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POOL/AFP via Getty Images

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Pela primeira vez, um Papa vai ao Iraque. Francisco quer "assegurar presença cristã" na raiz do Cristianismo /premium

A primeira viagem internacional do Papa Francisco depois de um ano em Itália por causa da pandemia é ao Iraque em março. O país esteve na raiz do Cristianismo. Hoje, o Papa quer apoiar os perseguidos.

Depois de 15 meses sem sair de Itália (e quase sempre confinado no Vaticano), o Papa Francisco vai regressar às viagens pastorais com uma visita de quatro dias ao Iraque, em março de 2021. É a primeira vez na história que um Papa visita aquele país e, apesar de ter sido anunciada num curtíssimo comunicado sem grande pompa, a viagem de Francisco está longe de ser mais uma: representa, em larga medida, um regresso da Igreja Católica a um lugar que, embora intimamente associado aos momentos fundacionais do Cristianismo, é o oposto de um lugar seguro para os cristãos.

De acordo com a informação prestada pelo Vaticano, o Papa Francisco deverá visitar a capital do país, Bagdade, uma vez que a viagem acontece em resposta a um convite tanto do governo iraquiano como da comunidade católica do país. A capital deverá ser, contudo, o único local onde Francisco estará na sua função de chefe de Estado para a dimensão diplomática da visita. O restante roteiro está profundamente ligado à memória histórica — e até bíblica — do Cristianismo.

Papa Francisco vai visitar o Iraque em março

Francisco visitará a planície de Ur, no sul do país, uma região onde se situaria a ancestral cidade de Ur. Trata-se de um lugar evidentemente simbólico para os cristãos: de acordo com a Bíblia, era ali que Abraão vivia quando ouviu o apelo divino para que viajasse para o ocidente em busca da Terra Prometida e desse início ao povo de Deus. Aquele foi o momento fundador do percurso religioso retratado na Bíblia, que daria origem ao Judaísmo, ao Cristianismo e ao Islão. As três grandes religiões monoteístas, que atualmente representam mais de 55% das crenças religiosas a nível global, são ainda hoje apelidadas de “religiões abraâmicas” — já que todas consideram que Abraão foi, em última análise, o seu pai fundador.

As regiões que o Estado Islâmico ocupou e destruiu

Depois de passagens pela capital e pela região sul, o Papa Francisco deverá passar a maior parte do seu tempo no norte do Iraque, incluindo no Curdistão iraquiano. Do roteiro do Papa fazem parte três cidades com grande simbolismo para a história recente dos cristãos iraquianos: Mossul, Qaraqosh e Erbil.

Em agosto de 2014, a ofensiva do Estado Islâmico para conquistar o território cristão obrigou à fuga de cerca de 150 mil pessoas.

Foi em Mossul que, no dia 4 julho de 2014, primeira sexta-feira do Ramadão, o jihadista Abu Bakr al-Baghdadi anunciou ao mundo a oficialização do Estado Islâmico. Num célebre discurso proferido no púlpito da Grande Mesquita de Mossul, al-Baghdadi autoproclamou-se califa e exigiu a obediência de todo o mundo muçulmano. A organização terrorista tinha aproveitado a Primavera Árabe e a guerra civil na Síria para se separar da Al-Qaeda e para estabelecer o seu próprio reinado de terror. A expansão começou em Raqqa, na vizinha Síria, em janeiro de 2014. Em poucos meses, ainda na clandestinidade, o Estado Islâmico conseguiu alargar o seu território até à fronteira com o Iraque — e, no verão do mesmo ano, conquistou Mossul, a terceira maior cidade do país, até então desenvolvida e cosmopolita, onde instalou a capital do califado.

Ser cristão nas terras bíblicas do Iraque tomadas pelo Daesh. “Aqui não basta praticar, é preciso ter fé”

Mossul não é uma cidade estranha à história do Cristianismo. Na Bíblia, aparece referida múltiplas vezes pelo seu nome ancestral: Nínive, a cidade onde o profeta Jonas pregou. Mossul é hoje a capital da província de Ninawa, região que ainda conserva o nome antigo da cidade e que corresponde à histórica planície de Nínive. É naquela região que vivem a esmagadora maioria dos cristãos iraquianos há praticamente dois milénios: o Cristianismo chegou ao Iraque logo no século I, através de São Tomé e São Tadeu, dois dos apóstolos de Jesus Cristo que se empenharam na difusão da nova fé no Oriente. Saíram de Jerusalém com destino à Ásia e fundaram comunidades cristãs por todo o caminho — e é a eles que se deve grande parte da presença cristã na região.

