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Farmacêuticos, talhantes, repositores e coveiros. Continuam a trabalhar, mas também têm medo

Além dos profissionais de saúde e dos polícias, são vários os que têm funções essenciais durante a quarentena. Sabem que cumprem um serviço imprescindível, mas têm medo, sobretudo pelas suas famílias.

A voz sai num tom baixo e ainda desgastada do turno do dia anterior. Foram demasiadas horas a atender clientes sob apertadas medidas de segurança para evitar a propagação de Covid-19 e foi muito tempo longe de casa e dos três filhos que ali estão sob olhar do pai em teletrabalho. O fim de tudo isto é incerto e sobrecarrega ainda mais a voz, e os ombros. Ana Sarmento, 36 anos, é farmacêutica no Seixal e, nos últimos dias, sempre que bate a porta de casa para sair debate-se com esse peso, com o que deixa em casa, porque é mãe, e com o trabalho que escolheu. E não é a única. Além de todos os profissionais de saúde que estão na frente do combate à pandemia de Covid-19, há outros trabalhadores que não podem desempenhar as suas funções em teletrabalho e que todos os dias têm que deixar a família em casa para cumprir as suas funções.

“A mãe que está em mim está muito zangada com a farmacêutica que está em mim”, diz por telefone ao Observador, a uma hora de mais um turno numa farmácia que abriu portas há pouco tempo, na berma de uma estrada, e que só agora ganhou filas infindáveis de clientes. Ainda os primeiros casos infetados por coronavírus estavam a ser registados em Portugal, já o grupo de farmácias para o qual trabalha começava a prevenir-se. E na semana em que o Governo acabou por avançar com o encerramentos das escolas, as regras para trabalhar apertaram.

“Dividimos a equipa em turnos fixos para os funcionários não se encontrarem, construímos uns postigos dentro da farmácia para poderem entrar três pessoas na loja de cada vez. As pessoas não vos veem, não há nada exposto em que as pessoas possam tocar”, diz, contrariando assim o contacto que costuma semear com os clientes. “Temos também uma rotina de desinfeção extremamente exigente: sempre que atendemos um cliente desinfetamos tudo, canetas, multibanco, teclado do computador. É uma rotina muito estranha”, desabafa.

A semana em que o Governo decidiu encerrar todos os estabelecimentos de ensino de forma a conter a propagação do coronavírus foi também uma semana que despertou a consciência, e o medo, de todos. As prateleiras dos supermercados começaram a ficar vazias, levando mesmo a Diretora Geral da Saúde, Graça Freitas, a pedir aos portugueses para não “açambarcarem”. E as embalagens de álcool, de máscaras e de luvas começaram a esgotar em todo o lado. Onde Ana trabalha não foi exceção.

Nem sequer estamos a comprar porque as máscaras estão com preços demasiado altos e o pouquíssimo álcool e luvas que temos são para os funcionários.
Ana Sarmento, farmacêutica

Por outro lado, disparou a procura de medicamentos por parte dos doentes crónicos, como foi o caso das insulinas e anti-hipertensores, que, normalmente, são prescritos para um determinado período de tempo e que os doentes não compram de uma só vez. Há também uma grande fatia de clientes que procura antipiréticos, paracetamol e Brufen. “Temos uma dificuldade enorme em conseguir medicamentos, a logística está afetada, houve pessoas que ficaram em casa que ficaram tomar conta dos filhos e a logística também sofreu uma quebra. Há também uma maior procura de determinados medicamentos, que antes não havia”, explica.

É normal haver um aumento de clientes que, em vez de procurarem os serviços médicos, procuram a farmácia, na tentativa de perceberem determinados sintomas. Mas, até agora, ainda nenhum lhe apareceu com suspeitas de coronavírus. Se assim for e as suspeitas forem fundadas, o plano de contingência da farmácia impõe que o caso suspeito aguarde por uma equipa do INEM dentro do seu carro ou, se for a pé, afastado das instalações.

