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"Cada uma das mulheres não só venceu uma série de opressões, mas abriu caminho para outras mulheres à sua volta e, além disso, transformou o mundo em que estava", diz-nos Raquel Freire

"Cada uma das mulheres não só venceu uma série de opressões, mas abriu caminho para outras mulheres à sua volta e, além disso, transformou o mundo em que estava", diz-nos Raquel Freire

Raquel Freire. "Quis conhecer as mulheres do meu país, que é muito melhor do que as elites que o governam" /premium

Estreia-se esta segunda-feira na RTP1 "Histórias das Mulheres do meu País" como série documental. Em entrevista, a realizadora fala-nos da origem, do processo e dos objetivos deste trabalho.

A conversa por zoom começa quase uma hora depois do combinado. A partir de casa, num bairro histórico de Lisboa, a realizadora Raquel Freire, 47 anos, pede desculpas, mas está a finalizar os materiais promocionais da minissérie documental “Histórias das Mulheres do Meu País”, para passar à RTP.

Não é fácil entrevistá-la. O atraso, compreensível, é o menos. Antes disso, foi o telefone, que se avariou e impossibilitou a marcação da conversa durante uns dias. E, depois, a intensidade do discurso. Vestida em tons de fogo, com unhas e batom a condizer, salta de tema em tema, emociona-se, dispara em todas as direções, sem medo: o cinema português – um reduto de “meninos ricos de Lisboa” –; o júri do ICA (Instituto do Cinema e do Audiovisual) – que desde há sete anos atira para as últimas posições um projeto seu que ficou em primeiro lugar em França, onde os concursos são anónimos (“Trans Iberian Love”); o machismo e o racismo em Portugal – ninguém escapa à crítica, nem mesmo ela.

Raquel Freire é autora de uma cinematografia feminista, política, de intervenção e de cidadania. Muitas vezes com inspiração autobiográfica. “Rasganço”, de 2001, é a sua primeira longa-metragem. Já esta trilogia é inspirada no clássico feminista de Maria Lamas As Mulheres do Meu País (1948), que as duas avós lhe ofereceram quando tinha seis anos. Estreia-se esta segunda-feira, 8 de março, às 22h45, na RTP1. Segue-se ao filme com o mesmo nome e as mesmas protagonistas exibido há dois anos.

Ao todo, são 12 os retratos de mulheres. De bombeiras a rappers. De ativistas LGBT a operárias. Do Norte ao Sul do país, ilhas incluídas. Freire quer mostrar diferentes modos de viver e sentir, porque “só assim se acaba com o machismo e o racismo.” Todas estas mulheres superaram a opressão, explica, e abriram espaço para que outras mulheres fizessem o mesmo.

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O projeto, que inclui ainda uma exposição, uma animação e um site a lançar esta semana, está todo na sua mão. “Serviço público”, chama-lhe, a que resolveu juntar a comunicação. “Tendo em conta o machismo estrutural da RTP, já me tinha preparado para ter de fazer uma série de coisas. Não tanto, confesso. Mas, pronto, estamos aí.”

[o trailer de “Mulheres do Meu País”:]

O que quer dizer com “machismo estrutural que existe na RTP”?
O machismo estrutural que existe na RTP é o machismo estrutural que existe no país todo. Sempre existiu uma desigualdade brutal. Basta ver os números do ICA. Entre 1980 e 2009, há 253 filmes realizados por homens e 40 feitos por mulheres. Mesmo com o boom no cinema, que é quando passamos a ter Ministério da Cultura. Só assim é que eu e várias outras pessoas novas – e eu já não sou nova – começámos a fazer cinema. Porque antes eram só os “Botelhos” e os “Oliveiras”. O [Manuel Maria] Carrilho tentou impor um modelo de concurso mais justo, mais próximo do europeu, com rotatividade dos júris, quotas, pessoas de reconhecido mérito cultural e artístico. Mas isso não está a ser cumprido, a qualidade do júri tem vindo a decrescer e o clubismo está de volta. E atenção que o ex-ministro é uma figura por quem não tenho simpatia nenhuma.

Começámos pelo que ia perguntar-lhe no fim, que era se já tinha sentido sexismo na sua carreira. O meio do cinema em Portugal é machista?
A minha primeira experiência profissional foi a estagiar no “Rio do Ouro” do Paulo Rocha. Quando me apresento para trabalhar, a primeira coisa que o diretor de produção faz é olhar para mim de alto a baixo e dizer, “deves ter entrado aqui na horizontal.” Se fosse um homem nunca tinha ouvido isto. O 25 de Abril nunca chegou ao cinema. Isto é um meio dos meninos ricos de Lisboa. São todos homens, brancos, a viver de heranças de família. O que é que isto dá? Um cinema pobre, mesquinho, que ninguém quer ver, porque as pessoas só estão a falar do seu mundinho. Durante a austeridade quase desisti de trabalhar aqui e passei a viver entre Portugal e França. O “Dreamocracy” [co-realizado com a francesa Valérie Mitteaux] é sobre Portugal e feito com dinheiro francês. Implicou ainda ter de lidar com o discurso xenófobo francês em relação aos portugueses, que é igual ao discurso do André Ventura sobre os ciganos.

