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Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR
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JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Os bastidores da campanha Rangel: o séquito, as salas cheias e o cauteloso que fala alto

A estratégia e os sprints de Rangel na última semana. Apesar de favorito, eurodeputado acelerou e fez campanha como se já estivesse em legislativas. Os três dias do Observador na campanha de Rangel.

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Rangel entrou na sede com a proposta de candidatura à liderança do PSD acompanhado de uma pequena multidão, onde não faltavam nem intelectuais nem aparelhistas. O sinal que queria dar era claro: o partido, com ele, não é de um homem só. Ao subir as escadas, o séquito alongou-se e Rangel passaria sozinho pela porta da vivenda. Entrou com o pé direito, mas sem se preocupar com a ordem dos pés. Em vez de olhar para baixo para garantir uma boa superstição, olhou para cima e suspirou: “Ai, Senhor…

O eurodeputado tem fé e — apesar de ter a maior parte da estrutura do PSD com ele — sabe que o futuro a Deus pertence. Ou, em linguagem de ateu, é sempre imprevisível. Era segunda-feira e estava dado o último tiro de partida para a liderança do PSD: a entrega das assinaturas. Rangel chegou bem disposto e entregou uma pen drive com 2.600 assinaturas, quando precisava de apenas 1.500. “É para dar uma folga, que isto nunca se sabe”, justificou. As guerras de secretaria têm sido tantas, que a candidatura não facilitou.

De pé, a receber a documentação, estava o presidente do Conselho de Jurisdição, Paulo Colaço, que tem travado guerras fraticidas com Rui Rio, tentava manter a postura de total imparcialidade, mas não resistiria ao gesto de charme da campanha rangelista, que entregou uma pen de uma edição anterior da Universidade de Verão do PSD — evento que tem em Paulo Colaço um dos principais dinamizadores desde as primeiras edições. “Estou muito sensibilizado por ser esta a pen”, atirou sorridente o presidente do Conselho de Jurisdição.

Rangel seguiu dali para o piso de baixo com a equipa (ver fotografia em baixo) para a sala de conferência de imprensa, num grupo que incluía o coordenador da moção de estratégia e do programa eleitoral, Miguel Poiares Maduro, e também o antigo candidato à liderança do PSD, Miguel Pinto Luz.

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Entrega da candidatura de Rangel PSD 2021

ANA MARTINGO/OBSERVADOR

As pessoas estavam à vista, faltava conhecer as ideias. Na apresentação do programa, Rangel prometia ser breve na apresentação do documento e deixar as propostas mais concretas para Miguel Poiares Maduro. Mas não resistiu falar 21 minutos e sobre várias propostas. Falou tanto que tornou quase inútil a intervenção do antigo ministro. Poiares Maduro tinha sido esvaziado e protestou à sua maneira: disse que não ia falar muito porque Paulo Rangel já “apresentou de forma extensa o documento”. Sem um amuo deliberado, o antigo ministro Adjunto de Passos Coelho falaria apenas quatro minutos, completamente encurralado entre a intervenção de Rangel e a fase de perguntas e respostas aos jornalistas, que duraria mais 18 minutos. Poiares Maduro assumiria, porém, que era natural o pouco protagonismo que teria: “O que os senhores jornalistas querem é ouvir o candidato”.

Rangel queria responder a todas as perguntas. E mais houvesse. No fim ainda se virou para os jornalistas e disse desafiante: “Não têm mais perguntas? Então, se os senhores jornalistas não têm mais perguntas, damos por terminada esta sessão.”

Começaria assim a última semana, aquela em que Rangel teria de, não só tentar garantir que o partido não lhe escaparia, mas também começar a conquistar o país. A notoriedade junto dos portugueses é inferior à de Rio, como demonstram as sondagens. Daí que a campanha fosse intensa e similar a uma volta nacional para as legislativas, com encontros com confederações patronais, sindicatos, visitas a hospitais e encontros com militantes. Só nos primeiros três dias da última semana — em que o Observador acompanhou quase sempre Paulo Rangel — o candidato teve 10 eventos públicos, aos quais se juntaram outros privados, como o almoço com Carlos Moedas que o Observador registou.

