Uma “viagem à Terra do Nunca”, mas muito mais quente. 7 respostas para saber porque queremos ir ao Sol? /premium

10 Agosto 2018142

Quando descreveu os ventos solares, no final dos anos 1950, Eugene Parker não imaginava que se pudesse ir até ao Sol para os estudar e uma sonda com o seu nome. 7 respostas para perceber porquê.

Há 60 anos nascia a NASA (Administração Nacional Aeronáutica e Espacial). A criação da agência espacial americana não marcou o início da investigação sobre o universo feita pelos Estados Unidos, mas foi o resultado da disputa com a Rússia na corrida ao espaço. No mesmo ano, Eugene Parker descrevia pela primeira vez, num artigo científico, os ventos solares. Talvez não o soubessem na altura, mas estes dois eventos lançaram as bases para a missão ao Sol que neste sábado, 11 de agosto, descola de Cabo Canaveral.

Uma sonda solar, que passasse dentro da órbita de Mercúrio, para estudar as partículas na vizinhança do Sol era uma das propostas do comité científico da NASA na área de Física de Campos e Partículas no Espaço. E isto já em 1958. Os primeiros projetos para desenhar uma sonda solar começaram logo nos anos 1970, mas nunca levantaram do chão. Nem mesmo o projeto da sonda solar de 2005 saiu do papel. Esta missão previa duas passagens pelo Sol — muito, muito perto (a cerca de quatro vezes o tamanho do raio solar) — e com a ajuda de Júpiter para estabelecer a órbita.

A Sonda Solar Parker, que viu o projeto científico ganhar forma em 2008, vai finalmente sentir a brisa espacial na fuselagem este sábado. Há algumas diferenças fundamentais em relação ao projeto de 2005: “só” vai passar à distância de 10 raios solares (ainda assim vai bater o recorde de proximidade, nunca antes se chegara tão próximo da nossa estrela), vai passar 24 vezes junto ao Sol durante sete anos de missão e vai contar com a ajuda de Vénus para ajustar a órbita.

“É uma peça das ciências físicas solares que realmente desejamos há muito tempo, desde os anos 1950”, disse Stuart Bale, professor de Física na Universidade da Califórnia (em Berkeley) e investigador principal de um dos equipamentos a bordo da sonda. “Para mim, pessoalmente, trabalho na sonda desde que foi aprovada em 2010, mas, na verdade, passei uma grande parte da minha carreira a preparar-me para isto.”

Não é a primeira vez que a humanidade envia sondas para o espaço para estudar o Sol, mas nenhuma chegou tão perto que se arriscasse a derreter. Nem nunca nenhuma sonda viajou a uma velocidade tão grande. Para atingir esta velocidade de lançamento, a sonda solar vai ser lançada por um dos mais potentes foguetes, o Delta IV Heavy da United Launch Alliance.

O lançamento está previsto para este sábado, 11 de agosto, às 8h33 (hora de Lisboa) — com uma janela de 65 minutos—, no Complexo 37 de lançamentos espaciais, na estação da Força Aérea do Cabo Canaveral, na Flórida. Vai ser possível acompanhar em direto o lançamento da sonda aqui.

Mas se já se perguntou porque é que se gastam 1,5 mil milhões de dólares (cerca de 1,3 mil milhões de euros) numa missão que acabará por derreter na proximidade do Sol? O Observador reuniu algumas respostas para lhe explicar que missão é esta.

Quão perto do Sol vai estar a Sonda Solar Parker?

Este é um dos recordes a ser batido pela Sonda Solar Parker. Nunca nenhuma outra sonda esteve tão perto do Sol. O recorde é atualmente detido pela sonda Helios 2 que passou a 43 milhões de quilómetros do Sol, em 1976. Espera-se que a sonda Parker se aproxime até aos seis milhões de quilómetros da superfície solar — e mais do que uma vez. Se o Sol e a Terra estivessem em extremos opostos de uma piscina olímpica significaria que com duas braçadas a sonda chegaria ao Sol.

A sonda Helios 2, lançada a 15 de janeiro de 1976, fez a sua passagem mais próxima do Sol a 17 de abril de 1976. Esta foi a segunda sonda Helios a ser enviada para estudar o Sol enquanto ficava presa numa órbita à volta da estrela. O objetivo era recolher informação sobre o plasma solar, os ventos solares, os raios e as poeiras cósmicas.

