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Rui Oliveira/Observador

Rui Oliveira/Observador

Presidente da Cáritas Diocesana do Porto: “Estamos a cumprir o papel do Estado, porque ele definitivamente não cumpre a sua função” /premium

Paulo Gonçalves dirige a Cáritas do Porto há 3 anos. Diz que os pedidos de ajuda duplicaram com a pandemia e os apoios estagnaram, mas avisa: "Os problemas sociais ainda não chegaram verdadeiramente".

A ligação à Cáritas Diocesana do Porto começou há 8 anos, enquanto diretor de comunicação da APICCAPS – Associação Portuguesa dos Industriais do Calçado Componentes Artigos Pele Sucedâneos, durante uma campanha onde várias empresas doaram calçado à instituição, para depois ser distribuído por famílias carenciadas. Cinco anos depois, em setembro de 2017, o Bispo do Porto nomeou-o presidente, função que desempenha como voluntário.

Não foi um ano fácil. Nessa altura, explodiu também o caso Raríssimas, com a presidente a ser acusada de desviar dinheiro da associação para fins pessoais. E episódio polémico acabou por ter também consequências para a Cáritas do Porto: as receitas caíram para metade, os voluntários foram insultados na rua e muito do seu trabalho foi colocado em causa.

Paulo Gonçalves garante que o momento foi ultrapassado, mas assegura que a igreja católica continua a ser alvo de críticas injustas e não tem dúvidas de que a instituição religiosa que dirige — que atua em 477 paróquias distribuídas por 26 cidades situadas no norte do país — desempenha um papel que é do Estado. Em entrevista ao Observador defende isso mesmo, aponta o dedo ao poder local e critica “os valores trocados” da sociedade civil.

O momento que vivemos, em plena pandemia, volta a ser de grande desafio. E o presidente da Cáritas não aligeira o cenário: diz que a preocupação com os lares de idosos “já vem tarde” e que a pandemia pôs a nu todas as desigualdades, mas avisa que “os problemas sociais ainda não chegaram verdadeiramente”. Para Paulo Gonçalves, a Covid-19 tem consequências reais para lá da saúde que não podem ser esquecidas: imigrantes isolados, desprotegidos, com fome e sem capacidade de regressarem a casa; o desemprego; e as famílias que não conseguem pagar a renda de uma casa ou assegurar a alimentação dos filhos.

Os pedidos de ajuda duplicaram, os apoios estagnaram e a saúde financeira da Cáritas Diocesana do Porto “nunca esteve tão má”. É também por isto que antecipa “meses terríveis” e uma verdadeira “pandemia social”, numa próxima crise que prevê que seja mais longa e profunda do que a de 2008, exigindo que os apoios a empresas e às famílias sejam continuados.

Antes de terminar o seu mandato, que pode ser renovado por vontade de D. Manuel Linda, Bispo do Porto, Paulo Gonçalves gostaria de prestar apoio aos cuidadores informais, aprofundar uma programa com a Universidade Católica de apoio aos idosos e famílias e abrir uma biblioteca pública no edifício da Cáritas Diocesana do Porto. “Não quero que as pessoas oiçam falar da Cáritas uma vez por ano quando vamos para a rua fazer um peditório.”

Paulo Gonçalves é presidente da Cáritas Diocesana do Porto desde setembro de 2017, cargo que exerce como voluntário

Rui Oliveira/Observador

Para quem não sabe, o que faz a Cáritas?
Diria de uma forma simplista que a Cáritas Diocesana do Porto é uma instituição católica com 70 anos de existência e uma ação distribuída por 22 vigararias e 477 paróquias. Estamos a falar de 26 cidades, a maioria do distrito do Porto, e três milhões de pessoas que são ajudadas. A função principal da Cáritas é ser o agente dinamizador de toda a ação sócio-caritativa da diocese, isto é, agimos e intervimos em conjunto com outras entidades, criamos uma rede com várias instituições que estão no terreno a prestar um serviço muito válido de ajuda às famílias mais carenciadas. Não faz sentido estarmos no terreno a canibalizar outras instituições que já prestam um serviço bom, tentamos criar uma rede o mais sólida possível para responder às necessidades que vão sendo detetadas pelas paróquias com quem trabalhamos.

Que necessidades são essas?
Diretamente ou indiretamente, intervimos em várias áreas: no universo alimentar, fazemos chegar a famílias, através de cabazes de emergência, toneladas e toneladas de alimentos; em média, por ano, doamos entre 25 a 30 mil peças de roupa e calçado; no que toca a educação, doamos 80 mil peças de material escolar a essas mesmas famílias. No entanto, entendemos que a área mais crítica era a área da saúde.

