Tigres embalsamados, móveis portugueses do século XVIII e um príncipe André apanhado à porta. A “mansão de horrores” de Epstein /premium

18 Agosto 2019359

As novas imagens divulgadas pelo britânico Daily Mail comprometem (ainda mais) o filho do meio da rainha Isabel II, apanhado em 2010 à porta de casa do milionário quando se despedia de uma jovem.

Um vídeo onde se vê Jeffrey Epstein a sair com uma jovem, de idade indeterminada, da sua mansão milionária em Manhattan. Esta seria só mais uma peça do puzzle no caso do milionário acusado de tráfico sexual de menores, que se suicidou na prisão na semana passada, divulgada este domingo pelo tabloide Daily Mail. Mas esta é uma peça que vai mais longe, por envolver outra pessoa: cerca de uma hora depois de Epstein sair com a rapariga, um homem é visto a despedir-se de outra jovem. E esse homem é precisamente o príncipe André, cuja antiga relação de amizade com Epstein, anteriormente condenado por ter mantido relações sexuais com menores, tem trazido dissabores à família real britânica ao longo dos anos.

A ligação do milionário norte-americano com o príncipe André é conhecida desde 2011. O facto de Epstein já ter sido condenado em 2008 a 18 meses de prisão por prostituir uma menor fez com que, ao ser tornada pública a amizade entre os dois — que se manteve mesmo após a condenação do milionário —, o príncipe se demitisse do cargo de embaixador comercial britânico. À altura, como noticiava o New York Times, o Palácio de Buckingham decidiu relevar “o papel que [o príncipe] teve como representante especial do Reino Unido”, mas André não teve outra hipótese senão afastar-se do cargo público, que ocupava há dez anos. Seria a primeira consequência por ser amigo de Epstein.

Eis que, quatro anos depois, essa ligação volta a ser capa de jornais — e, desta vez, a acusação é bem mais grave. Uma das testemunhas que faz parte de um caso contra Epstein na Florida (EUA) revela que terá sido forçada a ter relações sexuais com o príncipe Andrew por três vezes, entre 1999 e 2002, quando ainda era menor de idade. O Palácio apressa-se a sair em defesa do duque de York: “Qualquer sugestão de um comportamento impróprio com menores de idade é categoricamente falsa”, podia ler-se no comunicado. Algo que o correspondente real da BBC, Peter Hunt, explicou à altura ser pouco comum, já que “no passado, o Palácio não teria comentado este tipo de assuntos”.

Agora, em 2019, a história complica-se ainda mais para o irmão de Carlos e Eduardo. Não só há mais pormenores sobre essa acusação, como é conhecida uma segunda acusação de comportamento impróprio com uma menor. E o vídeo divulgado pelo Daily Mail este domingo coloca o duque de York precisamente dentro da mansão onde Epstein — que entretanto se suicidou na prisão — abusaria sexualmente de uma série de menores.

Olhos de vidro, Clinton de vestido e armários portugueses do século XVIII. A “mansão dos horrores” em Manhattan

A maior residência privada de Nova Iorque. Assim eram conhecidos os sete andares da agora infame morada 9 East 71st Street em plena Manhattan, Nova Iorque, um espelho fiel do gosto excêntrico e megalómano do milionário do setor financeiro e ainda um reduto “curiosamente impessoal”, descrevia em tempos idos a Vanity Fair. Longe vai o tempo em que a imprensa e a alta-roda se rendiam ao “talentoso senhor Epstein” , o bilionário que dizia trabalhar apenas com bilionários, que não fumava nem bebia, que detestava vida social e frequentar restaurantes, e que dava boleia no seu Boeing 727 a figuras como Kevin Spacey ou Bill Clinton — nem de propósito, entre as obras de arte que mais deram que falar no recheio da morada, destaca-se uma pintura em que o antigo presidente dos EUA surge com um vestido azul, o célebre modelo usado por Monica Lewinsky num momento não menos célebre e polémico da história da sala oval. O leque de figuras famosas penduradas nas paredes incluía ainda nomes como o realizador Woody Allen e o príncipe saudita Mohammed bin Salman.

