. A tua lógica a dois meses se calhar está certa, bem como a minha a 20 anos. Agora, como é que eu te vou explicar, tu que pensas em dois meses, que isto vai ser a 20 anos e vai passar por isto e aquilo? As pessoas depois pensam que eu sou maluco e isto não tem lógica nenhuma e complica a minha vida no dia-a-dia. Se uma pessoa tiver colaboradores bons, se tiver pessoas competentes, que sabem mais do que eu naquilo que fazem, e se houver um espírito de equipa e confiança, as pessoas fecham os olhos: “O maluco quer assim, vamos fazer como ele quer”. E depois vai-se corrigindo. Assim consegue-se chegar mais longe, acho.

Mas as pessoas acham mesmo que és maluco?
Eu não acho, eu tenho a certeza. Curiosamente, uma pessoa poderia pensar que como já dei provas de muita coisa, que as pessoas vão acreditar mais em mim. Em parte, sim. Agora, parece que no dia-a-dia as pessoas querem provar exatamente o contrário. Eu ter feito muita coisa não simplifica nada a minha vida, antes pelo contrário. Não sei porque é que as pessoas reagem assim, parece que querem provar que elas é que sabem. O facto de eu já ter provado que até sei fazer qualquer coisa parece que faz as pessoas ter ainda mais atrito.

"O meu pai não é um bom professor, mas teve uma grande, grande virtude: deixou-me fazer muita coisa, empurrava-me para a frente, atirava-me para a água, virava as costas e ia-se embora. Imagino que olhasse para trás para ver se eu sabia ou não nadar, mas empurrava-me e deixar-me resolver certas coisas."

Por falar em provas dadas, o que te levou no caminho dos vinhos de mesa numa altura em que o vinho do Porto era o único protagonista?
Acho que sonhar é muito importante e nos sonhos podemos fazer tudo e ser tudo. O céu é o limite. A única coisa que é importante na vida é sonhar muito e, depois, acordar com os pés assentes na terra. O que se está a passar hoje no Douro era o que eu achava que se ia passar 20 anos depois, na altura. Esta vertente do turismo, do vinho de mesa, da gastronomia, tudo isto que está a acontecer no Douro para mim era óbvio que ia acontecer há 20 anos. Se calhar demorou um pouco mais do que eu pensava. Um exemplo simples: qualquer pessoa do Douro há 25, 30 anos não gostava do Douro. O Douro é duro, é muito quente, é muito frio, é muito íngreme, é muita pedra, produz pouco… São argumentos muito negativos, mas eu não via o negativo, eu via a coisa positiva. Isto é lindo, temos de mostrar isto ao mundo e criar condições para trazer cá as pessoas. O turismo para mim era uma coisa que ia acontecer e, com o turismo, tem de se criar gastronomia, tem que se entreter as pessoas, etc. Eu por mim já tinha feito um restaurantezinho e um hotelzinho lá. As pessoas pensam sempre ao contrário. Ou eu penso ao contrário. Eu adoro a Bairrada, acho que é o melhor terroir que temos em Portugal, mas de todas as vezes que vou da Bairrada para o Douro fico com pele de galinha — aquilo é lindo demais.

Fazer vinho de mesa era parte de um todo do potencial da região do Douro?
Sim. Tenho falado muito com os nossos colegas do setor do vinho do Porto e não vou dizer que seja simples, mas na minha cabeça era fácil resolver muitos problemas. Mas as pessoas andam tão vidradas no vinho do Porto que andam à pancada entre elas a baixar preços e estão-se a auto-destruir. A gente não tem de pensar no setor do vinho do Porto, mas sim no Douro. O setor do vinho do Porto vive do Douro e vice-versa. Mas o Douro tem um futuro fantástico se nós levarmos o vinho do Porto um pouco mais a sério, deixarmos de fazer tanta quantidade, ou seja, reduzir a produção de vinho do Porto aumentando o vinho de mesa — é bom para o setor, para o Douro. A solução para o vinho do Porto é muito fácil e passa por “snobizar” o vinho do Porto, mostrar ao mundo que é o melhor vinho doce do mundo. Não é um vinho para todos os dias, é um vinho especial. Em relação ao vinho de mesa, temos de fazer algumas marcas grandes e não vendê-las baratas — mas o vinho também não pode ser muito caro. Marcas fortes, vinhos de garagem, ou seja, pequenas quantidades — duas, três ou cinco mil garrafas — para mostrar ao mundo que conseguimos fazer vinhos tão bem como Bordéus ou Califórnia, e respeitar a região valorizando-a com o turismo. Fazer um turismo de qualidade e não barato, mas para isso é preciso entreter as pessoas. Isto é um ciclo global que acho que só pode correr bem porque o Douro é especial.