Porquê?
Quando esta direção chegou, há três anos, a primeira coisa que fizemos foi definir o papel da Cáritas na diocese. Para isso, ouvimos quem está no terreno, definimos um plano estratégico e um conjunto de prioridades. A área da saúde foi entendida como algo absolutamente fundamental. Todos elogiamos, e bem, o Serviço Nacional de Saúde, que, comparado com outros países, é extraordinário, mas falha noutros domínios complementares. Se um idoso ou uma família carenciada precisar de um medicamento, de uns óculos, de um tratamento dentário ou de material ortopédico, pode nunca chegar a ter resposta ou, em alternativa, esperar anos. Quantos e quantos idosos têm os mesmos óculos seis ou sete anos? Já não falo de tratamentos dentários, que podem esperar uma vida toda. Há famílias que podem esperar até dois anos por uma cama articulada. As pessoas são operadas, saem do hospital, precisam de ajuda imediata e, para isso, aquilo que fizemos foi criar um fundo da saúde para a Diocese do Porto. Achávamos que era um fundo ambicioso com 50 mil euros, mas que rapidamente se esgotou em meia dúzia de meses. Sentimos que era necessário prestar um apoio maior às essas famílias nesta área. Neste momento temos 600 equipamentos ortopédicos cedidos em 19 das 26 vigararias, pois outro grande desafio que nos lançaram, quando assumimos este mandato, foi que a Cáritas devia sair da cidade do Porto e assumir, definitivamente, uma dimensão diocesana.

Têm conseguido?
Penso que sim. Voltando à área da saúde, neste momento estamos a apoiar 600 famílias diretamente, mas entendemos, a determinada altura, que estes apoios eram insuficientes, porque para todos os efeitos cedemos uma cadeira de rodas ou uma cama articulada a uma família, mas ela aparentemente continua ao abandono, sem nenhum tipo de acompanhamento e isso preocupa-nos. Há dois anos criámos com a Universidade Católica do Porto um programa onde temos 30 profissionais na área da saúde, entre alunos finalistas do curso de enfermagem e professores, que prestam esse acompanhamento, visitam famílias, telefonam-lhes, fazem um diagnóstico exato das suas fragilidades para que a Diocese, como um todo, e as suas instituições possam agir em conformidade. Entendemos que tem de ser assim porque, em abono da verdade, se elogiamos muito o nosso SNS, em tudo o que lhe é complementar o Estado falha e falha redondamente. Estamos de forma reiterada a cumprir o papel do Estado, porque ele definitivamente não cumpre a sua função. Todos estes apoios deveriam ser prestados pelo Estado e quando falo do Estado não falo do Governo, falo do Estado central, das autarquias, numa lógica abrangente. É exigido a instituições como a nossa um esforço muito significativo, o que procuramos fazer é atuar onde todos os outros falham. Somos uma instituição de retaguarda para situações de emergência, é para isso que existimos e essa é a génese em todas as Cáritas espalhadas pelo mundo.

"Quem está sentado nos gabinetes, normalmente, tem a ilusão de que constrói um conjunto de iniciativas e medidas e que elas são extraordinárias, mas depois cá fora falham coisas comuns e vulgares."

Por que razão considera existir um desfasamento entre o trabalho social e o trabalho do Estado?
O problema é sempre o mesmo: a falta de orçamento. Dou um exemplo concreto: se um determinado utente está no hospital, é operado e são-lhe amputadas as duas pernas, essa pessoa vai precisar de uma cadeira de rodas e este apoio social deveria ser prestado pelo Estado. Mas, em algumas circunstâncias, pode demorar dois ou três anos a aceder a esse esse material. Como a pessoa não pode ficar dois ou três anos internada hospital ou com uma vida completamente limitada em casa, é pedido um esforço suplementar à Cáritas ou a instituições com o nosso perfil para darem essa reposta. A resposta do Estado chega, chega é completamente desfasada no tempo — posso dizer que algumas dessas ajudas aparecem quando as pessoas já faleceram. O que fazemos de forma reiterada é cumprir uma falha do Estado.

