Quando escreveu o seu segundo livro, “The Little Book That Beats the Market”, Joel Greenblatt tinha um registo bolsista invejável: um ganho anual de 40% em mais de 20 anos. Este ritmo de valorização levaria um património a multiplicar-se por 800 em menos de 20 anos.

Apesar do excelente desempenho, Greenblatt não é tão conhecido como Warren Buffett ou Peter Lynch. O seu primeiro livro, “You Can Be a Stock Market Genius: Uncover the Secret Hiding Places of Stock Market Profits”, foi um fracasso, como o próprio confessou na atualização da sua segunda obra. Porém, a sua sorte de autor mudou com “The Little Book That Beats the Market”: tornou-o conhecido como o “mágico” que tem uma fórmula para investir.

Fórmula para adolescentes

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Joel Greenblatt escreveu o livro “The Little Book That Beats the Market” com uma linguagem simples, acessível aos seus filhos adolescentes. Entretanto, atualizou a obra em 2010 com um novo título: “The Little Book That Still Beats the Market”. A fórmula mágica mantém-se.

“Investir é difícil. É por isso que ter uma estratégia de investimento de longo prazo disciplinada, metódica e que faça sentido é essencial em qualquer ambiente de mercado. Não pode apenas fazer sentido; tem de fazer sentido para si”, escreveu o guru.

Para muitos, a fórmula mágica é demasiado simples – comprar ações de empresas com elevadas rentabilidades do capital e do fluxo de caixa livre, como se explica mais à frente – para poder funcionar.

Greenblatt explicou que o método funciona em sete em cada doze meses e em três em cada quatro anos, como revelou à revista Kiplinger’s em 2008. Por isso, os investidores apenas têm de controlar as emoções: mesmo que não corra bem à primeira, o desempenho de longo prazo será superior ao alcançado pelos principais índices de bolsa.

Os dois indicadores que o guru defende não são os mais usuais entre os investidores. Para não afastar os aforradores menos à-vontade com as finanças, Greenblatt lançou um portal, Magic Formula Investing, que gera listas de ações que cumprem os seus critérios. O registo no portal é gratuito. Basta um endereço de correio eletrónico.

Joel Greenblatt explica a fórmula mágica na CNBC. Crédito: CNBC.

Infelizmente, o portal Magic Formula Investing apenas recomenda carteiras compostas por ações das bolsas dos Estados Unidos da América. “O investimento em valor deverá ser uma estratégia eficaz fora dos EUA”, revela o portal.

Neste artigo, o oitavo numa série de dez sobre gurus da bolsa, o Observador compilou uma lista de 20 ações europeias e norte-americanas cumprindo as regras definidas por Joel Greenblatt.

Estratégias de bolsa
Depois de Joel Greenblatt, falta publicar as carteiras de ações de John Neff e de David Dreman.
Guru Data de publicação
Warren Buffett 8 de outubro
Benjamin Graham 15 de outubro
Peter Lynch 22 de outubro
Joseph Piotroski 29 de outubro
William O’Neil 5 de novembro
Martin Zweig 12 de novembro
James O’Shaughnessy 19 de novembro
Joel Greenblatt 26 de novembro
John Neff 3 de dezembro
David Dreman 10 de dezembro

Varinha de condão da bolsa

O desempenho histórico de Joel Greenblatt de 40% por ano foi ao leme do Gotham Capital, um hedge fund, isto é, um fundo de investimento que é alvo de pouca regulação e supervisão. Foi como gestor desse produto, juntamente com Robert Goldstein, que o guru, atualmente com 57 anos, começou a desenhar um sistema automático de classificação de ações.

Foi também nessa altura que ingressou na Universidade de Colúmbia, em Nova Iorque. Leciona a disciplina “Valor e Investimento em Situações Especiais”, cuja literatura recomendada inclui obras de Benjamin Graham, James O’Shaughnessy e David Dreman, bem como livros sobre Warren Buffett.

