Os chocolates fazem bem à saúde? E será que conhecemos todos os ingredientes utilizados para lhes dar sabor, consistência e cor? A discussão não é nova e as redes sociais são um palco mais do que comum para a propagação de teorias sobre o tema. Desta vez, são várias as publicações no Facebook que partilham imagens de capturas de ecrã ou mesmo um vídeo de apenas 11 segundos que mostra uma embalagem de chocolates Schoko-Bons (chocolates da Kinder) na prateleira de um supermercado.

O vídeo é partilhado com um filtro que mostra vários insetos a percorrer uma embalagem dos chocolates e, na parte de trás dessa mesma embalagem, é sublinhado a vermelho um ingrediente: shellac. O vídeo é gravado à medida de um tutorial que se apressa a mostrar uma breve pesquisa na Internet por esse mesmo ingrediente shellac. No resultado dessa busca surgem inúmeras imagens de mais insetos.

As imagens que estão a ser publicadas nas redes sociais são justificadas da seguinte forma: a Kinder afirmou em comunicado “que utiliza insetos como ingrediente neste produto infantil”.

Vídeo partilhado nas redes sociais que alega que a Kinder utiliza insetos para produzir chocolates.

Vídeo partilhado nas redes sociais que alega que a Kinder utiliza insetos para produzir chocolates.

Vamos por partes. A propósito da utilização de schellac, o vídeo partilhado em inúmeras publicações refere um comunicado da Kinder a admitir utilizar insetos para produzir chocolates. Esse comunicado não existe. Mas na verdade, uma pesquisa rápida no site oficial da empresa mostra que shellac ou goma-laca é (a par de goma-arábica) uma “resina natural comestível” utilizada na “confeitaria e na indústria alimentar” para “decorar e proteger os alimentos”.

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O ingrediente é utilizado particularmente nos chocolates Shocko-Bons para “evitar que a superfície do chocolate derreta, tornando-o mais resistente”. Ou seja, a Kinder admite utilizar goma-laca (e não só) para “decorar e proteger” chocolates como os Shocko-Bons, mas em momento algum fala de insetos.

De onde vem a ligação de schellac a insetos? Uma pesquisa na Internet pela palavra shellac remete-nos — além de uma banda de rock formada em Chicago, em 1992 — para a goma-laca, uma resina raspada da casca das árvores das florestas da Índia e da Tailândia onde os insetos Kerria lacca criam casulos. As secreções naturais destes insetos são transformados em corantes ou ceras desde o século XIX para acabamentos de madeira, substituindo óleo e cera. A indústria avançou e hoje a goma-laca é utilizada como resina natural em alimentos, medicamentos e até maquilhagem.

E será que o consumo de goma-laca é considerado seguro? As propriedades aditivas levaram a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar em abril de 2020 a admitir que precisa de “informações adicionais” para poder “emitir um parecer sobre a segurança” do aditivo. A Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos não tem as mesmas dúvidas e acredita que o consumo de goma-laca é seguro, desde que cumpra as condições que estão aqui estipuladas.

Conclusão

Não é verdade que a Kinder tenha admitido utilizar “insetos” como “ingrediente” em chocolates como os Shocko-Bons. O vídeo que é partilhado nas redes sociais associa um ingrediente goma-laca a insetos, quando na verdade é uma “resina natural” utilizada nos Shocko-Bons e não só para “decorar e proteger” os alimentos, de acordo com o site oficial da Kinder.

A goma-laca é utilizada desde o século XIX com substituta de óleo e cera na indústria e mais recentemente como resina natural em alimentos, medicamentos ou maquilhagem. Ainda assim, a Autoridade Europeia para a Segurança Alimentar admitiu em 2020 não ter informações suficientes para “emitir um parecer sobre a segurança” alimentar do ingrediente.

Assim, de acordo com o sistema de classificação do Observador, este conteúdo é:

ERRADO

No sistema de classificação do Facebook, este conteúdo é:

FALSO: As principais alegações do conteúdo são factualmente imprecisas. Geralmente, esta opção corresponde às classificações “falso” ou “maioritariamente falso” nos sites de verificadores de factos.

NOTA: este conteúdo foi selecionado pelo Observador no âmbito de uma parceria de fact checking com o Facebook.

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