Uma vez que o recurso a centros de saúde e a hospitais dever ser evitado e há doentes que precisam apenas de renovar receitas, a farmácia onde Ana trabalha está também a vender medicamentos de acordo com as guias de tratamento que lhes trazem. “Estamos a socorrer pessoas que tenham guias de tratamento ou receitas antigas, desde que tenham histórico na farmácia. Sabemos que agora é mais complicado renovar as prescrições, mas pedimos sempre uma justificação da toma dos medicamentos. Estamos a fazer tudo para que não atrapalhem o Serviço Nacional de Saúde”, diz.

No fim do turno de trabalho, que agora é mais reduzido e que levou mesmo a farmácia a fechar portas nas tardes de sábado e domingo, Ana regressa a casa com um único receio: levar a doença para a família. Assim, a farmacêutica, além de medir a temperatura antes e depois do trabalho, desinfeta as mãos ao chegar a casa e faz o que a Direção-Geral de Saúde recomenda: sapatos à porta e roupa na máquina de lavar.

D.R.

“É duro sair e, quando chegas, não saber se trazes algum tipo de infeção e prejudicar as pessoas que estão contigo. Depois há aquele dever profissional de não deixares os teus colegas, todas as pessoas são poucas para ajudar e algumas não têm com quem deixar os filhos. Gosto de pensar que ajudo muitas pessoas e que resolvo os seus problemas de saúde e, dessa maneira, a contornar o medo que está instalado”, revela.

Ainda assim, como todos, sempre que ouve um dos três filhos a tossir, entra em pânico. A tosse é um dos sintomas da infeção pelo novo coronavírus e, segundo os dados estatísticos das autoridades de saúde, tem sido o mais comum. Há quem tenha febre, dores de cabeça, dificuldade respiratória, dores musculares ou mesmo fraqueza generalizada. “Começas a pensar numa série de rituais que antes não tinhas. Ouves uma criança a tossir e ficas em pânico”, diz.

Além do risco de infetar a família, há outros medos que atormentam Ana quando, no caminho de casa para o trabalho e no sentido inverso, pensa na pandemia. Teme que alguns produtos que vêm da China, um país que esteve parado durante cerca de três meses, possam não ser produzidos à velocidade desejada. Depois pensa em Itália, onde em 24 horas morreram mais de 600 pessoas, ou em França, e pensa nos produtos que tem nas prateleiras que são produzidos naqueles países. “Receio que haja ruturas sérias nos medicamentos. E mais: a maior parte das farmácias, que são pequenas empresas, tiveram que fazer um investimento em stock com esta pandemia. Temo que depois não tenhamos clientes suficientes. A crise económica é o que mais preocupa”, considera, lembrando que essa rutura já se nota no ben-u-ron em xarope.

Coveiros e agentes funerários. “O problema não é o cadáver, são as pessoas que podem meter as mãos nas urnas”

Está no cemitério do Alto de São João, em Lisboa, quando atende o telefone. Fausto, que aos 62 anos conta 42 como coveiro, nunca pensou viver uma situação assim. Com a informação que recebeu de que todos os mortos por Covid-19 em Lisboa deviam ser enterrados naquele cemitério, quando lhe perguntam o que sente é bem perentório. “Sinto-me completamente inseguro. Não temos luvas, não temos máscaras. Nenhuma proteção para nos vestirmos” descreve. Apesar da indicação que tem para não abrirem as urnas, o medo de Fausto está nas pessoas que lhes tocam. “O problema não é o cadáver”, admite.

Ali naquele cemitério são 37 os funcionários que trabalham como ele. No plano de contingência foram divididos em dois grupos, para não se cruzarem uns com os outros e manterem uma equipa operacional, no caso de alguém ficar doente. Mas não há material de proteção individual. Fausto sublinha que, há dois anos, teve um cancro no intestino e que, recentemente, foi operado à garganta, o que o coloca no grupo considerado de de risco. Em casa tem a mulher e os filhos de 16 e 21 anos, a quem receia levar “alguma coisa” ao final do dia. “É uma coisa invisível que não sabemos se pode passar de um lado para o outro”.

