Quando Carrie Fisher beijou Harrison Ford: os diários da princesa Leia

17 Setembro 2017

Chega às livrarias a 18 de setembro "Os Diários da Princesa", as memórias de Carrie Fisher sobre a rodagem do primeiro filme da saga Star Wars. O Observador faz a pré-publicação de um excerto.

Foi o último livro escrito por Carrie Fisher e foi publicado originalmente em novembro de 2016, poucas semanas antes da morte da atriz, aos 60 anos. Os Diários da Princesa (The Princess Diarist, no original) é uma coleção de memórias que regressa a 1976, ano em que o elenco de “A Guerra das Estrelas” esteve em Londres para a parte da rodagem que ocupou os Elstree Studios. Mas é sobretudo o relato do romance que juntou Carrie Fisher e Harrison Ford, os atores que no filme interpretavam Princesa Leia e Han Solo. O Observador faz a pré-publicação do excerto em que Carrie Fisher recorda o primeiro beijo entre ambos.

“Os Diários da Princesa”, de Carrie Fisher (Vogais)

“Eu estava a um ano de chegar aos 20, livre há apenas semanas do meu romance da escola de representação e no meu primeiro papel como estrela de um filme. Era extremamente insegura. Parecia que não sabia o que fazia, e havia bons motivos para isso. Na maior parte das vezes, eu realmente não sabia.

Oh, eu podia ser arguta como o diabo, mas não fazia ideia de como empregar essa esperteza, pois era esperta, e não intelectual. Tinha muito poucos conhecimentos adquiridos, porque tinha desistido do liceu para ser corista no espetáculo da minha mãe, na Broadway, e sentia-me muito insegura face à minha deficiente educação. Era uma leitora voraz, mas parte do que isso me ensinava era que não me permitia chegar nem perto de onde a escolaridade queria que eu estivesse. Eu era precoce, mas quantos anos para lá da adolescência pode durar essa designação?

Era boa com as palavras e tinha uma grande capacidade para analisar pessoas e coisas, mas apenas o suficiente para umas brincadeiras em festas. Pelo menos era o que eu, na altura, dizia a mim mesma. Eu diria que não era tão inteligente quanto isso, mas, obviamente, não sem antes me certificar de que me achariam esperta. Ainda assim, sabendo-me insegura, não me imaginava com alguém que parecia ser excessivamente confiante. Mas seria o Harrison excessivamente confiante se se comprovasse que tinha razão em achar-se o máximo?

Era tudo muito confuso. Mas uma coisa eu sabia: o Harrison deixava-me muito nervosa. Na companhia dele, ficava com a língua presa e trapalhona. Era altamente desconfortável, e não de uma forma que conseguisse ultrapassar com umas saídas espirituosas. Conhecemo-nos, atingimos uma barreira e ficámos ali. Não parecia um desafio, mas sim algo a evitar sempre que possível. Estava com ele quando trabalhávamos cenas juntos e, em outras ocasiões, tentava evitá-lo, para não o aborrecer. Ou, parecia-me, para não desperdiçar o seu tempo. Era mais confortável sair com o elenco e com a equipa, que era mais divertida e menos imune aos meus encantos.

Quando olho furtivamente para trás, imagino o Harrison, nesses primeiros dias, a alargar horizontes sobre o local de filmagens. Não necessariamente na expetativa de ter um caso, mas, a verdade é esta, também não com a ideia de não o ter. Afinal de contas, andávamos em rodagem e ter uma pequena e discreta aventura paralela não era a pior coisa que ele poderia fazer. Era quase expectável. Em filmagens, longe de casa… Portanto, enquanto eu passava a pente fino o que me rodeava em busca da minha potencial aventura nas filmagens, também o Harrison poderia ter andado a fazer o mesmo.

Numa das primeiras noites de sexta-feira após o início das filmagens, foi organizada uma festa para celebrar o 32.° aniversário do George Lucas. Foi considerada uma festa surpresa, mas o que me surpreenderia era que ele tivesse ficado efetivamente surpreendido. E mesmo que assim fosse, com o George nunca se sabia. Ele não era muito dado a expressões faciais, tal como Darth Vader e vários robots, stormtroopers e ewoks.

