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Pedro Marques fez as pazes com as sondagens e falou de Costa como o inspirador dos socialistas numa nova Europa. Paulo Rangel soltou-se mais do que no último debate e não dispensou o tom paternalista para o principal adversário, que vê como um socrático que ainda não pediu perdão. Nuno Melo, que estava posicionado o mais à direita possível no ecrã, não pareceu ter ficado com mazelas sobre a polémica do Vox: relacionou refugiados que pediram asilo com atentados terroristas. Marisa Matias e João Ferreira mostraram que a esquerda está numa relação cada vez mais difícil. Já Marinho e Pinto foi o outsider que elogiou um dos outros candidatos e sem pudor atacou um “muchacho de César”. Foi assim o segundo debate das Europeias, que decorreu esta quinta-feira à noite na TVI.

Quem estivesse a fazer zapping deparar-se-ia com um debate com uma espécie de todos contra todos, muitas interrupções e voz elevada, que a espaços parecia mais um painel de comentadores de futebol que um debate com os seis principais cabeças de lista às Eleições Europeias.

Debate Europeias. Nuno Melo acusa Pedro Marques de ser o “candidato das fake news”

Pedro Marques. Objetivo é espalhar a boa nova governação de Costa pela Europa

Pedro Marques aposta tudo na conquista do voto ao centro e tenta que os eleitores dividam o boletim de voto em duas realidades: a austeridade, a que cola a PSD e CDS, e a recuperação de rendimentos, à qual cola o PS. Os ataques guardou-os todos para a direita, quase como se a esquerda não tivesse em estúdio e, quanto a Marinho e Pinto, só reagiu a estímulos (quando o candidato visou Carlos César, por exemplo).

Pedro Marques apareceu mais confiante e com a lição bem estudada para pôr os dedos nas feridas de PSD e CDS: a crise dos professores, a última sondagem conhecida (que inverte a tendência de queda do PS) e um alvo do costume, Manfred Weber. Começando pelas sondagens, que não lhe eram tão favoráveis no último debate, Pedro Marques afirmou  : “As coisas devem estar a correr muito mal ao PSD, aliás como demonstram as últimas sondagens e como me dizem as pessoas na rua.” Paulo Rangel insistia que as sondagens não diziam isso.

Pedro Marques explicou que se referia “à última [sondagem] que saiu”.  Rangel desvalorizou: “Ah, essa. Então se é essa está bem”. Trata-se de uma sondagem, publicada pelo Sol na última sexta-feira, que é feita pela Eurosondagem, mas financiada pelo Montepio — o que, segundo o PSD, lhe retira credibilidade. Mas,  até para essa afirmação, Pedro Marques tinha resposta na ponta da língua e perguntou ao principal adversário: “Porquê? Há alguma [sondagem] em que esteja à minha frente?”

Mas isso não chegava, era preciso lembrar o caso em que o PSD foi trucidado pelos comentadores políticos em geral. Pedro Marques lembrou que esta foi a “semana em que [PSD e CDS] lançaram uma enorme bomba orçamental [a dos professores]”. E continuou: “A bomba rebentou-vos nas mãos. Recuaram e votaram contra. Isto mancha a credibilidade do PSD, que devia ter um papel de responsabilidade orçamental, foi pelo rio abaixo”.

Rangel não foi no engodo dos professores, pois sabia que o assunto era tóxico, mas foi mais combativo quando Pedro Marques defendeu a governação socialista como modelo para a Europa. O socialista enalteceu a governação do PS e disse mesmo que o objetivo dos socialistas europeus é replicarem o “modelo” Costa, inspirado na governação em Portugal, em toda a Europa. Para Pedro Marques a forma de governar do PS está “credenciada na Europa”, como prova a “ida de Mário Centeno para o Eurogrupo“.

No minuto final, Pedro Marques terminou como tinha começado: a namorar o centro. As suas primeiras palavras tinham sido precisamente que “nestas eleições há duas visões muito claras em confronto para a Europa: a da direita, implementada aqui em Portugal pelo anterior governo, que é a visão dos cortes, das sanções, de Manfred Weber; e outra visão “ambiciosa, europeísta”, de “um partido” que defende a “reposição de rendimentos”, a melhoria da “qualidade de vida” e uma “Europa que tem de voltar a governar para as pessoas”.

Rangel, à direita do “paraíso”, ataca o governante de Sócrates

Paulo Rangel voltou a centrar os ataques no seu principal adversário, Pedro Marques. Tem uma estratégia clara: lembrar aos portugueses, e repeti-lo as vezes que forem necessárias, que o candidato do PS foi governante no tempo de José Sócrates. Numa das respostas a Pedro Marques, Rangel disse: “Eu não estou a falar agora de José Sócrates”. Mas mudou de ideias no segundo seguinte ao explicar: “Falo sempre. Porque um país que passou pelo que nós passamos nunca se esquece disso”. E depois exigiu um mea culpa a Pedro Marques por ter feito parte desse governo: “E no seu caso que foi seis anos membro de um governo de José Sócrates nunca fez essa retratação. Estamos à espera que a faça um dia?”

