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KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

KIMMY SIMÕES/OBSERVADOR

Os vencedores, vencidos e os ausentes do congresso comunista /premium

Jerónimo, apesar de tudo, saiu reforçado. João Ferreira, longe de ser galvanizante, é "o" camarada. Num congresso esvaziado de política, são eles os grandes vencedores. E Costa, que acabou a sorrir.

Vencedores

Jerónimo de Sousa

LUSA

Já era o secretário-geral comunista há mais tempo no cargo depois de Álvaro Cunhal e este fim de semana recebeu mais um voto de confiança do partido. Mas não sem se livrar de um pequena mancha no currículo: foi a primeira vez desde que foi eleito, em 2004, que recebeu um voto contra do Comité Central. Depois de meses e semanas entre rumores e especulações sobre a saída de Jerónimo de Sousa e/ou sobre a escolha de um secretário-geral adjunto, instalou-se a perceção de que, mesmo reeleito, a transição de Jerónimo já está em curso e que acontecerá antes de 2024, ano em que termina o mandato. No discurso de encerramento, Jerónimo fugiu literalmente ao guião. “Não estamos aqui a prazo datado, nem em período experimental, mas sim disponíveis para fazer o que temos de fazer”. Esta frase não constava da versão final do discurso entregue à comunicação social e é um sinal relevante para fora e, sobretudo, para dentro do partido. Apesar do tropeção, o Congresso do PCP não deixou de ser uma vitória para o líder comunista, ele que é o responsável pelos piores resultados de sempre em legislativas, europeias, presidenciais e autárquicas da história. O grande obreiro da ‘geringonça’ não perdeu, mesmo assim, a lealdade do partido. Se cumprir o mandato até ao fim, ficará 20 anos à frente do partido. Cunhal esteve 31 anos, Carvalhas foi secretário-geral durante 12. Mais importante: o partido não parece ter um candidato alternativo à altura.

João Ferreira

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

É o ativo a que o PCP mais recorre para as várias batalhas, e foi nessa qualidade que chegou ao Congresso de Loures. Eurodeputado, vereador, candidato presidencial e aspirante a secretário-geral adjunto — algo que não veio a acontecer e pretensão que o comunista rejeitou sempre. Muito aplaudido no discurso inicial de Jerónimo de Sousa, acabou por saber a pouco. É um vencedor para quem não tinha expectativa que fosse mais do que candidato presidencial, vencido para quem achava que este congresso ia ser o primeiro degrau que ia subir rumo a voos maiores. No curto discurso que fez, nem uma palavra sobre o posicionamento do partido e os desafios que se lhe colocam. Todas as palavras foram para a candidatura presidencial que encabeça e para as críticas ao adversário Marcelo (e também para Ventura, sem o nomear). Espalhados pelo recinto estavam crachás com o nome de João Ferreira, mas poucos eram os militantes que os usavam na lapela. Também uma carrinha com a fotografia e o nome do candidato a Belém circulava pelo recinto, em Loures. Além de Jerónimo, é ele a grande figura do partido neste momento. E subiu na estrutura, sendo eleito para a comissão política do Comité Central.

João Oliveira

ANTÓNIO COTRIM/LUSA

Mesmo num partido que promove o coletivo, o líder parlamentar do PCP é notoriamente uma das figuras mais populares dentro do partido. Há quatro anos, em 2016, já tinha sido um dos mais aplaudidos pelos congressistas. Desta vez, apesar do reduzido número de delegados e da contenção nos gestos, Oliveira voltou a ser um dos mais aclamados. Foi ele quem fez a defesa mais apaixonada da ‘geringonça’ e das conquistas alcançadas pelo PCP no Parlamento, mesmo que o tenha feito entre promessas de que o partido nunca será “o primeiro violino” de uma orquestra liderada pelo PS. Continua a recusar qualquer pretensão ao cargo de secretário-geral do PCP. O futuro o dirá.

António Costa

LUSA

Para lá de todas as referências negativas aos governos de PS, PSD e CDS, para lá de todas as vezes em que dirigentes comunistas se referiram ao PS como um partido de direita, para lá de todas as insuficiências apontadas aos “governos minoritários” de António Costa, para lá de tudo isto… António Costa saiu praticamente incólume deste congresso. Dias depois de ter conseguido aprovar o Orçamento do Estado graças ao PCP, o socialista tem nos comunistas um parceiro leal e, olhando para os sinais que saíram do congresso, disposto a continuar a percorrer o caminho até agora percorrido. Jerónimo de Sousa foi absolutamente claro: o PCP será sempre uma “força de oposição” a tudo o que significar um recuo nos direitos dos “trabalhadores e do povo”; mas nunca deixará de aproveitar tudo o que de positivo for possível alcançar na relação de influência que mantém com o PS. No último dia do congresso comunista, recebeu de Jerónimo aquilo que queria ouvir: o PCP está disposto a continuar a dialogar com o PS.