Uma coisa que o George nunca fez, ao contrário de outros realizadores (vim a aprender mais tarde, com desânimo), foi encorajar-nos a «divertirmo-nos com a coisa». Foram muitos os realizadores que me encaminharam para aí e sempre me apeteceu dizer: «É para isso que me queres aqui? Para me divertir? Estou aqui pelo meu salário, para de vez em quando usar um inapropriado sotaque britânico, e para levar pessoas que não conheço a gostarem de mim». A diversão era para mais tarde, e, por norma, mal orientada, o que me traz de volta à festa surpresa do George.

As festividades tiveram lugar numa sala arrumada, de dimensões médias, adjacente à cafetaria dos Elstree Studios. As paredes eram amarelas-sujas, embora um convidado mais generoso e míope pudesse julgá-las mostarda. A maior parte da multidão ali reunida era composta pela equipa, os assistentes de produção, os eletricistas («faíscas», no Reino Unido), os motoristas e todos os outros, que labutavam diariamente no novo e bastante obscuro filme que estava ali a ser rodado. Se conseguissem levar ao ecrã metade do que o George punha em papel, pensei, as pessoas iriam vê-lo. Independentemente de tudo, ia ser um filmezinho fixe e estranho. Eu iria ver. Bem, teria de o fazer, mas não teriam de me arrastar.

Esta cafetaria era um espaço grande e insípido, inescrutável, impassível, indiferente, para que as pessoas melhor se concentrassem no que ingeriam, que podia ser batatas fritas, molhos, aipo e pretzels. E a seguir à mesa que ostentava esta variedade, sem dúvida muito pouco empolgante, encontrava-se o destino de todos, outra mesa com tesouros mais apetecíveis: o bar.

"E então, ali estava o Harrison à porta. Uau, ele parecia mesmo entusiasmado por ali estar. Mas, pensei, até podia acontecer. Esta podia ser a noite em que ele sorriria. Acenei, enquanto levei a cola morna aos lábios, na esperança de que não estivesse assim tão morna."

Não tendo ainda localizado o George, tentei mostrar um ar o mais despreocupado e indiferente possível, enquanto vagueava lentamente na direção do bar, sorrindo de modo a facilitar aos presentes a possibilidade de gostarem de mim e de não pensarem porque teria ficado eu, de entre tanta gente, com o papel da bem intimidante princesa.

— Olá! Como é andas? — Como é que ele se chamava? — Que bom ver-te. — Oh, não… como é que ele se chamava? Como é que todos eles se chamavam?, pensei, enquanto avançava por entre a crescente multidão de rostos que via diariamente. Naturalmente, todos eles sabiam o meu nome, pois constava da folha de chamada.

— Pode arranjar-me uma Coca‑Cola com gelo, por favor? No maior copo que tiver? Oh, pois é, estamos em Inglaterra, não há gelo. OK, então que seja uma Coca‑Cola morna.

E então, ali estava o Harrison à porta. Uau, ele parecia mesmo entusiasmado por ali estar. Mas, pensei, até podia acontecer. Esta podia ser a noite em que ele sorriria. Acenei, enquanto levei a cola morna aos lábios, na esperança de que não estivesse assim tão morna. Morna do género pântano-no-verão ou jacúzi-excessivamente-aquecido. O Harrison ergueu a mão num gesto que pretendia ser de saudação e começou a avançar por entre o grupo ali reunido que crescia a cada minuto, um fungo social, lenta e deliberadamente alimentado pelo bar.

— É claro que me lembro de ti! — assegurei enfaticamente a alguém de quem não me lembrava. —Sim! Estou a divertir-me imenso. E tu?

— Ei, olha só quem aqui está — cumprimentei outro. — Estava aqui a pensar se virias. Não, a sério, estava mesmo! Não, já tomei uma bebida. Passa por uma bebida. O álcool não é a única coisa que mata a sede. É a componente que mata os sentidos que me desconcerta. Digam isso três vezes muito depressa: Mata-sentidos. Mata-sentidos. Mata-sentidos. Não, a sério, não posso beber. Tentei, a sério que me esforcei ao máximo. Mas, a sério, sou alérgica ao álcool. Deixa-me estúpida, maldisposta e inconsciente muito depressa. Por isso, na verdade, nunca me embebedei, apenas fiquei sem sentidos e inerte. Adoro essa palavra, vocês não? «Inerte».

