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O bom povo é de esquerda. Ao comentar os resultados das eleições presidenciais Miguel Sousa Tavares afirmou, com aquela sintaxe entaramelada que o caracteriza, a propósito do voto dos emigrantes: “Os poucos que votam, votam sempre contra aquilo que é o sentido maioritário do voto dos portugueses que cá estão. Nomeadamente, votam muito mais à direita, e ontem [Domingo] votaram muito mais em André Ventura.

Como é habitual Miguel Sousa Tavares fala muito e prepara-se pouco: os emigrantes não “votam muito mais à direita” a não ser que se entenda por votar “muito mais à direita” o voto no PSD e no próprio PS cujos resultados eleitorais na emigração são expressivos, sobretudo no círculo da Europa. A esta fantasia em torno de um voto “muito mais à direita” por parte dos emigrantes juntou Miguel Sousa Tavares uma reflexão sobre o facilitar ou não do voto em função do provável sentido de voto dos eleitores portugueses: “E a questão política que se põe é o seguinte: se facilitarmos o voto todo dos emigrantes, nomeadamente por correspondência, há ou não há o perigo de um dia nós podermos eleger um Presidente da República que… Imagina que isto está taco a taco, mais ou menos, e a balança pender para quem os emigrantes votaram… A balança pode acontecer… cair para o lado que os portugueses que cá não vivem escolheram, e não os portugueses que cá vivem…”  Nesta perspectiva o voto não é um direito mas sim um prémio, um prémio que se concede ao povo que vota bem.

O destrato de quem não vota segundo este conceito do bem torna-se norma: Francisco Ramos, o coordenador da task force da vacinação, a propósito ou despropósito das tomas indevidas de vacinas não teve nada mais apropriado para invocar que o “espírito vingativo” que associa “àqueles 11% ou 12%” que votaram na candidatura de André Ventura nas eleições presidenciais em que por sinal ele, Francisco Ramos, foi apoiante destacado de uma outra candidatura, a de Marisa Matias. Portugal república dos socialistas é isto: um país de castas. Um país em que o coordenador da task force da vacinação, o mesmo que há um mês não incluía as pessoas com mais de 80 anos na primeira fase da vacinação e depois por pressão da UE se viu obrigado a mudar essa disposição, insulta eleitores com a mesma ligeireza com que não deu explicações sobre as sucessivas alterações do plano de vacinação.

O povo que se porta mal. Acreditam os pregadores do “Fique em casa” que aquilo que mandam vir pelo take away e pelos estafetas nasce nos armazéns e nas mochilas dos distribuidores? Se realmente ficassemos todos em casa íamos comer e beber o quê? Viver de quê?  O mundo do “Fique em casa” está cheio de gente cujos rendimentos não foram beliscados pela pandemia e que não sabe nem quer saber o que está acontecer no mundo do trabalho. Esse mundo para o qual se anunciam apoios que o mundo do “Fique em casa” imagina rápidos e automáticos mas a que na prática não se consegue aceder. Os últimos a viverem nesta espécie de  distopia são os jovens casais que tiveram o azar de ser colocados em teletrabalho. Como se sabe as empresas foram obrigadas a optar pelo teletrabalho desde que tal fosse possível. Só que em seguida fecharam-se as escolas e as creches. Com as crianças em casa, os pais em teletrabalho deixaram de conseguir trabalhar. Terceiro acto desta tragédia: são recusados apoios aos pais que já estavam em teletrabalho.  Em conclusão, os pais de crianças pequenas quando as creches fecharam ficaram sem poder trabalhar e privados de qualquer apoio. Muitos ainda continuam a pagar as creches na esperança do dia em que voltarão à rua… O mundo do “Fique em casa” ralha com o “povo que se porta mal” e culpa-o pelas ambulâncias à porta dos hospitais e por ter precisado de oxigénio no Amadora-Sintra.

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O povo que não percebe. O  povo que não percebe coexiste com o povo soberano. Este último é chamado à cena quando se tem a certeza que o seu voto vai consagrar a narrativa do progressismo. Caso contrário o voto popular passa ao estatuto de populismo. Assim se explica que o mesmo país que votou duas vezes o aborto veja agora os seus parlamentares aprovarem a eutanásia. Os senhores deputados, aqueles que mandam fechar restaurantes e mantêm o restaurante da Assembleia a funcionar, entenderam que os portugueses não precisavam de discutir mais a eutanásia e decidiram por nós. Decidiram-no numa semana em que muitos portugueses morreram sem a assistência que mereciam, sem os tratamentos que acreditavam ir ter sempre disponíveis, sem a presença de familiares. Entretanto espera-se que o Presidente após profunda sessão de aritmética decida se veta ou não veta. Afinal em Portugal todo o absurdo é normalizado, toda a incompetência rasurada e toda a prepotência legitimada desde que se esteja do lado certo. Veja-se o sucedido com a decisão do Tribunal Constitucional de dispensar os membros do Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC) de apresentar a declaração de rendimentos, património, interesses, incompatibilidades e impedimentos. Acreditaria o povo que os membros de um organismo que visa prevenir a corrupção deveriam disponibilizar essa informação. Ora não foi esse o entendimento do Tribunal Constitucional que alega que o Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC) é sobretudo um orgão consultivo e também não foi esse o entendimento de  José Tavares, o novo presidente do Tribunal de Contas e, por inerência, também presidente do dito Conselho de Prevenção da Corrupção (CPC). Para José Tavares,  a “generalidade” dos membros deste conselho já estão obrigados a apresentar estas declarações nos outros cargos que desempenham. E aqueles que não fazem parte da generalidade? Aliás quantos membros são necessários para formar a “generalidade”?

O povo às vezes cansa-se. Gostaria de recordar à direita portuguesa que tão entretida anda nos seus jogos florais entre o Adolfo, o Carlos, o Francisco, o Nuno… que as sondagens em França começam a apresentar como possível a vitória de Marine Le Pen na segunda volta das presidenciais que vão ter lugar em 2022. Sim, estão a perceber bem, Marine Le Pen aquela com quem a direita não negociava, não reunia, não falava… pode ganhar as próximas presidenciais francesas. Agora é ela que não precisa dos gaullistas, dos conservadores, dos centristas.

Percebem ou é preciso fazer um desenho? O povo às vezes cansa-se de tanto tacticismo, de tanta estratégia, de tanto calculo… e perante um quotidiano  que endurece (os franceses declaram que se asselvaja) dá o seu voto a quem lhe fala da sua vida. Se abandonarem o eixo que vai da Estrela à SIC e das Avenidas ao PÚBLICO talvez comecem a ver melhor.