Organização

LUSA

Num Congresso muito contestado, com o país recolhido em casa e proibido de circular entre concelhos, os comunistas reuniram-se em Loures — um dos concelhos com risco elevado de transmissão da doença — continuando a atividade partidária conforme calendarizado. Não se pode dizer que o risco de transmissão da Covid-19 foi totalmente eliminado durante os três dias do Congresso. Nunca seria, mas os esforços foram evidentes ao longo dos dias: 100 dispensadores de álcool gel foram espalhados no recinto do congresso, sempre funcionais, e equipas para pulverizar e desinfetar as áreas de maior contacto não faltaram. São conhecidas as capacidades de organização de um partido como o PCP, e isso esteve mais uma vez à vista de todos. Quando, no sábado, os trabalhos interromperam para almoço, os delegados foram avisados que as próprias barracas que estavam montadas no recinto para servir “mini-refeições” iam ser encerradas às 13h para cumprir as normas em vigor nos concelhos de risco durante os fins de semana. Até as bancas que serviam cafés foram desmontadas nessa altura.

Vencidos

Bloco de Esquerda

ESTELA SILVA/LUSA

A relação entre os dois partidos nunca foi fácil. No arranque do Bloco de Esquerda, Carlos Carvalhas chegou a referir-se àquela agremiação de forças como a “esquerda por Lisboa” que, entre “salpicos de independentes” e uma tentativa de ser uma “cópia” do PCP, decidiu ser nacional. A experiência conjunta dos últimos cinco anos não ajudou a melhorar a relação entre os dois partidos — antes pelo contrário. No último Orçamento do Estado, o Bloco decidiu romper e deixou o bebé no colo do PCP. Os comunistas aproveitaram e vão aproveitar a decisão de Catarina Martins para tentar fazer o Bloco em picadinho. Por entre muitas referências veladas ao facto de o PCP não ter “desistido” de ajudar a salvar o país — por oposição ao Bloco, claro — foi Vasco Cardoso, membro da comissão política do Comité Central, a calçar as chuteiras: o Bloco de Esquerda “arrumou as pantufas” na discussão do Orçamento do Estado.

O Congresso

LUSA

Os vários delegados que passaram pelo palco do congresso não se cansaram de apontar o dedo à imprensa, culpando-a em grande medida pela “ofensiva anti-comunista” galopante, mas a verdade é que, sem grande história e com o país a meio de uma crise pandémica, o XXI Congresso comunista não teve o destaque e a amplitude de outros tempos — que teria sempre um evento partidário que só se realiza de quatro em quatro anos. Com o secretário-geral a manter-se no cargo, sem mudanças consideráveis à vista, e numa altura em que o tom do PCP tem de ser misto — nem muito duro para com o Governo nem demasiado soft — as personalidades que passaram pelo palco do congresso não despertaram os que estivessem adormecidos. Além de Jerónimo e de João Ferreira (e talvez João Oliveira), houve apenas uma outra intervenção que avivou a plateia: foi Albano Nunes, dirigente histórico comunista, que fez uma intervenção profundamente ideológica onde evocou Álvaro Cunhal e a experiência da União Soviética, avisando que o “afastamento do marxismo-leninismo conduz à degenerescência”. “O capitalismo tem que ser derrubado pela força”, chegou a dizer. Aqueceu os corações comunistas, mas pouco mais.

Isabel Camarinha

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

A ausência da líder da CGTP no Comité Central é mais uma derrota pessoal do que coletiva. No Comité Central que sai deste congresso há 12 dirigentes da CGTP. Valter Lóios, aliás, não só é membro do Comité Central e do Conselho Nacional da CGTP como ainda ocupa um lugar no secretariado da CGTP, bem perto de Isabel Camarinha. O antigo secretário-geral da CGTP, Arménio Carlos, fazia parte do Comité Central mas já fazia antes de liderar aquela central sindical. Ou seja, foi de dentro para fora. Ainda assim, continua por explicar a ausência de Isabel Camarinha.

Kim Jong-un

Getty Images

O regime norte-coreano foi apagado das intervenções dos principais dirigentes do partido. Ao contrário do que aconteceu em 2012 e 2016, as teses do partido não têm qualquer referência à Coreia do Norte. Outrora celebrado como “um importante fator de contenção aos objetivos de domínio mundial do imperialismo”, o regime norte-coreano foi apagado da fotografia da família comunista portuguesa. A única consolação foi a inclusão numa moção aprovada pela paz e solidariedade para com os povos comunistas.

Ausentes

ANTÓNIO PEDRO SANTOS/LUSA

A cúpula

Num congresso sem história, sem chama e sem intervenções de destaque, Francisco Lopes, Jorge Cordeiro, Jorge Pires e Vasco Cardoso, quatro dos nomes mais respeitados do PCP, acabaram por passar ao lado do conclave comunista. Optaram, em grande medida, por fazer discursos redondos e sem assertividade. Foi pena.

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