"Não é por termos nascido com uma vagina entre as pernas que temos mais jeito para cozinhar e para tomar conta de bebés. Mas é isso que nos obrigam a fazer"

Avançando para o “Histórias das Mulheres do Meu País”, que foi feito com dinheiro português…
Depois disso, o que senti foi que não conseguia abandonar o meu país: podem expulsar-me daqui, mas não podem tirar o meu país de dentro de mim. Eu tinha uma crónica na rádio e o [Miguel] Relvas [então ministro dos Negócios Parlamentares] censurou-me, a mim e ao Pedro Rosa Mendes [o fim do espaço de opinião “Este Tempo” da Antena 1, ocupado por cinco cronistas, terá sido ditado por uma intervenção de Rosa Mendes sobre Angola. Na altura, e de acordo com o jornal Público, Raquel Freire também denunciou ter sofrido “pressões”]. No Parlamento, o Relvas disse, “alguém tinha de calar aquela realizadora esquerdista”. E eu não sou filiada em partido nenhum. A esquerda até me chama social-democrata, que é o máximo…

Sempre foi assim? Sempre a viram como sendo “do outro lado”?
É muito difícil lidar com pessoas que têm um pensamento crítico como eu. Tenho a sorte de ter nascido numa família de livres pensadores. Na Póvoa de Varzim, o meu trisavô, conhecido por Zé das Letras, tinha uma drogaria onde se reunia uma tertúlia de poetas e intelectuais. Autodidata, decidiu que ia dar um curso superior a todos os filhos. Teve oito filhas e um filho. A filha mais velha era a minha bisavó, e foi a primeira mulher a entrar no liceu da Póvoa, a primeira mulher a entrar na Universidade do Porto, a primeira professora da Póvoa e a primeira mulher a votar na Póvoa. E depois as minhas avós ofereceram-me isto [exibe para a câmara do computador um pesado exemplar vermelho de As Mulheres do Meu País de Maria Lamas].

As duas avós? Isso quer dizer que o outro lado da família também era feminista.
A minha avó do lado paterno foi também uma feminista tremenda, filha mais velha de um senhor muito conservador, dono da empresa de relojoaria Boa Reguladora, do Vale do Ave. Foi para Coimbra estudar, onde ficou a viver numa residência de freiras, mas chamavam-lhe era “Gardel do Penedo”, por causa do Carlos Gardel, porque tocava e dançava Boleros como ninguém. Tirou dois cursos ao mesmo tempo: matemáticas puras e literaturas clássicas. E foi a primeira mulher a desfilar no cortejo da Queima das Fitas de traje, bengala e cartola. Recusou sempre casar-se até que aos 30 anos conheceu o meu avô. Ele era comunista e ela foi deserdada pelo pai.

"Cada uma das mulheres não só venceu uma série de opressões, mas abriu caminho para outras mulheres à sua volta e, além disso, transformou o mundo em que estava. Como por exemplo a Leonor Freitas, produtora de vinhos [da Casa Ermelinda de Freitas], que pela primeira vez refere o assédio que sofreu, conta como foi boicotada, coisas de que nunca tinha falado."

Lembra-se de quando recebeu o As Mulheres do Meu País?
Tinha seis anos. Foi uma coisa muito bonita. Senti como se estivessem a passar-me uma herança de família.

É um grande peso, literal e alegórico.
O livro era da minha avó materna, mas foi muito importante para as duas. Quando o Salazar diz que só existe uma mulher e que é bela, recatada e do lar, ou seja, a mulher submissa e que não trabalha, a Maria Lamas vai pelo país fora e mostra que as mulheres portuguesas não só trabalham, mas sempre trabalharam. Os homens iam nas caravelas e as mulheres ficavam a trabalhar. Há muitas provas disso.

Como passamos desse livro para a série documental?
Quis conhecer as mulheres do meu país agora, no século XXI. A certa altura perguntamo-nos em que país é que vivemos. E o nosso país é muito melhor que as elites que o governam. Aquilo de que precisamos é de uma grande terapia anti-machista, anti-colonialista e anti-racista. Como é que isso se faz? Através da arte e da imaginação. Só se consegue vencer o machismo e o racismo mostrando que se pode viver de outra forma e ser feliz.

