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Yukio Mishima, o escritor que sonhou com a morte /premium

Yukio Mishima viveu como escreveu e morreu como sonhou. Um dos nomes mais importantes da literatura japonesa do século XX, transformou-se numa lenda depois de se suicidar através do ritual "seppuku".

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Na manhã de 25 de novembro de 1970, Yukio Mishima saiu para a varanda do comando ocidental do exército japonês em Tóquio para se dirigir às tropas que se tinham reunido em frente ao edifício. Mishima tinha tomado conta do escritório do comandante, o general Kanetoshi Mashita, com a ajuda de um grupo de jovens membros da Tatenokai, um grupo nacionalista dedicado a defender os valores tradicionais japoneses e a venerar o imperador que tinha fundado dois anos antes. Declarando que o Japão estava dominado pelo “vazio espiritual”, o escritor atacou a constituição “sem espinha” do pós-guerra, que impedia o rearmamento do país, e apelou à revolução. “É possível que valorizem a vida num mundo onde o espírito morreu?”, perguntou aos soldados. Ignorado pela multidão, desistiu passados sete minutos. Entrou, sentou-se no chão e cravou uma espada no abdómen.

A sua morte foi noticiada ainda nesse dia. De acordo com Damian Flanagan, o seu nome, repetido na rádio e na televisão, levou a que muitos pensassem que tinha finalmente ganho o Prémio Nobel, para o qual tinha sido nomeado várias vezes. A realidade era outra. O Asahi Shimbun reproduziu, na sua edição da noite, uma fotografia da cabeça de Mishima, que tinha sido separada do seu corpo por um dos seus colaboradores, responsável por completar o ritual de suicídio seppuku. Naquele dia, o jornal bateu o recorde de vendas (que se mantém até hoje). O seu suicídio tornou-se motivo de todas as discussões, ao mesmo tempo que a sua mensagem caía no esquecimento. Mishima tinha falhado.

A morte ritualista de Yukio Mishima foi o culminar de um caminho de desenvolvimento pessoal e ideológico percorrido pelo escritor na última década de vida. Desde cerca de 1960 que Mishima, um alienado na sociedade moderna, alimentava o desejo de ver o seu país regressar aos valores de antigamente. Essa vontade começou a ser explorada compulsivamente nos seus trabalhos literários — cujo brilhantismo e inovação fizeram com fosse três vezes nomeado para o Prémio Nobel da Literatura —, onde começaram a surgir com frequência temas como a morte e a autodestruição. Na vida de Mishima, onde este cultivava os ideais que defendia nos seus livros, a obsessão pelo antigo Japão parecia andar de mãos dadas com um suicídio à maneira dos samurais. Ao contrário da personagem de um dos seus livros, Vida à Venda (publicado este mês pela primeira vez em Portugal), que conta a história de um homem que coloca a sua vida à disposição dos outros porque queria morrer, talvez Mishima não tivesse como escapar à morte — o fim era inevitável.

Não à Vida saiu originalmente na Playboy japonesa em 1968. Nunca tinha sido publicado em Portugal. A edição da Livros do Brasil chega às livrarias a 19 de junho

O despertar da consciência

Kimitake Hiraoka (o verdadeiro nome de Yukio Mishima, que significa algo como “aquele que narra a razão”) nasceu a 14 de janeiro de 1925, em Tóquio, no seio de uma antiga família japonesa. A sua infância foi dominada pela conservadora avó materna, Natsuko Hiraoka, que, quando ainda era um bebé, o afastou da família, educando-o longe dos irmãos. Natsuko era uma figura violenta, com tendências mórbidas, que alguns acreditam ser a origem da fascinação de Yukio Mishima pela morte e pelo desejo insaciável de atingir a perfeição de corpo e mente.