O fumo acumulado transformou o genérico espaço na sala das traseiras de um pub perto da hora de fecho, só faltava a mesa de bilhar. Após um começo de certa forma tímido, toda a gente acabou por perceber que não se tratava de um festejo polido para o chefe desagradável que ninguém conhecia. Era, isso sim, uma espécie de alegre cataclismo a ter lugar no final de uma longa semana de começo de rodagem. Talvez até já estivéssemos atrasados com a produção.

Muita gente da equipa já se conhecia de outra filmagens, e a rodagem, à exceção de uma breve excursão à Tunísia, decorria em casa. Não havia desenraizamentos e estadias em hotéis baratos longínquos, mas confortáveis. A maioria deste pessoal ia para casa ao fim do dia/semana/mês de trabalho e sentava-se à mesa de jantar com as suas queridas e solidárias famílias, e sorria com uma alegria mal contida à mulher ou família, que se interessava avidamente pelo seu dia.

Na verdade, era este mesmo assunto que estava a ser discutido.

— Ninguém aqui presente acha que isto é que é diversão e brincadeira no local de trabalho, certo? — questionou um elemento da equipa. — Toda a gente com quem já trabalhei e que tenha alguns miolos na cabeça preferiria estar em algum lugar quente bem longe daqui… digamos, algures na costa onde o pessoal da terra está a postos e a cerveja é preta e não para de jorrar.

— Em casa? — disse outro. — Depois de trabalhar todo o santo dia num plateau escuro à espera que toque a campainha para poder falar mais alto do que um sussurro… Até fico fodido. Deem-me um belo local remoto com uma avençazinha para pagar uma rodada ou duas no bar da terra, sem que faltem umas rachas desconhecidas e amigáveis, e pomo-nos já a andar, hein, rapazes?

Entretanto, dois elementos da equipa, os segundos assistentes de realização, Terry e Roy — começaram a gozar comigo.

— Vejam só quem aqui está, rapazes! É a nossa princesinha sem os rolos!

Penso que parte da motivação deles se relacionava com o facto de eu ser basicamente a única rapariga presente na festa, e seria mais divertido ter a única rapariga da festa perdida de bêbeda do que o contrário. Nem que fosse a última coisa que fizessem, tentar-me-iam levar a beber o que quer que fosse que toda a gente estava a emborcar. Tornou-se uma das principais obsessões da noite: «vamos deixar a Leia com as pernas bambas», e se eu tivesse alinhado, teria sido a opção mais idiota que poderia tomar, tendo em conta que esta pândega incluía toda a gente que eu conhecia no filme, incluindo os meus chefes, os produtores e o próprio realizador, que era o aniversariante.

Seguiu-se uma espécie de interação devassa vitoriana, maioritariamente em vernáculo. Com a forma como os britânicos usam a língua, com coloquialismos como «twat» (que rima com «fat») e «cunt» (que rima com tudo). Como é que alguém pode fartar-se de ouvir e/ou interagir com um bando destes?

Bem, talvez seja possível, mas comigo nunca aconteceu. Apaixonei-me por Londres quando andava lá na escola e esse sentimento nunca se extinguiu. Adoro o modo como os ingleses se sentem ligados à sua história, preservando os seus edifícios, em vez de os demolirem para arranjarem espaço para outro prédio bege com montes de janelas, de onde uma pessoa pode atirar-se aos gritos. Adoro os seus sotaques, as suas taxas de câmbio, o seu comportamento idiossincraticamente amistoso, os seus museus, os parques para os quais é preciso chaves, e as suas colas sem gelo. Se consigo perdoar a um lugar que não faz da produção de gelo uma prioridade do seu estilo de vida, isso é amor genuíno.