No caso das autarquias, que avaliação faz desse papel social?
Durante muito tempo, esse apoio social não era prioritário, mas recentemente sentimos que as autarquias, de uma forma abrangente, estão mais ativas e a prestar cada vez mais cuidados aos seus cidadãos. Não me passa pela cabeça que esses apoios sejam pontuais e surjam porque estamos em vésperas de eleições, até porque, nos últimos meses, as autarquias tiveram uma ação muito relevante em matéria de ataque à Covid-19. Espero que os apoios autárquicos possam continuar e que exista uma justa distribuição das vacinas quando elas chegarem e que as desigualdades que foram notórias nos últimos meses não se acentuem no futuro. Num primeiro momento, a pandemia não discriminou as pessoas pela raça, pelo credo ou pela cor, mas isso é uma leitura muito superficial, porque, num segundo momento, percebemos que a pandemia acentuou as desigualdades de uma forma avassaladora.

De que forma?
Muitas pessoas que perderam o emprego: as que viviam da economia informal passaram a estar completamente desprotegidas; as que continuaram a trabalhar perderam uma base importante dos seus rendimentos; e os trabalhadores independentes, na área da cultura, por exemplo, passaram a ter fragilidades de forma muito gritante. A pandemia irá continuar a acentuar essas diferenças, porque estamos ainda muito longe de sentir o verdadeiro impacto dela. Numa primeira fase, procurámos contê-la, mas acredito que os problemas sociais ainda não chegaram verdadeiramente. Tivemos centenas de milhares de empresas que recorreram aos apoios do Estado e que, durante muito tempo, foram impedidas de despedir os trabalhadores, mas esses apoios vão terminar. As empresas também não podem continuar eternamente sem trabalho, sem encomendas e rentabilidade. Quando fecharem as portas, aí os problemas sociais vão crescer.

Como se aperceberam da real dimensão desta doença em termos sociais?
Começámos por ver que o número de pedidos duplicou relativamente ao ano anterior. Estamos a falar de famílias que perderam rendimentos e não têm como assegurar a alimentação dos seus filhos, famílias que precisam de pagar uma conta da água ou da luz porque estão na iminência de serem cortadas, ou outras que não podem mesmo pagar a renda de uma casa. Outra coisa quase imediata foi o aumento de pedidos daquilo a que chamamos a classe média, a pobreza envergonhada. A nossa triagem é feita por técnicos sociais com muita experiência e quando chegam aqui pessoas desconfortáveis, que não querem interagir com ninguém, são aquelas que provavelmente tinham uma vida estável e, de um momento para o outro, perderam o seu posto de trabalho. Todos nós aqui dentro olhamos para aquela pessoa ou aquela família e conseguimos imaginar-nos ali, mas acho que, na generalidade, a sociedade não tem bem a noção disso. Os nossos valores andam muito trocados.

Como assim?
Estamos hoje muito preocupados com os idosos e com os lares e, em alguns momentos da minha vida, temi que estivéssemos mais preocupados até com os animais do que com os nossos idosos. Um país que não trata dos seus idosos e não tem memória é um país que não tem futuro e é isso que sentimos todos os dias. 80% das pessoas que são apoiadas por esta instituição são idosos e estão desprotegidos, isolados, muitas das vezes precisam apenas de uma palavra de carinho. Descobrimos agora que temos muitos idosos e muitos lares? Isso é triste.

Considera que essa preocupação é tardia?
Para muita gente, vai tarde. E tudo aquilo que ficou por fazer nos últimos anos? Todos os idosos que, infelizmente, faleceram completamente isolados sem uma palavra do vizinho ou de um familiar? Num passado recente, abandonámos muito os nossos idosos. Espero que a pandemia venha ressuscitar esta preocupação e este acompanhamento, pois devemos aprender com os nossos erros. Não estou a retirar nenhuma das preocupações que temos com os animais — nesse domínio, a sociedade evoluiu muito e ainda bem —, mas não esqueçamos os nossos idosos.

O peditório anual da Cáritas decorre no fim de semana de Páscoa, representa 30% das receitas da instituição e este ano não aconteceu

PAULO NOVAIS/LUSA

Esta crise será diferente da de 2008?
Penso que esta será mais duradoura e mais profunda. Em 2008, as empresas não fecharam e não estivemos confinados. O impacto desta crise será muito mais expressivo e muito mais prolongado no tempo, portanto vamos precisar de cuidar dos nossos e de preparar uma resposta integrada, seja o Estado, as autarquias e todas as instituições que estão no terreno.

