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dpa/picture alliance via Getty I

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Ensino à distância. Diferentes velocidades entre escolas, alunos sem computadores e pais sem tempo trazem à tona as desigualdades

Todos os professores foram obrigados a avançar para o ensino virtual mas as experiências divergem muito consoante as escolas e as próprias famílias. Investigadores pedem ao Governo mais regras.

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Laura. Leonor. Augusto. Júlia. Sofia. Matilde. Gabriel. Eva. Têm entre 2 e 12 anos, e espalham-se, em dias normais, por salas de aulas do pré-escolar ao 7.º ano. Há duas semanas tudo mudou. Sexta-feira passada teriam regressado a casa com mochilas mais carregadas de TPC para as férias, para gozar a pausa letiva da Páscoa. Mas o coronavírus trocou as voltas às suas quatro famílias. Agora é em casa, com ritmos muito diferentes, que vão recebendo indicações das escolas, a conta gotas ou de enxurrada, e que vão dando os primeiros passos numa sala de aula sem professor.

As escolas fazem o mesmo e adaptam-se à ausência de alunos. Umas ainda estão a meter a primeira mudança, outras já seguem em velocidade cruzeiro, como a Park International School, com quatro colégios em Portugal, ou o agrupamento de Alcanena, onde todas as semanas se afinam os motores.

Os representantes dos diretores, de escolas públicas e privadas, não têm dúvidas: todas estão a fazer a transição para o ensino digital e a pausa da Páscoa vai servir para garantir que o ano letivo termina da melhor maneira, até porque já ninguém acredita que o 3.º período possa ser feito dentro da normalidade. E não têm ilusões: escolas e alunos estão longe de ir todos à mesma velocidade.

Também por isso, Pedro Freitas e Hugo Reis, investigadores na área da economia da educação, pedem ao ministro Tiago Brandão Rodrigues regras claras para todas as escolas, que garantam que nenhum aluno fica para trás. Para já, com base nos números do Instituto Nacional de Estatística de 2019, deixam um alerta: haverá um universo de cerca de 50 mil alunos até aos 15 anos sem acesso a recursos educativos online.

Aqui há computador, mesmo que arcaico

A Laura tem computador. O Augusto e a Leonor também. Mas se esta última, aluna de 11 anos, que frequenta o 6.º ano no Agrupamento de Escolas Conde de Oeiras, já tinha um só para si, o mesmo não se passava com os outros dois estudantes. Depois de o coronavírus lhes bater à porta, as famílias desenrascaram-se com equipamento mais antigo, mas que vai dando para responder às solicitações dos professores.

No caso da Laura, 12 anos, as coisas não estão a correr mal, apesar da carga horária ser demasiada, na opinião da sua mãe. Mas isso não é novidade. Para Vera Vitorino, ainda antes da pandemia, o horário da filha, aluna do ensino articulado de música, era excessivo: 14 disciplinas e aulas de manhã e de tarde todos os dias da semana.

Na turma da Laura, um 7.º ano do Agrupamento de Escolas de Benfica, o fluxo de trabalho está controlado. “A informação chega por WhatsApp ou por email. Os professores informam a diretora de turma, ela envia para a representante dos pais, que sou eu, e em seguida envio para todos os encarregados de educação. Não está a correr mal”, conta Vera que tem a sorte de não receber dezenas de emails por dia.

Escola privada pioneira no ensino virtual recomenda que os alunos não estejam demasiado tempo à frente do computador

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Juliana, mãe de Augusto, Sofia e Gabriel (10, 7 e 2 anos) não pode dizer o mesmo. O filho mais velho está no 5.º ano na Escola Secundária de Carcavelos e se, ao início, a passagem de informação estava centrada na diretora de turma, alguns dias depois deixou de estar. “A conversa no Google Classroom é constante. O que estão a pedir é demasiado para a disponibilidade que eu tenho. Eles não estão de férias, mas eu também não estou de férias, e não há professores a entrar e a sair cá de casa para esclarecer as dúvidas que eles têm. É só um pai a ajudar nos trabalhos de todos. Até para o Gabriel, que está na creche, recebo emails das educadoras com atividades, e músicas e saltinhos.”

