A prioridade do novo primeiro-ministro é sentar-se com as forças de segurança, os professores e elaborar o plano de emergência para a saúde nos primeiros sessenta dias. Mas se o conteúdo dos diplomas dependerá de negociações setoriais, o Executivo vai também rapidamente mudar de imagem. O Governo Montenegro vai descartar, sabe o Observador, o logótipo minimalista que o Governo de Costa adotou e que eliminou elementos como a esfera armilar.

O logótipo que será adotado pelo Governo de Montenegro fará regressar tanto o escudo com as quinas como a esfera armilar. A mudança de símbolo tinha sido uma promessa de Montenegro durante o período de pré-campanha eleitoral: “Com o meu governo, deixaremos de usar o novo símbolo. No nosso projeto não fazemos sucumbir as nossas referências históricas e identitárias a uma ideia de sofisticação”. Cumprindo o prometido há quatro meses, o primeiro-ministro indigitado já terá feito saber — numa altura em que decorre o processo de transição de pastas com o Governo de António Costa — que não pretende continuar com o símbolo institucional que permanece em vários documentos que estão a chegar nas últimas horas às mãos dos futuros governantes da AD.

O assunto é, aliás, consensual dentro da AD. Três dias antes de Montenegro, o líder da CDS Nuno Melo também tinha considerado, em declarações ao Observador, “ridículo e um apoucamento quase criminoso” transformar o escudo das armas — “o mais permanente símbolo de Portugal em todas as bandeiras e a esfera armilar, que traduz o trajeto de Portugal no mundo” — num mero elemento circular amarelo. O futuro ministro da Defesa criticava a tomada de decisão de alteração de um símbolo não tendo em consideração que “a Nação transcende um executivo transitório”. E acrescentava: “Na simbologia não está em causa um governo, mas sim a Nação; não está em causa uma maioria, mas todo um povo”.

“Wokismo” e “apoucamento quase criminoso” da bandeira. As críticas após Governo criar nova identidade visual

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Ao Observador, fonte social-democrata explica que “em primeiro lugar, trata-se de cumprir uma promessa”. Além disso, diz a mesma fonte, “um governo de centro-direita tem de puxar por estes temas. Se o PSD discordou, tem de ser consequente e não deixar este tipo de bandeiras para o Chega.” E acrescenta: “Isto não se trata de nacionalismo é, no máximo, patriotismo e, no mínimo, ter alguma noção”.

A imagem criada pelo Governo de António Costa

Alteração operada por Costa e justificações muito criticadas

Em grupos de WhatsApp da rede de apoio à AD, alguns militantes do PSD já referiam também o assunto. “A ver se agora o presidente [do PSD] muda o símbolo do Governo”, lê-se. A nova escolha do Governo foi muito criticada no final de 2023, quando o Executivo já estava demissionário. Na altura, fonte oficial do gabinete do primeiro-ministro disse ao Observador que o novo logótipo veio “substituir uma imagem criada há 12 anos, que apresentava várias fragilidades, especialmente na aplicação em plataformas digitais” e que a “complexidade do modelo antigo, vertida na soma de muitas cores e detalhes simbólicos, representava uma tendência estética da década anterior”.

[Já saiu o quinto episódio de “Operação Papagaio” , o novo podcast plus do Observador com o plano mais louco para derrubar Salazar e que esteve escondido nos arquivos da PIDE 64 anos. Pode ouvir o primeiro episódio aqui, o segundo episódio aqui, o terceiro episódio aqui e o quarto episódio aqui]

A mesma fonte do gabinete do primeiro-ministro dizia, na altura, que o símbolo anterior primava pela “falta de legibilidade em formatos impressos mais pequenos”, além de que limitava as “possibilidades de animação e movimento que caracterizam o meio digital dos dias de hoje”. Além disso, garantia o Governo, a nova marca da República não pretendia ser  “ma representação fidedigna da bandeira ou de qualquer símbolo nacional”, mas sim uma “estilização visual de elementos identificadores”.

O manual de utilização do símbolo, publicitado no site do Governo, também tinha explicações que foram muito criticas pela oposição. O Executivo dizia que a nova imagem tinha por objetivo “responder de forma mais eficaz aos novos contextos, determinados pela sofisticação da comunicação digital e dinâmica e por uma consciência ecológica reforçada”. A nova marca, alegava a mesma justificação, tornava-se também mais “inclusiva, plural e laica“.

Além de PSD e CDS, o Chega também atacou esta alteração. O líder da direita radical, André Ventura, gravou mesmo um vídeo de três minutos que publicou na rede social X com a seguinte crítica: “O Governo quer destruir a nossa História e os nossos símbolos. Nós não vamos deixar!” Na mesma altura o ideólogo do Chega e atual vice-presidente da Assembleia da República dizia ao Observador que o Governo tinha um objetivo claro de “colocar a filosofia woke no próprio cerne dos nossos símbolos nacionais.” Diogo Pacheco Amorim criticava ainda a remoção da esfera armilar que, no seu entender “dá o sentido da universalidade e das descobertas e da tão decantada questão da colonização”.

A imagem em evidência nos púlpitos criados para o último Conselho de Ministros de António Costa.

​Quem foi o designer do polémico símbolo e como justificou a escolha

Com esta decisão de Luís Montenegro, o Estado vai ter de voltar a investir numa nova imagem, sendo que o preço gasto por António Costa já tinha sido polémico (74 mil euros, por ajuste direto). O designer escolhido pelo Governo socialista foi o do designer Eduardo Aires, o mesmo que criou a marca “Porto.“, utilizada em diversos contextos pelo município liderado por Rui Moreira.

Eduardo Aires na altura disse ao Observador que compreendia as críticas e que achava “natural” que as mesmas ocorressem. Explicava, no entanto, que o que chamava de “alegada desvirtuação da bandeira” era “uma falsa questão”, uma vez que não se tratava de um “redesenho” do símbolo nacional. O designer puxa ainda de exemplos de governos no estrangeiro para normalizar a sua escolha, como o facto de “o símbolo do Governo do Reino Unido” ser diferente da Union Jack, “o símbolo governo alemão ser diferente da bandeira nacional alemã” ou ainda do facto de o “símbolo do governo francês” aludir “à bandeira tricolor mas com a silhueta da Marianne ao centro”.

O autor do novo símbolo vinculava ainda à escolha o gabinete de João Cepeda, o “senhor comunicação” do Governo de Costa. “Importa esvaziar a ideia de que a solução é uma opção pessoal, imperativa ou solitária. A solução resulta de um processo evolutivo, participado e orientado pela Direção de Comunicação do Governo, e finalmente aprovada por esta entidade.”

Sobre a consciência ecológica do novo logótipo, o designer explicava que “como é óbvio, o símbolo não é ecológico em si mesmo, mas integra um sistema que, ao desmaterializar a comunicação, adotando plenamente os canais digitais, contribui para a redução da sua expressão física e portanto da sua pegada ecológica.”

Quem não parece sensibilizado com as justificações do anterior Governo nem do designer, é Luís Montenegro que, logo tome posse, vai avançar com o processo de substituição do símbolo. A mudança não é assim tão pouco habitual e, normalmente, corresponde a ciclos políticos. Em 2011, Passo Coelho criou a marca “Governo de Portugal” tendo como objetivo “identificar, unificar e organizar a comunicação visual do Governo”. Cinco anos depois, ao chegar ao Governo, António Costa optou pela marca “República Portuguesa”, mas manteve os elementos históricos, como a esfera armilar e o escudo, no logótipo. Os mesmos, desaparecidos há menos de um ano, vão agora regressar pela mão do Governo da AD.