A partir de Mossul, o Estado Islâmico lançou no verão de 2014 uma operação de captura da planície de Nínive, invadindo e tomando posse de dezenas de povoações maioritariamente cristãs. A perseguição pelo Estado Islâmico foi apenas o capítulo mais recente numa história de repressão do Cristianismo no Iraque que se agravou em 2003 com a invasão do país pelos EUA. Até aí, o regime ditatorial de Saddam Hussein (que era da minoria sunita entre os muçulmanos do Iraque) reprimiu duramente a maioria xiita, mas em contrapartida deu uma liberdade significativa às minorias religiosas, incluindo os cristãos e os yazidis, para que não se insurgissem contra o regime. Depois da queda de Saddam, instalou-se novamente o conflito religioso no país e apertou-se o cerco às minorias. Antes de 2003, estima-se que existissem 1,5 milhões de cristãos no país, mas o número caiu nas últimas duas décadas para cerca de 300 mil.

Em agosto de 2014, a ofensiva do Estado Islâmico para conquistar o território cristão obrigou à fuga de cerca de 150 mil pessoas — portanto, metade da população cristã do país — para norte, como forma de escapar à violência. Muitos viram-se obrigados a fugir apenas com a roupa que tinham no corpo, a meio da noite, como contaram várias famílias numa reportagem feita pelo Observador naquela região, em 2018, quando finalmente conseguiram voltar às suas aldeias, após quatro anos de ocupação pelos terroristas, e as encontraram completamente destruídas.

John reconstruiu a casa, Steven e Marena vão casar. 4 anos depois, os cristãos voltam às aldeias que o Estado Islâmico destruiu

Um dos lugares da planície de Nínive que o Papa Francisco vai visitar durante a passagem pela região é a povoação de Qaraqosh, a maior cidade cristã do Iraque, a apenas 15 quilómetros de Mossul.

Qaraqosh é um dos lugares que melhor ilustram o terror imposto pelo Estado Islâmico sobre o povo iraquiano — e em especial, na região de Nínive, sobre a minoria cristã. Antes da chegada em força dos terroristas, alguns cúmplices recrutados pela organização ajudavam a preparar a invasão: as casas das famílias cristãs eram marcadas com um ﻥ, letra árabe com que começa a palavra “nazareno”, usada para identificar os seguidores de Jesus Cristo. Os moradores das casas assinaladas eram, depois, o principal alvo dos jihadistas: convertidos à força ao Islão, assassinados em frente às câmaras de vídeo ou obrigados a pagar impostos elevadíssimos. Muitas mulheres foram feitas escravas sexuais dos terroristas.

O Estado Islâmico deixou para trás um rasto de destruição em casas e património religioso

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

A cidade, que o Observador visitou em 2018 para traçar um perfil dos desafios enfrentados pelos cristãos no Iraque, foi uma das mais impactadas pela destruição. Não houve uma única casa daquela região que não sofresse algum tipo de danos. Grande parte dos edifícios, sobretudo os religiosos, foram queimados por dentro ou demolidos. O património cristão foi usado pelos terroristas para facilitar as operações logísticas — mas, imediatamente antes da fuga motivada pelos ataques coordenados da coligação internacional que levaria à derrota do Estado Islâmico, os jihadistas destruíram igrejas e templos.

As imagens do património cristão que o Estado Islâmico destruiu no Iraque

Além das cidades de Mossul e Qaraqosh, na planície de Nínive, também a cidade de Erbil, capital do Curdistão iraquiano, integrará o roteiro do Papa Francisco em março.

Erbil é uma cidade moderna e vibrante no norte do Iraque, onde estão os organismos do governo regional do Curdistão iraquiano — que ambiciona a independência e a criação de um estado curdo na histórica região que abrange partes dos territórios da Turquia, Síria, Iraque e Irão. É também naquela cidade que se situa o Ankawa, um importante bairro cristão onde a vida em pouco difere da de um bairro tradicional europeu: é difícil ali perceber-se que se está num país de maioria muçulmana. Durante o período entre 2014 e 2017, aquele pequeno bairro aumentou exponencialmente a sua população. Foi para lá que fugiram grande parte dos cristãos obrigados a abandonar as suas aldeias na planície de Nínive, certos de que aquele local seria um lugar seguro para eles. A enorme afluência esgotou as capacidades do bairro: os apartamentos foram poucos para tantos deslocados; várias casas acolheram três e quatro famílias em simultâneo. Quando o Observador visitou a cidade, em 2018, várias famílias ainda viviam em campos de deslocados instalados às portas da cidade, embora esses campos já se encontrassem em fase de desmantelamento.