Juliana tenta manter um horário de trabalho, mas as interrupções dos três filhos são constantes. O marido, que está à espera de entrar em lay-off a qualquer momento, vai tentando organizar as tarefas que uma casa de cinco pessoas exige, enquanto vai ajudando nas aulas à distância.

“Se para nós é difícil, para eles ainda é mais complicado. Facilmente perdem o foco. A Sofia está no 2.º ano e se num dia demora uma manhã para fazer uma ficha de atividades, no dia seguinte pode demorar o mesmo tempo para fazer um terço desse trabalho. E torna-se muito complicado conseguir que o mais novo, que precisa de fazer sesta, descanse quando os irmãos andam a brincar”, conta Pedro, o pai.

A mãe de Leonor, que vive sozinha com a filha, está exausta. “Se isto é a primeira amostra, e foram só duas semanas, nem imagino o que vai ser o 3.º período. Estou extremamente preocupada com as aprendizagens. Em casa nunca conseguimos ter as regras e horários da escola”, desabafa Teresa Velez.

No caso de Leonor, que está quase a fazer os 12 anos, ainda não há videoconferências com os professores. “A diretora de turma envia os trabalhos de cada disciplina, mas a quantidade é um exagero. Durante uma semana na escola não faziam o equivalente ao trabalho que têm enviado para estes dias.” Teresa já teve de recorrer à explicadora de Matemática, porque tanto nessa disciplina, como na de Ciências, já receberam trabalhos com matéria que não foi dada na sala de aulas.

“Eu não tenho jeito para ensinar e ela não quer que eu a ensine. Estou a pensar manter a explicação, nem que seja por videochamada, para garantir que há alguma aprendizagem”, conta Teresa que diz que em média a filha trabalha durante uma ou duas horas por dia. “Se estiver no WhatsApp com as amigas a estudar, que foi a maneira que encontraram para estar juntas, é capaz de estar uma manhã inteira a trabalhar. Mas no dia seguinte, sozinha, já é capaz de não olhar para os livros.”

Vera conta que Laura já se queixou de ter recebido trabalhos de matéria que ainda não deu, mas desconfia que a filha é que estaria desatenta nas aulas. “Eles sentem-se muito desamparados sozinhos. No ensino articulado, ela tem muitas aulas práticas e quando tem as aulas por Skype fica muito contente. Falta-lhe o contacto com os professores e naqueles momentos eles vão sempre um pouco mais além, falam com eles, não ficam só pela matéria.”

Quanto aos pedidos dos professores, apesar de centralizados, são díspares: “Há professores que mandam muita coisa, há outros que não. Há uns que querem os trabalhos de volta para os corrigir, outros mandam as correções para serem os próprios alunos a fazer. A verdade é que todos os dias a Laura tem estudado”, conta Vera.

O sonho dos diretores eram que todos tivessem computadores

“Este ensino à distância já trouxe à tona as desigualdades sociais”, diz Filinto Lima, diretor do Agrupamento de Escolas Dr. Costa Matos, em Vila Nova de Gaia. “As diferenças são muitas. Há diferenças na atuação de uma escola para a outra, dentro das próprias escolas e há diferença nos meios informáticos que cada aluno tem.” Os próprios professores não têm todos o mesmo conhecimento das ferramentas informáticas e muitos, numa classe envelhecida, estão a aprender ao mesmo ritmo que os seus alunos, conta.

Quando falou com o Observador, o também presidente da ANDAEP, associação de diretores de escolas públicas, tinha acabado de ter mais uma reunião com os seus diretores de turma, desta vez em videoconferência e não na sala habitual. “Aqui na escola temos muitas modalidades, há professores que estão a usar a videoconferência, mas também há alunos que têm de vir buscar o material em papel porque não têm acesso à internet ou porque não têm computador.”

