Histórias de mães para quem a gravidez foi mais importante do que o cancro /premium

06 Maio 2018217

Para estas mulheres, a vontade de ter um filho falou mais do que o medo do cancro. Histórias do jornalista Nelson Marques, contadas no livro "Filhos da Quimio", que recordamos no dia da Mãe.

Raquel Soeiro foi recebendo sinais poucos meses antes de o seu mundo ficar virado do avesso. O primeiro foi cerca de quatro meses antes do diagnóstico, em abril de 2014: sonhou que tinha um nódulo na mama. Já não era a primeira vez que sonhava com coisas que, mais tarde, se tornavam realidade — neste caso, só foram precisos três dias.

O segundo, a que apelidou de “um sinal do destino”, foi na véspera da biopsia. A assistente de bordo recebeu, por engano, um email da clínica onde estava a ser seguida com o resultado da ecografia que tinha feito dias antes: BI-RAD V. Um conjunto de letras para um leigo, mas não para o Dr. Google. Não havia dúvidas: era um tumor maligno. Tirando os contornos quase novelescos, este seria mais um caso oncológico, não fosse um pormenor importante e pouco vulgar: Raquel estava grávida.

Mulheres grávidas com problemas oncológicos é algo raro: acontece em cerca de uma em cada mil grávidas. Foi algo que “esbarrou” contra Nelson Marques, jornalista do Expresso, no Centro Clínico Champalimaud no verão de 2013. “Ia à procura de outra história”, recorda ao Observador. Na altura, havia muitos portugueses a deslocarem-se até à Alemanha para se submeterem a um tratamento experimental com vacinas de células dendríticas e o jornalista “queria perceber melhor o que se passava naquelas clínicas.”

Raquel Soeiro estava grávida quando descobriu que tinha cancro (Fotografia cortesia de Raquel Soeiro)

Uma médica oncologista, com quem tinha uma reunião marcada, chegou atrasada e justificou-se dizendo que tinha estado com uma grávida a quem tinha sido diagnosticado um cancro. O relato apanhou-o de surpresa. “Aquilo fez-me alguma confusão”, explica Nelson Marques. “A primeira perplexidade foi científica, não sabia que era possível. A segunda perplexidade foi o que iria na cabeça daquela mulher que, numa fase, está na altura mais feliz da vida e depois leva com uma notícia daquelas.”

Foi isso que quis descobrir. A investigação que resultou na reportagem “Filhos da Quimio”, publicada em maio de 2015 na revista do semanário, e numa reportagem televisiva, vencedora do Prémio de Jornalismo da Liga Portuguesa Contra o Cancro em 2016. “Encontrei histórias de amor e algumas são histórias de um amor maior do que a própria vida.”

O trabalho resultou ainda num livro com o mesmo título, publicado no passado mês de fevereiro pela Fundação Francisco Manuel dos Santos. “As pessoas acham que escrevi o livro com algum tipo de missão, enfiam um chapéu que não tenho. Eu vi uma história que tinha de ser contada e achei que era maior do que as páginas de um jornal”, diz o jornalista. “Esse espírito de inspirar outros e de dar informação encontrei nas pessoas com quem falei. A minha única preocupação era fazer-lhes justiça.”

Raquel foi a primeira paciente com quem Nelson Marques contactou. “Quando conheço a Raquel, ela já tinha sido mãe e isso muda tudo. Estava muito tranquila”, conta o jornalista, descrevendo-a como tendo um “ar de triunfo, como se percebe pela imagem” da capa do livro. “A maternidade põe um brilho nos olhos das mulheres e nestas mulheres, que passaram pelo cabo das tormentas, há um ar triunfante.”

A assistente de bordo, que entretanto criou a associação ‘Careca Power’ para ajudar doentes oncológicos a sentirem-se “mais confiantes”, disponibilizou-se de imediato para falar com o jornalista. “Ela foi logo para a internet saber coisas [quando soube que tinha cancro] e encontrava pouca informação. Quis fazer esse caminho, não quis que outras passassem pelo mesmo.”

