Intercalares nos EUA. Na política pós-2016, tudo gira à volta de Donald Trump /premium

05 Novembro 2018

Violência nas ruas, candidatos clones do Presidente e partidos polarizados. A primeira campanha desde a eleição de Trump revela que não foi ele a adaptar-se à política americana — foi o contrário.

“Eu não estou no boletim de voto, mas estou no boletim de voto. Porque esta eleição é também um referendo sobre mim e sobre o impasse nojento em que eles colocaram este país.” Donald Trump não poupou nas palavras naquele comício no Mississippi, no início do passado mês de outubro. Com a campanha eleitoral para as eleições intercalares a decorrer a todo o gás, o Presidente norte-americano colocou-se no olho do furacão e declarou, com todas as letras, que a votação não é, na verdade, para eleger congressistas e governadores — é, sim, para aprovar ou rejeitar a política do homem que está na Casa Branca.

Foi o culminar de uma estratégia que já tinha vindo a cavalgar ao longo de toda a campanha. “Um voto na Masha é um voto em mim”, “um voto na Cindy é um voto em mim”, “um voto no Steve é um voto em mim”, “um voto no David é um voto em mim, para tornar a América grandiosa de novo”, declarou ao longo de toda essa semana, a propósito dos candidatos republicanos no Tennessee, Mississippi, Kansas e Iowa, como contabilizou a NBC.

Geoffrey Kabaservice não tem, por isso, qualquer sombra de dúvida: “Trump está a tentar tornar estas eleições intercalares num referendo sobre si próprio.” O historiador, especialista no Partido Republicano e diretor de estudos políticos no think tank conservador Niskanen Center, tem acompanhado esta eleição atentamente e revela alguma preocupação com a estratégia de terra queimada do Presidente. “Ele acredita que assim irá dinamizar a sua base eleitoral e deitar por terra este padrão do partido que tem a presidência geralmente perder as intercalares”, explica ao Observador, a partir de Washington D.C. “O problema é que Trump tem muito apoio, mas não é certo se esse sucesso se traduzirá em sucesso nestas eleições.”

Tanto na campanha como na presidência, Donald Trump manteve a imagem de político "genuíno" (DON EMMERT/AFP/Getty Images)

As sondagens são inconclusivas quanto aos resultados dos votos — as mais recentes dão a vitória aos republicanos no Senado e aos democratas na Câmara dos Representantes, com margens curtas —, mas são bastante claras quanto à opinião dos eleitores sobre o peso do Presidente na votação. Por exemplo, 58% dos interrogados num estudo da Suffolk University dizem que Trump terá “muito” impacto na hora de irem votar, enquanto que seis em dez eleitores ouvidos pelo Pew Research Center colocam o Presidente como fator a ter em conta — o valor mais alto para umas eleições intercalares registado pelo Centro desde 1982, altura em que Ronald Reagan estava na Casa Branca.

Que Trump estará na cabeça de muitos eleitores quando entrarem nas assembleias de voto esta terça-feira, não há dúvidas. Mas irá esse impacto jogar a favor ou contra o Partido Republicano? As estatísticas revelam que o partido do Presidente tende a perder as eleições intercalares, mas há quem pense que, com o milionário ao leme, tudo será diferente. “Penso que se isto se tornar num referendo nacional ao sucesso do programa do Presidente Trump, ele será um claro vencedor e os democratas serão esmagados”, prevê o ideólogo Steve Bannon. Outros, como Kabaservice, têm mais dúvidas.

O consenso é apenas um: agora que Trump é Presidente, já nada na política americana é como dantes. E a influência da figura polarizadora do atual chefe de Estado infiltra-se por todas as frestas da política — e da sociedade.

A “transformação da presidência” faz-se de smartphone na mão

Na reta final da campanha eleitoral das presidenciais de 2016, tornou-se quase rotina ouvir diversos comentadores, sobretudo à direita, repetir a ideia de que, chegado à Casa Branca, Donald Trump moderaria o seu estilo e aceitaria ceder aos constrangimentos habituais do cargo. “Fui uma dessas pessoas que tinham esperança de que houvesse uma inversão para uma posição mais presidenciável. Mas estávamos todos errados”, admite Geoffrey Kabaservice ao Observador.