Juntámo-nos e cantámos todos uma versão horrível do Parabéns a Você, após o que o Harrison encetou uma conversa com o George. Fui de novo rodeada por uma multidão de homens heterossexuais com cheiro a mofo e a suor, vestidos de calças de ganga e t-shirt. Fosse músculo ou gordura o que preenchia as suas t-shirts banais, todos me pareciam atraentes em vários graus, por um lado por serem efetivamente atraentes e por outro, por eu, aos olhos deles, ser inegavelmente atraente, acabadinha de entrar na idade de consentimento. Mas, vá lá, vou dar-me algum crédito! Não era só o facto de ser a única coisa na ementa. Eu tinha 19 anos e era gira como o raio. Hoje vejo isso, mas, se me perguntassem na época, teria dito que tinha a cara gorda e um corpo volumoso.

Não paravam de insistir para que eu bebesse, e, finalmente, o meu eu que gosta de agradar às pessoas assumiu o comando e deixei que um elemento da equipa me fosse buscar algo. Pedi um amaretto, a única coisa que bebia. Sabe a um xarope para a tosse horrível, o que é uma redundância, mas pelo menos seria um sabor conhecido. Não tinha tosse nem a garganta inflamada, mas talvez evitasse vir a ter. Um dos elementos da equipa de efeitos especiais celebrou a minha concordância. — Não sei como é que alguém consegue beber álcool, com este sabor — disse eu. — É como ferrugem. Vi pessoas a revirar em vinho na boca com prazer e isso deixou-me perplexa.

— A mim também, amor — replicou um dos elementos da equipa. — Eu só alinho pelo efeito… que se lixe o sabor.

— Pois, mas quando era mais nova, parecia-me fantástico, as pessoas reunidas em grupos, de bebida na mão, atirando a cabeça para trás, às gargalhadas, e estava ansiosa por passar por isso. Estava ansiosa por conhecer o segredo do álcool que liberta toda aquela alegria presa nas profundezas. Mas era uma mentira, uma mentira tremendamente horrível, e alguém, um dia, vai ter de pagar por isso.

— Olha, querida — disse o membro da equipa regressado do bar. — Ninguém te vai fazer pagar por isto… cortesia de George Lucas.

Olhei para o copo que ele me entregou, mas em vez de dar com um amaretto deparei-me com um copo cheio de algo que assumi que fosse vinho. Franzi o sobrolho.

— Desculpa, amorzinho, aqui não há a tua bebida doce preferida — disse o membro da equipa. — Mas isto deve fazer ainda melhor o que o amaretto faz.

Porque é que bebi aquilo? Talvez para lhes mostrar que o álcool era mesmo má ideia para mim. Independentemente da razão, o que interessa é que bebi. Fiz uma careta tensa após o primeiro gole daquela coisa horrível. E outro trago e mais outro a seguir. Não consegui focar-me durante muito tempo. Ali estava eu a rir-me, a rir-me como aqueles adultos que via nas festas da minha mãe quando era uma miúda.

— Lembram-se quando, na primeira semana, fizemos aquele baloiço de travessia? — perguntei.

— O que é um baloiço de travessia, pá?

— Estou a dizer-te! Foi quando o Mark e eu baloiçamos numa corda daquela plataforma para o outro lado! Vocês sabem! Sabem ao que me refiro!

Sabiam. A equipa não estava propriamente interessada na minha história, só queriam que eu continuasse a beber, o que eu fiz. Riam-se de tudo o que dizia e eu gostava dos risos deles, e, por isso, continuei a seguir o mesmo caminho até os contornos se tornarem cada vez mais turvos e deixasse de interessar se era ou não um caminho. O que mais interessava era que nos continuássemos a rir e a divertir.

[…]

Não tenho a noção de quando me apercebi de que uns quantos elementos se organizavam para me raptarem, na brincadeira. Não tenho a noção porque decorreu muito tempo entre a festa surpresa do George, há 40 anos, e a atualidade.

Era um plano jovial. Desviar-me da festa para onde quer que as equipas de rodagem levassem as jovens atrizes quando pretendiam vincar que as atrizes lhes pertenciam (pelo menos no momento), e não a ninguém do elenco ou do pessoal da produção. Por certo que não era uma coisa séria. O que a fez parecer séria foi o tamanho que os homens das várias fações tendiam a ter.