No Observador fizemos há pouco tempo um trabalho sobre o vinho do Porto que é consumido de diferentes formas e está agora a chegar às camadas mais jovens.
Pessoalmente não gosto muito de cocktails, acho que forçar o vinho do Porto para os cocktails não me parece muito inteligente nem muito lógico. Eu até gosto do Porto tónico, mas não ia por aí. Acho que se pode fazer, mas não é a salvação do setor, temos de levar o vinho do Porto mais a sério, temos de fazê-lo melhor, temos de vendê-lo mais caro e não podemos entrar em guerras de preço no supermercado porque, um dia destes, vai haver uma banalização e a partir daí morre tudo. O Jerez [vinho de Jerez de la Frontera, região em Espanha] passou por isso há 50 anos e ainda não conseguiu recuperar. Acho que devíamos “snobizar” o vinho do Porto, que é um dos grandes vinhos do mundo. Se calhar o que temos de fazer mais é mostrar o vinho do Porto bom às camadas mais jovens com respeito — uma coisa séria que se bebe um pouco de vez em quando, que sabe bem e que acompanha a sobremesa e os queijos. Não é assim tão difícil, é preciso é fazer um trabalho mais sério.

O vinho português é barato?
É muito simples: a gente paga as coisas boas e as coisas más que faz. Portugal fechou-se por causa do salazarismo e por causa de razões económicas, entre outras questões. Criou o corporativismo, vendemos gato por lebre, não houve um cuidado de fazer bem, desgastámos uma imagem que já foi positiva. Portugal, lá para 1900, tinha nome e tinha qualidade. A culpa é nossa. Os franceses souberam vender o peixe deles. Fazem 300 mil garrafas de Château Lafite, mas fazem com mais cuidado as 300 mil do que quase todo o português que faz cinco mil garrafas. Há uma atitude de excelência, há um cuidado… Eles souberam ter muitos cuidados para preservar uma imagem e criaram uma imagem tão boa que conseguem vender os vinhos muito caros. As pessoas têm tendência para culpabilizar os outros, mas a culpa é só nossa. Nós fechámos-nos, fizemos desgraças durante muito tempo e agora estamos a pagar as favas — agora temos de fazer melhor do que eles e durante mais tempo para poder limpar a nossa imagem negativa. Acho que Portugal está num bom caminho. Portugal tem neste momento a faca e o queijo na mão para mudar tudo e mais alguma coisa. Agora vamos perguntar se nós “portuguesinhos” vamos fazer isso ou vamos aproveitar a moda para vender outra vez gato por lebre. Vamos aproveitar-nos dos turistas, vamos vender as coisas más caras e estragar esta onda? Esta onda é positiva e pode durar muitos anos, como ser estragada em cinco anos, de maneira que, uma vez mais, temos tudo nas nossas mãos, depende só de nós. As portas estão abertas para fazermos um bom trabalho e, para mim, isto é fácil de ver. Temos de aproveitar esta onda servindo o estrangeiro muito bem, mandar coisas boas lá para fora e, depois, devagarinho, aumentando os preços. Agora vamos ver se somos os “‘aldrabõezinhos'” do costume ou se temos algum bom senso.

