Jornalismo

A minha lista de desejos para o Observador

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O que foi feito do aquecimento global? Onde estão os cordões humanos e os barcos com comida para a Palestina? E as gravuras de Foz Côa quantos visitantes têm? Não sabem os leitores nem sei eu.

Não sei como os leitores imaginam a relação dos colunistas com as publicações em que escrevem. Eu pelo menos acalentava umas visões românticas sobre o estatuto dessas personagens, supunha que lhes telefonavam a dizer que o seu artigo do dia X tinha sido brilhante, que o do dia Y tinha tido críticas… É claro que assim que me iniciei nessas lides escreventes ,e após não me telefonarem a dizer sequer que o tinham recebido quanto mais que tinham gostado do texto (em boa verdade também não telefonavam a dizer que não gostavam e presumo que muitas vezes não gostavam mesmo), percebi imediatamente que o estatuto de colunista, pelo menos no que me dizia respeito, não tinha nada de romântico, antes pelo contrário tinha dias de perfeito neo-realismo: “Precisamos de um texto com um título de 187 caracteres”; Vamos fazer um especial e contamos com um artigo teu para amanhã”… Depois, claro, às vezes nem a indicação de “recebido” me caía no mail.

Devidamente desfeitos os meus sonhos sobre o que esperava do meu estatuto de colunista resolvi reorientar os meus sonhos para aquilo que eu enquanto colunista espero das publicações em que escrevo. Não, não esperem que eu alinhe uma lista de princípios editoriais. Esse é um trabalho para directores, editores, conselhos disto e daquilo. Nada disso. Eu sou simplesmente uma colunista, uma actividade tão precária quanto a dos treinadores de futebol mas infelizmente paga mil vezes pior. Como sucede que não sou de esquerda também não posso alegar perseguição quando dizem não estar mais interessados na minha colaboração. Um dia em que me faltar o assunto e me sobrar a má disposição escreverei aqui sobre tudo o que penso da mistificação subjacente ao termo “colaborador” no mundo laboral, mas hoje o meu objectivo é outro: é simplesmente dar conta daquilo que eu espero do Observador.

Em primeiro lugar espero que não “arrase”. Não leiam nisto qualquer desejo de que não triunfe mas tão só que se abstenha daqueles títulos em que A arrasa B: acreditem, é muito constrangedor ver o nosso nome num periódico que usa o verbo arrasar como o Dâmaso repetia “chique a valer” n’Os Maias. E um colunista tem dias bons, assim assim e péssimos, mas ver o seu texto paginado ao lado de um “arrasou” é mortal.

Em segundo mas não menos importante lugar espero, pelas almas de todos os jornais, revistas e rádios que já vimos fechar – e são tantos! – que o Observador não sofra do síndroma do teatro independente, uma patologia que se traduz em designar uma coisa pelo seu contrário, pois como qualquer português bem sabe chama-se teatro independente àquele que é verdadeiramente dependente já que depende dos apoios estatais e não do público. Em consequência desse síndroma todos os dias ouvimos chamar irreverente ao actor, escritor, artista que tem uma peça ou um romance para promover e que pela enésima vez recorre à muito velha e gasta estratégia comercial do insulto a Cavaco Silva, Merkel ou a Igreja Católica (qualquer personagem ou instituição conservadoras do mundo ocidental servem) porque graças a essa velha técnica de marketing sabe que tem garantidas, sem qualquer contratempo, pelo menos meia dúzia de chamadas de capa. Ou classificamos como ousada a mais que vista e garantida performance de show erótico ou os delírios das questões de género em que alguns cantores e demais artistas apostam para ganhar público e prémios. A opção é legítima mas nada ousada: antes pelo contrário a isso chama-se jogar pelo mais que seguro, pois como bem sabemos a questão não é o que vestem, despem ou simulam Lady Gaga ou Miley Cyrus ou que a senhora Conchita participe num festival naquele preparo piloso, mas sim que à conta da dita ousadia deixa de se fazer a pergunta fundamental: as canções valem ou não a pena?

Por fim nas não por último gostava que o Observador observasse, coisa que parece óbvia mas que, face ao estilo Peixinho Dory em que vivem as redacções, é cada vez mais um desejo longínquo. Eu explico melhor: o que foi feito do aquecimento global? Onde estão os cordões humanos e os barcos com comida para a Palestina? E as gravuras de Foz Côa quantos visitantes têm? Não sabem os leitores nem sei eu porque passada a fase em que só se falava desses assuntos e em que havia uma narrativa politicamente correcta para os explicar mais ninguém lhes dedicou uma linha. Agora só temos género, políticas de género, lutas de género, questões de género… Até que dentro de algum tempo os peixinhos Dory lá partirão para outro tema/causa com igual frenesi, ausência de memória e convicção de que dominam o código secreto, no caso não das baleias, mas sim dos males do mundo.

E acho que podemos ficar por aqui que a lista já vai longa e nestas coisas de projectos editoriais, como em tudo na vida, mais vale fazê-lo que dizê-lo.

Ensaista

 

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