Outro dos fenómenos a que a instituição tem dado resposta nos últimos tempos é aos pedidos de ajuda de imigrantes. Continua a ser uma preocupação?
Nos últimos dois anos, os pedidos duplicaram e isso foi algo bastante invulgar para nós. Ouvíamos dizer que o número de imigrantes em Portugal estava a aumentar — atualmente quase 600 mil — e passámos a ver todos os dias imigrantes a baterem-nos à porta, completamente desprotegidos. Viviam da economia informal, não tinha um número de identificação fiscal, estavam com fome, foram despejados e encontravam-se em situações-limite. Para nossa grande perplexidade, alguns desses imigrantes que estavam já há algum tempo em Portugal dirigiram-se à segurança social e, como viviam da economia informal e não tinha um número de identificação fiscal, não lhes foi dado qualquer tipo de apoio, a segurança social reencaminhou-os para a Cáritas. Uma vez mais, verificámos o Estado a não cumprir o seu papel social. Só nessas alturas é que as pessoas se apercebem da importância de instituições como a nossa.

Têm conseguido dar resposta também a estes casos?
Como também temos limitações de cariz orçamental, temos de analisar caso a caso. No ultimo mês, por exemplo, ajudámos um imigrante que vivia na rua e queria regressar a casa, mas não tinha dinheiro para pagar a viagem; tivemos uma família de quatro pessoas que não tinha como pagar a renda da casa e nos pediu auxílio; tivemos ainda um aluno do ensino superior que não conseguiu pagar a propina. Temos de tentar analisar caso a caso.

Quando não conseguem ajudar, reencaminham o caso para outra instituição?
Temos de procurar uma resposta integrada, ver outras instituições na diocese que sejam capazes de ajudar. É muito difícil dizer que não, porque quando as pessoas nos procuram é já em ultima circunstância e é muito doloroso sentir que não podemos ajudar todas as pessoas que nos batem à porta. A questão dos imigrantes não era habitual, recebemos pedidos de brasileiros, italianos, colombianos, venezuelanos, ucranianos. Pessoalmente, não fazia ideia de que tínhamos no Porto tantas famílias italianas e colombianas desprotegidas, que não têm como regressar a casa.

"Temos a ideia de quantos milhares de pessoas todos os dias são alimentadas pela igreja? É muito fácil apontar o dedo à igreja quando a igreja comete erros, como aliás cometem todas as instituições, mas depois não se dá mérito ao resto? Não se pode ignorar toda a ajuda diária que a igreja faz chegar a milhares e milhares de pessoas."

A Cáritas não tem qualquer apoio financeiro do Estado, vive de donativos. Como tem sobrevivido ao longo dos anos?
O último ano é trágico. Temos, essencialmente, duas fontes de rendimentos: o peditório nacional que ocorre pela altura da Páscoa e, depois, os donativos que são constantes, sejam materiais ou monetários. Este ano não tivemos peditórios, estamos a falar de algo que poderia significar 30% dos nossos rendimentos anuais. Seguramente que este será o pior ano da história da Cáritas. Vivemos um tempo completamente excecional. Felizmente tínhamos algumas reservas e pudemos recorrer a elas, pois não podíamos deixar de apoiar quem mais necessita. A verdade é que, se tivermos dois ou três anos como este, as instituições como a Cáritas vão ter de fechar as portas. Não podemos continuar eternamente a prestar um serviço que é do Estado sem ter qualquer tipo de rendimentos. Quando tivemos em Portugal o episódio “Raríssimas”, foi um choque terrível porque todas as instituições foram colocadas em causa.

De que forma sentiram isso aqui?
Sentimos muito, as nossas receitas caíram logo para metade. Foi uma consequência direta. A notícia sai a uma sexta-feira e o nosso peditório era exatamente nesse fim de semana. Fomos insultados na rua, porque as pessoas não conseguem separar as coisas. Eu próprio fui para a rua com os meus filhos e um mealheiro identificado, estava preparado para ouvir umas palavras desagradáveis, mas confesso que os meus filhos serem insultados não é algo que se ouça de ânimo leve. As nossas contas são públicas, são publicadas todos os anos no nosso site, o que recebemos, de quem recebemos e onde aplicamos o dinheiro está lá, é um compromisso que temos. Tem de ser assim, não há outra forma de fazer as coisas.