Moedas convidou Rangel para almoçar a três dias das diretas

Apesar de confiante, Rangel não parou de correr na última semana. Acredita que foi a vertigem de ações e a campanha extenuante no terreno que o fez ganhar em 2009 umas eleições nacionais (as Europeias). A campanha é diferente, mas a receita é a mesma.

A base Malhoa, seis horas de sono e o reforço que vem de Bruxelas

Quando a mini-caravana de Rangel está abaixo do Mondego, há uma base onde são feitos todos os acordos e conspirações: “No Malhoa”. A cadeia Sana em Lisboa, em particular o hotel na Fontes Pereira de Melo, está associado a Conselhos Nacionais marcantes do passismo e também para Rangel, que ali anunciou a sua recandidatura aos conselheiros em meados de outubro. Mas a sua sede informal funciona noutro hotel do grupo: o Sana que deve o nome ao pintor José Malhoa — que como qualquer naturalista tentava captar, precisamente, a “realidade objetiva”. E a realidade objetiva é que, para ganhar — apesar da vantagem nas estruturas — o candidato sabe que não pode baixar os braços.

É num dos sofás do Malhoa que Paulo Rangel conta ao Observador que tem dormido seis horas durante estes últimos dias campanha interna. “É o que durmo normalmente”, desvaloriza, para reforçar pouco depois que se sente “com muita energia nesta última semana”. Tem pouco tempo para ler e Netflix muito menos. O seu meio de comunicação favorito é a rádio, mas é pelas notificações (os chamados “pushs”) do telemóvel que lhes chegam as notícias. É por lá que sabe primeiro dos ataques de Rio, mesmo que depois comente e reflita em conjunto com o seu inner circle antes de preparar o contra-ataque.

Além de estar atento aos jornais nacionais e de ter deixado os livros de lado, continua por estes dias a ler a imprensa internacional, que faz questão de enumerar: El País, El Mundo, La Repubblica, Corriere della Sera, Le Figaro, Le Monde, Die Welt e Frankfurter Allgemeine Zeitung, estes dois últimos repete com pronúncia alemã, língua estrangeira que o adversário melhor fala e que utiliza quando representa o PSD nos Congressos do PPE. Espreita também o Politico, para não deixar de acompanhar aquilo que chama de “novela europeia”.

Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Numa semana agitada, Rangel explica que abdicou de um hábito antes da campanha: ir ao ginásio três vezes por semana. É lá que ouve músicas “mais pop, mais kitsch“, porque são mais “motivacionais”. São essas músicas mainstream que têm destronado os estilos de que mais gosta: a “fase heavy metal já passou” — embora continue a “gostar bastante” — sendo igualmente fã de música clássica.

Já fez três campanhas nacionais, todas para eleições europeias como candidato, mas regista que esta é “menos exigente em termos de ações de campanha”, mas exige um maior envolvimento seu e do staff. Apesar de ter a máquina bem oleada, lembra que, nas campanhas nacionais, “há o partido por trás, toda a máquina do partido, aqui é necessário tratar de muitas coisas que nas outras campanhas o PSD trata”.

O staff que é o círculo de confiança Rangel

Na terça-feira antes das diretas, Rangel prepara-se para uma entrevista a um jornal local da cidade de onde é natural, o Gaiense. Minutos antes, o seu diretor de campanha, Pedro Esteves, assegura que está tudo em condições para a videochamada. Pedro Esteves tem 40 anos, é militante do PSD há 15 anos e assessor do eurodeputado em Bruxelas há mais de dez. Das estruturas às contas de campanha acaba por supervisionar tudo.

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O orçamento de Paulo Rangel são 70 mil euros, quase o dobro do adversário que vai gastar 31 mil euros na campanha interna. De acordo com a CNN Portugal, 35 mil euros do orçamento vão para “custos operativos e operacionais”, aos quais se somam 20 mil euros de despesas para “propaganda, comunicação interna e digital” , 3 mil euros para “concepção da campanha, agências de comunicação e estudos de mercado” e ainda 1500 euros para “estruturas, cartazes e telas”.

Pedro Esteves aproveitou um dossier cinzento onde estavam as contas da campanha interna de 2010 (contra Passos Coelho e Aguiar-Branco) e é lá que coloca todas as despesas e respetivas faturas da atual campanha, separadas por ‘micas’ transparentes. O desgaste denuncia-lhe o uso. “Não dá para facilitar. Está aqui tudo certinho“, comenta. É também Pedro Esteves que faz o contacto com a imprensa e, na gestão da comunicação conta com um reforço para a última semana: Gonçalo Villas-Boas.

