Foi no verão de 1888, no mesmo ano em que nasceu o segundo filho de Eça de Queiroz e também Fernando Pessoa, que foi publicado no Porto, em dois volumes, Os Maias. O romance, obra maior do escritor português, tinha sido começado oito anos antes, após Eça abandonar uma outra obra, A Capital, que tinha sido começada depois de deixar um outro projeto, a que se chamou posteriormente A Tragédia da Rua das Flores. Em Os Maias é possível encontrar resquícios destes dois romances, que Eça deixou inacabados antes de se dedicar à sua grande obra-prima, mas nenhum deles chega aos calcanhares dessa “vaste machine com proporções enfadonhamente monumentais de pintura a fresco, toda trabalhada em tons pardos, pomposa e vã”, onde Eça colocou tudo o que tinha “no saco”.

É desse “saco” que fala a exposição que será inaugurada esta quinta-feira na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa (a partir desta sexta-feira, dia 30, estará aberta ao público). Intitulada precisamente Tudo o que tenho no saco”. Eça e Os Maias, a mostra, organizada pela Gulbenkian em cooperação com a Fundação Eça de Queiroz, percorre a vida e a obra de um dos nomes grandes da literatura portuguesa, ao mesmo tempo que assinala os 130 anos da publicação da sua obra-prima. Além de fotografias, cartas e pinturas (há três quadros de Paula Rego), esta inclui vários objetos pessoais de Eça (incluindo o famoso monóculo com que o escritor surge em algumas das suas fotografias mais icónicas), que serão mostrados pela primeira vez em Lisboa. E porque há muito que Eça de Queiroz extravasou para fora do papel, a mostra será acompanhada por uma programação paralela que inclui um ciclo de cinema, um espetáculo musical e uma série de “jantares queirozianos”, com uma ementa preparada de propósito para a ocasião pelo chef Miguel Castro e Silva. Não sabemos se esta irá incluir o famoso arroz de favas de A Cidade e as Serras, mas haverá certamente bacalhau, um dos pratos favoritos do escritor.

A ideia para esta exposição nasceu de uma conversa inicial com a Fundação Eça de Queiroz — uma instituição sediada na quinta de Tormes que pertenceu à família da mulher do escritor, D. Emília de Castro Pamplona (Resende) –, criada para divulgar a obra do autor em Portugal e além fronteiras. “Nós acolhemos a ideia e convidámos uma das maiores especialistas em Eça de Queiroz, a professora Isabel Pires de Lima, para fazer a curadoria. E de repente ficou esta maravilhosa exposição que apetece ver”, referiu Maria Helena Melim Borges durante a visita que o Observador fez à mostra antes da sua abertura, quando estava ainda em fase de montagem.

Apesar de a Gulbenkian ser sobretudo associada à pintura e às artes plásticas, esta não é a primeira exposição do género na fundação, que tem vindo a fazer um esforço no sentido de apresentar “os escritores de uma forma multidisciplinar”. A primeira mostra com este formato foi organizada em 2008, e pretendia “mostrar que a literatura portuguesa era uma literatura do mundo”. Depois dessa, seguiram-se outras, como explicou ao Observador a diretora-adjunta do Programa Gulbenkian de Língua e Cultura Portuguesas, que é também curadora executiva de “Tudo o que tenho no saco”: “Depois tivemos uma exposição sobre Fernando Pessoa, que veio do Museu da Língua [Portuguesa], do Brasil; depois tivemos uma sobre Clarice Lispector e este ano, em março, tivemos nesta mesma sala, uma exposição sobre António Tabucchi, e agora foi a vez do Eça”.

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