“Benjamin Graham disse ‘compra barato’ e Warren Buffett disse ‘comprar bons negócios baratos é ainda melhor’. Integrámos essa estratégia nos nossos investimentos há muitos anos e queria provar que esses dois conceitos, barato e bom, poderiam funcionar bem”, resumiu Greenblatt à revista Barron’s em agosto de 2014.

Fórmula esgotada em português

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A Lua de Papel traduziu “The Little Book That Beats the Market” para português como “Invista e Fique Rico”. No entanto, a edição de 4.000 exemplares está esgotada. José Prata, o editor responsável pela chancela, pondera lançar uma nova edição em 2016.

O teste histórico à estratégia produziu um retorno anual de 19,7% entre 1988 e 2009, mais do que os 9,5% do índice Standard & Poor’s. Tinha nascido a fórmula mágica.

Sempre que tem a oportunidade, Joel Greenblatt faz a ressalva: a fórmula não é exatamente mágica, mas funciona muito bem no longo prazo. Aliás, os dois indicadores que usa não são mais do que versões refinadas de outros indicadores mais populares.

Estes são os dois rácios que o guru apresenta como ideias para os investidores:

  • Rentabilidade do capital tangível. Há várias maneiras de calcular a rentabilidade do capital da sociedade, mas Greenblatt prefere dividir os resultados operacionais pelo capital tangível (capitais próprios subtraídos dos ativos não tangíveis). Uma empresa que consiga reinvestir os seus resultados a uma taxa mais elevada terá mais sucesso.
  • Rentabilidade do fluxo de caixa livre. Resulta da divisão do fluxo de caixa livre por ação dos últimos 12 meses pela cotação dos títulos. O guru prefere o fluxo de caixa ao resultado líquido, porque é menos manipulável. Quanto mais afastados os fluxos monetário por ação do preço da ação, mais barato fica o investimento.

O processo cria duas listas de ações ordenadas: a primeira atribui o valor 1 à ação que tem a rentabilidade do capital tangível mais elevada, 2 à que tem a segunda rentabilidade mais alta e assim sucessivamente; a segunda lista dá 1 à ação com a rentabilidade do fluxo de caixa livre mais elevada, 2 à segunda com a rentabilidade mais alta, etc. Depois somam-se os valores atribuídos nas duas listas a cada ação. O investidor deve comprar as 20 ações, pelo menos, que têm as somas mais baixas. São os títulos das empresas mais rentáveis em termos de capital tangível e de fluxo de caixa livre.

O quadro seguinte detalha as ações que o Observador encontrou seguindo os critérios de Greenblatt.

20 ações greenblattianas
Estes empresas destacam-se pelas elevadas rentabilidades do capital tangível e do fluxo de caixa livre.
Empresa Rentabilidade do capital tangível Rentabilidade do fluxo de caixa livre
Aberdeen Asset Management 182,64% 9,81%
Amgen 470,00% 7,30%
Azimut Holding 124,82% 7,94%
Computer Sciences 168,79% 10,44%
DCC 295,30% 6,08%
eBay 158,78% 9,31%
Flowserve 288,40% 6,28%
Fossil Group 75,33% 13,23%
GameStop 336,24% 12,71%
Gilead Sciences 361,13% 11,24%
Hays 396,38% 5,82%
International Paper 395,77% 7,67%
LyondellBasell 100,10% 11,95%
Navient 109,13% 33,14%
Nordstrom 129,24% 12,81%
Oracle 193,48% 6,91%
Seagate Technology 234,77% 18,98%
SKF 315,77% 8,08%
Telenor 882,55% 6,39%
TeliaSonera 106,84% 8,43%
Fonte: Bloomberg a 23 de novembro de 2015.

Quando o Observador deduziu esta lista dos ensinamentos de Greenblatt, o portal Magic Formula Investing apenas repetia os títulos da GameStop e da Gilead Sciences. No entanto, os fundos da Gotham Asset Managment, liderada por Greenblatt, além das ações da GameStop e da Gilead Sciences, tinham títulos da Amgen, da Computer Sciences, da Flowserve e do Fossil Group, de acordo com os seus últimos relatórios semestrais. Estes fundos estão reservados aos investidores norte-americanos.