Chegado à Casa Branca, Donald Trump continuou sem divulgar a sua declaração de rendimentos, colocou membros da família em lugares-chave da administração, manteve a sua conta pessoal de Twitter, acusou o antecessor de o ter colocado sob escuta e fez críticas declaradas ao FBI, aos tribunais e aos media. É aquilo que o New York Times definiu como “uma reinvenção da presidência”, num artigo onde vários historiadores presidenciais diziam nunca ter visto nada assim. “Estamos a assistir à transformação total e completa da presidência de uma forma que creio não termos visto desde o final da Guerra Civil”, declarou o diretor do Centro de História Presidencial Jeffrey A. Engel.

E o se o tom e as declarações cáusticas do Presidente provocaram inicialmente em muitos uma sensação de estarem continuamente à beira do precipício, com o tempo isso foi dando lugar a um novo normal. “Ele tem moldado a política de forma a tornar-se neste estado de suspense permanente — e isto é algo a que nos estamos a habituar. Qualquer noção de normalidade, de equilíbrio e de calma começa a ser algo que já não reconhecemos.”

O Twitter continua a ser o meio de comunicação privilegiado do Presidente Trump (MANDEL NGAN/AFP/Getty Images)

O diagnóstico é feito ao Observador por Gwenda Blair, jornalista e biógrafa, autora de The Trumps: Three Generations That Built an Empire (sem edição em português). E, com o conhecimento que tem do Presidente, Blair não tem dúvidas de que Trump continuará a explorar o filão que encontrou há já muitos anos, quando ainda era um magnata do imobiliário. Para além de combinar os estilos de “vendedor” com “homem do espetáculo”, diz Blair, Trump continuará a semear o que lhe tem trazido resultados: “Disrupção, caos, confusão, puxar o tapete aos outros. É aí que ele se sente confortável e forte.”

Donald Trump não é o primeiro Presidente norte-americano a queixar-se das dificuldades que lhe são colocadas no caminho, lembra a jornalista. No seu livro de memórias, George W. Bush aproveitou a oportunidade para se dizer injustiçado pelas acusações do rapper Kanye West de que “não queria saber dos negros”, na sequência do furacão Katrina. Mais recentemente, Barack Obama não poupou nas palavras sobre o Congresso de maioria republicana, que acusou de o bloquear deliberadamente devido a um “hiper-partidarismo que, francamente, em 2008 pensava conseguir ultrapassar”. A diferença, explica Blair, é só uma: “Eles podiam queixar-se pontualmente quando não conseguiam o que queriam, mas reconheciam que estavam a representar todo o país. Donald Trump só se representa a si mesmo.”

Da mesma forma, muitos outros presidentes quebraram barreiras nas formas de comunicar com o eleitorado, como relembra a mesma peça do New York Times: Roosevelt inaugurou conversas na rádio, Eisenhower na televisão, Kennedy decidiu fazer essas comunicações em direto. Agora, Trump utiliza o Twitter como canal para falar diretamente com os seus eleitores — mas, ao contrário dos antecessores, adota um tom pessoal e partidário na sua comunicação, partindo para o ataque contra os adversário políticos e não só.

“Conheço muitos republicanos que acham que ele devia parar de tweetar, que acham que isto é um embaraço e que vira as pessoas contra ele”, conta Kabaservice. “Mas não sabemos qual é o impacto exato desta forma de comunicação em eleições, por exemplo. Depois de terça-feira, já saberemos.” Gwenda Blair, por seu turno, destaca que esse papel caberá “aos futuros historiadores”, mas arrisca uma análise: “Vivemos num momento em que o Twitter tem um papel central em apresentá-lo como alguém autêntico, sem filtros, genuíno. E isso fez ruir completamente qualquer definição prévia de que um político devia ser alguém ponderado, sensato, que ouve os especialistas e mede as palavras. Isso agora é visto como sendo algo calculista.”

