Quanto tempo demora um país a perder o bom senso? Portugal vive ao ritmo de indignações e performances do “somos os melhores do mundo”. Nada é como parece mas isso não interessa porque já outro arrebatamento aguarda os animadores deste espectáculo em que tornámos Portugal.

Uma jogadora de basquetebol não veste o equipamento regulamentar e logo é apresentada como a “muçulmana impedida de jogar”. Dias depois até se acrescentava que a mesma jogadora só voltaria a sê-lo “se vestir traje muçulmano”, coisa que não existe em parte alguma do planeta.

Com variações locais, este é um filme que temos visto estrear por essa Europa fora. Mais precisamente este filme começou a passar em França há trinta anos quando, em 1989, três adolescentes, Fatima, Leïla e Samira, se apresentaram na escola que frequentavam em Creil com a cabeça coberta por lenços. É certo que nesse mesmo ano, Khomeini lançara uma fatwa contra Salman Rushdie por causa dos “Versículos Satânicos” mas quase ninguém viu nessa irrupção de meninas de véu na cabeça nas escolas francesas um sinal de integrismo mas sim de que a sociedade francesa precisava de aprofundar a sua tolerância.

Trinta anos depois é claro que os argumentos da liberdade e da democracia, foram usados para destruir essa mesma liberdade: hoje em França existem bairros onde as mulheres já não podem sair à rua sem véu na cabeça. Tal como em 1989 a armadilha do “muçulmana impedida de” mantém-se não só oleada como acrescentada agora com o garrote da islamofobia: regras, lei e regulamentos que se aplicam aos demais podem ser contornadas desde que se invoque o islão (e agora também a pertença étnicas). A jovem em questão, Fatima Habib, não foi impedida de jogar por ser muçulmana mas sim por não usar o equipamento obrigatório.

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