Três das ações indicadas no quadro em cima já tinham sido recomendas nas carteiras de outros gurus: a GameStop no artigo sobre James O’Shaughnessy, a Gilead Sciences quando se discutiu a estratégia de Warren Buffett e a Oracle na análise à tática de Benjamin Graham.

Embora 13 dos 20 títulos greenblattianos estejam cotadas nas bolsas norte-americanas, a carteira é bastante diversificada. Não há mais de duas empresas no mesmo setor. As cotações apresentadas de seguida são as válidas às dez horas desta quinta-feira.

A escocesa Aberdeen Asset Management (Londres: 345,10 pence) e a italiana Azimut Holding (Milão: 23,61 euros) gerem ativos, como fundos de investimento. As californianas Amgen (Nasdaq: 163,95 dólares) e Gilead Sciences (Nasdaq: 107,78 dólares) são biofarmacêuticas. As nórdicas Telenor (Oslo: 154 coroas norueguesas) e TeliaSonera (Estocolmo: 42,36 coroas suecas) gerem redes de telecomunicações fixas e móveis.

As restantes empresas não repetem negócios, embora, à primeira vista, possa parecer. A Computer Sciences (Nova Iorque: 69,46 dólares) presta serviços de tecnologia da informação, enquanto a Oracle (Nova Iorque: 39,26 dólares) tem aplicações para gestão de empresas e a Seagate Technology (Nasdaq: 34,57 dólares) produz equipamento de armazenamento informático.

Na área da maquinaria industrial, a Flowserve (Nova Iorque: 46,34 dólares) é especialista em produtos de controlo de fluxos e a SKF (Estocolmo: 150,80 coroas suecas) é a maior fabricante de rolamentos.

Tanto a GameStop (Nova Iorque: 36,65 dólares) como a Nordstrom (Nova Iorque: 57,79 dólares) são retalhistas especializados, mas a primeira é na área dos videojogos e a segunda é no campo do vestuário.

A eBay (Nasdaq: 29,00 dólares) gere uma rede de comércio eletrónico. A DCC (Londres: 5.930 pence) tem um negócio de distribuição, principalmente de produtos petrolíferos mas também de tecnologia e fármacos.

As cinco empresas que sobram são únicas na lista de ações à Greenblatt: o Fossil Group (Nasdaq: 38,82 dólares) cria acessórios de moda, em especial relógios e joalharia, a Hays (Londres: 143,90 pence) presta serviços de recursos humanos, a International Paper (Nova Iorque: 41,64 dólares) é o maior produtor mundial de papel, a holandesa LyondellBasell (Nova Iorque: 95,95 dólares) é uma das maiores produtoras de plásticos e a Navient (Nasdaq: 11,73 dólares) gere e recupera créditos governamentais para formação nos EUA.

Joel Greenblatt diz que o seu sucesso da sua estratégia depende de quatro passos:

  1. Pesquisar as melhores ações. O quadro anterior facilita-lhe o trabalho.
  2. Comprar as ações. O investidor deve procurar baixar os custos de bolsa. Se o dinheiro a investir representa uma grande fatia do património, devem fazer-se as compras progressivamente. Vinte ações podem representar um grande custo para os investidores com carteiras mais pequenas.
  3. Manter as ações durante um ano e depois vender. Um ano é o prazo mínimo recomendado para investir na carteira de ações greenblattianas.
  4. Voltar ao ponto 1. Depois encaixar os ganhos e as perdas do ano, o investidor deve voltar a selecionar uma nova carteira seguindo os ensinamentos do guru.

Dentro de um ano, o Observador fará o balanço das ações recomendadas neste artigo e voltará a recomendar uma nova carteira para ajudar os seus leitores a cumprir o quarto ponto da estratégia de Joel Greenblatt.

David Almas é analista financeiro independente registado na CMVM com o número oito. O autor trabalha subordinado ao Código Deontológico dos Jornalistas.