O paradoxo Trump: como ser um oráculo para os apoiantes, sem ser responsabilizado pelas ações deles

No meio de toda a retórica agressiva do Presidente, ventilada via Twitter, a vida ao vivo e a cores vai sendo marcada por acontecimentos violentos. Durante esta campanha eleitoral, dois eventos chocaram o país, tanto pela sua violência como pelas suas motivações. O primeiro foi o conjunto de engenhos explosivos enviados por Cesar Sayoc para vários democratas e órgãos de comunicação social, alegadamente por serem críticos do Presidente. O segundo foi o ataque a uma sinagoga em Pittsburgh, cujo suspeito de ser o autor, Robert Bowers, acusou nas redes sociais “os judeus” de estarem a ajudar a trazer refugiados e migrantes para os Estados Unidos.

Memorial improvisado de homenagem às vítimas do ataque na sinagoga em Pittsburgh (Jeff Swensen/Getty Images)

Há quem não tenha pejo em dizer que Trump alimentou esta onda de violência com a sua retórica musculada, como é o caso de uma das responsáveis do Southern Poverty Law Center, Heidi Beirich, que afirmou à Al Jazeera nunca ter visto uma onda de violência tão forte em vésperas de uma eleição. Kabaservice é mais cauteloso: embora reconheça que há “gente na Fox News que usa linguagem que empurra as pessoas para o extremismo”, tem dificuldades em responsabilizar diretamente o Presidente. Contudo, diz, “o que é claro é que ele não está pronto para assumir o papel de alguém que une o país e o povo, porque usa a divisão como forma de retirar dividendos políticos.”

A divisão que promove retoricamente pode não ser suficiente para lhe serem imputadas responsabilidades diretas sobre atos violentos de outros, é certo. Mas há evidências de que as palavras de Trump funcionam muitas vezes como oráculo para alguns dos seus apoiantes. Foi, por exemplo, essa a conclusão de um estudo de Michael Barber e Jeremy Pope, da Universidade de Bringham Young, que registou mudanças de opinião entre republicanos, quando essa mudança era preconizada pelo Presidente.

Os números também o demonstram em temas concretos: se em 2015 só 12% dos republicanos diziam à Gallup ter uma ideia positiva do Presidente Vladimir Putin, em 2017 esse número já tinha subido para 32%, depois de Trump ter elogiado algumas vezes o homólogo russo. E o padrão na política interna: segundo a Gallup, 60% dos republicanos classificavam, em 2014, o trabalho do FBI como “excelente” ou “bom”; em 2017, o valor tinha descido para os 50%, depois de o Presidente ter criticado repetidamente a instituição.

“Nunca pensei que chegaria o dia em que veria um Presidente a atacar o FBI”, reconhece Kabaservice, para quem as declarações de Trump classificando a agência como “vergonhosa” e os media como “inimigos do povo” aceleram a “erosão das instituições”. “Mas isto apenas reflete a má perceção que a opinião pública já tinha das instituições nos Estados Unidos. O Exército é a instituição menos afetada, mas já existem há muito tempo estas ideias negativas sobre os partidos, os tribunais, as agências de segurança, etc.”

Trump alcançou assim um lugar ideal para qualquer político: as suas palavras têm força suficiente para serem levadas à letra quando o favorecem, mas não quando o prejudicam. Algo que, relembra Blair, não é novo no magnata: “Ele é altamente habilidoso. Como milionário — que é algo que geralmente funciona como sendo um risco em política — diz ‘vejam o quão bem sucedido eu sou’, ao mesmo tempo que diz ‘eu não preciso de mais dinheiro, defendo-vos porque quero defender-vos’”. É o truque de ilusionismo que, garante a biógrafa, Donald Trump tem feito “toda a vida” — e com sucesso. “A separação entre aquilo que ele diz e aquilo que ele de facto quer dizer está sempre lá. Já não interessa o que ele diz, porque faz tudo parte de uma conversa de vendedor que pode não ser para ser levada inteiramente a sério.”

Na nova América de Trump, os moderados são “sem-abrigo políticos”

Não é, por isso, de admirar que, nestas eleições intercalares, sejam muitos os que tentam seguir os passos de Trump e copiar-lhe o método. Na Geórgia, Brian Kemp reagiu às críticas sobre o seu anúncio de campanha, onde aponta uma caçadeira a um namorado da filha adolescente, dizendo “ultrapassem isso”. Na Florida, Ron DeSantis usou também um anúncio de campanha para ensinar o filho pequeno a construir um muro e a aprender com o Presidente. E, no Indiana, Mike Braun surge como um empresário tornado político que dá alcunhas aos adversários como “Todd, a fraude” e “Luke, o liberal”.

