PSD

A direita poderia ganhar em 2019 /premium

Autor
  • Sebastião Bugalho
616

Rui Rio homenageia Sá Carneiro falando de piscinas municipais e dos seus processos como arguido na Câmara do Porto e ninguém se levanta para sair da sala. Foi uma vergonha. Repito: foi uma ver-go-nha.

Conheço razoavelmente bem o PSD. Reportei os seus corredores durante todo o consulado de Passos Coelho na oposição. Conversei com oito dos seus ex-líderes, tendo entrevistado o atual. Como todos os partidos – aliás, como todas as organizações –, tem pessoas boas e pessoas más e eu tive a liberdade de escrever sobre a maioria. Num desses textos, no entanto, receio ter cometido uma injustiça. Nos idos do verão passado, Pedro Duarte questionou a liderança de Rui Rio e sugeriu uma reflexão interna até ao final deste ano. A iniciativa do ex-deputado e ex-secretário de Estado pareceu-me extemporânea e descabida. Critiquei-o. E a verdade é que me enganei. Pedro Duarte, sem esquemas ou consequências imediatas, tinha razão no seu diagnóstico: o maior partido do centro-direita deve pensar o seu propósito antes de entrar no ciclo eleitoral que 2019 representa.

Atualmente, salvo exceções como esta, o PSD reside num estado de pré-gestão de despojos, numa lógica generalizada de «quanto pior, melhor», de silêncio na ânsia de salvaguarda pessoal. São, ao contrário dos melhores que já os lideraram, puros situacionistas. São, inclusivamente, piores que o próprio Rio – porque este, ao menos, ainda acredita no que diz. E as plateias batem palmas. Rui Rio homenageia Sá Carneiro falando de piscinas municipais e dos seus processos como arguido na Câmara do Porto e ninguém se levanta, não para dizer alguma coisa, mas para sair da sala. Foi uma vergonha. Repito: foi uma ver-go-nha – para os presentes, para os militantes e para os familiares dos homens que caíram em Camarate.

Pergunto-me, como mero observador que nunca teve cartão de coisa nenhuma, se os sentados não vêem. Se não ouvem as sondagens abaixo das duas dezenas, se não entendem que enquanto esperam pelo seu lugar no plenário estão antes a assistir a um funeral na primeira fila. Não quero entrar no velho clichê dos que produzem obituários partidários. Não digamos que «o partido vai acabar»; admitamos que está a morrer. E quando acontecer, quando o PPD/PSD baixar ao limiar do irrecuperável – como sucedeu ao SPD alemão e demais partidos europeus –, de que servirá o nome numa lista que não elegerá mais do que meia dúzia de deputados por círculo?

Comecei por relembrar o aviso de Pedro Duarte por um motivo muito concreto: não tinha de ser assim. Em 2015, toda a gente dizia que Passos iria perder, como hoje toda a gente diz que Costa irá ganhar. O histórico eleitoral português mostra-nos, nesse sentido, que nenhum primeiro-ministro que cumpra a sua primeira legislatura perde uma eleição. Mas este não foi um governo igual aos outros. Além da rebatida questão acerca da sua legitimidade, António Costa não apresentou uma solução «estável, coerente e duradoura» na medida em que se limitou a governar à boleia da hipocrisia dos partidos à sua esquerda – que votam os seus Orçamentos à sexta-feira e se manifestam contra eles ao sábado.

Mais do que isso, a legitimidade parlamentar de Costa dependia da sua governação enquanto «alternativa» ao executivo PSD/CDS e, olhando para o maior número de greves, de cativações e de impostos, o Partido Socialista não aparenta ter construído grande alternativa ao tempo da troika e da austeridade. Pelo contrário, o governo alegadamente mais à esquerda desde a revolução dos cravos fez tudo o que um governo de esquerda não faria: degradou os serviços públicos ao ponto de polícias dormirem em carros e pessoas não caberem nos barcos do Tejo. Pior: o PS anulou o papel do Estado na sua função mais básica, que é proteger a vida humana. Alguém já se esqueceu? As pessoas não são cegas – ou tão surdas quanto os seguidores de Rio – e dão pelo que se está a passar. A farsa está à vista de todos, o que desfaz a inevitabilidade de uma vitória socialista.

Mas Rui Rio mal tenta. E isso ergue uma dúvida. Se Passos, que nunca se demitiu nem perdeu legislativas, não encontrou condições para se recandidatar à liderança depois de perder umas autárquicas, como terá Rui Rio condições para ser candidato a primeiro-ministro depois de perder europeias e, ao que tudo indica, a Madeira pela primeira vez na história do seu partido?

Alguém acredita mesmo nisso?

Agora que entramos em 2019...

...é bom ter presente o importante que este ano pode ser. E quando vivemos tempos novos e confusos sentimos mais a importância de uma informação que marca a diferença – uma diferença que o Observador tem vindo a fazer há quase cinco anos. Maio de 2014 foi ainda ontem, mas já parece imenso tempo, como todos os dias nos fazem sentir todos os que já são parte da nossa imensa comunidade de leitores. Não fazemos jornalismo para sermos apenas mais um órgão de informação. Não valeria a pena. Fazemos para informar com sentido crítico, relatar mas também explicar, ser útil mas também ser incómodo, ser os primeiros a noticiar mas sobretudo ser os mais exigentes a escrutinar todos os poderes, sem excepção e sem medo. Este jornalismo só é sustentável se contarmos com o apoio dos nossos leitores, pois tem um preço, que é também o preço da liberdade – a sua liberdade de se informar de forma plural e de poder pensar pela sua cabeça.

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