Assim que Pedro Marques publicou o seu manifesto, Rangel acusou-o de fazer propostas de medidas que já existiam. Agora, foi alvo das mesmas acusações de vários dos candidatos, que garantem que o plano ambicioso de combate ao cancro na Europa que Rangel propõe,  já existe. Pedro Marques foi um dos que registou a incongruência e voltaram a trocar galhardetes. “Não venha com ironias nem com cinismo”, atirou Rangel. Continuaram os apartes de Marques e Rangel atacou:

— “Não queria estar aqui a explicar como funciona o Parlamento Europeu e as matérias europeias. Sei que precisa de algumas noções”.

Marques também estava particularmente agressivo:

— “E o senhor precisa de noções de presença no Parlamento”. 

Rangel lá continuou e sempre para atacar a governação socialista. O candidato do PSD disse que as “propostas do PS são utópicas”. Pedro Marques voltou a rebater e a dizer que foram “implementadas”. Rangel complementou que o que o PS implementou foi a “degradação do SNS para serviços nunca vistos”, da Proteção Civil (“sabemos o que aconteceu”, numa referência às vítimas dos incêndios”) e criticou ainda a demora das pensões na Segurança Social. Rangel tentou desmontar o “milagre socialista” e o país cor-de-rosa pintado por Marques.

Para marcar essa diferença, Rangel disse no minuto final: “O PSD não promete o paraíso“. O social-democrata diz que o PSD é assim o “partido credível, que não manipula números, não diz que não há cortes, quando há cortes” e que “não inventa execução [de fundos]”.

João Ferreira, CDU. À direita todos são adversários. E à esquerda também

Que a CDU cole o PS à direita não é propriamente novo. Mas depois de passar quase uma legislatura inteira como parte da garantia de estabilidade do “governo minoritário do PS”, o reforço dos ataques não deixa de ter significado político: é preciso descolar para separar as águas e, em ano de abundância eleitoral, convocar o eleitorado que possa ter ficado anestesiado com a inédita experiência.

Ora, precisamente nas matérias europeias – onde nunca houve convergência com o PS – o terreno é fértil para as acusações ao candidato socialista, de fazer parte de um bloco central obediente a Bruxelas. No debate desta quarta-feira, João Ferreira voltou a usar essa estratégia, tal como tinha feito na semana anterior. Sempre que criticou a aprovação de medidas europeias, fez uma crítica direta a PS e PSD.

Foi assim quando se falou sobre as sanções de que Portugal podia ter sido alvo: João Ferreira não poupou os socialistas e disse que a ameaça de sanções resultou “de um enquadramento legislativo, que foi votado favoravelmente por PS, PSD e CDS.” Foi assim também quando o cabeça de lista da CDU acusou o “centrão” de ter permitido cortes para Portugal no Orçamento, ou quando responsabilizou PSD e CDS de aprovarem a “diminuição para o co-financiamento para as regiões em transição”.

Finalmente, voltou a atacar até no coração da narrativa de Pedro Marques, que tem defendido um novo contrato social na Europa. O candidato da CDU lembrou que os socialistas votaram “ao lado de PSD e CDS no Parlamento Europeu na proposta de criar um mercado pan-europeu de fundos de pensões privados.”

A CDU que sejam “removidos os bloqueios da UE” para que seja possível “financiar a habitação, os transportes, a cultura e a produção nacional”. E sobre o trabalho “que cada um andou a fazer todos os anos” em Bruxelas, Ferreira puxou dos galões para citar “dados objetivos do Parlamento Europeu” sobre as médias por deputado de “perguntas e relatórios” em que o PCP está sempre à frente.

Uma declaração que parece ter irritado Marisa Matias – o que fez com que o debate azedasse também à esquerda – , que lhe respondeu: “Há quem trabalhe para os números e para a estatística e quem trabalhe para a vida das pessoas.” João Ferreira ripostou de imediato e disse: “Se há aí alguma insinuação que o trabalho não foi para a vida das pessoas, isso não é verdade”. E continuaram a troca de farpas sobre o assunto.Depois de várias interrupções, a cabeça de lista do BE, deixou escapar que “o PCP gosta imenso de criticar o Bloco de Esquerda”.

Marinho e Pinto. O candidato ignorado entre os elogios a Rangel e as críticas ao “muchacho de César”

O candidato do PDR manteve a estratégia — e repetiu muitos argumentos — do debate da semana passada. No estilo “disparar em todas as direções”, Marinho e Pinto tentou ser o candidato anti-sistema de entre aqueles que fazem parte do sistema. Criticou as instituições europeias, as “politiquices” e a ausência de escrutínio dos jornalistas e dos cidadãos sobre o trabalho dos eurodeputados.

Voltou a fazer-se valer do ranking que o coloca em terceiro lugar na lista dos deputados portugueses com melhor produtividade, apesar das críticas feitas por Nuno Melo no último debate, que questionou a origem dos dados. Marinho e Pinto acabou por ser ignorado pelos seus pares apesar de ter tentado jogar o jogo dos partidos grandes.

