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Rosto familiar para a maioria dos portugueses, Tozé Martinho, que morreu neste domingo, aos 72 anos, parece ter tido na vida real um papel mais importante do que todos os outros que interpretou ao longo das décadas no pequeno ecrã: discretamente, deixa um marco na história do audiovisual português. Não só produziu e escreveu ficção, como também entrou em novelas e séries que se revelaram fundamentais para a evolução da ficção nacional.

Em 1982, na RTP, estreou-se na primeira telenovela portuguesa de sempre, “Vila Faia”. Mais tarde, em 1987, foi produtor de “Palavras Cruzadas” e também ator. Escreveu a série histórica da RTP “Ricardina e Marta”, de 1989, e a novela “Roseira Brava”, de 1996.

A partir da segunda metade dos anos 90, primeiramente ligado à produtora NBP (de Nicolau Breyner, que deu origem à Plural), assinou para a TVI várias novelas de grande repercussão que ajudaram o quarto canal a liderar audiências. São disso exemplo “Todo o Tempo do Mundo” (1999), “Olhos de Água” (2001), “Dei-te Quase Tudo” (2005) ou “A Outra” (2008).

A vontade de ser ator surgiu quando Tozé Martinho tinha 18 anos, mas teria de esperar alguns anos: quis ser veterinário, seguir direito, foi capitão na Guerra Colonial, em Moçambique, e foi só em 1977 que faria a sua primeira apresentação pública, no programa “A Visita da Cornélia” (com Fialho Gouveia, Carlos Cruz e Raul Solnado). Na altura, ainda e apenas ao lado da mãe, a atriz Maria Teresa Guerra Bastos Gonçalves, que ficou conhecida como Tareka (precisamente graças à sua regular participação nesse mesmo programa), mas logo no mais popular dos programas, que fazia da noite de segunda-feira o mais nobre dos horários.

Nasceu em Lisboa, a 5 de dezembro de 1947, mas era em Salvaterra de Magos que António José Bastos de Oliveira Martinho vivia. Ainda assim, para escrever era habitual recorrer ao apartamento que tinha em Lisboa para o fazer. Escreveu o diretor de programas da TVI, Nuno Santos: “Ator, além de autor, tornou-se uma figura familiar que deixa saudades a todos com quem se cruzou durante décadas. Pioneiro da indústria das novelas portuguesas, a sua longa carreira inspirou os guionistas nacionais abrindo portas para uma atividade que hoje mobiliza centenas de pessoas”.

Presença rara no cinema e nos palcos, teve em 1983 uma participação em “Sem Sombra de Pecado”, de José Fonseca e Costa, ao lado de Armando Cortez, Mário Viegas e da atriz espanhola Victoria Abril. Entrou tarde no teatro, a partir de 2004. Por exemplo, na peça “Um Pijama para Seis”, com encenação de Luíz Zagalo, e na revista “Já Chegámos à Madeira”, de Miguel Dias. Foi na televisão que a sua presença se tornou relevante. Recordar os principais papéis de Tozé Martinho, é também uma viagem pela história recente da TV portuguesa.

“Vila Faia”

1982

Foi como João Silveira, agente da Polícia Judiciária responsável pela investigação de um duplo homicídio, que Tozé Martinho se estreou na ficção televisiva. A novela de Francisco Nicholson e Nicolau Breyner foi pioneira em Portugal e colou o país ao ecrã no verão de 1982. Recordou, em 2008, à revista Sábado: “Fui ao escritório do Thilo Krassman ver se havia alguma oportunidade [para fazer parte do elenco]. Na sala ao lado estava o Nicolau Breyner, que me contratou assim que me viu. Ia fazer de polícia,mas apenas em sete ou nove sessões. Por cada uma recebia 5 contos. Acabei por fazer 85 sessões e ganhei quase tanto quanto o Ruy de Carvalho.”

“Palavras Cruzadas”

1987

Tratou-se da primeira produção da Atlântida Estúdios, empresa fundada por Tozé Martinho. Além de produtor, foi ator e fez o papel de João Salgado, filho de Luís Salgado (Jacinto Ramos) e de Helena Rebelo (Rosa Lobato Faria). As autoras desta novela foram Ana Maria Magalhães e Isabel Alçada, a dupla dos livros “Uma Aventura”, sendo a primeira irmã do ator. Deixou memória o genérico da novela, onde apareciam por breves instantes as então recém-inauguradas torres das Amoreiras, em Lisboa. “Palavras Cruzadas” acabou por ser um marco essencial na então recente indústria da telenovela em portugal e, particularmente, no percurso de Tozé Brito, que encontraria na autoria e na produção o seu caminho futuro.

“Homens da Segurança”

1988

Série policial de Manuel Arouca e Nicolau Breyner, com Tozé Martinho no papel de segurança privado de um hotel de luxo. Misturava a fama da galã que ia construindo à de bad guy, o tipo duro de roer, o canstrão com moral e de boa memória — ou, como disse o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, “durante todos esses anos esteve presente no nosso imaginário pelos recorrentes papéis de personagens empáticas, decentes, confiáveis”. Tozé Martinho foi também responsável pela produção de “Os Homens da Segurança”. As vistas aéreas de Tróia e as cenas de perseguição em jipes e barcos tornaram a série simbólica de uma ambição televisiva maior e pouco habitual em Portugal, que não via neste formato um propósito de investimento.