“Nos colégios, o ensino à distância está a correr bastante bem, diria mesmo espantosamente bem, o sistema deu um salto. Na generalidade todos estão a fazer o ensino à distância e correu melhor do que muita gente esperava. Houve algum excesso de voluntarismo, mas vamos aproveitar a pausa da Páscoa para repensar o que fizemos e no 3.º período teremos de ser ainda melhores.”
Rodrigo Queiroz e Melo, presidente da Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo

Estes, os alunos mais vulneráveis, são os que mais preocupam os diretores de todo o país, de escolas públicas e privadas. “É preciso resolver rapidamente a questão dos alunos que não têm acesso à internet ou a computadores e tablets”, defende Filinto Lima, lembrando que esse levantamento foi feito no ato da matrícula para o atual ano letivo. No entanto, as famílias não estavam então em teletrabalho nem tinham de dividir entre todos o equipamento disponível em casa.

“O sonho era que todos os alunos tivessem equipamento e internet em casa”, desabafa Filinto Lima. Mas se é certo que faltará equipamento informático aos alunos mais carenciados, e que a internet nem sequer chega a muitas zonas rurais, mesmo entre as famílias de classe média, a viver em centros urbanos, nem sempre haverá computadores para todo o agregado familiar usar ao mesmo tempo.

A tutela, com a ajuda dos estabelecimentos escolares, está a fazer essas contas. Sem conseguir ainda adiantar quantos alunos estão nesta situação, o Ministério da Educação fez saber, em comunicado, que está a realizar um levantamento pormenorizado do número de estudantes sem acesso às aulas digitais.

Escolas já estão a identificar alunos sem acesso às aulas

“As diferenças vão-se agudizar. É a lei das crises: quem sofre mais são os mais fracos. E isso não é específico desta crise. No início do próximo ano letivo, vamos ter de ver como vamos ajudar os mais fracos a recuperar”, defende Rodrigo Queiroz e Melo, presidente da AEEP (Associação dos Estabelecimentos de Ensino Particular e Cooperativo). No setor que representa, outros problemas se levantam, como os dos pais que não conseguem pagar as mensalidades — situações que, diz, estão a ser analisadas caso a caso.

Mas Queiroz e Melo também deixa um alerta: se nos grandes colégios poderá haver soluções para lidar com reduções de mensalidades, noutros, mais pequenos, como algumas creches, se todos os pais deixarem de pagar, pode tornar-se inviável pagar ordenados e o fecho de portas poderá ser inevitável. “No fim da pandemia, se estes estabelecimentos fecharem, onde é que vão ficar as crianças?”

Para além do agravamento das desigualdades sociais, tanto Filinto Lima como Queiroz e Melo identificam um outro problema: o excesso de trabalho enviado aos alunos e ao qual é preciso pôr um travão. Ainda assim, acreditam que o balanço dos primeiros 15 dias é positivo.

“Seria muito complicado, por exemplo, todos os alunos repetirem o ano. E as desigualdades agravam-se: já sabemos que quem tiver dinheiro pode arranjar explicadores para ajudar. Os outros, não. Andámos 15 dias a experimentar, agora é preciso termos um 3.º período melhor, mais organizado, com mais eficácia e não nos esquecermos dos alunos que não têm computadores em casa.”
Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof

“Nos colégios, o ensino à distância está a correr bastante bem, diria mesmo espantosamente bem, o sistema deu um salto. Na generalidade, todos estão a fazer o ensino à distância e correu melhor do que muita gente esperava. Houve algum excesso de voluntarismo, mas vamos aproveitar a pausa da Páscoa para repensar o que fizemos e no 3.º período teremos de ser ainda melhores”, defende o presidente da AEEP.

Filinto Lima lembra que todos foram apanhados de surpresa. “De uma quinta-feira para uma segunda-feira, com um dia útil de preparação, a escola pública fez um trabalho de excelência. Todas as escolas estão a usar o digital de diversos modos. Mas vamos precisar de mais orientação do Ministério da Educação, de avaliar o que fizemos, e de usar a Páscoa para preparar o 3.º período que vai ser mini: são 30 dias úteis de aulas.”

Nas duas últimas semanas do 2.º período, e já com as aulas presenciais suspensas, a tutela tem emitido várias notas e circulares para orientar as escolas sobre o ensino à distância.