As cerimónia fúnebres querem-se agora curtas, com poucas pessoas e sem abrir a urna

Octavio Passos/Observador

Rui Fragoso, proprietário da Funerária Capuchos, perto do Hospital São José, em Lisboa, partilha os receios de Fausto. Os seus 70 anos levaram-no a recolher-se em casa, enquanto dirige o trabalho à distância, por telefone. “Os meus colaboradores usam luvas, máscaras e respeitam todos os cuidados recomendados. Só entra uma pessoa de cada vez no escritório, o empregado que a recebe fala de máscara e escreve com luvas, desinfetam as carrinhas”, explica. Ainda assim, e apesar de ainda não ter feito qualquer “funeral corona”, como lhe chama, está preocupado com os seus funcionários. O agente funerário também reduziu o número de homens por enterro, a menos que o percurso para levar o caixão seja mais complicado, com mais escadas, e obrigue a mais força física.

Fragoso lembra que, por imposição do Governo, não existem quaisquer cerimónias fúnebres. As igrejas também não recebem os corpos, que vão diretamente para o cemitério. “Nos funerais que tenho feito, as pessoas estão a respeitar e vai apenas um familiar”, revela.

Técnico da Vodafone.”Tive um cliente que, quando me viu com máscara, perguntou se podia remarcar”

Além do filho e da mulher, que o esperam diariamente em casa, Nicolas Gonçalves também pensa em todos os idosos que vivem no seu prédio. Como assistente técnico da Vodafone, todos os dias tem de atender clientes nas suas casas ou tem de deslocar-se às empresas que o chamam. É um dos trabalhadores que continuam ao serviço neste estado de emergência, e é também um dos profissionais cujos métodos mudaram nos últimos dias.

O medo, esse, não está apenas com ele, mas com quem lhe abre a porta também. “As chamadas diminuíram. Se antes tinha quatro serviços por dia, hoje tenho metade”, diz. Lembrando que a própria Vodafone tomou medidas, entre elas o abdicar da assinatura do cliente — que podia, eventualmente, ter de recorrer a uma caneta do funcionário ou, no limite, contaminar o suporte em que tem que escrever. Ele próprio tem tentado limitar-se ao mínimo de espaço possível em casas particulares, na tentativa de não levar qualquer contaminação. E, no final do serviço, recomenda sempre ao cliente que desinfete o material. Foi, aliás, o seu cuidado que, há uns dias, levou um cliente seu a reagendar o encontro. “Tive um cliente que, quando me viu com máscara, perguntou se podia remarcar”, recorda.

Nicolas Gonçalves, técnico da Vodafone

D.R.

Repositor de loja. “Há pessoas que continuam a levar crianças para as compras”

É também o comportamento de alguns clientes o que mais impressiona Pedro Guerreiro, de 39 anos, que trabalha como repositor dos enlatados numa cadeia de supermercados. Já depois de ser declarado o estado de emergência e de terem sido lançados avisos para as famílias permanecerem em casa e limitar as suas saídas, Pedro ainda vê casais com as crianças nas compras. “Não consigo compreender!”, avisa.

O repositor de loja também nunca conseguiu perceber a corrida ao supermercado que testemunhou nos últimos dias antes do estado de emergência, em que “as pessoas nem viam os funcionários” e atropelavam-se uns aos outros. Andavam de um lado para o outro, não viam ninguém, tropeçavam e nem pediam desculpa. “Trabalhei tanto nestes dias como num período de natal”, compara.

Ele, os colegas do talho e o repositor do corredor do papel higiénico têm optado por trabalhar à noite, uma hipótese colocada pela empresa, que permite resguardar mais os seus funcionários. Além disso, é-lhes permitido fazer compras fora dos horários dos clientes. A cadeia de supermercados onde trabalha optou também por reduzir os horários, colocar proteções nas caixas registadoras e marcas no chão para que as pessoas mantenham a chamada distância de segurança. Agora, com a limitação de pessoas a entrarem nos espaços comerciais e com a diretora-geral da Saúde, Graça Freitas, a passar a mensagem de que a comida não vai faltar, “as coisas estão mais calmas”, constata.

“Já me mentalizei de que trabalho num sítio de bens alimentares, que são bens de primeira necessidade, logo temos de assegurá-los a todos”, refere.