"O meu cabelo, o meu cabelo, o meu cabelo. Neste filme, era sempre o meu cabelo, estivesse ou não a filmar. Mantive-me baixada, enquanto dava o meu melhor para arranjar o cabelo e depois ergui-me lentamente, temendo quem pudesse encontrar do outro lado da janela. Será que estariam armados? Armados com uma câmara e uma expressão de espanto? Ou…?"

A dada altura, apercebi-me de que me doía a cabeça. Não era bem doer, sentia-me apenas diferente do habitual, algo que referi.

— Precisas de apanhar ar — disse um dos elementos da equipa.

— Aqui não há ar? — perguntei. — Então, o que é que tenho estado a respirar?

— Ei — uma nova voz chamou, enquanto eu era empurrada para a frente, para uma porta disponível, por uns dos faíscas mais amistosos.

Os faíscas estavam a faiscar-me, não estavam? Estávamos quase a passar pela porta quando ouvi de novo aquela voz. Era americana, não britânica. Uma voz ianque.

— Para onde é que a vão levar?

— Para lado nenhum, pá, a senhora só quer apanhar ar.

— Desculpem lá, mas a senhora não parece ter bem a noção do que quer. — Percebi, então, de quem se tratava. Era o Harrison! O meu coprotagonista! O que dizia ele? Eu não sabia o que queria? Até podia ser verdade, mas desde quando é que ele era especialista em saber o que eu queria ou deixava de querer?

— Olá, Harrison! — cumprimentei-o quando se aproximou. — Por onde é que tens andado?

Não imagino o que estes bifes desordeiros pretendiam fazer comigo. Acredito que não seria grande coisa, mas iam fazer uma grande algazarra enquanto não faziam nada. E o Harrison, de repente, estava a dar um grande espetáculo ao salvar-me de algo que eu só poderia imaginar. (Mas, porquê dar-se ao trabalho?) A equipa pressionou, o Harrison contrariou, eu tentei manter-me concentrada.

Mas havia também um elemento de perigo. Não com «P» maiúsculo, mas, de qualquer forma, a palavra aplica-se em função da confusão que parecia governar o dia, ou o poleiro, ou o mundo. O que começara por ser uma espécie de braço de ferro encenado transformou-se numa batalha mais séria pela (qual é a palavra?) donzelice de uma mulher. Não! Virtude! Um braço de ferro envolvendo a minha virtude embebida em vinho estava em curso e eu não sabia ao certo no que iria resultar. Mas, na verdade, até estava vagamente interessada.

Assim que consegui concentrar-me, com o que restava da minha lucidez, em quem estava envolvido neste medir de forças, comecei a perceber aos poucos quem eu queria que ganhasse: o meu coprotagonista, o contrabandista, aquele da cicatriz no queixo, o diálogo na cabeça e a arma no cinto. Não que tivesse a arma agora, apenas quando fazia a personagem, mas ainda assim… Senti que a arma estava implícita, e o mesmo deve ter achado a equipa, porque, após um tumulto louco que deixou o Harrison a coxear, o Sr. Ford enfiou-me, e à minha virtude, no assento traseiro do carro que o estúdio lhe arranjou e ordenou ao motorista: «Vamos! Vamos!» Partimos, e fomos seguidos a pé, por um momento breve, mas arrojado, pela equipa de rodagem. Uns excelentes homens.

A meio caminho, entre Elstreet e Londres, ouvi uma buzina. Quer dizer, mais tarde percebi que era esse o barulho insistente que ouvíamos. Empurrei o Harrison pelo ombro. — O que é aquilo? — perguntei, em pânico. — Está alguém a buzinar?

— Merda — murmurou, espreitando sobre a minha cabeça pelo vidro de trás. — São o Mark e o Peter.

— Oh, meu Deus. — Ia sentar-me, mas ele travou-me com a mão e com a voz.

— Arranja o cabelo.