Apesar disso, a Fenprof, liderada por Mário Nogueira tem pedido à tutela regras mais claras e assertivas, defendendo que o trabalho desenvolvido nas últimas semanas não pode continuar a ser replicado no 3.º período. “Nas escolas não havia um grande conhecimento de como se faz ensino à distância e a maioria tem optado por desenvolver algumas atividades com recurso ao email. Outras vão recorrendo ao Skype, às redes sociais… Tudo isto é importante para os alunos terem algum trabalho e perceberem que não estão de férias, mas nada disto resolve os prejuízos que este ano letivo está a ter”, diz Mário Nogueira ao Observador.

“Vai ser preciso repensar os exames, poderá ser necessário iniciar o próximo ano letivo mais tarde, ou adaptar os currículos a este momento excecional”, defende Mário Nogueira que, tal como os diretores, acredita que a pausa da Páscoa tem de ser usada para acertar agulhas e preparar muito bem o final do ano letivo.

“Seria muito complicado, por exemplo, todos os alunos repetirem o ano. E as desigualdades agravam-se: já sabemos que quem tiver dinheiro pode arranjar explicadores para ajudar. Os outros, não. Andámos 15 dias a experimentar, agora é preciso termos um 3.º período melhor, mais organizado, com mais eficácia e não nos esquecermos dos alunos que não têm computadores em casa”, sublinha o sindicalista.

Sem computador. Com papel e lápis é tudo mais fácil

A Júlia e a Matilde têm 6 e 9 anos e estudam no Agrupamento de Escolas Bartolomeu de Gusmão, em Lisboa. A Sofia, que tem 7, estuda no Agrupamento Matilde Rosa Araújo, em Carcavelos. Nenhuma tem computador.

“Cá em casa temos dois portáteis, o meu e o do meu marido, que em situações normais elas podem usar. Muitas vezes usávamos a Escola Virtual para estudar um bocado”, conta Isaura Tavares. No ato da matrícula para o atual ano letivo, a mãe de Júlia e Matilde até colocou a cruz no sítio onde dizia que as alunas tinham acesso a computador. Com a pandemia tudo mudou. “Estamos os dois em teletrabalho e, portanto, elas deixaram de poder usar o computador durante o dia. E não é à noite, quando estamos todos cansados, que vou pô-las a estudar.”

Da escola, poucas indicações recebeu até agora. “Durante a primeira semana foi o silêncio total. Arranjei uns livros de exercícios para as manter ocupadas e não pensarem que estão de férias. Depois, na segunda semana, enviaram a todos os pais uma mensagem do diretor do agrupamento a perguntar quem tinha computadores, tablets e acesso à internet. Parece-me que vão tentar arranjar equipamento a quem não tem, mas não faço ideia em que condições”, explica, dizendo que depois daquele email nunca mais teve novidades sobre o equipamento.

Juliana, mãe de Sofia, só conseguiu arranjar um computador para o filho mais velho (Augusto, 10 anos), um equipamento antigo, que teve de ser desempoeirado. “A Sofia tem de trabalhar com papel e lápis’. E até é melhor. O mais velho não tem maturidade para usar o computador e acabo por estar preocupada a ver se está tudo bem, ou não, se parte alguma coisa…” Equipamento emprestado pela escola? Isso dispensa. “E se o estraga? É mais uma despesa que não preciso numa altura em que a conta do supermercado para alimentar cinco pessoas disparou.”

Embora as filhas de Isaura andem na mesma escola, a comunicação com os professores foi bastante diferente. “A mais nova, que está no 1.º ano, recebeu fichas que nunca mais acabam, sem qualquer tipo de calendarização para fazer ou devolver. Imagino que seja para irmos gerindo… A mais velha, no 3.º ano, recebeu um conjunto de fichas que fez numa manhã”, conta a encarregada de educação, esperando que as coisas melhorem no 3.º período.