Só é possível ver a coroa durante o eclipse total do Sol. Os ventos solares fazem com que as partículas sejam projetadas pelo sistema solar.

Como é que a sonda vai conseguir chegar tão perto do Sol sem derreter?

Ícaro, na mitologia grega, deixou-se fascinar pela luz do Sol, voou na sua direção, mas aproximou-se tanto que o calor lhe derreteu a cera das asas feitas pelo pai. Sem asas, Ícaro caiu desamparado na Terra. Para a Sonda Solar Parker espera-se um destino melhor, pelo menos que só derreta depois da missão cumprida. Até lá vai valer-se de tecnologias inovadoras para resistir ao calor e às temperaturas altas que a vão atingir à medida que se aproxima do Sol.

Se quer recolher os dados essenciais para este projeto científico, a sonda tem de manter os equipamentos funcionais, ou seja, tão frescos quanto possível. O processo é desafiante, tendo em conta que a sonda quer mergulhar na atmosfera do Sol, mas os cientistas parecem ter encontrado as soluções certas: um escudo feito de carbono, um sistema de refrigeração com água e a capacidade de se conduzir a si própria.

Mas para perceber como é que tudo isto funciona é preciso esclarecer que calor e temperatura não são a mesma coisa. A temperatura mede a rapidez com que as partículas se movem, enquanto o calor é uma transferência de energia. Portanto, e apesar da temperatura na coroa do Sol poder ultrapassar um milhão de graus Celsius, não vai ser assim tão difícil à sonda escapar ao calor, isto porque as partículas estão tão dispersas que poucas serão aquelas que chegam mesmo a tocar na sonda. Logo, há pouca transferência de energia (ou de calor), apesar de as partículas estarem muito quentes (se moverem muito rápido).

Para perceber esta diferença entre calor e temperatura, Ilídio Lopes, investigador no Centro de Astrofísica e Gravitação (Centra) do Instituto Superior Técnico, compara uma sauna com uma panela de água ao lume. Se meter a mão dentro de uma panela cheia de água a 70º C vai queimar-se, mas aguenta estar sentado numa sauna em que o termómetro marca os mesmos 70º C sem sofrer nenhuma queimadura. A diferença está na quantidade de partículas que lhe tocam na pele. Na panela há muito mais moléculas de água a tocar-lhe, logo a transferir energia sob a forma de calor, do que no caso do vapor de água da sauna. Mas se decidir abanar as mãos ou andar de um lado para o outro na sauna, também vai sentir mais calor, porque o movimento vai fazer com que mais moléculas aquecidas toquem na pele.

Se percebeu a ideia, agora vejamos como é que a sonda, sem sauna nem panela, consegue sobreviver ao calor do Sol.

O escudo de carbono

Mesmo que as partículas não transfiram muito calor para a sonda, a luz solar emitida pela superfície do Sol vai ainda assim aquecer o escudo que se encontra na parte da frente da sonda. As temperaturas podem chegar aos 1.400 graus Celsius — que já dá para derreter alguns metais –, mas o escudo vai aguentar (assim esperam os cientistas) e manter os equipamentos do outro lado a 30º C. Se tem dúvidas, veja o teste.

O escudo branco tem apenas 2,4 metros de diâmetro, 11 centímetros de espessura e 72,5 quilos (o que é considerado leve). E todas estas características se devem ao material de que é feito: uma sanduíche de carbono. De um lado e de outro do escudo há uma camada de um compósito de carbono reforçado com fibras de carbono superaquecido — semelhante ao que é usado nos tacos de golfe e raquetes de ténis — e no meio uma espuma de carbono que tem 97% de ar. Leve e resistente. A camada que está virada para o Sol ainda tem uma cobertura cerâmica para ajudar a refletir tanto calor quanto possível.

Este escudo tem de estar sempre virado para o Sol (já vamos ver como) e vai fazer sombra sobre o resto da sonda, protegendo os equipamentos da exposição direta ao Sol — pelo menos a maioria deles.

O software autónomo

Enquanto descreve órbitas à volta do Sol, a sonda tem de conseguir manter o escudo branco sempre virado para a estrela, para o equipamento estar sempre à sombra. Como as comunicações rádio, entre a Terra e a sonda, levam oito minutos a percorrer os 150 milhões de quilómetros que as separam, não é viável esperar que seja um comando na Terra a orientar a sonda e a virar o escudo na posição correta. Quando a mensagem finalmente chegasse à sonda, já o equipamento tinha derretido.