Como é que se chega a este número místico de 12 mulheres?
Isto foi um processo que começou há 15 anos com a jornalista Sofia Branco. O critério foi o da interseccionalidade. Cada uma das mulheres não só venceu uma série de opressões, mas abriu caminho para outras mulheres à sua volta e, além disso, transformou o mundo em que estava. Como por exemplo a Leonor Freitas, produtora de vinhos [da Casa Ermelinda de Freitas], que pela primeira vez refere o assédio que sofreu, conta como foi boicotada, coisas de que nunca tinha falado.

Conta pela primeira vez porque nunca quis falar ou porque nunca lhe perguntaram?
Nunca ninguém lhe perguntou.

Parece-lhe que esse poderá ser um sinal de que o machismo está mais infiltrado na nossa forma de ser e pensar do que imaginamos? Como uma água inquinada?
Todo o trabalho de outra das mulheres da série, a socióloga Maria do Mar Pereira, é sobre isso: a naturalização das desigualdades. Que começa mal nascemos. Não é por termos nascido com uma vagina entre as pernas que temos mais jeito para cozinhar e para tomar conta de bebés. Mas é isso que nos obrigam a fazer.

Até certo ponto, somos todos sexistas?
É impossível não sermos. Tal como racistas. Se eu estou imbuída desta cultura… A minha luta é para ser livre, e ser livre de todos estes preconceitos, que são uma violência. Eu não quero ter medo.

Mynda Guevara, Clara Queiroz, a realizadora Raquel Freire e Carolina da Ponte

Falou há pouco em mulheres que venceram opressões. Uma das críticas apontadas à luta feminista é uma alegada vitimização das mulheres. O que tem a dizer sobre isto?
Eu até podia falar em vítimas de opressão, mas nem uso esse termo. Porque não é isso que as caracteriza. O que as caracteriza é terem sofrido essa opressão. Serem vítimas é uma circunstância. A partir daí, elas têm de se emancipar. Sobre o sofrimento, qualquer pessoa, homem, mulher ou trans, o sentiria caso sofresse uma violação, por exemplo. Nem sequer entendo por que razão falam em “vitimização” das mulheres. Só não reconhece as opressões quem as exerce.

No terceiro episódio, aparece a Ângela Pica, uma sobrevivente de violência doméstica, que diz, “a gente pode ter o estatuto de vítima e não ser vítimas de nada. Eu não sou vítima de coisa nenhuma.” E é uma frase que também aparece no trailer promocional.
Por outras palavras, ela diz, “eu não sou vítima do meu estatuto”. Falámos com mais de mil sobreviventes de violência doméstica e escolhemo-la a ela. Nesta área, foi a Sofia Branco que fez a maior parte do trabalho. A Ângela Pica concentra várias opressões. Sofreu um tipo de violência doméstica que não é falado em Portugal, que é a violação dentro do casamento. Não tem uma nódoa negra. O terror era psicológico: ameaças sobre os filhos e a mãe, ser impedida de trabalhar, estar raptada em casa. Teve coragem de ir a tribunal reclamar justiça contra um agressor sexual. E ganhou.

Sente que, mesmo na sua forma de pensar estas questões, tem havido uma evolução?
Claro. Na ideia de fazer um cinema com ética. Nunca tinha escolhido uma equipa assim: jovens mulheres feministas, homens feministas, pessoas LGBT feministas. Pessoas excelentes do ponto de vista técnico, mas também com valores. Passei a impor as minhas regras. Não aceito mais as condições dos produtores provincianos. Não aceito mais a mediocridade do ICA. Daqui é mesmo para a Netflix.

O filme é apoiado pela Secretaria de Estado para a Cidadania e a Igualdade e a série também pela RTP. Como é que isto aconteceu?
A secretária de Estado Rosa Monteiro ouviu falar deste projeto, queria fazer um filme sobre mulheres e contactou-me. Depois, senti que não conseguia ficar por aqui. Precisava de avançar para a trilogia, para a animação e para a exposição. Então resolvi contactar a RTP para conseguir mais dinheiro.

"A Ângela Pica concentra várias opressões. Sofreu um tipo de violência doméstica que não é falado em Portugal, que é a violação dentro do casamento. Não tem uma nódoa negra. O terror era psicológico: ameaças sobre os filhos e a mãe, ser impedida de trabalhar, estar raptada em casa. Foi a primeira mulher que teve coragem de ir a tribunal reclamar justiça contra um agressor sexual. E ganhou."

Como foi a receção na RTP?
Maravilhosa. Liguei para o diretor, o José Fragoso, e disse-lhe, este país é machista e racista e a única coisa a fazer é receber-me e fazer esta trilogia. “Vou aí amanhã. A que horas é que me recebe?”