Se o vinho ficar mais caro, os portugueses vão continuar a poder adquiri-lo?
Não estou nada preocupado com isso porque, se nós conseguirmos vender, então alguém vai ganhar dinheiro e isso é bom para Portugal. Segundo, Portugal é muito pequenino mas produz muito vinho, temos é de fazer cada vez melhor. E há mais uma coisa: somos um país que ficou muito fechado, que ficou parado no tempo. Na Europa fizeram tudo muito bem, cresceram, mas com todo esse processo destruíram quase tudo. Nós temos um tesouro nacional que quase nenhum outro país tem — nós temos uma quantidade enorme de castas que já não existem, temos vinhas velhas que já não existem lá fora. O que temos de fazer é o contrário do que a maior parte dos intelectuais diz: não temos de ir copiar as pessoas lá fora, temos de acreditar em nós e, com a prata da casa, fazer uma coisa individual, com personalidade. Depois, é preciso fazer um esforço grande para mostrá-lo. Sendo diferente ao princípio custa, mas a partir do momento em que entrar numa moda, é fantástico porque aí já não somos comparáveis. Então, sim, podemos aumentar os preços.

"Portugal, lá para 1900, tinha nome e tinha qualidade. A culpa é nossa. Os franceses souberam vender o peixe deles. Fazem 300 mil garrafas de Château Lafite, mas fazem com mais cuidado as 300 mil do que quase todo o português que faz 5 mil garrafas. Há uma atitude de excelência, há um cuidado."

A nossa identidade passa pela diversidade?
Nos últimos 30 anos a conversa era sempre à volta de termos de produzir mais e ser mais competitivos, de termos de plantar cabernet sauvignon, chardonnay… termos de nos adaptar aos outros. O problema é que os outros vão sempre fazer mais barato e melhor do que nós. Nós podemos fazer muito melhor do que eles porque temos coisas que eles já não têm. Temos de ir pela individualidade. Por exemplo, a Bairrada é a região mal amada de Portugal, a única sobre a qual oiço sempre as pessoas dizer ativamente “da Bairrada não gosto”. Porque é que é assim? Porque a Bairrada fez os piores vinhos de Portugal durante décadas. O bairradino não quer aprender com ninguém, eles gostam de fazer assim, fazem tudo mal. Agora vem a moda de plantar cabernet sauvignon, mas eu aposto que daqui a cinco anos a Bairrada vai ser a coqueluche de Portugal. Por causa da Baga, por causa das vinhas velhas, por causa dos solos fantásticos. É uma zona difícil, é, mas quanto mais difícil, mais se tem de pensar. Acredito que a Bairrada vai ser uma moda e que vai continuar a fazer vinhos maus. Espero que daqui a cinco anos haja produtores fantásticos. Há muita coisa que se pode fazer em Portugal. Eu sou um otimista e acredito muito no nosso país.

Tens uma quinta no Dão e outra na Bairrada, Quinta de Baixo. Também acreditas nestas regiões?
A Bairrada sempre foi a minha grande paixão. Foi, à parte do Douro, a primeira região onde produzi vinho. Fiz lá vinhos em 1992 até 1996, sempre gostei muito da Bairrada. A Filipa Pato [produtora bairradina e filha do produtor Luís Pato] um dia telefonou-me e disse: “Dirk, tenho aí uma jeropiga da minha avó e gostei muito daquilo. Ajudas-me a fazer um fortificado?”. Disse que sim e pedi-lhe para mostrar as vinhas porque sem uvas não se faz nada. A primeira vinha que ela me mostrou, pronto… apaixonei-me outra vez por aquilo. Fiquei maluco, perguntei se podia fazer um vinho tinto e ela não teve a coragem de dizer que não. Foi em 2010 e comecei a apaixonar-me outra vez. Em 2012 comprei a Quinta de Baixo.