Enquanto crescia, o futuro escritor foi proibido de praticar qualquer desporto, de brincar com outros rapazes e de sair para a rua e apanhar sol. Por outro lado, aprendeu a venerar o código de conduta dos samurais — bushido —, que defendia a honra, a coragem e a abnegação. Mas bushido era uma faca de dois gumes e, com o passar do tempo, Mishima acabou por ter de reconhecer que o tempo dos antigos guerreiros já tinha passado. Como explicou o académico Alexander Lee num artigo publicado na revista britânica History Today, desde a Revolução Meiji em 1868, que acabou com o xogunato, o antigo regime feudal japonês, e acelerou o processo de industrialização e modernização do país, que os samurais tinham desaparecido.

“O Japão tinha aberto as suas portas; tinha-se modernizado; e as suas forças militares tinham sido reformadas seguindo padrões ocidentais”, afirmou. Isso possibilitou “algumas vitórias impressionantes nas décadas seguintes” — nomeadamente contra a marinha russa, na Batalha de Tsushima, em 1905 —, que deram origem a um “fervor patriótico” ao qual Mishima não foi indiferente. Mas a derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial — na qual o autor não participou por ter sido considerado inapto para o serviço militar —, a sua rendição, o abandono do estatuto divino por parte do imperador Hirohito e a ocupação do território pelas forças norte-americanas, que levou à revisão da constituição, à desmilitarização do país e à assimilação de hábitos ocidentais, fizeram com que surgisse um sentimento de perda de identidade entre algumas camadas da sociedade. Esta “alienação cultural”, como lhe chamou Alexander Lee, acompanhou Mishima para o resto da sua vida e serviu de tema a vários dos seus trabalhos literários, nomeadamente ao romance semi-autobiográfico Confissões de uma Máscara.

“Ele decidiu, desde muito cedo, que ia dar ao leitor o mundo da beleza e da elegância japonesa que mais ninguém tinha conseguido dar”, afirmou John Nathan, biógrafo do escritor. “Acho que ele conseguiu atingir isso.”

Até porque, apesar da defesa que fazia dos valores tradicionais japoneses, o escritor era “uma figura violentamente ocidentalizada”, sobretudo na sua vida privada, como escreveu Hywell Williams para o The Guardian. Era como se vivesse entre dois mundos. Gostava de usar fatos caros, calças de ganga azul e blusões de cabedal; as suas grandes referências literárias eram europeias e entre elas contavam-se autores como Marcel Proust, Henry de Montherlant ou Raymond Radiguet; e gostava tanto de Nietzsche que, quando morreu, a mãe deixou-lhe uma das obras junto ao seu altar para que o pudesse ler por toda a eternidade. Por altura do seu suicídio, em 1970, estava a preparar uma nova versão da peça Salomé, de Oscar Wilde, que tinha descoberto durante a juventude numa tradução inglesa. A maldade e a beleza de uma obra na qual não era possível encontrar qualquer traço de moralidade marcou-o profundamente, como ele próprio admitiu.

Foi com Confissões que a carreira literária de Yukio Mishima arrancou verdadeiramente, mas não foi com este romance que ela começou. Descrito por muitos como um prodígio, Mishima começou a escrever aos 12 anos, quando frequentava a escola de elite Peers, estabelecida em 1871 pelo imperador Ninko para educar os filhos da aristocracia japonesa. Foi ainda na Peers, para onde entrou aos seis anos, que realizou o seu primeiro grande feito literário — Hanazakari no Mori, um conto de cerca de 200 páginas, escrito em japonês do século XI, no qual o narrador descreve a sensação de os seus antepassados viverem, de algum modo, dentro de si. “Ele decidiu, desde muito cedo, que ia dar ao leitor o mundo da beleza e da elegância japonesa que mais ninguém tinha conseguido dar”, afirmou John Nathan, biógrafo do escritor. “Acho que ele conseguiu atingir isso.” Os professores da escola de Tóquio ficaram tão impressionados que recomendaram a publicação da história na importante revista literária Bungei-Bunka. Para que Mishima não tivesse problemas com os colegas, foi escolhido um pseudónimo, que utilizou até ao fim da sua vida.