Da secretária que terá pertencido ao banqueiro J. P. Morgan aos armários portugueses lacados do século XVIII, para não falar de um xadrez de dimensões humanas, olhos de vidro emoldurados a servir de ornamento, telas de milhões nas paredes, e próteses mamárias na casa de banho, lustres com bonecas penduradas do tamanho de mulheres, não faltam detalhes extravagantes no interior, a avaliar pelos relatos de diferentes figuras que ao longo dos anos granjearam acesso à fortaleza deste “marajá moderno”, como chegaram a descrever Epstein. O grau de bizarria chegava o ponto do magnata convidar pessoas para verem de perto um das suas joias da coroa: um mural que retratava o cenário de uma prisão, com guardas e arame farpado, e onde surgia o própria Epstein, num tétrico e profético desfecho, sobretudo depois de já ter passado pela cadeia.

A fachada da morada em Upper East Side por onde terão passado várias menores © Benno Schwinghammer/Getty Images

O edifício em estilo neoclássico fica numa das zonas mais trendy e exclusivas do Upper East Side mas nada ficou como dantes depois das buscas efetuadas pelo FBI, que entre outros achados descobriu num cofre comprometedoras fotos de raparigas menores de idade. Para lá das monumentais portas em carvalho onde o príncipe André é avistado em dezembro de 2010, a despedir-se de uma jovem, cerca de uma hora depois da saída de Epstein, revelam-se átrios de mármore, tigres gigantes e um poodle embalsamados, numa espécie de sala de troféus, um impressionante número de 40 quartos e uma série de outras tantas divisões, cujos detalhes chegaram a fazer a capa da revista Architecture Digest ainda a residência pertencia ao anterior dono.

Aquele que agora aparece classificado com o palco de inúmeros crimes pertenceu em tempos ao seu mentor, Leslie H. Wexner, presidente da L Brands,  que incluía marcas bem conhecidas como a Victoria’s Secret, e que por razões nunca conhecidas cederia a mansão de mão beijada a Epstein. Mas a história do prédio faz-nos recuar ainda mais no tempo.

A casa foi desenhada pelo arquiteto Horace Trumbauer para Herbert N. Straus, herdeiro do império de lojas Macy’s, cujo pai morrera tragicamente no naufrágio do Titanic 18 anos antes. As obras na mansão Straus arrancaram em 1930, mas apenas três anos depois morria o próprio Herbert, na sequência de um ataque cardíaco, nunca chegando a mudar-se para o charmoso imóvel com as suas quatro dezenas de quartos, uma sequência de episódios narrada pela revista Town & Country. A verdade é que a morte inesperada do cliente de Trumbauer e o contexto da Depressão levou a que a obra se mantivesse inacabada até 1944, ano em que o filho de Straus terá doado o prédio ao arcebispado de Nova Iorque, que o utilizou para internamento, servindo de apoio ao hospital St. Clare’s. Já em 1962, o endereço convertia-se na escola Birch Wathen, valência que abandonou em 1989 quando o milionário Wexter comprou esta propriedade por 13.2 milhões de dólares (o equivalente a 11 milhões de euros), então um valor recorde para o mercado imobiliário de Manhattan. E a avaliar pela vizinha, as sombras pareciam medir forças com o brilho dos milhões e aparente boa vida. À época, Bill Cosby vivia do outro lado da rua, no número 18.

Virginia, a menor que acusa o príncipe de violação

Mais do que uma extensa rede de abusos e tráfico sexual, provavelmente com ramificações e agressores ainda por apurar, sabe-se hoje que os delírios Epstein, que foi detido pela última vez a 6 de julho, chegavam ao ponto de aspirar ao “aperfeiçoamento do ADN humano” através de um gigantesco plano de inseminação de mulheres. Mas os efeitos da rede por si liderada estão longe de permanecer em território norte-americano.