E qual foi a resposta?
Disse que concordava. Que era o tipo de conteúdos em que queria investir, mas – o costume — que tinha pouco dinheiro.

Ainda assim, podia ter posto a série noutro horário. Vai passar no horário nobre.
Isso foi uma condição imposta por mim. Posso trabalhar por pouco dinheiro, mas é horário nobre. Ele deu-me a palavra dele. Foi aperto de mão, ali, à padrinho; aliás, à madrinha. Se ele não quisesse a série, sabia que eu dali ia para a Netflix e conseguia.

De onde vem essa confiança toda?
De não ter medo.

E de onde vem esse não ter medo?
(longa pausa) De mim mesma.

Certo. Mas é raro ouvir alguém falar assim. De onde vem essa força, essa convicção nas suas capacidades?
Eu cresci assim.

Portanto, vem da educação, de casa?
Não. Eu estou viva e estou aqui, e enquanto estou aqui quero fazer o que for possível para ser feliz. E ser feliz para mim é ser livre e transformar o mundo à minha volta e as pessoas que estão à minha volta e que eu amo para serem livres e felizes. É isso que estou a tentar fazer nesta nova fase da minha vida: cinema com ética.

"Todo o trabalho de outra das mulheres da série, a socióloga Maria do Mar Pereira, é sobre isso: a naturalização das desigualdades. Que começa mal nascemos"

Isto faz tudo muito sentido, mas não é o que perguntei. Insisto: de onde vem essa confiança toda?
Vem, obviamente, do exemplo da minha família. Há uma história que penso que já posso partilhar sem a minha mãe ficar zangada comigo. Os meus pais entraram os dois para o PCP antes do 25 de Abril. Conhecem-se em 1969, apaixonam-se e casam-se passados pouco tempo. Mas a minha mãe era uma cara conhecida, porque era a professora de português da telescola. E o meu pai era militar. Mais tarde seria professor de física. Eles viviam por cima do Pérola Negra, que chegou a ser um bar de sexo ao vivo e era onde iam as elites do Estado Novo. E escolheram viver lá porque a minha mãe era espia da KGB.

Espia da KGB?
Só me confirmou isso no último Natal. É lindo. Alucinante. Vou ter de contar esta história. Entretanto, eu nasci em Junho de 1973, e há um dia em que, tinha eu um mês, e a minha mãe tem de ir à Praça da República para distribuir uns panfletos de uma greve. O meu pai vai levá-la de carro, embora os casais nunca pudessem ter missões juntos. Se eles fossem apanhados eram os dois presos. E foram mesmo apanhados pela PIDE, mas já tinham poucos panfletos e esconderam-nos nas minhas fraldas e debaixo do colchão da alcofa. A dada altura, até me passaram ao agente, como que a mostrar que não tinham nada. Dizem que me portei super bem.

Uma arma secreta.
A minha coragem deve vir deste ambiente em que nasci. De ter visto sempre os meus pais a abrirem a casa a toda a gente, a partilharem tudo o que tinham. Sempre se dedicaram à comunidade. Faziam parte da Assembleia Municipal, das Assembleias de Moradores, eram agentes culturais… Eu desde muito nova que conhecia a zonas pobres e sem saneamento do Porto. O país real conheci-o com os meus pais.

"Durante esta pandemia o meu filho de 19 anos teve de estudar em casa. E eu, que moro num bairro popular da zona antiga da cidade de Lisboa, tive de abrir a minha casa porque percebi que a única refeição que faziam vários amigos rappers dele era aqui."

Não tem mesmo medo de nada?
Tenho, claro. Mas o meu credo é “que se foda o medo.”

A trilogia acaba com cada uma destas mulheres a dizer o que, se pudessem, mudavam no mundo e a falar na importância do sonho. Tem um filme que se chama “Dreamocracy”. Continua a acreditar no sonho?
Durante esta pandemia o meu filho de 19 anos teve de estudar em casa. E eu, que moro num bairro popular da zona antiga da cidade de Lisboa, tive de abrir a minha casa porque percebi que a única refeição que vários amigos rappers dele faziam era aqui. Miúdos que não têm pais, que às quatro da manhã vão para o Barreiro trabalhar como estivadores para poderem dar de comer à avó que está acamada. Estes filmes são também para mostrar que é possível fazer as coisas de outra maneira. Estes miúdos foram todos ao MAAT ver a estreia do filme. Miúdos que nunca tinham entrado num museu ou visto um filme português. E chegam lá e vêem na parede a Toya Prudêncio, que é cigana, e a rapper Mynda Guevara, que vive na Cova da Moura. Não só acredito no sonho, como tenho a certeza da mudança.

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