O meu cabelo, o meu cabelo, o meu cabelo. Neste filme, era sempre o meu cabelo, estivesse ou não a filmar. Mantive-me baixada, enquanto dava o meu melhor para arranjar o cabelo e depois ergui-me lentamente, temendo quem pudesse encontrar do outro lado da janela. Será que estariam armados? Armados com uma câmara e uma expressão de espanto? Ou…?

— Age com naturalidade — sugeriu o Harrison. Percebendo que agir com naturalidade levaria horas e uma parelha de cavalos, sorri e acenei aos dois através da janela. Fiz o que consegui para tentar agir com naturalidade, sem apoio, encorajamento adicional ou um chapéu. Eles estavam mais ou menos atrás de nós, por isso não podem ter visto nada.

Enquanto eu observava, um carro azul apanhou-nos pela direita. Um membro da equipa, Peter Kohn, ia a conduzir, com uma bela rapariga à sua esquerda, no lugar do passageiro, a atriz Koo Stark. O Mark seguia no assento traseiro, todo inclinado para a frente, entre o Peter e a rapariga. Acenou, muito contente, e sorriu. Eu também acenei e mostrei-lhe os dentes de cima.

Vi o Harrison baixar o vidro da janela dele. Estávamos na Londres pré-histórica; os vidros eram baixados de forma manual, era preciso marcar os números de telefone num disco e às 11 da noite de domingo estava tudo fechado. E quando digo «tudo» é mesmo tudo. Era espantoso.

Além disso, eles não vendiam pão de milho, e a maioria dos pequenos-almoços constava de cereais, panquecas de pacote, feijões ou bacon simples! Era a minha dieta base. Como é que as pessoas sobreviviam? Havia montes de produtos vulgares americanos que era impossível comprar no Reino Unido. Alguns podiam ser encontrados no Fortnum & Mason, em Piccadilly. Eu já tinha essa noção por ter vivido em Londres nos últimos anos. Os americanos que compunham o nosso elenco (o Mark e o Harrison) e a equipa (o George e o Gary, e outros) em Star Wars ainda estavam a descobri-lo. Um desses americanos era o já referido Peter Kohn, que, por norma, usava um gorro de malha e camisolas compridas azul-escuras ou bordeaux. Não sei ao certo que serviços prestava ao Star Wars. Não parecia estar lá com alguma função normal oficial, embora eu não soubesse ao certo como seria uma função normal oficial, mas ali estávamos nós, o Peter, a Koo Stark e outras estrelas do filme, todos a caminho do mesmo restaurante.

[…]

A conta foi disputada bravamente por todos nós, bons soldados disponíveis, bem cientes, a algum nível obscuro mas feliz, de que aqueles abençoados com um lote de sémen por gastar iriam, na realidade, pagar. A Koo e eu fingimos que nos sentíamos semi-saciadamente gratas pelo sacrifício galante daqueles trocos tão duros de ganhar e levantámo-nos da nossa gamela, assim abandonando o restaurante para seguir para os eventos mais requintados que nos aguardavam a todos.

Eu não estava em condições de fazer mais do que pegar em deixas, quando e se fossem distribuídas com intenção. Mas talvez tenha interpretado mal a situação. Estaria eu a seguir uma liderança que existia apenas na minha mente não-habituada-a-álcool-e-como-tal-alterada? Começava lentamente a ficar sóbria e a probabilidade de estar a interpretar mal os sinais reduzia-se a cada minuto, enquanto esperávamos no passeio, em frente ao pequeno restaurante italiano ao qual eu conseguira sobreviver. O ar fresco era bem-vindo. Quem diria que havia tanto cá fora! Especialmente quando comparado com a quantidade global, vedada a ambientes fechados.

Pusemo-nos sob a luz tímida de um candeeiro de rua ali perto, passando o peso de um pé para o outro, a olhar para os relógios, a acender cigarros ou a espreitar para averiguar se iria aparecer algum táxi.

— Estou em Chelsea — disse o Mark.

— Então, sempre acabaste por ficar com aquele apartamento? — observou o Peter, assentindo discretamente com cabeça.

O Mark encolheu os ombros.

— Acabei por pensar, porque não? Tem vistas fantásticas, uma cozinha espetacular… Ora bem, por certo que há zonas melhores, mas… — fez uma pausa e encolheu os ombros — mas não com um segundo quarto.