A alegada vítima do príncipe André, Virginia Roberts, dirigiu-se inclusivamente à polícia britânica para que investigasse o caso. Isto porque Virginia garantia ter sido violada pelo príncipe André três vezes, uma delas em Londres, local para onde teria sido levada de propósito para ser usada sexualmente pelo duque. O Channel 4 divulga agora que a polícia britânica recebeu de facto as provas, mas decidiu “não avançar para uma investigação total” ao caso.

Uma dessas provas, sabe-se agora, seria uma fotografia cuja veracidade nunca foi contestada pela família real e que retrata o príncipe com Virginia Roberts, à altura com 17 anos, na casa de Ghislaine Maxwell — a socialite próxima de Epstein que algumas testemunhas acusam de funcionar como procuradora do milionário para arranjar menores para a rede sexual —, em Londres. Nessa foto, o duque de York tem a mão à volta da cintura de Virginia.

Num dos processos relacionados com Epstein, a que vários jornais tiveram acesso, pode ler-se a argumentação dos advogados da vítima, que dizem que a fotografia serve como prova do envolvimento do príncipe: “Não há nenhuma outra explicação razoável para uma criança americana estar na companhia de adultos que não são familiares dela, numa casa em Londres que pertencia à namorada daquele que é agora um criminoso sexual condenado [Epstein].”

E Virginia não é a única menor da rede de Epstein a acusar o príncipe de comportamentos impróprios. Esta semana, à medida que o processo de Epstein ia sendo tornado público, outra história surgiu. Johanna Sjoberg, outra das alegadas vítimas da rede do milionário, garantiu que o duque de York a apalpou no peito, num encontro na mansão de Epstein, em 2001.

“Lembro-me de alguém sugerir uma foto e de nos dizerem para nos sentarmos no sofá. E quando o André e a Virginia se sentaram no sofá, pegaram num fatoche e puseram-no no colo”, contou a testemunha aos investigadores. “E então sentei-me no colo do André, penso que por minha vontade, e eles aí pegaram nas mãos do fantoche e colocaram-nas no peito da Virginia e o André pôs as mãos dele no meu.”

As acusações ao membro da Família Real já fizeram com alguns deputados trabalhistas pedissem uma investigação detalhada ao príncipe, como revelou o Daily Mirror: “Estamos a falar de tráfico de crianças, isto é muito sério e as autoridades já deviam ter aprendido com o passado a não ignorar estas alegações”, afirmou a trabalhista Jess Phillips. “O príncipe André deve dar um relato detalhado da sua relação com Epstein e responder às acusações que lhe foram feitas”, acrescentou outro deputado do Labour, Lloyd Russell-Moyle.

Aviões milionários, férias na Tailândia e Epstein em Windsor. A história de uma amizade que começou nos anos 90

Aquilo que é sabido da relação do príncipe com o milionário é que se conhecem desde a década de 1990 e que eram, ao que tudo indica, próximos. Terão sido apresentados nada mais nada menos do que pela socialite Ghislaine Maxwell, atualmente sob a mira do FBI e cujo paradeiro não é conhecido.

Carol Mack, Jeffrey Epstein e Ghislaine Maxwell num evento a 16 de maio de 1995 in Nova Iorque © Patrick McMullan via Getty Images)

A proximidade entre os dois homens era tal que terão passado férias juntos algumas vezes, segundo comprovou o The Guardian. Foi o caso em 2000, quando o príncipe, Epstein e Maxwell voaram no avião privado do milionário para Palm Beach, na Florida, e quando estiveram todos no iate do milionário na Tailândia. No mesmo ano, Epstein e Maxwell terão estado na festa de anos do príncipe André, no castelo de Windsor. A relação terá continuado com encontros na mansão de Manhattan, em Londres, em Norfolk e em St. Tropez.