O drama de Raquel, na altura com 32 anos, começou no Dubai, para onde se tinha mudado com o marido há um ano. Quando descobriu que estava grávida, estava de férias em Portugal — fez o teste numa casa de banho de um centro comercial português no verão de 2014. Nessa altura, já estava à espera de uma consulta para ter uma segunda opinião relativamente ao nódulo mamário.

Em agosto, a médica disse-lhe que tinha um cancro de mama. Era, mais concretamente, um carcinoma ductal invasivo com recetores hormonais positivos, isto é, um dos mais comuns tipos de cancro de mama, hormonodependente e, à partida, com melhor prognóstico. Nada que a tivesse deixado mais tranquila.

"A maternidade põe um brilho nos olhos das mulheres e nestas mulheres, que passaram pelo cabo das tormentas, há um ar triunfante"
Nelson Marques, jornalista do Expresso e autor do livro "Filhos da Quimio"

A médica tinha-lhe dito que se o tumor tivesse recetores hormonais teria de fazer hormonoterapia, pelo que não seria possível continuar com a gravidez — o tratamento provoca abortos espontâneos e malformações nos embriões –, mas abortar não era uma opção para Raquel. A especialista apresentou-lhe outras possibilidades de tratamento que não pusessem em causa a gravidez, uma vez que não punha a hipótese de não a submeter a nenhum tratamento durante esse período. A assistente de bordo decidiu, ainda assim, pedir uma nova opinião na Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud.

O objetivo de Raquel, que atualmente deixou a aviação e se tornou maquilhadora para poder estar mais tempo com a família, foi sempre levar a gravidez até ao fim e tudo o que decidiu foi com base nesse pressuposto. Optou, em conjunto com ambas as equipas médicas, remover o tumor juntamente com o gânglio sentinela (principal gânglio da axila) ainda grávida em Lisboa e fazer em seguida sessões de quimioterapia no Dubai. Noutras circunstâncias, após a remoção do tumor, teria iniciado uma hormonoterapia, mas os médicos submeteram-na antes a quimioterapia para preservar a saúde de Raquel e da bebé. Depois do nascimento de Isabel, em março de 2015, fez radioterapia e hormonoterapia.

A quimioterapia pode ser iniciada a partir do segundo trimestre da gravidez sem se correr o risco de malformações ou ser necessário pôr fim à gravidez. Isto nos cancros da mama que não obriguem a uma intervenção no primeiro trimestre. Com outros tipos de cancro, como as leucemia e os linfomas, a quimioterapia é tão agressiva que leva à destruição das células da medula óssea, pelo que a hipótese de interromper a gravidez ou provocar um parto prematuro não pode ser descartada.

Os riscos do tratamento da quimioterapia no segundo trimestre para o bebé são poucos: diminuição de peso à nascença, rapidamente corrigível, e pequenas alterações cardíacas. Pelo menos do que se sabe até agora. “Isto é uma coisa de viragem do século, tem vinte anos. As crianças estão impecáveis hoje, mas no futuro não se sabe”, explica Nelson Marques.

Ou seja, os estudos demonstram que os bebés que foram expostos a quimioterapia in utero não apresentam anomalias até chegarem à idade adulta. Depois disso, não há garantias porque “não há casos para estudar”. Uma vez que há uma maior probabilidade de uma pessoa que foi sujeita a quimioterapia desenvolver, mais tarde, uma leucemia, os médicos não descartam por completo a possibilidade disso vir a acontecer com estas crianças. “Eles assumem que também existe esse risco”, explica o jornalista.

O livro relata também os casos de outras quatro mulheres que tiveram cancro enquanto estavam grávidas — todas optaram por ter os filhos, apesar da doença. São as histórias de Liliana Quenino, a enfermeira que decidiu ir avante com a gravidez apesar de já ter três filhos; de Anabela Oliveira, que recusou tratar o cancro do colo do útero para conseguir ter o filho; de Gintare, contada através do marido Cândido Gomes, que perdeu a mulher cerca de um ano depois do nascimento do filho Salvador; e de Michelle Burigo, uma das primeiras mulheres em Portugal a conseguir manter uma gravidez apesar de estar a tomar um medicamento para a leucemia mielóide crónica.