O ajuste tem de ser feito numa questão de segundos. É por isso que no limite da sombra criada pelo escudo existem vários sensores que vão identificar a posição da sonda (e do escudo) em relação ao Sol. Os dados recolhidos permitem que a sonda se oriente de forma autónoma. E é aqui que a sonda Parker bate mais um recorde: “Descrevemos [esta sonda] como a nave espacial mais autónoma que alguma vez foi lançada”, disse ao The Guardian Nicola Fox, cientista no Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Johns Hopkins (Estados Unidos) e responsável pela sonda.

“Descrevemos [esta sonda] como a nave espacial mais autónoma que alguma vez foi lançada.”
Nicola Fox, cientista responsável pela Sonda Solar Parker

O arrefecimento com água

Além do escudo que estará sempre exposto à luz solar e alguns sensores que precisam de recolher dados, há outro equipamento que têm de se expôr ao Sol, mas não muito para não deixar de funcionar: os painéis solares.

A sonda leva combustível para a missão de sete anos que tem de cumprir (e mais algum para os imprevistos), mas também está equipada com painéis solares, explica ao Observador James Spann, responsável pela Divisão de Heliofísica na sede da NASA. O problema é que os painéis não podem simplesmente abrir-se ao Sol como nas nossas paisagens alentejanas, especialmente quando estão mais próximos do Sol. Nestes períodos, os painéis recolhem até ficar apenas uma pequena parte exposta aos raios solares. E mesmo assim é preciso um sistema adicional para arrefecê-los.

O sistema de refrigeração foi criado especificamente para esta sonda, mas se pudéssemos apresentá-lo de forma simples seria como um radiador de um carro que funciona com cerca de 3,7 litros de água desionizada. Não havia outro líquido que aguentasse a variação de temperaturas a que a água vai estar exposta, entre 10 a 125º C. Mas como conseguir que a água não evapore aos 100º C? Aumenta-se a pressão no sistema e a temperatura de ebulição sobe para 125º C.

Materiais que aguentam o calor

A investigação feita sobre os materiais que poderiam resistir num ambiente tão inóspito é outra das inovações destacadas por James Spann. Não são só os suportes, como o escudo ou os sensores, que têm de resistir, a parte eletrónica, que converte as medidas feitas em informação, também. Um dos materiais usados é uma liga de titânio-zircónio-molibdénio que só derrete acima dos 2.300º C. Para os cabos elétricos foi usado nióbio e estes estão suspensos por tubos de cristais de safira, porque os cabos normais iriam derreter na proximidade do Sol.

Porque é que não se pode estudar o Sol a partir da Terra?

Poder, pode. E é o que se tem feito, mas não chega para responder a todas as perguntas. “Existem algumas perguntas sobre o Sol que são um mistério para qual ainda não temos resposta. Podemos observá-lo a partir da Terra, mas temos de ir ao local onde esse mistério acontece se queremos encontrar as respostas”, diz James Spann. “O que sabemos hoje em dia está baseado em modelos”, completa Ilídio Lopes. “Com as medições que a sonda vai fazer, vamos poder melhorar os modelos.”

O que é a fotosfera?

O Sol e as restantes estrelas são esferas gigantes de gás e não têm uma superfície sólida distinta como a Terra e os restantes planetas. Aquilo que vemos como a superfície luminosa do Sol é a fotosfera. A atmosfera do Sol, muito menos densa, só a conseguimos ver durante um eclipse total do Sol e corresponde ao halo de luz projetada além da sombra criada pela Lua.

Foi com base nas observações feitas a partir da Terra que os cientistas chegaram às perguntas que agora estão na base desta missão: porque é que a camada mais exterior da atmosfera solar (coroa) é mais quente que a superfície (fotosfera)? Qual o mecanismo que provoca a aceleração dos ventos solares a velocidades supersónicas — até 29 mil quilómetros por hora? E já agora perceber com que frequência há projeções destas partículas solares para poder fazer previsões das condições meteorológicas do Sol.

E a única forma de responder a estas perguntas parece ser enviando uma sonda mesmo para a coroa, de temperaturas extremamente elevadas. É que o vento solar demora cerca de quatro dias a percorrer os 150 milhões de quilómetros que separam o Sol da Terra e muita coisa pode acontecer pelo caminho, incluindo perder propriedades ou misturar-se com outras partículas.