Soa a algo familiar? Donald Trump também acha, razão pela qual apoiou estes três candidatos ainda nas primárias do Partido Republicano. Não faltam, por isso, clones do Presidente nesta campanha. Menos certo é se os clones conseguirão ter os mesmos resultados eleitorais do Presidente — “por enquanto ainda só houve um Donald Trump, ninguém foi ainda capaz de copiar aquele sucesso”, relembra Kabaservice. As sondagens revelam que o número de republicanos dispostos a aceitar outsiders na política está a aumentar exponencialmente; mas, como recordou o diretor de uma firma republicana de pesquisa adversarial ao Politico, Trump não era um outsider desconhecido do grande público quando se candidatou à presidência.

Blair concorda: “Ele tinha a vantagem de uma década de um programa de televisão visto por milhões de pessoas, onde tinha criado uma imagem de si próprio como o chefe, aquele que contrata e despede, que tem a última palavra, que é o decisor”, afirma. “Para os outros políticos, a bitola está alta. É difícil tentar atingir isto, mas eles estão a tentar.”

Trump foi durante anos estrela do reality-show The Apprentice (Frazer Harrison/Getty Images)

Se essa estratégia de colagem a Trump será vencedora ou não, ninguém arrisca prever. O Partido Republicano está galvanizado com o seu Presidente — mas os candidatos moderados foram, na sua maioria, afastados nas primárias, deixando em dúvida a capacidade do partido de apelar ao centro. “Podem ser bem sucedidos ao obter os votos de pessoas em zonas rurais, de maioria branca e com menor grau de escolaridade. Mas isso pode custar os votos de outros eleitores republicanos com mais estudos”, avisa Kabaservice.

Trump conseguiu manter esses eleitores, mas outros candidatos podem não ter a mesma capacidade. “Não creio que venha aí uma onda azul”, concede o analista, referindo-se à cor do Partido Democrata. “Mas penso que vamos ter um realinhamento dos partidos, com os republicanos a tornarem-se o partido dos eleitores brancos e com menos educação e os democratas o partido das minorias.” Ou, por outras palavras, estamos a assistir a “uma transformação gigantesca nestas eleições, que torna mais fácil prever em quem as pessoas votam só com base na sua demografia”.

A discussão sobre a economia, essa, parece arredada destas intercalares. Enquanto os democratas escolhem candidatos que esgrimem as suas credenciais como possível “primeira mulher nativo-americana no Congresso” ou “primeira governadora transgénero”, os republicanos concentram-se em denunciar uma “invasão” de imigrantes da América Central que pode trazer nas suas fileiras “membros de gangs e criminosos”.

“O Presidente está praticamente a ignorar os seus bons resultados económicos”, espanta-se Gwenda Blair, referindo-se ao maior crescimento económico desde 2014 e à taxa de desemprego mais baixa desde o ano 2000. “É claro que os democratas dirão que muito disso pode ser fruto das políticas aplicadas por Obama. Mas Trump podia capitalizar isto e, no entanto, está a ignorá-lo e a concentrar-se numa agenda identitária e no medo. Resultou em 2016 e portanto ele pensa que pode resultar outra vez.”

Geoffrey Kabaservice concorda, em absoluto. “As políticas sobre a identidade são muito importantes para a maioria das pessoas hoje em dia. E, quando falamos em políticas de identidade, não podemos falar só das minorias, temos de falar também de políticas de identidade branca”, declara o analista, que passou a vida a estudar os conservadores norte-americanos — e que crê estar a assistir a uma radicalização nos dois principais partidos. “Há uma tendência para levar a guerra cultural ao extremo, o que torna os moderados sem-abrigo políticos”, lamenta-se. “Eu acho que ainda há espaço para a moderação entre o povo americano, mais do que parece quando lemos os jornais ou vemos as redes sociais”, atira Kabaservice.

Questionado sobre se os políticos têm apelado a essa moderação, o historiador não tem dúvidas e dispara rapidamente a resposta: “Terei de dizer que não.” Donald Trump é, naturalmente, o elefante na sala — não apenas para o partido que tem o elefante como símbolo, mas também para toda a política norte-americana.

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