O Harrison deitou fora o seu Camel, quase por começar, e tossiu.

— OK! — disse ele, dirigindo-se a todos. Olhou, então, para mim. — Posso deixar-te em tua casa… fica-me a caminho.

Pegou-me pelo braço e encaminhou-me na direção de Piccadilly Circus.

— Boa noite — lá consegui dizer, enquanto o Harrison me arrastava pela rua para longe deles. Eu não ter dado um passo em falso foi um milagre. Não do tipo de uma virgem a dar à luz, nem nada que se parecesse, mas a mim pareceu-me. Caminhámos um bom bocado em silêncio enquanto eu passava em revista uma série de comentários que poderia fazer que me permitissem parecer… parecer alguém… uma mulher que sabia o que fazia (ou que não queria saber do que fazia) porque onde quer que ela fosse, só os melhores a seguiriam. Seguiriam todas as palavras dela como perseguidores bem-vindos. Porque é que o Harrison não quereria estar onde ela estava? Se ao menos essa mulher se sentisse assim em relação a si própria, se ao menos ela conseguisse pensar no que haveria de dizer-lhe, em vez de perguntar-lhe o que iam fazer. Onde iam e porquê? Será que ele a convidaria para o baile e a cobriria de chupões?

Ora bem, é claro que ela o amava, não era? Antes daquilo que aconteceu no banco traseiro, ela não se teria atrevido, mas agora…

— Onde moras? — perguntou ele, assustando-me, ali parada ao lado deste rei Han Solo e todas as personagens que viria a representar. E depois havia eu, grávida de todas aquelas pessoas que viria a representar: uma cabeleireira vingativa, uma sogra hostil, uma adúltera tocadora de flauta, uma psicóloga, uma escritora viciada em drogas, uma atriz colecionadora de namorados, uma chefe zangada, eu própria, eu própria, eu própria, eu própria, e um par de freiras. Ele agarrou-me pelo cotovelo e fez-me entrar para o assento traseiro de um táxi.

— Onde moras?

Olhei para ele, piscando os olhos.

— Onde moro?

— Damas e cavalheiros, para onde vamos? — O taxista engatou o carro e regressou à vida com um resmungo. — Ou posso levar os meninos a passear toda noite, o dinheiro é vosso. O Harrison assentiu em concordância, girando o indicador rapidamente, o sinal internacional para apressar as coisas. — Está bem. Esmond Court, em frente à Kensington High Street.

— OK, minha senhora. Ponho-vos lá num minutinho — disse ele, quase animado, no seu sotaque cockney à Dick Van Dyke de Londres Oriental. Aquele que eu gostaria de dominar. — É por detrás do Barkers, não é?

Ia a responder-lhe quando o Harrison me puxou para trás no assento, juntando-nos cada vez mais, cara a cara, até sermos dois rostos, quatro olhos e um beijo, indo para o lugar onde estaríamos daí a ano e meio em O Império Contra‑Ataca. Aparentemente, pelo que se viu, queríamos saltar já para lá. As pessoas pensam que se trata apenas de um beijo numa cena de amor e não percebem os anos que alguns atores põem nessas cenas. Os verdadeiros atores. Toda aquela prática vem ao de cima. Mas não precisam de acreditar em mim. Verifiquem os beijos em Império. Veem? Foram anos de preparação, e, garanto-vos, ali não precisaram de recorrer a efeitos especiais. Foram os dias e noites iniciais da Força.

— Cá estamos, amigos! Esmond Court! — Isto foi pontuado pelo som agudo do puxar do travão. — São cinco libras e dez, por favor.