Gonçalo Villas-Boas tem estado em Bruxelas a segurar as pontas, enquanto Pedro Esteves teve de tirar férias do Parlamento Europeu para estar na campanha interna. Gonçalo, Pedro e Paulo Rangel são o triângulo que define a estratégia e a mensagem que passa para a comunicação social. Essa reflexão a três é o último reduto, mesmo que antes de chegarem à decisão (sobre o que dizer em entrevistas ou como responder a determinada pergunta) recebam contributos de apoiantes como Pedro Rodrigues, António Leitão Amaro, Miguel Morgado, Sofia Galvão, Miguel Pinto Luz ou do coordenador do programa, Miguel Poiares Maduro.

Apresentação oficial da candidatura de Paulo Rangel à presidência do Partido Social Democrata - PSD - na sede do partido. Lisboa, 22 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Enquanto Rangel dá a entrevista ao jornal de Gaia, Pedro Rodrigues passa por ali. A sala onde decorre a entrevista, mais reservada junto ao hall do hotel, também já tem um lugar na história desta campanha: foram lá que se decidiu a estratégia de dois conselhos nacionais decisivos: aquele em que os conselheiros do lado de Rangel foram contra adiar as diretas e o outro, em Aveiro, onde se decidiu antecipar essas mesmas diretas e o Congresso. Paulo Leitão, Emídio Guerreiro, Bruno Vitorino e Pedro Alves têm ajudado com as estruturas.

Quando o Observador visitou a equipa, num dos poucos momentos de paragem, Hugo Neto, antigo líder da concelhia do PSD/Porto, também está pelo hotel Sana Malhoa, bem como uma equipa para o site e redes sociais. Hugo Tavares é o responsável pelo site e comentava: “Já estamos com mais de 400 apoios”. Na mesma mesa está Maria João Ramos, militante do PSD de Manteigas, que participou também como voluntária numa volta nacional importante para o PSD: as legislativas de 2015, que culminou com a vitória do partido .

Sem surpresas é também ali, no Sana Malhoa, que será a noite eleitoral de Paulo Rangel. O eurodeputado quer contrariar a postura hóstil que considera que o adversário tem relativamente a Lisboa. O Tocquy, o cão lhe faz companhia no Porto e que deve o nome a Tocqueville, vai ter de esperar mais uns dias.

Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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Das sedes pequenas aos grandes comícios. Dos caciques ao fogo-amigo

Além do diretor de campanha só há outra pessoa no staff que acompanhou Paulo Rangel para todo lado durante a volta pelo país: Bruno Carvalho, antigo secretário-geral da distrital do Porto. Numa ida a Torres Vedras, para uma visita a um hospital e à sede local, é Bruno — que conduz o carro. O candidato segue no sítio do pendura, o lugar onde mais gosta de ir quando não conduz. Nos bancos de trás, Pedro Esteves e Gonçalo Villas-Boas completam a lotação.

A visita começa com uma ida ao hospital, a que se segue um encontro com militantes. O episódio mais caricato do dia acontece na pequena sede de campanha em Torres Vedras, onde não cabem mais de 30 militantes. Paulo Rangel chega antes da hora e aproveita para uma paragem estratégica na pastelaria Havaneza, mesmo por baixo do PSD local. Vai acompanhado pelo antigo candidato à liderança da autarquia pelo PSD, Marco Claudino, e quando chega à porta da sede tem à espera Duarte Pacheco. O líder da distrital de Lisboa Área Oeste (que vale menos de 400 votos no caderno eleitoral) estava à espera de Rangel, mas apoia Rui Rio.

Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR Convício com militantes em Lisboa, numa ação de campanha de Paulo Rangel para as eleições internas que se disputam a presidência do Partido Social Democrata - PSD. Lisboa, 24 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Questionado pelo Observador, sobre o porquê de estar ali a aplaudir o adversário do candidato que apoia, Duarte Pacheco justifica com a posição institucional: “É o meu dever“. O momento Duarte Pacheco-Rangel é uma espécie de fogo-amigo para Rio, sem influência nas contas finais. A estrutura de campanha optou por organizar eventos com 300, 400, 500 pessoas, mas também sessões com 30 militantes para mostrar proximidade com os militantes-base.