Ilustração das camadas do Sol. Na camada mais exterior veem-se as explosões e ventos solares — NASA GSFC/Mary Pat Hrybyk-K

Os ventos solares, e as partículas que são ejetadas da superfície do Sol, afetam todo o sistema solar, viajando além de Pluto. Quando as partículas vêm do Sol carregadas de energia e colidem com as moléculas na nossa atmosfera, como o oxigénio ou o azoto, fazem com que os eletrões dos atómos se afastem do núcleo. Quando os eletrões voltam à posição inicial emitem fotões de luz, que se traduz nas cores que vemos nas auroras — a boreal no hemisfério norte e a austral no hemisfério sul. Mas esta é a parte bonita da questão.

Além dos ventos carregados de partículas que varrem o sistema solar, existem ejeções de massa coronal (explosões que libertam grandes quantidades de matéria para o espaço) que podem ter consequências importantes nas atividades humanas: interferem nas comunicações de rádio, danificam naves e satélites e fazem com que os astronautas no espaço estejam expostos a um elevado nível de radiação. Conseguir prever quando é que estas explosões vão acontecer, pode ajudar a minimizar o seu impacto. E esse é outros dos objetivos desta missão: fazer previsões da meteorologia solar.

“O Sol é um verdadeiro laboratório de física, porque há propriedades da matéria que não se conseguem estudar na Terra.”
Ilídio Lopes, Centro de Astrofísica e Gravitação

Ilídio Lopes aponta outras três boas razões para se estudar o Sol. Primeiro, é a estrela mais próxima e não vamos conseguir aproximar-nos de nenhuma outra. Logo, ainda que as estrelas sejam diferentes uma das outras, o Sol é o melhor modelo que temos. Depois, a vida na Terra depende da existência do Sol e isso pode dar pistas sobre a possibilidade de existir vida noutros planetas. Por fim, “o Sol é um verdadeiro laboratório de física, porque há propriedades da matéria que não se conseguem estudar na Terra”.

Que hipóteses existem para dar resposta às duas perguntas principais?

O que é o plasma?

O plasma é o quarto estado da matéria. Ao contrário dos outros três estados (sólido, líquido e gasoso), não existe naturalmente na superfície da Terra, mas é muito comum no universo. O plasma é semelhante ao estado gasoso, mas forma-se quando as temperaturas são tão altas que os átomos e moléculas se transformam em iões, ou seja, quando perdem eletrões. Ao contrário do estado gasoso que é neutro, o plasma tem partículas eletricamente carregadas.

Antes de mais, comecemos pelo problema. O Sol, à semelhança da Terra, tem um centro mais quente (15 milhões de graus Celsius) e mais denso do que as camadas à superfície. Mas o Sol e a Terra são astros muito diferentes, a começar pelo estado da matéria: enquanto o primeiro é um plasma, o segundo tem as suas camadas no estado líquido ou sólido. A grande diferença, no entanto, é a que motivou esta missão e está relacionada com a temperatura da atmosfera. Na Terra, a temperatura diminui à medida que as camadas de atmosfera ficam mais longe da superfície. No Sol, não.

A temperatura da fotosfera, ou superfície do Sol, varia entre os 3.700º C na zona mais superficial e os 6.200º C na zona mais profunda. A primeira camada de atmosfera, a cromosfera, tem uma temperatura de 3.700º C na região mais próxima da fotosfera, mas em vez de diminuir à medida que se afasta do centro da estrela, aumenta até aos 7.700º C. A grande diferença, porém, acontece na região de transição (entre a cromosfera e a coroa), que passa dos 7.700º C para os 500 mil graus Celsius de uma forma abrupta (no espaço de 100 quilómetros). Na coroa as temperaturas sobem ainda mais, podendo chegar a um milhão de graus Celsius.

A temperatura da coroa foi estimada em 1939, mas ainda não foi possível explicar porque é que se torna mais quente à medida que se afasta da superfície e, sobretudo, como é que aumenta de uma forma tão abrupta. Há duas hipóteses que são as melhores candidatas à explicação do mecanismo, diz James Spann. “Mas acho que o que vai acontecer é uma terceira hipótese. Quando chegamos a um local acabamos por descobrir sempre algo novo.”