Estima-se que cerca de 3,1 milhões de japoneses morreram durante a Segunda Guerra Mundial. Mishima culpava o imperador Hirohito, que abdicou, pela tragédia

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Confissões de uma Máscara saiu em 1949, um ano depois da sua estreia na ficção longa com Tozoku (“Ladrões”). Confissões é a história de Kochan, um rapaz fraco da província que tenta encontrar o seu lugar na sociedade japonesa do pós-guerra. Atormentado pelos seus desejos homossexuais e obcecado com os conceitos de masculinidade, honra e morte (muitas das personagens de Mishima têm algum tipo de obsessão), Kochan desenvolve uma falsa personalidade — uma máscara — para esconder o seu verdadeiro eu. O romance foi um sucesso e tornou Mishima, então com 24 anos, numa celebridade dentro e fora do Japão. Por essa altura, já o autor se dedicava exclusivamente à literatura, na qual tinha mergulhado depois de ter tentado, sem sucesso, manter um cargo no Ministério das Finanças para fazer a vontade ao pai.

Nos anos que se seguiram à publicação de Confissões de uma Máscara, Mishima viajou para fora do seu país, aproveitando a fama que tinha ganho para se promover no estrangeiro. Na década de 1960, começou a desenvolver uma aversão mais vincada à sociedade moderna, evidente no romance O Marinheiro que Perdeu as Graças do Mar (1963) — sobre o jovem Noburu Kuroda, que tenta lutar contra os hábitos ocidentais da sua mãe, acabando por assassinar o namorado desta — mas sobretudo na tetralogia O Oceano da Fertilidade, na qual trabalhou nos últimos cinco anos da sua vida. Entre um e outro, Mishima publicou várias coletâneas de contos, dezenas de peças de teatro (quase todas levadas a cena durante a sua vida), e foi escolhido três vezes como candidato ao Prémio Nobel da Literatura.

O autor tinha consciência que as condições que fizeram surgir esta classe de guerreiros já não existiam. Em vez disso, o que Mishima parecia verdadeiramente desejar era um “redespertar espiritual que ajudasse os japoneses a transcenderam a sua história recente”.

Na opinião de Alexander Lee, é, no entanto, um erro considerar que Yukio Mishima pretendia “restaurar o passado”. Por muito que admirasse os samurais, o seu tradicionalismo militar e espiritual, o autor tinha consciência que as condições que fizeram surgir esta classe de guerreiros já não existiam (ele próprio defendeu que “aprender com a história nunca deve significar fixar-se num aspeto particular de uma era em particular e usá-lo como modelo para reformular um aspeto do presente). Em vez disso, o que Mishima parecia verdadeiramente desejar era um “redespertar espiritual que ajudasse os japoneses a transcenderam a sua história recente”, explicou o académico. “Mishima reconhecia que bushido se tinha desenvolvido num conjunto intemporal de crenças espirituais. Estas tinham origem no budismo. Depois da sua introdução ‘oficial’ no Japão em 552, o budismo tinha sido combinado com a religião indígena japonesa (shinto). Porém, depois da Revolução Meiji, o budismo foi denegrido como uma importação ‘estrangeira’ e formalmente separado do shinto, que foi transformado num instrumento da política do Estado. Na opinião de Mishima, esta separação estava na base das desgraças do Japão. Por consequência, a redescoberta do budismo era a chave para a salvação.”

A sombra da morte

Em setembro de 1966, a revista norte-americana Life publicou um perfil de Yukio Mishima assinado por John Nathan (que viria a escrever a primeira biografia do escritor, depois da sua morte). Mishima, então com 41 anos, era apontado como um dos favoritos a ganhar o Prémio Nobel da Literatura. Com mais de uma dezena de livros publicados e uma carreira consolidada de cerca de 20 anos (o primeiro romance, Tozoku, isto é, “Ladrões”, saiu em 1948), era já considerado um dos autores mais importantes do período pós-guerra no Japão. Hoje há quem  vá mais longe, e lhe chame o mais relevante de todo o século XX japonês.