“Passerelle”

1988

Telenovela de Rosa Lobato Faria e Ana Zanatti em torno das famílias Cardoso e Guimarães. Tozé Martinho era o cantor Pedro Beja e vivia com Ana Rita (Guida Maria), uma ex-modelo. Filipe Ferrer, Armando Cortez, Carmen Dolores e Lídia Franco eram alguns dos atores. Sobre a representação e a escrita, se preferia uma sobre a outra, Tozé Martinho haveria de dizer em entrevista à revista Flash, em 2014: “Isso é como perguntar a um pai de que filho gosta mais [risos]. Aquilo que eu gosto mesmo é de representar coisas escritas por mim”. E haveria de o fazer.

“Ricardina e Marta”

1989

Passada no século XIX, durante as guerras entre abolutistas e liberais, começou por ser uma novela, a primeira novela portuguesa de época, mas acabou por ser transmitida pela RTP como série. Baseou-se em romances de Camilo Castelo Branco e foi escrita por Ana Rita Martinho, mulher de Tozé Martinho, e por Manuel Arouca. O papel que coube ao ator foi o de Bernardo Moniz, um jovem liberal que acabava exilado. Morais e Castro, Rogério Paulo e Lourdes Norberto estiveram no elenco.

“Roseira Brava”

1996

Telenovela rodada em Brinches, no Alentejo, e escrita por Tozé Martinho, Sarah Trigoso e Cristina Aguiar. Tratava o drama da reintegração social de um médico condenado pela morte de um doente. Esse médico, Francisco Botelho, era o próprio Tozé Martinho. Realização de Álvaro Fugulin e Jorge Paixão da Costa. Sobre a escrita de novelas, disse à Sábado: “O principal é criar a storyline e caracterizar as personagens. Para escrever os diálogos,basta comandar a equipa. Mas uma novela é um trabalho de loucos. Envolvo-me de tal forma que sonho com as personagens e choro enquanto escrevo algumas cenas.”

“A Lenda da Garça”

1999

Novela escrita por Victor Cunha Rego e Paula Mascarenhas e produzida pela NBP. O papel de Clemente Bastos foi o último trabalho de Tozé Martinho para a RTP. Em breve estaria ao serviço da TVI e de uma aposta neste formato de ficção que se revelaria vencedora. Sobre a morte de Tozé Martinho, a TVI disse, em comunicado: “[foi] uma das maiores figuras da cultura popular [do país]. Pioneiro da indústria das novelas portuguesas, a sua longa carreira inspirou os guionistas nacionais abrindo portas para uma atividade que hoje mobiliza centenas de pessoas”.

“Olhos de Água”

2001

A novela foi escrita por Tozé Martinho, Sarah Trigoso e Cristina Aguiar para a TVI chegou a ser exibida no Brasil, pela Bandeirantes. Em Portugal, foi um êxito de audiências, a rivalizar com as novelas da Globo então emitidas pela SIC. Sofia Alves tinha o papel principal, com duas personagens, e Tozé Martinho aparecia como o conciliador padre Carlos Correia. Foi na TVI que continuou durante vários anos um percurso de sucesso, ainda que as audiências não tenham registado sempre o mesmo nível, menos ainda depois da chegada em força das plataformas de streaming. Disse em 2014 ao site A Televisão: “Antigamente, uma novela para ter uma grande audiência, tinha 23, 24, 25, 26, 27 % de audiência. Agora, tem 12% e dizem que é uma grande audiência… Com 12 %, naquela altura, chamavam-me lá e diziam-me «ó Tozé, o que é isto?». Não se tolerava isso de maneira nenhuma.”

“Baía das Mulheres”

2004

Outra novela da TVI de grande sucesso: Cristina Homem de Mello compunha com Tozé Martinho um dos casais das história. O texto era de Manuel Arouca e baseava-se num original mexicano, “La Casa en La Playa”. A representação só se tornou uma prioridade na vida de Tozé Martinho depois da veterinária, do direito ou da vida militar. Mais uma vez. à Sábado, recordou o momento decisivo que mudaria tudo: “Quando conheci Vasco Santana fiquei deslumbrado. Fui ao Teatro Avenida comprar bilhetes com o meu avô e ele cumprimentou-nos. Nessa altura, com 18 anos, disse à minha mãe que queria ser ator”.

“Sara”

2018

Afonso D’Orey foi a última personagem conhecida que Tozé Série interpretou, breve aparição na série criada por Bruno Nogueira e produzida pela Ministério dos Filmes, de Marco Martins, com Beatriz Batarda como protagonista. “Eu e o Bruno Nogueira [co-autor da série] lembrámo-nos dele porque o Tozé Martinho fazia parte do imaginário de uma certa televisão que trazíamos da infância, da altura em que víamos telenovelas. E, sendo esta uma série que é uma paródia, uma crítica feroz a esse universo, pareceu-nos que fazia sentido convidá-lo. Ele era para nós o representante de uma época”, recordou o realizador Marco Martins ao Público.