E o contacto não se manteve apenas nos bons momentos. Em 2011, a ex-mulher do príncipe André, Sarah Ferguson (com quem terá voado para Espanha no seguimento das notícias sobre o suicídio de Epstein), assumiu em público que Epstein lhe emprestou cerca de 16 mil euros para que ela pagasse dívidas e afirmou-se arrependida, à luz dos comportamentos sexuais do milionário entretanto conhecidos. “Lamento profundamente que Jeffrey Epstein se tenha envolvido comigo. Abomino a pedofilia e qualquer abuso sexual de crianças e sei que isto foi um gigantesco erro de avaliação da minha parte”, confessou ao Evening Standard. Segundo o jornal, o dinheiro foi passado à duquesa através do gabinete do príncipe André.

A relação entre os três seria de tal forma próxima que, de acordo com os tabloides, Epstein teria 16 números de telefone para contactar o príncipe, incluindo de vários dos palácios e residências da família real, como Sandringham, onde ele próprio chegou a ir. O milionário teria ainda 18 contactos diferentes para falar com Sarah Ferguson.

Um escândalo real e o gesto de apoio de Isabel II

As notícias do suicídio de Epstein terão, por isso, sido recebidas com choque pelo príncipe André e pela duquesa, que estavam precisamente juntos em Balmoral, a residência da rainha na Escócia. De acordo com a Vanity Fair, os funcionários da família real terão mesmo retirado todos os jornais da sala onde o príncipe ia tomar o pequeno-almoço, para “o poupar a qualquer embaraço”.

Ainda segundo a revista, as reações por parte dos restantes familiares de André foram diferentes. A monarca e o príncipe Filipe querem apoiar o filho, de tal forma que Isabel II foi vista na manhã seguinte a ser conduzida no mesmo carro que o filho até à igreja, expondo-se à análise da imprensa britânica — o The Sun, por exemplo, não hesitou em chamar à atitude uma “demonstração determinada de unidade” num artigo intitulado “União Real”.

Já o príncipe Carlos, não estará disposto a apoiar tanto o irmão. Segundo uma fonte ouvida pela Vanity Fair, as várias visitas de Epstein a propriedades da família ao longo dos anos provocaram sempre “tensão” com o príncipe de Gales. “Ele sempre foi contra muitas das amizades de André ao longo dos anos e o Epstein não foi exceção”, explicou essa fonte. “Disseram-me que ele já se preocupava há muito e achava que aquela amizade era um desastre à espera de acontecer. Esta história não vai desaparecer e ninguém sabe o que aí vem.”

Com a mãe, a rainha Isabel II, durante uma das festas de verão que a monarca ofereceu este ano © Getty Images

Oficialmente, o Palácio de Buckingham voltou a emitir um comunicado, tal como em 2015: “Negamos enfaticamente que o duque de York tenha tido qualquer tipo de contacto sexual ou relação com Virginia Roberts. Qualquer afirmação em contrário é falsa e não tem fundamento.

Ainda está por conhecer o alcance de todas as ligações do príncipe André ao milionário condenado por abuso sexual de uma menor e acusado de liderar uma rede de tráfico sexual de outras tantas. Certo é que, para já, a família real parece estar de pedra e cal ao lado do duque de York. Pode expressar esse apoio com comunicados curtos e fotografias enigmáticas dentro de carros, mas  esse não é um apoio de somenos. Como explicou o biógrafo real Christopher Wilson ao Washington Post, o mais certo é que o Palácio, “como faz em qualquer crise”, se feche em copas. Mas, se tivesse de arriscar, Wilson diria que, mesmo que o príncipe André venha a ser mais envolvido nos crimes de Epstein, o respaldo de Windsor conseguirá ampará-lo: “A família real tem muito mais influência do que se pensa”, diz.

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