Que projetos estás a desenvolver na Quinta de Baixo?
Estou a fazer aquilo que gosto, estou a ser intransigente e a fazer aquilo com que sempre sonhei na Bairrada. Eu tenho uma ideia diferente da Bairrada do que a maior parte das pessoas. A minha inspiração é uma pessoa chamada Dores Simões, foi o primeiro vinho que distribuí — eu gosto muito daquele estilo de vinho, não é aquele Bairrada clássico, é um vinho super elegante. O que estamos a fazer é pegar na inspiração desse Dores Simões e tentar afinar detalhes. Então, desde o primeiro dia que tenho sido extremamente intransigente e, para dizer a verdade, pensei que ia demorar dez anos a fazer o vinho de que eu gosto. Parti do principio que nunca ia vender bem os vinhos, porque ninguém ia gostar, mas mesmo assim fiz o que quis, quando quis. Neste momento estou muito contente porque desde o primeiro vinho que as coisas estão a correr muito bem. Os vinhos estão melhores do que o que jamais sonhei, ainda que haja muita coisa para afinar. É um projeto que está a correr fantasticamente bem.

Os teus vinhos — Vertente, Redoma, Batuta e Charme, por exemplo — são o reflexo, ou o espelho, de um Douro multifacetado. Estamos a falar de perfis quão diferentes entre si?
Já passei por várias fases e há vários jornalistas que me acusam de mudar de estilo. Por acaso não acho que seja assim, mas é verdade que tenho evoluído — para melhor, penso. Já passei por várias fases. O melhor exemplo é o Redoma: nasceu forte e feio, não tinha condições, era um vinho rústico e, a partir de 1999, passou a ser um vinho mais civilizado, mais bem feito. Não sei se melhor, mas tecnicamente mais perfeito. A partir de 2005 há um afinamento claro em todos os aspetos e, a partir de 2013, há um polir dos vinhos. Os vinhos hoje são muito mais leves em termos de grau, menos extraídos, são mais frescos, mas se eu olhar para o Redoma acho que há uma linha muito clara e, agora, ele está a voltar quase ao que foi, só que muito mais afinado. Desde 2013 que estamos a separar muito mais de onde vêm as uvas, ou seja, o Redoma é quase tudo vinhas à volta da Quinta de Nápoles — muitas vinhas em exposição norte, vinhas altas, muita tinta amarela–, e as vinhas do Batuta são de duas regiões que acho das mais finas do Douro, um pouco mais altas, vinhas muito velhas que não têm muita tinta amarela, mas muitas castas diferentes. Eu acredito que a questão do terroir é muito importante: com as uvas do Redoma não podia fazer um Charme, mas com as uvas do Charme podia fazer o Redoma, mesmo assim ia ser muito diferente do que é hoje.

Eu sou irrequieto, procuro sempre fazer melhor. E, de certa maneira, hoje temos muito mais técnica, melhor equipamento. Mas, na verdade, o que estamos a fazer cada vez mais é usar cada vez menos essa técnica. Menos é mais. A atitude é cada vez mais purista, não usamos químicos nenhuns — usamos um pouco de sulfuroso –, é mesmo deixar as uvas falarem o que são e interferir o menos possível. Não estou sempre a fazer a mesma coisa, a ideia é evoluir.

"Eu não sou um revolucionário, acho que esta é uma palavra errada para me descrever, respeito muito os velhinhos."

Dizes que és irrequieto. Também te consideras um eterno insatisfeito?
Não, insatsifeito é uma palavra má. Eu gosto do que estou a fazer, procuro é fazer melhor, procuro evoluir. Sou irrequieto mas não sou insatisfeito. Na Bairrada, por exemplo, estou muito satisfeito.

E revolucionário?
Eu não sou um revolucionário, acho que esta é uma palavra errada para me descrever, respeito muito os velhinhos.

Dos vinhos para a mesa: tens fama de receber bem quem passa pela Quinta de Nápoles.
Na Niepoort temos uma maneira de trabalhar talvez diferente do habitual. Nós somos animais de hábitos e eu passei esses hábitos ao pessoal todo. Existe um automatismo de abrir as portas, faz parte daquele sonho que eu te dizia, de trazer cá as pessoas e, com os meios que temos, mostrar, abrir as portas, dar a provar, convidar, partilhar. Há uma coisa que faço quase sempre: eu não gosto de abrir vinhos nossos para as pessoas, dou-os a provar. Depois, à refeição, normalmente abro coisas diferentes. Acho que é muito importante dar a partilhar e descobrir coisas novas. Faz parte da nossa maneira de receber as pessoas, não é nada de especial, é só abrir as portas.