Para garantir que o Nobel não lhe escapava, Mishima procurou promover-se do outro lado do Pacífico e também em Estocolmo, onde fica a sede da Fundação Nobel, que entrega anualmente o galardão. Os esforços deram frutos — em 1966, como lembrou anos mais tarde John Nathan, Mishima era o segundo japonês mais famoso do mundo, a seguir ao cofundador da Sony, Aki Morita. Mas as capas de revistas não lhe valeram de muito — nomeado três vezes para o Nobel, em 1963, 1964 e 1965, de acordo com a base de dados do prémio, este acabou por lhe escorregar das mãos e ir parar a outro japonês. Em 1968, dois anos depois de ter saído o artigo da Life, Yasunari Kawabata tornou-se no primeiro escritor do Japão a vencer o Nobel da Literatura. Mishima — que via em Kawabata um modelo e um mestre — morreu sem saber como era ser considerado um dos melhores escritores do mundo.

Apesar da defesa que fazia dos antigos valores japoneses, Yukio Mishima também foi influenciado pelo ocidente. Alguns dos seus escritores favoritos eram europeus

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A atribuição do Nobel a Kawabata, então com 69 anos, é aparentemente insignificante. Porém, a vontade que Yukio Mishima tinha de ganhar o Nobel era tanta que há quem defenda que a atribuição do prémio a Kawabata, que tinha 69 anos (morreu passado quatro), foi um dos eventos que conduziu ao seu suicídio, ainda que este tenha sido aparentemente motivado só por questões políticas e morais. Na opinião de Hywel Williams, este argumento tem sido usado para diminuir a importância do último grande ato do escritor japonês, o primeiro a rebelar-se contra a chamada Pax Americana, a hegemonia norte-americana estabelecida depois da Segunda Guerra Mundial. De acordo com Williams, outras razões têm sido apontadas com o mesmo objetivo — preocupações com chantagens, dinheiro, família e até a sua homossexualidade, que nunca admitiu abertamente. Mishima também chegou a ser acusado de ser fascista. O nome da milícia privada que fundou em 1968 para defender os valores tradicionais japoneses e o estatuto sagrado do imperador — Tatenokai — traduz-se para inglês como “Shield Society” (“Sociedade do Escudo”). Ou seja, “SS”.

Um dos incidentes que talvez tenha de facto impulsionado o derradeiro ato de Mishima aconteceu um ano depois da fundação da Tatenokai. Em 1969, o primeiro-ministro japonês, Eisaku Sato, e o presidente norte-americano, Richard Nixon, encontraram-se para assinarem um tratado que restituía Okinawa, ocupada desde 1945, ao Japão. O documento previa, porém, a continuação da presença norte-americana na prefeitura do arquipélago Ryukyu, que se tornou num ponto estratégico importante para os Estados Unidos durante a Guerra do Vietname. Foi, aliás, só perto do final do conflito, em 1972, que as ilhas foram devolvidas aos japoneses. A guerra terminou oficialmente em 1975.

A vontade que Yukio Mishima tinha de ganhar o Nobel era tanta que há quem defenda que a atribuição do prémio a Kawabata, que tinha 69 anos, foi um dos eventos que conduziu ao seu suicídio.

O que é certo é que há muito que Yukio Mishima estava obcecado pela ideia do suicídio. A prática do seppuku — ou harakiri, como é mais conhecido no ocidente, embora os japoneses raramente usem o termo —, através da qual morreu em 1970, surgiu pela primeira vez numa obra sua, o conto Yukoku (“Patriotismo”), publicado quase dez anos antes, em 1961. “Yukoku” conta a história do tenente Takeyama que, depois de ter participado no incidente de Ni Ni Roku, um golpe de estado falhado levado a cabo por militares japoneses em fevereiro de 1936, recebe ordens para executar os seus companheiros. Incapaz de o fazer, decide acabar com a própria vida. A sua mulher, Reiko, escolhe morrer juntamente com ele.