“O Papa vai ficar surpreendido com a fé das pessoas daqui”

Quase quatro anos depois da libertação da planície de Nínive, os esforços de reconstrução do património cristão no centro do Iraque continuam e a visita do Papa Francisco é uma forma de apoiar o reerguer do Cristianismo na região que o viu nascer. O Presidente do Iraque, Barham Salih, já classificou a viagem do Papa como “uma mensagem eloquente para apoiar os iraquianos” e “afirmar a unidade da humanidade na sua aspiração à paz, à tolerância e enfrentar o extremismo”.

Um dos campos de deslocados internos às portas de Erbil em 2018

JOÃO PORFÍRIO/OBSERVADOR

Barham Salih já se tinha encontrado com o Papa Francisco no Vaticano em janeiro deste ano, altura em que os dois líderes terão discutido a viagem do pontífice argentino ao Iraque. Na altura, o gabinete de comunicação da Santa Sé tinha sublinhado, precisamente, que um dos principais temas da conversa entre os dois líderes havia sido a preservação “da histórica presença dos cristãos no país” e “a necessidade de lhes garantir a segurança e um lugar no futuro do Iraque”.

Os cristãos iraquianos estão particularmente entusiasmados com a visita de Francisco, segundo disse o cardeal Louis Raphaël I Sako ao serviço de notícias do Vaticano. Sako, patriarca caldeu da Babilónia e líder dos católicos no Iraque, mostra-se esperançoso com a visita do Papa: “Chega de guerras, chega de conflitos, chega de morte, destruição e corrupção. Precisamos de construir confiança, paz e estabilidade e também solidariedade humana. Esperamos muito do Santo Padre. Esta visita é um momento forte para ele anunciar a verdade. É um ato muito corajoso, especialmente neste momento”.

“Há muito tempo o Papa tinha este sonho de visitar a terra de Abraão”, sublinhou o cardeal iraquiano, destacando a importância da intervenção do Papa na convivência entre religiões no país. “Somos uma minoria em dificuldade, sofremos muito durante os últimos vinte anos no Iraque. O Papa trará uma palavra profética para elevar o espírito de todos e abrir os olhos dos cidadãos iraquianos, mas também dos países vizinhos. Ele trará um novo horizonte, de fraternidade, de respeito, de convivência harmoniosa”, disse. “Ele é um pai para todos. Até os muçulmanos o respeitam e estão muito felizes.”

O próprio Papa falou esta quinta-feira sobre o tema central da sua viagem ao Iraque. Numa mensagem em vídeo gravada a propósito de uma conferência organizada pelo Vaticano sobre os cristãos no Médio Oriente, Francisco falou concretamente sobre as dificuldades que os cristãos enfrentam na Síria e no Iraque. “Temos de trabalhar no sentido de assegurar que a presença cristã nestas terras continua como sempre foi: um sinal de paz, progresso, desenvolvimento e reconciliação entre os povos”, disse o Papa.

A mesma opinião tem Zaid Alniser, um arquiteto cristão iraquiano que o Observador conheceu em 2018 em Erbil. Alniser tem sido um dos principais rostos da reconstrução das muitas aldeias cristãs da planície de Nínive após a ocupação pelo Estado Islâmico: tem desenhado, projetado e orientado a construção de inúmeras habitações que os cristãos estão gradualmente a voltar a ocupar na região.

"Muitas pessoas no mundo ainda não conseguem ter uma visão clara do que aconteceu, mas uma visita do Papa vai dar uma ideia confiável do sofrimento e das necessidades das pessoas."
Zaid Alniser, arquiteto iraquiano

“A visita do Papa é muito importante para todos os iraquianos e especialmente para os cristãos, porque a visita dele vai colocar o foco no que acontece nesta região”, diz Zaid ao Observador, através de uma troca de mensagens pela internet. “Muitas pessoas no mundo ainda não conseguem ter uma visão clara do que aconteceu, mas uma visita do Papa vai dar uma ideia confiável do sofrimento e das necessidades das pessoas.

“Penso que o Papa vai ficar surpreendido com a fé das pessoas daqui e com a esperança que têm”, acrescenta o arquiteto, que vive em Erbil.