O que é que ainda não bebeste e gostavas de provar?
Há poucos. Gostava de conhecer a região de Cognac, nunca lá estive. Penso muitas vezes nisso, mas ainda não fui lá. De resto… gostava de ir à Geórgia, gostava de conhecer melhor a Grécia, já lá estive, mas foi há muito tempo e acho que a Grécia está a passar um momento parecido com Portugal. Conhecer, conhecer, visitar, visitar. Acho muito importante metermos o nariz em coisas diferentes: fazer um vinho nas Canárias ou nos Açores…

Alguma vez chegaste a duvidar de ti, do teu potencial?
Não tive tempo para isso. Penso muito nas coisas. Eu sou um computador que está sempre a sonhar com diferentes cenários. Sou lento a fazer as coisas, mas muito rápido a tomar decisões. É fácil para mim decidir porque já pensei antes em mil possibilidades. Não tenho medo porque as coisas estão muito bem pensadas, apesar de parecer que tudo o que faço é improvisado, parece que sou maluco. Por exemplo, quando construímos a adega: se uma pessoa normal olhar para o que fiz vai pensar que é um risco muito grande porque investimos cinco milhões numa empresa que faturava três milhões e meio. Era suicídio garantido. Por outro lado, aquilo foi planeado durante nove anos — fiz três adegas no papel, mas só foi construída a terceira. Fazer os desenhos implicou custos com arquitetos e tal. Da primeira vez chegámos à conclusão que eu não tinha dinheiro para pagar aquilo. A lógica portuguesa é perguntar onde é que se corta, mas eu não queria cortar nada — ou fazia como queria ou não fazia. Dois, três anos depois voltei a fazer um desenho com os mesmos arquitetos e, mais uma vez, não tinha dinheiro suficiente. Aí os engenheiros devem ter pensado que eu era maluco, que eu nunca ia construir uma adega. Mas eu já ia preparando o terreno: passámos de 15 para 50 países com clientes, comecámos a tornar os vinhos mais raros, a cortar em tudo com a lógica de que, no dia em que se duplicasse a produção, já teríamos os canais todos preparados — com muita fome comprar-se-ia o vinho. Eu tinha tudo preparado para não ir à vindima do vinho do Porto, comprei mais vinho do Porto para o ter em stock para, no momento em que tivesse de pagar a adega, assumindo que corria tudo mal, eu não tivesse que ir à vindima. Claro que isto são ideias que não são muito inteligentes, mas tinha várias cartadas. E a verdade é que a adega ficou pronta no ano da crise, 2007. Nunca tive dúvidas, nem problemas. A adega ficou pronta em nove meses, antes da vindima, e custou o que estava orçamentado. Eu nunca fiquei preocupado com as despesas das duas primeiras adegas. O meu avô sempre me disse: primeiro constrói-se a casa para os inimigos, a segunda é para os amigos e a terceira é para nós. Se olhares para a primeira, é estúpida demais para ser verdade, a segunda é bonitinha mas pouco prática e a terceira é perfeita. No fundo a adega foi barata porque foi bem pensada.

És exigente com o vinho que bebes em ocasiões sociais?
Eu sou sempre exigente, mas a minha exigência não é talvez normal — eu não preciso de beber vinhos caros, gosto cada vez mais de vinhos puros, autênticos, simples, que deem gozo beber. Vinhos modernos não suporto. Vinhos pesados, com muita madeira, muito extraídos, não me dão gozo beber. Nesse aspeto, o meu filho mais velho ainda é mais esquisito do que eu. É uma pessoa que cada vez menos liga aos rótulos, está cada vez mais preocupado em provar coisas boas de beber e não só para armar.