“Fomos todos apanhados de surpresa e acredito que as coisas vão melhorar. Não podem ser como nestes 15 dias, porque isto foi igual a nada. Foi como se a escola tivesse fechado”, sublinha Isaura, especialmente preocupada com a filha mais nova que ainda não aprendeu sequer a ler.

Vera, que para além de Laura tem uma filha de 4 anos, a Eva, também tem recebido indicações das educadoras. “São emails muito positivos da diretora pedagógica com sugestões de atividades, de músicas e onde nos contam como era o dia a dia deles. Servem para nos lembrar da autonomia que eles tinham, que já comiam sozinhos, por exemplo, para em casa não estarmos a fazer o contrário.”

Num discurso apaziguador, Vera acrescenta que os pais não se podem esquecer que os professores são, também eles, pais e que estão a navegar em águas estranhas. “Ao início os pais estavam stressadíssimos. É normal, é tudo novo para todos nós. Mas também há professores com filhos pequenos e os pais esqueceram-se disso. Alguns foram muito injustos.”

Dois economistas de educação dão quatro conselhos ao Governo

Os economistas Pedro Freitas e Hugo Reis têm quatro conselhos para o ensino digital que vai marcar o 3.º período. Com investigação feita em economia de educação, assinaram em conjunto, na passada semana, o artigo “Será a distância igual para todos?” no site Iniciativa Educação onde analisam os resultados de estudos científicos sobre o impacto de aulas online no ensino superior. A conclusão é que o impacto é particularmente negativo para quem tem média de curso mais baixa.

Esquecendo o ensino universitário, defendem que há alguns pontos que podem ajudar a equilibrar o bom funcionamento do ensino à distância do 1.º ao 12.º ano. “Em primeiro lugar, é importante garantir o mínimo de interação entre escolas e alunos para não cairmos no zero — haver escolas e disciplinas em que não há qualquer material. Em segundo lugar, não é realista pegar no horário semanal e transpô-lo para o online, é preciso balizar”, diz Pedro Freitas.

Hugo Reis sublinha que encontrar esse equilíbrio é fundamental, até porque para além do ensino à distância as famílias estão em teletrabalho. “Isto não significa matar a autonomia das escolas, que terão de adaptar as soluções à suas comunidades educativas. Quer é dizer que não se pode transferir tudo para elas e que tem de haver regras que chegam do Ministério da Educação.”

O terceiro ponto, defendem, é a avaliação, devendo a tutela dar diretrizes de como ela vai ser feita. Por último, pedem gradualismo nos conteúdos disponibilizados aos alunos, não se devendo ceder à tentação de dar tudo de uma vez.

“Se temos desigualdade do lado das famílias, vamos tentar que não haja desigualdade do lado das escolas. Se as desigualdades já são acentuadas na sala de aula, agora que os estudantes estão em casa e o papel da família é exacerbado, as diferenças vão acentuar-se”, defende Hugo Reis.

Park School. A tecnologia já fazia parte da sala de aulas

E como estão os diretores a viver o ensino à distância? Hugo Reis lembra que em Portugal as escolas são muito diferentes. “Há escolas mais organizadas e que conseguem dar resposta aos alunos. Há outras que não. Como essa heterogeneidade já existe, se nada for feito, corremos o risco de criar um fosso ainda maior entre as escolas. É preciso mitigar essas desigualdades.”

Pedro Freitas volta ao mesmo ponto: “É preciso garantir o mínimo, que não haja escolas que caiam no zero. Houve dois momentos importantes de decisão. O primeiro foi fechar as escolas e acautelar o lado social, como por exemplo garantir as refeições escolares aos alunos que precisam. Agora, o segundo momento é pedagógico. Temos de ver quem está a ter acesso às aulas e aos materiais e garantir que chegam a todos.”

No agrupamento de escolas de Alcanena (13 escolas mais 11 jardins de infância), na St. Peter’s International School, em Palmela, e nas quatros escolas da Park International School, as diretoras estão satisfeitas com o caminho que fizeram nos últimos 15 dias do 2.º período.