Quando o Governo anunciou o fecho das escolas, os supermercados ficaram vazios

Rui Oliveira/Observador

Talhantes. “Não vai acabar a carne”

Neste momento, Marinela Lourenço, 61 anos, já não gere nenhum talho, mas chegou a ser proprietária de seis. À frente da Associação de Comerciantes de Carnes e com os profissionais sem mãos a medir, é um deles que conduz o Observador ao seu número de telefone. Agora, é ela que assume o papel de porta-voz dos talhantes. Até à declaração do estado de emergência, foi raro o talho que não teve à entrada uma fila enorme de pessoas sedentas por fazer um stock de carne em casa, temendo que a comida fosse acabar. Mas Marinela, ao Observador, recusa a ideia de que tenha havido “um açambarcamento”. E, de seguida, explica o seu ponto de vista: “Como as pessoas estão em casa e há mais pessoas em casa, há um maior consumo de carne”, justifica.

Apesar de não estarem na lista de estabelecimentos que o Governo mandou encerrar, houve donos de talhos que preferiram fechar as portas e trabalhar apenas por encomenda, para se protegerem e evitarem serem infetados. “Tem havido uma procura superior na medida em que está muita gente em casa. Depois de o primeiro-ministro ter anunciado que o comércio tradicional permaneceria aberto, as coisas acalmaram um pouco”, disse.

Marinela Lourenço reconhece que, perante esta pandemia da Covid-19, os mais velhos parecem menos consciencializados para as consequência deste novo coronavírus. Por oposição, diz, também os adolescentes parecem, em parte, ignorar o risco. “Os mais velhos, porque acham que já sobreviveram à guerra, e como não cai uma bomba ao pé deles… Os adolescentes, porque estão numa idade em que nada os atinge. São estes os grupos mais perigosos.”

Laboratório farmacêutico.”Estamos a fazer mais um turno porque, se houver um caso, o laboratório fecha”

Se na farmácia onde Ana Sarmento trabalha reduziram os turnos para poderem preservar os funcionários, no laboratório farmacêutico onde Filipe (nome fictício) trabalha, na zona de Sintra, foi acrescentado um turno ao fim de semana. A ideia aqui é produzir o máximo possível, porque basta haver um funcionário infetado pelo novo coronavírus para as instalações serem encerradas. Neste laboratório produzem-se, em média, 60 produtos diferentes, tão variados como medicação para a disfunção erétil ou para o colesterol.

Assim que o álcool começou a esgotar nas prateleiras das farmácias e dos supermercados, desapareceram misteriosamente deste laboratório uma série de embalagens. O mesmo aconteceu às máscaras. Sem procurar culpados, a direção tomou logo medidas e ofereceu um kit a cada um dos funcionários. Já faz parte da rotina de quem trabalha no laboratório usar máscaras e luvas, mas essa medida foi acrescentada a quem anda pelos corredores. Segundo contou Filipe ao Observador, parte dos recursos humanos da empresa está agora em teletrabalho e quem trabalha no escritório não pode ir à zona de produção.

Também no refeitório foram tomadas medidas. As cadeiras estão mais afastadas uma das outras, é proibida a concentração de funcionários. O bar, esse, encerrou mal uma funcionária disse que a filha tinha contactado com um caso positivo e que iria recolher em quarentena. “Veio uma equipa desinfetar tudo. Ficou três dias fechado”, conta.

Filipe é solteiro e partilha casa com outra pessoa. Desde que acordou para a pandemia que redobrou os cuidados, porque desconhece se a pessoa com quem partilha o mesmo teto tem os cuidados exigidos para não ser infetada. Faz mais um turno ao fim de semana. Pelo menos até não se registar nenhum caso no seu local de trabalho.

Polícia. “O que mudou foi ter de trabalhar de uma forma mais exposta”

Se, há duas semanas, o comissário Bruno Pereira, comandante operacional da Divisão Investigação Criminal da PSP de Lisboa, estava focado em comandar os seus homens nas várias investigações criminais que têm em mãos, nestes dias o foco deste operacional mudou para “o que estamos a viver, que nunca vivemos, que tende a agudizar o risco”. Ou seja, não há nada pior do que não saber com o que se conta.