"Os supermercados controlam cada vez mais e os vinhos estão a ficar mais do mesmo, de tal maneira que há uma contracorrente de fazer vinhos mais naturais, não filtrados, sem sulfuroso. No início, os vinhos biológicos eram maus, hoje já não são."

Li que já consideraste que os vinhos estavam cada vez mais iguais. Esta crítica mantém-se?
Acho que está qualquer coisa a mudar. Se calhar tenho alguma culpa por essa mudança, mas lá fora também está a mudar. Penso que esta normalização, esta globalização, é cada vez maior. Os supermercados controlam cada vez mais e os vinhos estão a ficar mais do mesmo, de tal maneira que há uma contracorrente de fazer vinhos mais naturais, não filtrados, sem sulfuroso. No início, os vinhos biológicos eram maus, hoje já não são. Hoje são cada vez melhores e, falo por mim, eu não gosto dos vinhos a que chamo de pesadelo, que são muito pesados, muito alcoólicos, muito extraídos. Ainda os há e vai continuar a haver, mas há tendência a mudar e é aí que Portugal pode brilhar: vinhos com carácter, personalidade, vinhos “digest”, como lhes chamam os franceses, vinhos que fazem uma pessoa sentir-se bem.

Há castas ainda por descobrir e/ou explorar?
Muitas, nós ainda não conhecemos nada. O problema é que se calhar temos de ser menos científicos. O wine marker faz o vinho e acho que a approach devia ser ao contrário, acho que devíamos deixar a casta mostrar o que ela vale — depois, podemos gostar ou não. Portugal é muito rico em castas e há uma tentativa de recuperação. A Tinta Francisca é uma casta muito interessante no Douro.

Na altura das vindimas, mudas-te com a família do Porto para a Quinta de Nápoles. Os filhos gostam do Douro?
Eu é que vou para o Douro, eles já têm uma vida própria deles, já vão pouco. Mas quando eram obrigados a ir comigo parecia que gostavam muito. Por acaso perguntei há pouco tempo aos dois filhos se eles sofreram muito comigo e eles olharam para mim e perguntaram “sofremos como?”. E eu respondi que era um chato porque andávamos de carro para provar uvas e etc. Eles disseram que só se lembravam de coisas positivas.

Eles tinham muito espaço, faziam as suas asneiras, um dia até fizeram um vinho… A vantagem, penso, era que como nós recebíamos muitas pessoas e eles estavam sempre envolvidos nisso, aos jantares e aos almoços — às vezes iam visitar a adega com as pessoas –, isto deu-lhes uma abertura de espírito muito grande, eu noto isso. O mais velho, por exemplo, é um pouco parecido comigo. As pessoas pensam que eu gosto de estar no centro das atenção e que gosto de gente. Na verdade eu não gosto de gente, faço-o porque tenho de o fazer e adaptei-me. E o Daniel, se o metemos no centro de uma sala com muita gente, aquilo automaticamente vai para o lado, põe-se no cantinho a falar com uma pessoa ou duas. O mais novo… Tenho reparado que metes o gajo no meio da multidão e ele controla tudo, tem muito jeito para falar, adapta-se muito às pessoas, é totalmente diferente de mim e faz aquilo naturalmente.

Então eles é que cresceram entre vinhas e barricas?
Eles sim, muito mais do que eu.

Há alguma coisa na infância deles que gostavas de ter tido na tua?
Eu sou um otimista, eu não vejo as coisas pelo lado negativo.

E passaste esse otimismo e espírito sonhador aos filhos?
Acho que sim. O Daniel de certeza, o Marco ainda está à procura… ainda não sabe bem o que quer.

Vês o filho mais velho [o Daniel] a seguir os passos do pai na empresa?
As famílias não se escolhem, os amigos podem-se escolher. Eles têm de olhar para a vida deles, pensar no que querem fazer. Nunca houve pressão para entrarem no mundo do vinho. No caso do Daniel penso que não há dúvidas de que ele quer, ele já não precisa de mim para nada, já tem pernas para andar e já tem um projeto na Alemanha. O mais novo ainda anda à procura, interessa-se por vinho, tem outras forças que ele próprio ainda tem de descobrir. Para mim é muito importante que eles olhem pela vida deles. A partir do momento em que sabem o que querem, eu ajudou-os. Até lá eu não ajudo nada, eles têm de bater com a cabeça na parede.