Cinco anos depois da publicação de Yukoku, o conto foi transformado numa curta-metragem realizada por Mishima, que interpretou o papel do tenente Takeyama, que se suicida usando um uniforme estranhamente parecido com o que o escritor vestiu no dia do seu suicídio em 1970. Também é curioso que a razão que leva à morte do militar seja um golpe de estado falhado, tal como o que conduziu Mishima à sua. Seria mais um “presságio” do que viria a acontecer, como defendeu Williams?

[O filme “Yokuku: The Rite of Love and Death”, realizado por Mishima com base no conto com o mesmo nome:]

A convicção de Yukio Mishima de que o Japão devia despertar espiritualmente e regressar aos antigos valores defendidos pelos samurais não ficou pela literatura. Na última década da sua vida, o escritor mergulhou a fundo nesta ideologia, procurando atingir a perfeição física e mental. Começou a praticar o culturismo (chegou até a ser fotografado para uma revista especializada) e artes marciais, nomeadamente kendo. Em 1968, um ano depois de se ter alistado no exército japonês e ter recebido treino básico, fundou a Tatenokai. A sociedade privada surgiu a 5 de outubro de 1968 e chegou a ter cerca de 90 membros. Estes eram sobretudo jovens estudantes que escreviam para o Ronso Journal, uma publicação universitária de direita. Mishima, responsável pelo seu treino, era criticado por ambas fações políticas — os de esquerda mostravam-se contra a sua defesa do bushido e os de direita eram sensíveis à condenação da abdicação de Hirohito, que o escritor considerava culpado pelo número de japoneses que tinham perdido a vida durante a guerra.

O escritor terá estudado os antecedentes históricos do "seppuku" meticulosamente. O seu editor japonês, Kojima Chikako, contava que, quando se encontravam uma vez por mês, este lhe relatava histórias cómicas de "seppuku" que tinham corrido mal.

O escritor terá estudado os antecedentes históricos do seppuku meticulosamente. O seu editor japonês, Kojima Chikako, que trabalhou com ele durante a produção da tetralogia iniciada com Neve de Primavera, contava que, quando se encontravam uma vez por mês, este lhe relatava histórias cómicas de seppuku que tinham corrido mal. Uma dessas era sobre um samurai que, ao descobrir que a espada estava romba, se viu obrigado a adiar o seu suicídio por um dia para a afiar. Num outro caso, um homem, que decidiu levar a cabo o ritual sem um kaishaku-nin (a quem cabe executar a segunda parte, o corte da cabeça), ficou deitado no chão durante horas com a barriga aberta até que foi descoberto por um grupo de jovens samurais que, sem se aperceberem que ainda estava vivo, começaram a dizer mal dele. “Não falem de mim dessa forma”, viu-se obrigado a gritar.

Estas histórias eram invariavelmente contadas entre risos, mas o olhar de Mishima permanecia sempre sério. Era como se as gargalhadas que lhe saíam da boca não correspondessem à sua expressão. Ken’ichi Yoshida, um famoso crítico literário que se correspondeu com ele durante longos anos, dizia isso mesmo. Para Damian Flanagan, especialista em literatura japonesa, era como se o escritor tivesse tentado durante toda a vida “personificar os estímulos visuais que alimentaram a sua imaginação em criança”.