Pandemia pode impedir multidões, mas será “uma pena”

A viagem do Papa Francisco ao Iraque será histórica por um motivo adicional: trata-se da primeira visita pastoral internacional do chefe da Igreja Católica após o hiato provocado pela Covid-19. A última tinha sido à Tailândia e ao Japão, em novembro de 2019. Realizando-se em março, contudo, a viagem ao Iraque decorrerá ainda num mundo profundamente marcado pela pandemia, mesmo que as campanhas de vacinação já tenham, por essa altura, arrancado em grande parte dos países.

Na sexta-feira, o Iraque era o 22.º país do mundo com mais casos de Covid-19. Mais de meio milhão de iraquianos já foram diagnosticados com o coronavírus, que já matou mais de 12.500 pessoas no país.

O cardeal Sako, patriarca da Babilónia, é o líder dos católicos no Iraque

Getty Images

A pandemia está a ter um impacto muito significativo no país, já profundamente afetado pela pobreza. Em 2018, estimava-se que 20% da população iraquiana vivesse na pobreza; na sequência do surto de Covid-19, esta percentagem aumentou este ano para 31,7%. São agora mais de 12 milhões de pessoas a viver em pobreza no país.

Com o problema ainda longe de estar controlado, organizar a própria viagem papal será também um desafio logístico.

Em declarações ao jornal Crux, o diretor para a região do Médio Oriente da Cáritas internacional, Karam Abi Yazbeck, mostrou-se “surpreendido” com a organização da viagem do Papa ao Iraque neste momento concreto, uma vez que a pandemia “ainda não está sob controlo”. Salientando que a viagem é “muito simbólica e importante para a região”, Yazbeck considera que será “uma pena” se o programa não incluir encontros de grande dimensão com os fiéis.

“Especialmente os cristãos, no Iraque, precisam mesmo desta visita e deste apoio. Isto será, para eles, como respirar fundo, um balão de oxigénio no meio da vida com esta complexidade”, disse o responsável da Cáritas. Porém, a pandemia poderá obrigar a um programa mais sóbrio que não envolva grandes multidões — o que poderá reduzir o impacto da viagem nas comunidades cristãs.

O comunicado do Vaticano no qual foi anunciada a viagem inclui um alerta: “A seu tempo, será publicado o programa da viagem, que terá em conta a evolução da emergência sanitária mundial”.

Yazbeck assinalou que ainda existe uma quantidade considerável de iraquianos a viver em campos de deslocados depois dos período de ocupação pelo Estado Islâmico. Nesses campos, sublinhou o responsável da Cáritas, as condições já eram péssimas antes da Covid-19. Atualmente, com a pandemia, a situação piorou significativamente — mas são aqueles que estão em situação de maior fragilidade que mais vão beneficiar da visita papal. A forma que o Vaticano encontrar para equilibrar a assistência espiritual aos cristãos perseguidos com a manutenção das regras necessárias a propósito da Covid-19 dependerá essencialmente da avaliação que for feita da evolução da pandemia até março.

"Temos de trabalhar no sentido de assegurar que a presença cristã nestas terras continua como sempre foi: um sinal de paz, progresso, desenvolvimento e reconciliação entre os povos."
Papa Francisco

Ainda que muitos, como Yazbeck, se tenham mostrado surpreendidos com o momento escolhido para a visita, o Vaticano não tem dúvidas de que é a altura certa. Na conferência sobre a situação dos cristãos no Médio Oriente, organizada na quinta-feira pelo Vaticano, o cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado da Santa Sé, sublinhou a importância de atender às necessidades dos cristãos daquela região neste momento histórico.

“Hoje, mais do que nunca, precisamos de não desviar a atenção da população [do Médio Oriente], temos de renovar enquanto Igreja o nosso compromisso de caridade junto dos mais frágeis e necessitados”, salientou Parolin, lembrando que a situação atual do Médio Oriente é marcada pela “crise económica, agravada pelo bloqueio político ou até pela crise institucional e, mais recentemente, pela pandemia da Covid-19.”

Também o arquiteto Zaid Alniser considera que o momento é o indicado — não apesar da pandemia, mas precisamente por causa da pandemia. “O momento que o Papa escolheu para esta visita é importante, porque a reconstrução [das aldeias cristãs] está a andar muito lentamente por causa dos problemas que enfrentamos, a Covid-19 e problemas noutros países do mundo que tiveram um impacto negativo no financiamento que chega ao Iraque”, sublinha Zaid. “A visita do Papa vai encorajar os benfeitores a voltarem a olhar para esta região e a ajudar aqueles que sofrem tal como aqueles fiéis que sofreram no início do Cristianismo.

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