Os primeiros sinais dos problemas de saúde de Michelle surgiram quando tinha apenas 22 anos. A brasileira estava a terminar o curso de Direito e desvalorizou uma série de sinais, como nódoas negras e sangramentos do nariz. Convenceu-se de que não seria nada de grave até o médico lhe dizer que tinha uma “quantidade anormalmente elevada” de glóbulos brancos. Depois de uma consulta no hematologista e de uma punção lombar, chegou o veredicto: leucemia mielóide crónica (LMC). Os tratamentos que existiam não curavam o cancro, que já estava na fase mais grave — a esperança média de vida era de dois meses. A única cura era um transplante de medula, mas não tinha dador compatível.

Só havia uma solução: tomar um medicamento inovador chamado imatinib, que é comercializado com o nome Glivec, utilizado para tratar alguns tipos de cancro, mas que custava entre 15 a 20 mil euros por mês. Sem grandes possibilidades financeiras e sem tempo para recorrer à Justiça para ter acesso ao fármaco, Michelle teve de recorrer ao mercado negro, mas nem assim era fácil chegar ao Glivec. O medicamento era de tal forma essencial para a sua sobrevivência e difícil de encontrar que, se o vomitasse devido às náuseas provocadas pelo mesmo, a mãe procurava-o no meio do vómito para que a filha o voltasse a tomar.

Mas nem assim Michelle melhorava, muito possivelmente porque estava a tomar uma dose muito inferior à que necessitava, explicou-lhe um médico do IPO que veio consultar a Lisboa. A brasileira, que na altura já namorava um português, decidiu mudar-se para Portugal para poder ter acesso ao medicamento que lhe poderia salvar a vida. Depois de casar e de pedir o visto de residência, começou a ser seguida no IPO, onde aí começou a tomar a dose certa do medicamento e a doença começou em remissão.

Três anos depois, Michelle engravidou — uma gravidez não planeada –, mas o Glivec, que continuava a tomar, podia provocar abortos espontâneos e malformações no feto. A advogada não tinha muitas hipóteses em cima da mesa: podia parar de tomar o medicamento para continuar com a gestação, correndo o risco de a doença deixar de estar em remissão, ou podia continuar a tomar o Glivec, sabendo que provavelmente isso poria fim à gravidez ou provocaria malformações no bebé. Abortar estava fora de questão. Michelle e o marido decidiram prosseguir com a gravidez e com o tratamento.

Leonor nasceu às 42 semanas saudável. Era das primeiras mulheres em Portugal a conseguir tal feito mantendo a toma do Glivec. Dois anos e meio depois, Michelle e o marido quiseram ter mais um filho. Falaram com o seu médico do IPO, que aconselhou a advogada a parar com a medicação: apesar de haver sempre um risco, já existiam casos de grávidas que tinha parado de tomar o fármaco durante a gestação sem que a doença deixasse de estar em remissão. Foi o que fez e teve mais uma menina, a quem deu o nome de Catarina.

Depois de 15 meses sem o Glivec e com a leucemia estável, o médico propôs que não voltasse a tomá-lo. Até hoje continua em remissão, mas isso não faz com que tenha uma vida mais descansada. O fantasma do cancro continua a atormentá-la. O regresso do cancro é algo que está sempre em cima da mesa e Nelson Marques quis transmitir essa ideia no seu trabalho. “Eu não gosto de histórias de cancro contadas como um conto de fadas porque o cancro não é um conto de fadas. Há pessoas que recidivam”. Foi precisamente isso que aconteceu com uma das doentes.

“O que acabou bem é que estas crianças todas nasceram, que era o que estas mulheres queria, mesmo que depois as coisas corressem mal”
Nelson Marques, jornalista do Expresso e autor do livro "Filhos da Quimio"

Esta hipótese de o cenário mudar de um dia para o outro nunca saiu da cabeça do jornalista do Expresso: “Eu penso logo no pior. Se alguma coisa acontece, se eu deixo de conseguir falar com uma das pessoas, penso logo no pior.”

Há, contudo, um lado positivo que se pode tirar de todas estas histórias, independentemente de terem tido ou não um final feliz, sublinha Nelson Marques. “O que acabou bem é que todas estas crianças nasceram, que era o que estas mulheres queriam, mesmo que depois as coisas corressem mal.”

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