O Harrison esticou o braço para chegar à sua carteira castanha coçada no bolso traseiro. Peguei na minha bolsa que estava no chão e pu-la ao colo, dizendo:

— Eu posso…

Ele olhou para mim, indicando que o que faltava na frase que eu iniciara não seria nada bem-vindo. Posso ter-me tornado uma fábrica de corar, enviando todo o sangue do sul para a minha face a norte. Ocorreu-me agora (tardiamente, reconheço) que o Harrison não ia simplesmente deixar-me em casa, mas sim que íamos, muito provavelmente, fazer aquilo a que eu e as minhas amigas nos referíamos como «ir dormir a casa de uma amiga». E se ele (se nós) e depois (oh, meu Deus) depois ele iria, de uma só vez, deixar-me a mim e à minha nova identidade de mulher fácil, uma mulher desgraçada, a cair a pique… A Leia nunca se deixaria envolver numa situação destas…

Na verdade, se calhar, até o faria, mas só nas sequelas. Este era comportamento de sequela. Oh, mas e se ela se enfiasse no assento traseiro de um táxi com um ator casado contrabandista? Se ela o fizesse, não vagaria simplesmente ao sabor das ondas, como uma folha caída numa corrente de um regato. Vá lá! Ela conseguiria desencantar algo mais invulgar… talvez não poético, mas… Porque é que eu era tão obediente? O que é que faria a Leia? Obviamente, seria diferente de seguir o exemplo de Jesus. Ele nunca… bem, não vale a pena tomar Jesus como exemplo no que toca a encontros. E era disso que se tratava? De um encontro? Oh, Leia, onde é que tu estás quando preciso de ti? Oh, Jesus, se estiveres a ver, por favor não permitas que a minha barriga fique outra coisa que não lisa se chegarmos a esse ponto.

— Muita saúde, amigo — disse o taxista, quando o Harrison pagou a corrida. Depois, arrancou, deixando-nos ali algo desamparados.

— Queres subir? — perguntei, estupidamente. Ele quase se riu.

— Claro.

Procurei as chaves na minha bolsa. A Leia encontrou-as e encaminhou-o até ao seu apartamento, e a Carrie passou o resto da noite a fazer sequelas com o seu futuro marido cinematográfico.”

Todos queremos saber mais. E escolher bem.

A vida é feita de escolhas. E as escolhas devem ser informadas.

Há uns meses o Observador fez uma escolha: uma parte dos artigos que publicamos deixariam de ser de acesso totalmente livre. Esses artigos Premium, por regra aqueles onde fazemos um maior investimento editorial e que mais diferenciam o nosso projecto, constituem a base do nosso programa de assinaturas.

Este programa Premium não tolheu o nosso crescimento – arrancámos mesmo 2019 com os melhores resultados de sempre.

Este programa tornou-nos mesmo mais exigentes com o jornalismo que fazemos – um jornalismo que informa e explica, um jornalismo que investiga e incomoda, um jornalismo independente e sem medo. E diferente.

Este programa está a permitir que tenhamos uma nova fonte de receitas e não dependamos apenas da publicidade – porque não há futuro para a imprensa livre se isso não acontecer.

O Observador existe para servir os seus leitores e permitir que mais ar fresco circule no espaço público da nossa democracia. Por isso o Observador também é dos seus leitores e necessita deles, tem de contar com eles. Como subscritores do programa de assinaturas Observador Premium.

Se gosta do Observador, esteja com o Observador. É só escolher a modalidade de assinaturas Premium que mais lhe convier.

Partilhe
Comente
Sugira
Proponha uma correção, sugira uma pista: observador@observador.pt
Global Shapers

Quando chegará o último Aquarius?

Hugo Menino Aguiar

É preciso conciliar a liberdade de movimento enquanto direito humano fundamental e a gestão económica, cultural e social das migrações - e permitir que esta segunda vertente seja sobrevalorizada.

Filhos

Guarda conjunta em residência alternada /premium

Eduardo Sá

A recomendação de ser “regra” o regime de guarda conjunta com residência alternada, se mal gerida, pode trazer a muitas crianças uma regulação da responsabilidade parental mais populista do que justa.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

1
Registo
2
Pagamento
Sucesso

Detalhes da assinatura

Esta assinatura permite o acesso ilimitado a todos os artigos do Observador na Web e nas Apps. Os assinantes podem aceder aos artigos Premium utilizando até 3 dispositivos por utilizador.

Só mais um passo

Confirme a sua conta

Para completar o seu registo, confirme a sua conta clicando no link do email que acabámos de lhe enviar. (Pode fechar esta janela.)