Mas o ex-bastonário da Ordem dos Advogados reservou ainda alguns elogios para o trabalho de deputados e ex-deputados de outras listas (como Paulo Rangel e Maria João Rodrigues), que considera terem dignificado o nome do Parlamento Europeu. “Fizeram um trabalho extraordinário junto da sua família europeia”, considerou, lamentando que a socialista tenha caído do rol de candidatos apresentados pelo PS. Assim como o socialista Ricardo Serrão Santos, que nas últimas europeias foi eleito pelo círculo dos Açores, mas que também não faz parte dos 21 candidatos do PS ao Parlamento Europeu. “Tudo para porem lá mais um muchacho de César”, acusou Marinho e Pinto.

Nuno Melo, CDS. A ocupar o espaço à direita e, às vezes, o que está livre à direita da direita

O candidato do CDS-PP começou o debate com vontade de atacar os adversários. Se no debate anterior tinha colocado o foco das suas críticas na esquerda, desta vez Nuno Melo foi mais longe e atingiu também o PSD, que não ripostou. Manteve o estilo aguerrido e agressivo e conseguiu provocar o alvo a abater deste debate: Pedro Marques. Desta vez o centrista foi mais ambicioso, tentando não só denegrir o outro lado da barricada mas também conquistar votos à direita. “O prémio da verdadeira oposição do PS é do CDS”, disse logo ao início, tendo recuperado a ideia no minuto final. “Não fazemos acordos com o PS agora para criticar depois. Somos o único partido que não viabilizará um governo de António Costa”, frisou.

Esta tentativa de falar para um eleitorado mais à direita teve o seu auge a meio do debate, quando relacionou a saída de refugiados com atentados terroristas. “Fugiram de Portugal 492 refugiados. Gostava de recordar que um dos piores atentados que aconteceu na Alemanha foi cometido por um cidadão afegão que tinha requerido asilo como 14 identidades diferentes e que um dos piores em França foi cometido por um requerente de asilo tunisino”. A frase fala diretamente para um eleitorado sensível a argumentos mais populistas, que não tem tido grande expressão em Portugal mas que Nuno Melo não quer deixar à solta (para o Basta de André Ventura, por exemplo).

A afirmação não passou em claro. “É uma vergonha o que acaba de dizer sobre os refugiados”, lamentou logo de seguida Pedro Marques, o foco dos ataques de Nuno Melo (muito mais do que Rangel). Voltando a levar fotografias e recortes de jornais para o debate, o centrista atacou desde o desinvestimento na ferrovia aos fundos comunitários, passando também pelos atrasos na CP causados pela passagem de comboios fretados pelo PS.

Marisa Matias. A candidata que apostou na moderação (e quase saía ilesa)

A candidata do Bloco de Esquerda voltou a aparecer no debate, à semelhança daquilo que tinha acontecido há uma semana, como uma das mais serenas. Uma postura calculada para contrastar com as diversas balas que iam sendo disparadas entre os restantes partidos. Nos momentos em que o debate ficava mais confuso, com interrupções e várias intervenções ao mesmo tempo, Marisa Matias raramente participava. Surgia apenas mais tarde, saindo do silêncio e tentando capitalizar essa atitude. “Não é por falar mais alto que se tem mais razão”, afirmou a dada altura, repetindo aliás uma frase que já tinha proferido no primeiro round.

No entanto, esta aparente tranquilidade não evitou que fosse a protagonista de um dos momentos tensos do debate: o tal bate-boca com João Ferreira. Um momento que mostrou uma candidata visivelmente frustrada e irritada por estar a ser interrompida, terminando com um agradecimento irónico quando o eurodeputado comunista deixou de a interromper: “Muito obrigada, João Ferreira”, disse quase revirando os olhos.

Não fosse este desaguisado e a candidata teria conseguido escapar ilesa à troca de acusações por que se pautou este debate. Passou a maior parte do tempo à margem, numa estratégia que fazia até recordar a postura de Pablo Iglesias, do Podemos, nos debates eleitorais que antecederam as legislativas espanholas no mês de abril. “Até tenho vergonha”, chegou a comentar sobre as discussões cruzadas que impediam o avanço do debate. “Discutamos os temas com seriedade”, pediu a dada altura, tendo então ouvido uma resposta de Nuno Melo: “Desculpe lá, acha que é a rainha da seriedade neste debate?”, questionou o centrista, que não obteve resposta.

Apesar de ter apostado na contenção, Marisa Matias também distribuiu ataques. A Marinho e Pinto e ao PCP, que acusou indiretamente de trabalhar para os números e não para os europeus, mas sobretudo a PSD, PS e CDS.

Para ferir os adversários, a candidata bloquista atacou em temas que são bandeiras do seu partido: o combate à evasão fiscal — criticando diretamente Juncker por “ter impedido uma comissão de inquérito ao caso LuxLeaks —, as alterações climáticas e, até, a defesa da “geringonça” — voltando a sublinhar que a crise política foi uma “encenação”.