As camadas exteriores do Sol são como uma grande panela de água a ferver (neste caso, plasma) que forma bolhas quentes que viajam no fluído. Este movimento cria campos magnéticos complexos e emaranhados que se extendem até à coroa e lhe transmitem calor, explica a NASA. A pergunta é: como? Uma hipótese é que o plasma que ferve lance ondas eletromagnéticas do interior do Sol até à coroa — enviando partículas carregadas e aquecendo a atmosfera —, mais ou menos como as ondas do mar que empurram e aceleram os surfistas em direção à costa. Outra hipótese é que a ebulição turbulenta do Sol torça as linhas de campo magnético e acumule tensão até que estas rebentem em pequenas explosões (“nanoflares”, em inglês), mais ou menos como esticar um elástico até ele rebentar. A explicação correta pode também ser uma combinação destas duas hipóteses.

A primeira missão a mergulhar na atmosfera solar não vai apenas responder às duas perguntas estabelecidas nos objetivos da missão, esperam os investigadores. Os dados recolhidos podem levantar novas perguntas e abrir portas a novas áreas de investigação. “Estou quase certo que vamos descobrir novos fenómenos dos quais não sabemos nada e isso é muito entusiasmante”, disse Nour Raouafi, cientista adjunto do projeto da Sonda Solar Parker e físico solar no Laboratório de Física Aplicada da Universidade de Johns Hopkins (nos Estados Unidos). “A Sonda Solar Parker vai fazer história porque nos vai ajudar a perceber o aquecimento da coroa — assim como a aceleração do vento solar e das partículas solares carregadas —, mas também tem o potencial de determinar o futuro da investigação em física solar.”

Porque é que a sonda se chama Parker?

Eugene Newman Parker tem agora 91 anos. Depois de passar uma vida a estudar os mistérios do Sol, vê agora uma sonda solar receber o seu nome. Na verdade, é o primeiro cientista que tem o nome numa missão da NASA ainda durante o seu tempo de vida.

O professor emérito da Universidade de Chicago foi o primeiro a propôr a existência de ventos solares, quando era ainda um jovem cientista, e o artigo que explicava a sua teoria foi publicado em 1958. A ideia é que a coroa solar era tão quente que se expandia continuamente até se escapar da ação da gravidade do Sol, provocando aquilo que chamou de ventos solares. “Comecei por pensar na coroa em termos de dinâmica de fluídos e assim que escrevi as equações cheguei à ideia dos ventos solares. Foi assim tão simples”, explicou Eugene Parker numa entrevista conduzida por Nicola Fox, a responsável pela sonda solar.

“Comecei por pensar na coroa em termos de dinâmica de fluídos e assim que escrevi as equações cheguei à ideia dos ventos solares. Foi assim tão simples.”
Eugene Parker, físico solar e professor emérito da Universidade de Chicago

Mas não foi assim tão simples que os outros cientistas aceitassem as suas ideias. Só depois da sua teoria ser confirmada pela sonda Mariner 2, em 1962, é que a teoria dos ventos solares deixou de criar tanta discussão. “Depois de quatro anos a ouvir muitas críticas e as pessoas a dizer que aquilo estava tudo errado, soube bem [ver a Mariner 2 confirmar a teoria], digamos assim. Resolveu várias controvérsias — eu não pensei que fossem controvérsias, mas as outras pessoas pensavam que sim.”

A ideia de construir uma sonda que chegasse ao Sol é tão antiga como o artigo de Eugene Parker, mas o físico confessa que foi coisa que nunca lhe passou pela cabeça. É um físico teórico e tira o chapéu aos experimentalistas que conseguiram pôr de pé uma missão tão difícil como a que agora se prepara para ser lançada. E não esconde o entusiasmo com a missão. “Esta é uma viagem à Terra do Nunca, pode dizer-se. É demasiado quente para qualquer nave espacial funcionar, mas o esforço inteligente de engenharia foi bem sucedido em torná-lo um instrumento funcional.

Eugene Parker não só propôs a existência de ventos solares, como propôs, em 1987, que a aceleração dos ventos e das partículas fossem provocadas pelas pequenas explosões na superfície do Sol (“nanoflares”). A Sonda Solar Parker vai conseguir mostrar se esta ideia está correta ou não.

Como é que vai chegar ao Sol?

Os responsáveis pela missão da Sonda Solar Parker esperam conseguir lançá-la este 11 de agosto, às 8h33 (hora de Lisboa) — com uma janela de 55 minutos—, mas podem fazê-lo até ao dia 23 de agosto. Em cada um desses dias haverá uma pequena janela de oportunidade para fazer o lançamento — até duas horas. Depois de dia 23, Vénus deixa de estar numa posição fácil de aceder, explica James Spann. “Durante o verão, a Terra e os outros planetas no nosso sistema solar estão com o alinhamento mais favorável para nos permitir chegar ao Sol”, disse Yanping Guo, engenheira no Laboratório de Física Aplicada Johns Hopkins e responsável pela trajetória da sonda.