“Está a correr excecionalmente bem a partir do 3.º ano, mesmo, mesmo muito bem. Os miúdos têm uma rotina igual à da escola”, conta Barbara Lancastre, CEO da Park International School, que pertence ao grupo internacional Inspired, do qual é também diretora-geral em Portugal. Ainda antes de as escolas suspenderem a atividade presencial, por decisão do Governo, as escolas internacionais Park e a St. Peters estavam prontas para começar o virtual learning (ensino virtual).

Nessa altura, Barbara Lancastre contava ao Observador que alunos e professores estavam preparados, até porque a tecnologia faz parte do seu método de ensino, e que estavam a aprender com os colegas da Inspired de Itália, Vietname e Espanha que mais cedo do que Portugal tiveram de virar-se para o ensino virtual.

Passadas duas semanas, estão a afinar os métodos. “Foi mais complicado para os pais do 1.º e do 2.º ano porque nem todos tinham equipamento informático em casa. Sentimos também que precisavam de mais apoio, que a professora estivesse mais presente. No jardim de infância aconteceu a mesma coisa.” Nas cinco escolas da Inspired, todos os alunos a partir do 4.º ano têm ipad ou computador e usam plataformas online para estudar e apresentar trabalhos. Aos restantes, a escola disponibilizou equipamento para usar durante os tempos de pandemia.

Depois do aquecimento da primeira semana, no 2.º ano as coisas já correram melhor, mas Barbara conta que quando as crianças ainda são muito pequenas os pais sentem que não as devem obrigar a horários rígidos. “Para estas idades estamos a trabalhar em duas frentes: online, com o horário normal, e a enviar material para quem não quer fazer o horário do costume.”

A preparação para este momento começou há muito tempo. “Naquele domingo em que Itália fechou as escolas, já tínhamos as diretrizes e o plano de ação delineado. Na primeira segunda-feira, em Itália, o plano foi revisto, na terça-feira, 3.700 alunos já estavam em escola virtual.”

A grande vantagem, conta Barbara, é que na Park a tecnologia faz parte integrante da sala de aula. “Não temos curva de aprendizagem. Alunos e professores sabem usar as plataformas. Estávamos mesmo preparados.”

O ensino à distância tem regras: os alunos não podem estar 8 horas à frente do ecrã, têm de fechar o computador, fazer desporto pelo meio e o tempo de recreio mantém-se. “Não pode haver overload dos alunos. Não os podemos levar à exaustão.” Para os mais pequenos, do jardim de infância e creche, há uma aplicação a partir da qual os pais fazem download daquilo que os educadores enviam, gravado com a sua própria voz, como música e histórias.

Do 1.º ao 3.º ano têm uma aplicação, que todos conhecem, onde seguem o horário do dia, e outra, o Google Classroom, onde ficam os trabalhos. Do 4.º ao 8.º ano usam outra aplicação com os conteúdos de cada disciplina:   “Os alunos sabem que está tudo ali. Mesmo nas aulas de educação física são enviados planos de treino e nas de música pedem-lhes que ouçam alguma coisa, por exemplo.”

O fim da pandemia também está pensado. Haverá testes de diagnóstico nas várias disciplinas para ver se os alunos aprenderam o que deveriam. Se não tiverem adquirido o conhecimento, serão feitos planos individuais para se voltar a entrar na normalidade. Aulas extras, até ao sábado, também estão previstas. “A nossa missão e dever é ensinar os alunos. Eles não têm duas oportunidades de passar pela escola e não têm culpa do que está a acontecer. Mas duas coisas vão aprender de certeza: adaptabilidade e resiliência. E isso já é uma aprendizagem gigante.”

Alcanena. Mancha horária manteve-se, mas com regras próprias

Ana Cláudia Cohen quis ouvir toda a gente antes de traçar o plano de ação: “Era muito claro que os alunos não podiam perder o foco, não sabíamos quanto as aulas iriam recomeçar.” Quando o plano saiu do rascunho, a decisão no Agrupamento de Escolas de Alcanena foi utilizar as plataformas com as quais os alunos já estavam familiarizados.