Acordar as tropas para terminar com o vazio do espírito

Os sonhos de Yukio Mishima concretizaram-se no dia 25 de novembro de 1970. Nessa manhã, sentou-se à secretária para terminar A Ruína do Anjo, o romance final da tetralogia que tinha iniciado em 1969 com Neve de Primavera. Depois de ter feito as últimas alterações, pôs o manuscrito de lado, tomou banho e arranjou-se. A roupa foi escolhida com cuidado — uniforme castanho, hachimaki (uma fita que se coloca na cabeça) e luvas brancas. De seguida, pegou na espada e saiu de casa. Tinha uma reunião marcada com o general Kanetoshi Mashita, do comando ocidental do exército japonês em Tóquio.

Mishima deslocou-se até à zona de Ichigaya na companhia de quatro jovens membros da Tatenokai —Hiroyasu Koga, Masayoshi Koga, Masakatsu Morita e Masahiro Ogawa. Uma vez dentro do escritório, o comandante foi atado a uma cadeira. O grupo barricou-se no interior e, ameaçando que matariam Mashita, exigiram que todos os soldados se reunissem em frente ao edifício do comando. O plano passava por obrigar os militares a ouvir um discurso que Mishima tinha preparado na véspera e que, na opinião dos membros da Tatenokai, deveria ser suficiente para convencê-los de que o país precisava urgentemente de uma reforma constitucional e que a única forma de o fazer era através de uma revolta das forças armadas. O Japão “real”, que preservava o “o verdadeiro espírito dos samurai”, tinha morrido. Era preciso fazê-lo renascer.

Yukio Mishima previu discursar durante meia-hora para as tropas em Tóquio. Abandonou a varanda do comando ao fim de sete minutos

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Não foi isso que aconteceu. Enquanto falava da varanda do comando militar, Mishima tornou-se alvo dos insultos dos mil soldados presentes. Chamaram-lhe “maluco”, “idiota”, e garantiram-lhe que o “Japão estava em paz”. Não havia motivos para fazer uma guerra. O discurso, que deveria ter tido uma duração de cerca de meia-hora, terminou ao fim de sete minutos. O tempo foi suficiente para os jornalistas que entretanto se tinham juntado em frente ao comando de Tóquio fotografassem Mishima na varanda com o seu uniforme castanho.

Apercebendo-se de que o seu golpe de Estado não iria acontecer, o escritor voltou para dentro para preparar o seu suicídio. Sentou-se calmamente no chão, pegou na espada e enterrou-a no lado esquerdo do abdómen, movendo-a depois para a direita e para cima. Quando caiu para a frente, com a arma ainda nas mãos, um dos seus companheiros, Masakatsu Morita, aproximou-se para completar o ritual seppuku. Incapaz de lhe cortar a cabeça (acertou várias vezes nos ombros e nenhuma no pescoço), assinou a própria sentença de morte. Hiroyasu Koga, um praticante de kendo experiente, tomou o seu lugar como kaishaku-nin e decapitou o escritor. De seguida, Morita praticou o mesmo ritual, cumprindo a sentença que espera por aqueles que não são capazes de terminar o seppuku. Koga cortou-lhe a cabeça. Quando a polícia entrou dentro do escritório do general Kanetoshi Mashita, os rostos de Mishima e Koga estavam lado a lado. “Um dos acontecimentos mais chocantes da história do período de pós-guerra japonês”, como lhe chamou Damian Flanagan, durou pouco mais de 80 minutos.

A morte de Yukio Mishima, um dos eventos mais importantes da história japonesa do século XX, foi a síntese de tudo quanto o autor escreveu, sobretudo nos últimos anos, quando explorou obsessivamente temas como o suicídio, personalidades auto-destrutivas e a rejeição da vida moderna. Com o seu fim, o escritor transformou-se definitivamente e para sempre naquilo que expôs nos seus trabalhos. “Ao longo da sua vida, Yukio Mishima escreveu presságios da sua morte. Os seus romances apresentavam-se insistentemente como cartões de visita para um funeral através de harakiri”, defendeu Hywell Williams no artigo publicado no The Guardian. “A sua vida fez parte da sua arte”, afirmou John Nathan.

Fotografias: AFP/Getty Images, Keystone/Getty Images

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