Existe ainda a ideia de que as pessoas que trabalham nas instituições de solidariedade social fazem-no para obter benefícios próprios?
As pessoas acham que quem vem para estas instituições vem para ganhar dinheiro e poder. A Cáritas não tem um presidente, tem uma linha da frente de pessoas que ajudam quem está no terreno. Sou completamente voluntário, tal como os meus cinco colegas que integram esta direção. Faço questão de, em todas as ações que tenho em nome da Cáritas, o dinheiro sair do meu bolso — se tiver de ir a uma reunião a Oliveira de Azeméis ou em Amarante, vou com o meu carro e a gasolina, as portagens e, se necessário for, o almoço ficam por minha conta. Foi este o compromisso que assumi, porque se calhar também o posso fazer. Acredito que a maioria dos casos agem como eu, as exceções são as “Raríssimas”. Graças a ela, sentimos uma quebra muito significativa dos apoios que colocaram em causa muitas das ações que tínhamos no terreno.

O episódio foi completamente ultrapassado ou ainda há consequências?
Acho que foi ultrapassado. A nossa ação é 365 dias por ano, a solidariedade não é nem pode ser uma moda. Existem centenas de instituições como a Cáritas, muito credíveis no terreno, e que de facto precisam de ajuda. Se o Estado falha, se a sociedade está adormecida, mais cedo ou mais tarde serão os mais frágeis e desprotegidos que vão sofrer, isto parece-me claro.

A solidariedade também se educa?
Penso que sim, é importante trazer as crianças para o terreno. Felizmente, a sociedade está a mudar; felizmente, temos uma Greta Thunberg, que mexeu com muitas mentalidades no mundo inteiro. Acredito que os jovens estão hoje muito mais conscientes e atentos a estas questões do que eu estava no meu tempo.

Além de presidente da Cáritas do Porto, Paulo Gonçalves é diretor de comunicação da APICCAPS há 22 anos

Rui Oliveira/Observador

O facto de serem uma instituição ligada à igreja católica faz com que sofram algum tipo de preconceito?
Temos a ideia de quantos milhares de pessoas todos os dias são alimentadas pela igreja? É muito fácil apontar o dedo à igreja quando a igreja comete erros, como aliás cometem todas as instituições, mas depois não se dá mérito ao resto? Não se pode ignorar toda a ajuda diária que a igreja faz chegar a milhares e milhares de pessoas. Nesta diocese em particular, a igreja está todos os dias no terreno, seja com as paróquias ou com as conferências vicentinas, mais uma vez também a igreja a substituir o papel do Estado. Por vezes, é confrangedor quando só se olha para um lado e não para uma perspetiva global. A igreja tem erros, comete erros, mas tem uma ação muito importante no terreno todos os dias. Espero que isso não esteja comprometido. Se as pessoas não voltarem à sua atividade diária, se não forem à igreja, a própria igreja vai, mais cedo ou mais tarde, condicionar o tipo de apoios que dá à comunidade. Os orçamentos destas instituições não são um poço sem fundo, não podemos tirar de forma reiterada dinheiro às nossas reservas quando não temos uma fonte de rendimento.

Como antecipa o futuro e uma segunda vaga desta pandemia?
O sentimento que tenho é que os próximos meses vão ser terríveis. Estou longe de ser clínico para percecionar se o número de casos vai ou não aumentar, mas sei que, no futuro, iremos ter uma pandemia social porque, efetivamente, o desemprego vai aumentar e existem muitas empresas que estão completamente no limite. O Estado, e em particular o Governo, esteve muito bem nos apoios que concedeu às empresas e as famílias — as moratórias, os créditos e os lay off —, atuou relativamente bem e relativamente rápido. Agora, estes apoios vão continuar a ser necessários no futuro, tanto para as empresas, para manter os seus postos de trabalho, como para as famílias.

O que está a ser feito pela Cáritas neste momento?
Estamos novamente a fazer um levantamento, estamos a bater à porta das 477 paróquias, perguntamos o que precisam e em que podemos ser úteis.