No 1.º ciclo, optou-se pelas plataformas dos manuais escolares. No 2.º ciclo, para além do portfólio digital do Moodle, usam o Google Classroom e o Teams da Microsoft. No secundário, privilegiam o Zoom porque facilita as videoconferências.

A mancha horária manteve-se, mas com regras. Os alunos não podem estar mais do que meia hora em frente ao ecrã, têm de parar nem que seja para ir comer uma maçã ou olhar pela janela, conta a diretora, esclarecendo que há também a paragem de duas horas para almoço.

“Para já não estamos a dar matérias novas, a ideia é entusiasmar toda a gente. A seguir à pausa letiva vamos avançar com mais segurança e podemos partir para as novas aprendizagens.”
Ana Cláudia Cohen, Agrupamento de Escolas de Alcanena

“Os alunos têm aulas de todas as disciplinas e é interessantíssimo ver os níveis de adesão. Fazemos monitorização semanal e logo ao fim de uma semana havia coisas a limar, como a duração das tarefas. Havia professores que enviavam muita coisa, outros quase nada. Houve concertação para chegar a um equilíbrio e isso está a ser conseguido.”

Em relação aos alunos que não têm computador ou internet há já um plano B. “Se tiverem smartphone, o WhatsApp, o email, o Google Classrooms e o Moodle funcionam. Para além disso, estamos a fazer parcerias com a Câmara Municipal de Alcanena para arranjar tablets do 2.º ciclo ao Secundário e com as juntas de freguesia para o 1.º ciclo”, conta Ana Cláudia Cohen, frisando que na semana passada os computadores já começaram a ser entregues. Quando tudo o resto falha, há ainda a possibilidade de entregar as tarefas em papel aos pais na junta de freguesia.

O interesse dos alunos de Alcanena foi uma réplica da sala de aula. “Os medianamente interessados e os muito interessados estavam lá. Os outros não apareciam.” Para alterar o comportamento, foi preciso a intervenção dos professores. E quando essa intervenção não foi suficiente, foi a própria diretora a ligar aos pais.

“Tinham de perceber que era importante. E ao fim de alguns dias foi-se dissipando a diferença. Quando começaram a entrar no ensino à distância, perceberam que estavam no meio deles. E, de repente, alunos que nunca participaram numa aula, estavam a mandar 50 mensagens por minuto ao professor usando o WhatsApp.” Outra coisa que os professores privilegiam são as tarefas que põe os alunos a colaborar, até porque é uma forma de estarem juntos.

Ana Cláudia Cohen conta que também os professores que resistem a novos modelos pedagógicos, a coisas simples como pôr os alunos a trabalhar em ilhas na sala de aula, estão a descobrir novas formas de ensinar. Neste final de 2.º período, a tónica foi consolidar e rever matéria para todos.

“Para já, não estamos a dar matérias novas, a ideia é entusiasmar toda a gente. A seguir à pausa letiva vamos avançar com mais segurança e podemos partir para as novas aprendizagens”, defende. Na escola que já funciona em semestre, a diretora também acredita que os critérios de avaliação terão de ser revistos, mas não vê motivos para alunos e professores não seguirem em frente. “Temos todas as condições para seguir o ano”, sublinha Ana Cláudia Cohen.

E como é que vai acabar este ano letivo?

Filinto Lima não arrisca uma solução, mas garante que no Ministério de Educação há vários cenários em cima da mesa e acredita que a 9 de abril, quando o Governo anunciar como será o 3.º período nas escolas, o melhor caminho será o seguido.

Numa altura em que o ministro Siza Vieira admite que as aulas poderão acontecer em canais ao estilo youtube ou TV por cabo, o presidente da ANDAEP diz que a solução tem mesmo de sair do gabinete deste governante.

“A grande ajuda tem de vir do Ministério da Economia e da Transição Digital — tem de fazer jus ao nome, e não se esconder de um problema que também é seu. A proposta poderia passar por dotar todos os lares de computadores”, defende. Como no tempo dos computadores Magalhães de José Sócrates? Filinto Lima ri-se: “Não seria nada mau. É quase caso para dizer, volta Magalhães: estás perdoado.”

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