“Apoio Rui Rio, mas estou aqui, porque é esse o meu dever como presidente da distrital”

Solto, perante os militantes, não sai do guião de todas as sessões que faz, mas de forma mais despudorada utiliza o Estado Novo para uma comparação. Sobre o facto de o adversário alegar a estabilidade como fator para a sua manutenção, Rangel explica que “a estabilidade é importante, mas também não é um fim em si mesma,  a estabilidade deve ser utilizado para reformar. Salazar introduziu imensa estabilidade, mas atrasou o país“. A sessão durou cerca de uma hora e terminaria antes da hora da Champions, como registaria Marco Claudino: “Temos de ir ver o jogo [Barcelona-Benfica], que o Paulo Rangel não é do Benfica, mas eu sou”.

Lisboa cheira a votos

Depois de um registo intimista em Torres Vedras, a grande mobilização do dia foi guardada para Lisboa, num encontro com militantes da distrital. É uma das maiores distritais, do chamado G4, e os sinais são de domínio das estruturas por parte de Paulo Rangel. Estavam mais de 300 pessoas sentadas e meia centena ainda teve de ficar em pé.

A sala estava composta, não só com militantes-base, mas também com barões do partido. A histórica militante nº2, Conceição Monteiro, antiga secretária de Francisco Sá Carneiro, mas também o antigo líder Rui Machete, o antigo secretário-geral José Luís Arnaut ou a antiga deputada Helena Lopes da Costa. A todos estes, a par de Miguel Pinto Luz  (“logo que anunciei a candidatura também soube dizer presente”) receberam uma saudação especial.

O líder da distrital de Lisboa e vereador de Carlos Moedas, Ângelo Pereira, aproveitou a ocasião para anunciar o seu voto em Paulo Rangel, mas atirando farpas à candidatura de Rui Rio, que acusa o eurodeputado de ter o voto do aparelho e cacicado, por o oposição ao “voto livre”. Ângelo Pereira disse mesmo: “O meu voto é individual e livre. Será um voto refletido e consciente: eu voto Paulo Rangel. E voto Paulo Rangel por considerar que ele é o candidato que melhor representa essa alternativa ao PS”.

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Estiveram presentes as várias fações do PSD Lisboa. Alguns daqueles que são os maiores angariadores de votos de Lisboa estavam na sala: Rodrigo Gonçalves, da ala da família Gonçalves, Paulo Quadrado, mas também Luís Newton, o único que Rangel fez questão de saudar. “Queria cumprimentar o Luís Newton, que tinha hoje a primeira Assembleia Municipal e conseguiu juntar-se nós a tempo. Muito a tempo”. Não há dúvida todas as fações da concelhia de Lisboa (a maior do PSD) — que se degladiaram em guerras de caciques — estão com Rangel.

Quando questionado em entrevista ao Observador se condenaria as práticas de cacique caso existissem no partido, Paulo Rangel desvalorizou o problema: “Cada militante é livre quando vota. Está a votar sozinho, não está lá ninguém com uma pistola ou a votar por ele. Essa liberdade acaba por ser sempre assegurada.”

Não deixear que a dona Alda estrague uma boa história

O ambiente era festivo e Ângelo Pereira também quis fazer a sua graça, com uma saudação especial a uma militante de base de Lisboa. “A Dona Alda nunca me apoiou e nunca a apoiei, mas ela disse-me ontem que hoje era um dia muito especial porque fazia anos e a Dona Alda abdicou de estar com a família para estar aqui”, a sala aplaudiu. A sala em uníssono cantou os parabéns à militante, num tom pouco afinado.

Era a história perfeita, mas não era propriamente rigorosa. Quando pegou no microfone para um discurso de ocasião [a candidatura de Paulo Rangel, segue dentro de momentos, que agora ainda era tempo de dar palco ao aniversário da dona Alda], a militante começou por dizer: “Não estava à espera, não mereço”. E fez questão de repor a verdade história. “Não estou com a família por outras questões, porque a família está sempre em primeiro lugar. Mas como a mais nova tem testes, tem de ir dormir, apagámos as velas e cheguei a tempo”. A dona Alda estragou assim uma boa história de Ângelo Pereira.

