Conheço razoavelmente bem o PSD. Reportei os seus corredores durante todo o consulado de Passos Coelho na oposição. Conversei com oito dos seus ex-líderes, tendo entrevistado o atual. Como todos os partidos – aliás, como todas as organizações –, tem pessoas boas e pessoas más e eu tive a liberdade de escrever sobre a maioria. Num desses textos, no entanto, receio ter cometido uma injustiça. Nos idos do verão passado, Pedro Duarte questionou a liderança de Rui Rio e sugeriu uma reflexão interna até ao final deste ano. A iniciativa do ex-deputado e ex-secretário de Estado pareceu-me extemporânea e descabida. Critiquei-o. E a verdade é que me enganei. Pedro Duarte, sem esquemas ou consequências imediatas, tinha razão no seu diagnóstico: o maior partido do centro-direita deve pensar o seu propósito antes de entrar no ciclo eleitoral que 2019 representa.

Atualmente, salvo exceções como esta, o PSD reside num estado de pré-gestão de despojos, numa lógica generalizada de «quanto pior, melhor», de silêncio na ânsia de salvaguarda pessoal. São, ao contrário dos melhores que já os lideraram, puros situacionistas. São, inclusivamente, piores que o próprio Rio – porque este, ao menos, ainda acredita no que diz. E as plateias batem palmas. Rui Rio homenageia Sá Carneiro falando de piscinas municipais e dos seus processos como arguido na Câmara do Porto e ninguém se levanta, não para dizer alguma coisa, mas para sair da sala. Foi uma vergonha. Repito: foi uma ver-go-nha – para os presentes, para os militantes e para os familiares dos homens que caíram em Camarate.

Pergunto-me, como mero observador que nunca teve cartão de coisa nenhuma, se os sentados não vêem. Se não ouvem as sondagens abaixo das duas dezenas, se não entendem que enquanto esperam pelo seu lugar no plenário estão antes a assistir a um funeral na primeira fila. Não quero entrar no velho clichê dos que produzem obituários partidários. Não digamos que «o partido vai acabar»; admitamos que está a morrer. E quando acontecer, quando o PPD/PSD baixar ao limiar do irrecuperável – como sucedeu ao SPD alemão e demais partidos europeus –, de que servirá o nome numa lista que não elegerá mais do que meia dúzia de deputados por círculo?

Comecei por relembrar o aviso de Pedro Duarte por um motivo muito concreto: não tinha de ser assim. Em 2015, toda a gente dizia que Passos iria perder, como hoje toda a gente diz que Costa irá ganhar. O histórico eleitoral português mostra-nos, nesse sentido, que nenhum primeiro-ministro que cumpra a sua primeira legislatura perde uma eleição. Mas este não foi um governo igual aos outros. Além da rebatida questão acerca da sua legitimidade, António Costa não apresentou uma solução «estável, coerente e duradoura» na medida em que se limitou a governar à boleia da hipocrisia dos partidos à sua esquerda – que votam os seus Orçamentos à sexta-feira e se manifestam contra eles ao sábado.

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