É uma perspetiva semelhante à que o teu pai te passou.
Sim, é. O mais velho houve uma altura em que chorava porque eu não o ajudava. Uma vez disse-me: “Se tu me ajudasses eu tinha estágios melhores”. Lembro-me que lhe disse: “eu não te ajudo” e ele começou a chorar. Eu já não sabia o que fazer, tive de parar o carro e mandei-lhe um berro: “Repara uma coisa, eu sou o pai mais feliz do mundo por te estares a interessar no vinho, mas eu não posso mostrar isso. Tu tens de decidir a tua vida sozinho, até lá eu não te posso ajudar. Quando souberes o que queres, eu abro-te as portas todas”. Mais tarde foi para a África do Sul e eu fiz lá uns contactos. Ele ficou feliz da vida. Agora está bem.

Já agora, como é que tens conciliado a vida pessoal com a vida profissional?
Essa é uma pergunta malandra. Não distingo. Para mim é fácil, agora para a minha mulher se calhar não é assim tão fácil — eu tenho de ter cuidado por causa dela, porque para mim é fácil, eu adapto-me a tudo facilmente. Para mim trabalho não é trabalho, eu gosto do que faço, claro que há trabalho e pessoas chatas, mas mesmo assim é tudo o mesmo.

"O chá é outro sonho meu. Eu acredito muito no chá e acho que vai ser muito importante mas, na verdade, estamos a meter-nos numa alhada porque não sabemos o que vai acontecer."

Falemos de mais um sonho: li que queres plantar chá no Minho. De onde vem a ideia?
O chá é outro sonho meu. Normalmente corre [bem]. Eu acredito muito, muito no chá e acho que vai ser muito importante, mas, na verdade, estamos a meter-nos numa alhada porque não sabemos o que vai acontecer. Em 1986 eu queria criar uma distribuição de chá chinês em toda a Europa, mas o sonho era muito grande, era vender em todos os países da Europa chá verde de muita qualidade, mas também os tea bags, que na altura quase não havia. Queria criar uma distribuição, fui à China à procura de chá, mas na altura era cedo demais. A China era muito fechada, comunista, e eu não tinha dinheiro nenhum. Desisti e dediquei-me ao vinhos — se calhar também não foi mau. Mas entretanto trouxemos uma planta de chá da Suíça e começámos a sonhar, eu já tinha visto o chá nos Açores. Depois, começámos a comparar o clima de duas zonas do Japão com o nosso jardim, no Porto. Chegàmos à conclusão que se calhar o clima no Norte é perfeito. E há um argumento que eu dei à minha mulher: Portugal é famoso pelas japoneiras por causa do clima. Portugal trouxe as plantas do Japão no século XVI — ou qualquer coisa assim –, e realmente as camélias dão-se muito bem na nossa costa, por causa dos solos ácidos, da humidade, por não ser frio ou quente demais. A camélia sinensis é prima da camélia e, como sou muito simples na minha cabeça, pensei: “porque não?”. Então, começámos a fazer umas experiências, a planta aguentou; também plantámos no Douro por teima, sabendo que não ia dar bem, embora as plantas que sobreviveram estivessem muito boas. Agora já temos uma quantidade razoável [no Minho] e este ano vai ser a primeira colheita.

A última pergunta é sobre o colete que tens vestido. Disseram-me que faz parte da tua imagem de marca. Por algum motivo especial?
Nem sei de onde nasceu… Nasceu de eu não gostar de casacos. Não gosto de ficar fechado, deve ser um traço meu. Não gosto que as pessoas me façam pressão e não gosto de pessoas que me tentem controlar. Preciso de espaço. O colete é prático.

É uma analogia interessante.
É, mas olha que nunca tinha pensado nela.

Texto de Ana Cristina Marques, fotografia de Fábio Pinto.

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