Bruno Pereira comissário que integra a Investigação Criminal da PSP de Lisboa

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

Com os tribunais em modo férias judiciais e a avançarem apenas com os processos urgentes, com arguidos presos, por exemplo, e com os perigos que os seus homens podem enfrentar numa operação policial pouco urgente, o seu trabalho agora mudou. Aliás, numa primeira perceção, segundo diz ao Observador, o número de crimes diários parece ter caído, depois de declarado o estado de emergência. “Vamos admitir que um criminoso tem medo. Não há tantos crimes por dia, a flutuação normal também não existe. “Continua a haver roubos, furtos em residência e burlas, mas a criminalidade que obriga ao contactos com as pessoas baixa a nossa obrigação”, diz.

Em momentos de crise e com as pessoas vulneráveis, é comum aparecerem os burlões, pródigos em mexer com os sentimentos das pessoas. A própria Direção Nacional da PSP já emitiu um comunicado  com informações que correm nas redes sociais dando conta “de crimes de burlas, furtos e roubos, praticados por falsos funcionários de diversas entidades, nomeadamente médicos, enfermeiros, técnicos de empresas de comunicações ou carteiros”. “Já houve casos sinalizados, são residuais, estamos a alertar as pessoas para que sejam preventivas e zelosas”, diz o oficial da PSP.

Os policias da linha da frente são os verdadeiros heróis, porque arriscam todos os dias o desconhecido e nem sempre estão com proteção individual.
Comissário da PSP, Bruno Pereira

No que toca às investigações, os polícias que estão na investigação criminal estão a “circunscrever ao máximo o contacto presencial com as pessoas”, a menos que estejam em causa processos urgentes. “Se tivermos de ir, vamos. Assumimos esse risco, porque isso, para o bem e para o mal, é o que define a nobreza da profissão. Mas fá-lo-emos com cautelas”, admite. “Há operações que têm mesmo de ser feitas, se conseguirmos perceber que é uma oportunidade que tem de ser. Investigação de crimes de ofensas à integridade física, condução sem carta, ficarão para segundo plano, e quem mais precisa de nós, estamos lá”, prioriza. Agora o importante, diz, é que esteja “bem presente na cabeça das pessoas que, se não tivermos os cuidados que devemos ter, podemos causar a morte de alguém”.

Apesar de ser polícia, no entanto, também Bruno Pereira tem os seus medos. “Obviamente que tenho receios, sou uma pessoa, consciente dos riscos ao não estar isolado, em quarentena ou fechado do mundo. Mas os polícias da linha da frente são os verdadeiros heróis, porque arriscam todos os dias o desconhecido e nem sempre estão com proteção individual”, diz, numa altura em que há já mais de 10 infetados na PSP, esquadras provisoriamente fechadas e 450 agentes em quarentena. “Polícias que têm filhos, que têm esposa, eventualmente precisam ainda mais, há uma preocupação permanente, temos de salvaguardá-los o melhor possível.”

Ainda na noite desta segunda-feira, o próprio diretor nacional da PSP dizia, no programa Prós e Contras da RTP, que os polícias que estão a trabalhar em Ovar, onde foi declarado o estado de calamidade e criado um cordão sanitário, decidiram mudar-se para aquele concelho e não irem a casa, para não infetarem as suas famílias. Longe de Ovar, em Setúbal, o chefe António Loura,  secretário nacional da Associação Sindical de Profissionais de Polícia, diz que essa é a principal diferença do trabalho nestes dias. “O que mudou foi ter de trabalhar de uma forma mais exposta, com um perigo acrescido, a somar aquilo que tínhamos”, disse ao Observador.

“A nossa função continua a ser assegurada, não temos grandes limitações, a não ser aquelas que todos os polícias se queixam: a falta de proteção individual. Há menos crimes porque há menos pessoas na rua, e, nas detenções que fazemos, temos cuidado”.