Que feedback têm recebido?
Ainda vai demorar algum tempo a fazê-lo. A minha convicção é que vamos ter de ser muito mais criteriosos nos apoios que damos. Se não tivermos qualquer tipo de apoio, se os donativos continuarem estanques, se não conseguirmos fazer uma campanha em 2021 como não fizemos em 2020, a nossa ação vai ser, naturalmente, comprometida. Como é que vamos ajudar as famílias e as pessoas que estão no terreno sem recursos financeiros? Não podemos constantemente estar a suprir a função do Estado e depois não ter qualquer tipo de ajuda da sociedade civil. Não estou a falar do Estado ou das autarquias, mas da sociedade como um todo. Vou dar um exemplo concreto, com muita mágoa. A Cáritas costuma ter uma carrinha parada aqui à porta que todos os dias anda na rua a entregar material ortopédico e alimentos. Ora, essa carrinha tem mais de 20 anos, hoje está mais uma vez na oficina. Temos de a trocar, mais cedo ou mais tarde, é um investimento grande que teremos de fazer, mas priorizamos o apoio às famílias e a quem está no terreno, em detrimento de comprarmos uma carrinha nova. Se ela, um dia destes, parar, não sei como vou dar apoio às famílias. Uma carrinha nova custa 20 ou 30 mil euros, mas há que fazer escolhas. Pedimos ajuda às 26 autarquias das cidades onde atuamos para que pudessem ajudar financeiramente, mas nenhuma nos respondeu. Muitas vezes, são estas mesmas autarquias que nos telefonam a dizer que precisam da nossa ajuda. É triste.

"A verdade é que, se tivermos dois ou três anos como este, as instituições como a Cáritas vão ter de fechar as portas. Não podemos continuar eternamente a prestar um serviço que é do Estado sem ter qualquer tipo de rendimentos. Quando tivemos em Portugal o episódio “Raríssimas” foi um choque terrível porque todas as instituições foram colocadas em causa."

Quem vos quiser ajudar, o que pode fazer?
Basta bater à nossa porta. Temos uma resposta muito rápida no que diz respeito ao apoio de material ortopédico, em 48 horas conseguimos fazer chegar uma cama articulada ou uma cadeira de rodas a quem precisa. Não esperamos dois anos, como o Estado. As pessoas podem bater-nos à porta, podem dar-nos um donativo em dinheiro ou comida. Nesta fase de pandemia, suspendemos de forma temporária o nosso roupeiro social, que funciona agora apenas por marcação, porque os miúdos regressaram às aulas e necessitam de roupa nova. Não temos uma loja, não comercializamos nada.

Que balanço faz destes três anos de mandato?
Este é o ano de maior desafio e provação, é o ano que também estamos mais ativos no terreno. Durante muitos anos, a Cáritas esteve muito centrada na cidade do Porto, hoje temos uma ação direta em quase toda a diocese, criámos uma rede e assumimos um papel proposto pelo Bispo do Porto de sermos o agente dinamizador de ação social neste território.

Os problemas são comuns às 22 cidades?
Não, de todo. Aquelas garrafas de óleo e pacotes de açúcar que estão lá em baixo e que vão para Ovar, talvez não sejam tão necessárias em paróquias como Amarante, onde existe alguma agricultura de subsistência. Isto é, muitas das famílias ainda têm a sua quinta, o seu terreno ou a sua horta, onde vão plantando algumas coisas. Uma das maiores lições que recebi quando cheguei aqui foi quando fizemos os jogos de futebol solidários. A multa de entrada eram dois quilos de alimentos, o primeiro foi no Marco de Canavezes e os alimentos seriam depois distribuídos pela região. Conseguimos angariar duas toneladas de alimentos e a determinada altura disseram-me: “Levem isto para o Porto, vocês precisam mais do que nós”.

O que ainda gostaria de fazer?
Além de comprar a carrinha, há dois projetos que gostaria muito de concretizar. Um tem a ver com os apoios aos cuidadores, essas pessoas estão muito cansadas e fragilizadas. Temos de começar por uma coisa básica, que é ouvi-los. Esse apoio pode passar por apoio psicológico, mas não só. Quem está sentado nos gabinetes, normalmente, tem a ilusão de que constrói um conjunto de iniciativas e medidas e que elas são extraordinárias, mas depois cá fora falham coisas comuns e vulgares. Para nós é importante ouvi-los, perceber de que tipo de ajuda precisam. Depois tenho um desejo antigo, que é construir aqui uma biblioteca social. Temos uma sala de espera que é relativamente grande e há hábitos de leitura que se foram perdendo, as pessoas deixaram de poder comprar livros. Gostava que essa biblioteca fosse pública, aberta a toda a comunidade, gostava que tivéssemos voluntários que fossem a casa das pessoas ler um livro uma vez por semana, há muita gente que está em casa sozinho e já não consegue ler. Precisamos de abrir as nossas portas e receber pessoas para que elas saibam o que fazemos e como fazemos. Não quero que as pessoas oiçam falar da Cáritas uma vez por ano quando vamos para a rua fazer um peditório.

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