Santos Silva falou em troika? Rangel responde com Maria Luís

Rangel estava entre a sede do PSD e a RTP, com um pequeno pit stop no hotel, quando pôde ler a entrevista do ministro Augusto Santos Silva ao Observador. Era ele o principal visado no título: “Rio puxou o PSD para mais longe da herança da troika. E toda a gente pode ver quem está com Paulo Rangel”. A reação na equipa foi imediata: sorrisos. Afinal, Santos Silva acabara de ajudar os rangelistas numa das missões: colar Rio ao PS. “Os socialistas são os maiores apoiantes de Rui Rio”, comentou-se de imediato na caravana. Minutos depois, na entrevista cruzada na estação pública, o eurodeputado — que avisa sido alertado por uma notificação no telemóvel — aproveitaria a deixa: “Se os socialistas estão interessados em que Rui Rio seja o líder do PSD, isso diz muito.”

A campanha seguiu e com o eurodeputado a ter de enfrentar o passismo, que o PS tenta colar ao candidato. Rangel teria uma ação, depois de jantar, em Almada. A liderar as operações de uma sala onde até o pano da mesa de snooker era cor-de-laranja estava Bruno Vitorino, antigo secretário-geral adjunto de Passos Coelho, e Pedro do Ó Ramos, que foi diretor de campanha de Passos, também marcou presença. Era um cheirinho de passimo na sala, que contou com um importante ferreirista que partilhou a direção de bancada com Rangel, Miguel Frasquilho, que deixou de ser chairman da TAP no verão.

Mas “a presença” da noite era outra. A sessão tinha começado há dois minutos quando Maria Luís Albuquerque, entrou pela sala. Falava no palco o atual líder da distrital, Paulo Ribeiro, que tinha deixado um lugar para a antiga ministra das Finanças ao seu lado na primeira fila. “Vou pedir à Maria Luís para se sentar ali ao meu lado”, atirou, fazendo virar as cabeças. Ao que Maria Luís retorquiu, com pouca vontade de dar nas vistas: “Era para ser discreta“.

"Paulo Rangel tem um grau de preparação que daria um excelente primeiro-ministro, não tenho qualquer dúvida, para dar um projeto de futuro ao país. Não se trata de continuar trabalho que venha de trás, trata-se de voltar a dar ao país uma perspetiva de futuro positiva, que é aquilo que não temos tido. Aquilo que prepara para uma função de primeiro-ministro tem sobretudo a ver com a capacidade da própria pessoa e, do meu ponto de vista, as razões pelas quais quer ser primeiro-ministro. Desse ponto de vista, o projeto de Paulo Rangel é claramente um projeto muito mais positivo para o país e isso, em si mesmo, juntando às suas qualidades pessoais e à sua experiência variada, torna-o muito preparado para ser primeiro-ministro."

Rangel, no palco, não renegaria à herança passista. “O país está hoje como estava, se é que não está pior, do que em 2015 ou 2016, quando António Costa se fez primeiro-ministro“, atirou o eurodeputado, numa referência ao facto do atual líder do PS ter ficado em segundo lugar e ter governado por via da geringonça. E, num elogio velado à governação de Passos, acrescentaria: “As políticas de António Costa não aproveitaram nada as contas certas, a casa arrumada que deixámos”.

O candidato à liderança do PSD destacaria pouco depois que quer descer o IRC, sem esquecer o acordo de redução que Passos e Seguro assinaram e que António Costa rasgou quando chegou à liderança do PS. “Se temos o IRC que temos é por culpa António Costa. Estávamos a descer com um acordo que tínhamos quando éramos Governo”.

A segunda parte da sessão seria à porta fechada. Segundo fontes presentes contaram ao Observador, houve militantes que fizeram questão de aproveitar o momento para um ataque a Rio. “Nos últimos 40 minutos vi mais oposição ao Governo do que nos últimos quatro anos”, disse um dos militantes antes de dirigir a pergunta a Rangel.

A noite ia longa e Maria Luís Albuquerque com a mesma intenção: não falar muito, como começaria por dizia. Ainda assim, em declarações ao Observador, a ex-ministra das Finanças elogiou o eurodeputado: “Paulo Rangel tem um grau de preparação que daria um excelente primeiro-ministro, não tenho qualquer dúvida, para dar um projeto de futuro ao país”.