A PSP recebe diariamente listas das pessoas infetadas

Rui Oliveira/Observador

Bombeiros. Número de emergências médicas caiu para metade

Quando falou por telefone ao Observador, o comandante dos bombeiros de Carcavelos, Paulo Santos, não estava com a filha há duas semanas. E tinha convencido a ex-mulher a proibir visitas do namorado da rapariga de 17 anos. “Recomendei-lhe a leitura do Diário de Anne Frank. Esta geração ainda não está domada. Ali em Carcavelos é muito fácil passar na praia e ver pessoas a fazer surf e amigos e conviverem nos jardins”, diz. A profissão de Paulo é uma das que está, também, na linha da frente e em maior risco, depois de médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde.

O comandante garante que, no seu quartel, a preparação começou ainda em janeiro, quando nas notícias apenas se falava num misterioso vírus que fora detetado na China e que acabaria por quase fechar aquele país. Quando o vírus galgou fronteiras, e ainda antes de chegar Portugal, conta, já o seu quartel tinha um stock de equipamentos de proteção individual. “Falei com o responsável da gestão logística pela área pré-hospitalar e começámos a repor alguns materiais. Mas confesso que hoje considero que todos subestimámos a situação. E da maneira como estamos a utilizar estes materiais, vamos começar a parar por falta de equipamentos individuais”, disse ao Observador, com esperança de que a declaração do estado de emergência, por parte do Presidente da República, possa inverter a situação.

Valeu-lhes a doação de uma família chinesa que ofereceu ao quartel duas mil máscaras, que o comandante distribuiu pelos bombeiros vizinhos do município. “Se não fosse isso, estaríamos já em rutura de stock”. Paulo Santos conta que já lhe pediram 80 euros por 5 litros de álcool e 150 euros por uma caixa com 25 máscaras. Por isso, quando as escolas fecharam, pediu à autarquia para entregarem todo o álcool que sobrara dos estabelecimentos de ensino aos bombeiros. E assim foi.

No quartel, explica, o plano de contingência traçado para evitar a propagação do coronavírus obrigou os bombeiros a reduzirem os transportes ao mínimo. Nesta altura, não há transporte de doentes para a fisioterapia ou de trabalhadores com deficiência para os seus locais de trabalho, apenas de doentes que fazem hemodiálise — porque precisam desse tratamento para sobreviver. Os tripulantes usam todos máscaras, os veículos são desinfetados diariamente, assim como as instalações, e há um espaço disponível para quarentena — caso os bombeiros tenham alguma suspeita e não queiram pôr a sua família em risco. Há também no concelho um hotel que se disponibilizou para acolher estes profissionais nestes casos.

Paulo Santos, comandante dos Bombeiros de Carvavelos

D.R.

Mesmo com o medo da infeção, o comandante reconhece que os bombeiros voluntários, que, normalmente, exercem estas funções em part-time, têm estado cada vez mais disponíveis. “46% do nosso efetivo é simultaneamente voluntário e profissional. Tenho cerca de 70 voluntários disponíveis. Não tenho falta de pessoas, muito menos dos piquetes voluntários. À medida que as empresas os vão dispensando, eles vêm ao quartel dizer que estão disponíveis. Mas, por enquanto, estamos a deixá-los em casa”, diz.

Na verdade, o número de emergências médicas desde a declaração do estado de emergência caiu para metade, nas contas do responsável. Até os acidentes são menos. “Esta semana tivemos um acidente! Raríssimo isto acontecer”. Também não tem havido registo de incêndios, uma ocorrência que, nesta altura, o assusta mais, tendo em conta que as pessoas estão em quarentena. Os prédios estão “cheios de gente”.

Os bombeiros estão habituados a lidar com pacientes com tuberculose, hepatite, e alguns já ali trabalhavam quando foi a Gripe das Aves ou o Ébola. Mas esta pandemia parece ser mais assustadora, pela velocidade com que o vírus consegue entrar no corpo e na vida das pessoas. “Eles têm medo de infetar as famílias”, diz Paulo Santos, que tem também já uma psicóloga disponível para apoiar os seus homens. “Tenho 53 anos, sou bombeiro desde 1987 e nada nos prepara para isto. Os bombeiros são uma área mais operacional. Nos incêndios conseguimos ver o inimigo, aqui não”, diz.

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