E porque é isso é importante? Porque a sonda nunca poderia ser lançada diretamente em direção ao Sol, acabaria por passar ao lado da estrela e, provavelmente, perder-se para sempre. Assim, Vénus vai fazer com que a sonda abrande a velocidade e vai ajudá-la a estabelecer uma órbita em torno do Sol.

Todo o lançamento será um desafio. As naves espaciais que são lançadas para fora da órbita da Terra aproveitam a órbita dos planetas para receberem um impulso adicional e continuarem viagem. E aproveitam também o impulso dado pela própria órbita da Terra. Neste caso, a sonda vai seguir no sentido contrário, para o interior da órbita da Terra e vai precisar de muito mais energia para entrar no rumo certo e para viajar no sentido oposto ao que a Terra faz na sua órbita (veja o vídeo em baixo). Por isso, a sonda, que tem aproximadamente o tamanho de um carro pequeno, vai ser lançada por um dos mais potentes foguetões — o Delta IV Heavy. “A energia de lançamento para chegar ao Sol é 55 vezes maior do que a necessária para chegar a Marte e duas vezes maior que a necessária para chegar a Plutão”, ilustrou Yanping Guo.

Uma vez passada esta fase inicial, de lançamento em direção ao Sol, a sonda tem de abrandar a velocidade para conseguir estabelecer uma órbita. Por isso vai contar com a ajuda de Vénus — em seis anos vai passar sete vezes à volta do planeta. Mesmo assim, no momento em que estiver mais próxima do Sol, a sonda ainda terá uma velocidade de 700 mil quilómetros por hora, o suficiente para ir de Nova Iorque a Tóquio em menos de um minuto.

A primeira aproximação vai acontecer já daqui a três meses. E, durante os sete anos de missão, a órbita da sonda em torno do Sol vai fazer com que mergulhe 24 vezes na atmosfera, cada vez mais perto até aos últimos anos da missão — até ficar apenas a seis milhões de quilómetros. Depois volta a afastar-se um pouco, mas (esperam os cientistas) os dados mais importantes já estarão recolhidos.

Quando é que a missão chega ao fim?

A missão vai durar sete anos. Isto não quer dizer que a Sonda Solar Parker se autodestrua ou volte para casa ao fim desse tempo, significa antes que esse é o período que os cientistas estabeleceram para recolherem os dados necessários para cumprir os objetivos da missão, diz James Spann.

Findos os sete anos, a sonda pode continuar a recolher dados enquanto os equipamentos continuarem a funcionar. E os equipamentos hão-de funcionar enquanto se mantiverem na sombra do escudo. A orientação do escudo em direção à superfície do Sol é controlada de forma autónoma e depende do combustível da sonda. Enquanto houver combustível, o equipamento continua a ser ativamente protegido. “Quando o combustível acabar e a sonda deixar de se conseguir orientar [para ficar na sombra], os equipamentos vão começar a falhar com o calor”, explica James Spann. “No final só ficará o escudo em órbita.” Tudo o resto terá derretido.

A missão no Sol pode acabar para a Sonda Solar Parker, mas os dados recolhidos vão levar muitos anos a ser analisados. Especialmente porque vão ser combinados com os dados de duas outras missões: o satélite Solar Orbiter, da Agência Espacial Europeia (ESA, na sigla em inglês) e o Telescópio Solar Daniel K. Inouye, no Havai.

O lançamento do Solar Orbiter está previsto para 2020. Ao contrário da sonda Parker que se vai focar mais na região equatorial do Sol, o Solar Orbiter vai observar o Sol “de cima” num ângulo que lhe permite observações próximas dos pólos como nunca antes foi realizado. Além disso, esta sonda vai viajar tão rápido que lhe vai ser possível acompanhar a rotação do Sol, o que significa que pode observar a mesma região durante um longo período de tempo e perceber como evolui a meteorologia solar.

O Telescópio Solar Daniel K. Inouye é o maior telescópio solar do mundo e vai começar a funcionar em 2019. Este telescópio vai conseguir registar algo que as sondas próximas do Sol não conseguem: o campo magnético da superfície do Sol.

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