Mas questionada sobre se Rangel seria a pessoa indicada para dar continuidade ao trabalho que Passos Coelho diz ter deixado a meio em 2015, Maria Luís Alburquerque rejeitaria: “Não se trata de continuar trabalho que venha de trás, trata-se de voltar a dar ao país uma perspetiva de futuro positiva, que é aquilo que não temos tido.” É assim a própria governante a fazer o jeito a Rangel de descolá-lo de um tempo de governação associado a cortes.

Maria Luís Albuquerque rejeitou ainda que Rio seja melhor preparado para o cargo de primeiro-ministro por ter tido funções executivas na câmara do Porto: “Aquilo que prepara para uma função de primeiro-ministro tem sobretudo a ver com a capacidade da própria pessoa e, do meu ponto de vista, as razões pelas quais quer ser primeiro-ministro. Desse ponto de vista, o projeto de Paulo Rangel é claramente um projeto muito mais positivo para o país e isso, em si mesmo, juntando às suas qualidades pessoais e à sua experiência variada, torna-o muito preparado para ser primeiro-ministro.”

O passismo pode não ser o maior trunfo para ganhar o país (como a própria Maria Luís, parece ter percebido), mas dar uma ajuda a Rangel para a primeira batalha que tem: vencer o partido. É aí que aposta as fichas todas.

O tribuno cauteloso, mas que fala alto: das ideias aos pleonasmos

Rui Rio já admitiu publicamente, de forma indireta, que Paulo Rangel é um bom tribuno. O eurodeputado procura capitalizar esse lado, tendo um discurso preocupado com o conteúdo, mas também com a forma. Começando pela forma, Paulo Rangel foi até alvo de um sketch de Ricardo Araújo Pereira por abusar nas repetições, nos pleonasmos, nos sinónimos. Mas esse recurso linguístico é propositado, bem como a força na voz (aquilo que Rio diz ser o “gritar mais alto contra o Governo”).

Nos últimos dias foram várias as repetições ou pleonasmos porque, como diria na entrevista ao Observador: “Eu sou bastante rigoroso na linguagem”.

“O país precisa de definir um rumo de alternativa clara e inequívoca”;

“Precisamos de um Portugal forte rejeita compadrios, favores e clientelismo”;

“Nestes dois anos, o PSD não foi capaz de fazer oposição forte, vigorosa, firme“;

“É por isso que digo aqui que o responsável da estagnação, paralisia, anestesia em que o país está é António Costa”;

No conteúdo, Paulo Rangel tem sido cauteloso. Nunca deixa escapar um sound bite em que admita viabilizar um Governo PS ou em que diga que quer contar com o apoio do PS. Essa é uma limitação auto-imposta e estratégica. O célebre “tabu” de Rangel é propositado, porque lhe dá mais amplitude para decidir no período pós-eleitoral, tal como aconteceu com António Costa em 2015. Não tendo dito nada de forma muito clara sobre acordos esquerda, não foi contraditório quando montou a geringonça. O máximo que Rangel vai são frases como esta em entrevista ao Observador: “Podemos governar com um governo minoritário. Nesse caso, teremos de garantir que as suas leis vão passando.” De resto, foca-se em dizer que tem uma “vocação maioritária” e o próprio já admitiu: “Escusam de insistir, que eu não saio daqui”.

Em termos mais programáticos, em visitas como as que fez à CIP ou à CAP, Paulo Rangel tentou posicionar-se nas declarações à saída como amigo das empresas. Baixar o IRC para níveis abaixo dos 20%, aumento do salário mínimo condicionado ao crescimento económico e a valorização da concertação social — sempre por oposição a António Costa que acusa de ter “destruído a concertação social” e de ter “rasgado o acordo de descida do IRC”, celebrado com o PS quando Passos Coelho ainda era primeiro-ministro. Voltar a estar nessa posição é o destino final que Rangel (tal como de Rio) quer alcançar. Mas, mesmo inspirado por Malhoa, Rangel ainda não sabe com que fado vai contar.

Apresentação oficial da candidatura de Paulo Rangel à presidência do Partido Social Democrata - PSD - na sede do partido. Lisboa, 22 de novembro de 2021. JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

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