O Zé é um tipo às direitas. Os amigos dizem que ele é um tipo de direita. Por simplificação, ele aceita o qualificativo.  O Zé tem os seus objetivos, a sua família, a sua Fé (ou por vezes falta dela), os seus amigos e, está claro, o seu sócio involuntário: o Estado. Há muito que o Zé percebeu que não há maior inimigo à inovação, ao gosto pelo risco e à riqueza do que o Estado e as suas armas de ataque: os impostos, as taxas, as regulações e um sem número de expedientes intimidatórios.

Evidentemente, o Zé não gosta do PS nem dos outros partidos à esquerda do PS, mas está confuso sobre o seu sentido de voto.

Tentemos ajudá-lo.

O voto “útil”

Tendo em linha de conta a estratégia suicida de Luís Montenegro, segundo a qual só formará governo se tiver mais deputados do que o PS, se o único objetivo do eleitor de direita for tirar o PS do poder, restar-lhe-á votar na AD. Dizem os nossos politólogos e comentadores que terá sido a ambiguidade de Rui Rio relativamente ao Chega que deu a vitória absoluta ao PS em 2022. Ora, Montenegro cedeu à pressão da comunicação social e dos seus adversários e não podia ter sido mais claro: não haverá quaisquer acordos pós-eleitorais com o Chega. Com esta linha vermelha incondicional, designadamente sem exigir idêntica postura do PS à sua esquerda, o PSD conta, por um lado, convencer o seu eleitorado mais hesitante e, por outro lado, capturar o eleitorado do centro, mais oscilante, que nos dizem ter medo da extrema-direita, embora não tenha idêntico receio da extrema-esquerda. O facto de Pedro Nuno Santos ser claramente mais extremista do que António Costa e o facto do CDS se ter juntado como seu parceiro, para juntos reviverem dias felizes, poderão jogar a favor de Montenegro e da vitória da AD. Mesmo que tal aconteça, é provável que a AD fique dependente do Chega, contando que este suporte o governo sem, contudo, lhe dar conversa. Caso tal aconteça, a precariedade deste apoio incondicional é evidente, mas o voto útil não é muito exigente por natureza.

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Direitos, Liberdades, Garantias e a memória do Covid

Para o caso de estarmos esquecidos, a escolha do ex-bastonário da ordem dos médicos, Miguel Guimarães, para cabeça de lista pela AD no Porto, depois do péssimo serviço prestado durante a histeria da COVID-19, em particular o facto de ter escondido um parecer que pedia mais informação antes da vacinação de crianças e, sobretudo, a inenarrável intervenção de Paulo Portas no recente congresso da AD, na qual voltou a agitar o fantasma do negacionismo, encarregaram-se de nos esclarecer que, nesta matéria, o PSD e o seu moribundo parceiro de coligação não se distinguem do PS, dos partidos de esquerda  e do presidente que infelizmente envergonha o país e o seu cargo desde o primeiro dia.   O alegado negacionismo, na verdade, não é mais do que, entre outra coisas: a) contestar desde o início o lockdown e uma série de medidas absurdas; b) denunciar a falsa ideia de que a vacinação era voluntária, quando na verdade se montou um cerco aos não vacinados; c) repudiar a nojenta inclusão de crianças de tenra idade no plano de vacinação a pretexto da “paz social”.   Toda esta loucura coletiva deveria ser relembrada para vergonha do país e do mundo, sendo que isto só foi possível devido a uma comunicação social maioritariamente servil e mais interessada na propagação do pânico do que na procura da verdade e do bem comum. Ao domingo, em dois canais de TV concorrentes, Paulo Portas e Marques Mendes papagueavam as mentiras e desinformações oficiais. Este trauma é impossível esquecer quando se valoriza a liberdade de expressão e os direitos dos cidadãos. Em resumo, uma boa parte das figuras que estão na AD foram protagonistas de um ataque aos nossos direitos, e tudo indica que farão parelha com o PS para moldar a constituição no sentido de nos atacar com mais respaldo legal.

A Iniciativa Liberal começou por ensaiar alguma resistência em tempos de COVID-19, e o facto de nunca ter votado a favor de nenhum estado de emergência (absteve-se no primeiro e contra em todos os outros) é um ponto a favor. No entanto, o medo de ficar mal na fotografia trouxe para a IL um registo cada vez mais tíbio. A IL amansou, no mínimo.

O Chega, na pessoa de André Ventura, disse tudo e o seu contrário sobre o tema, mas convém não esquecer que sugeriu uma cerca sanitária aos ciganos como medida de saúde pública. Mais recentemente, provavelmente sentindo que isso lhe dará votos, defendeu, a meu ver bem, uma investigação ao excesso de mortalidade “sem medo e sem tabus ideológicos”

Conclusão: ninguém fica maravilhosamente na fotografia, mas a AD reprova com estrondo.

Proposta económica

Nesta matéria só há de facto duas propostas económicas: a proposta da AD e a proposta da IL. Analisar a idiotice das propostas do Chega, a sua inconsistência e, sobretudo, a recente tentativa de propor mais socialismo para combater o socialismo, é semelhante a fazer a exegese de um sarrabisco de um miúdo de 5 anos. Não o farei.

A proposta da AD, embora infectada do socialismo que há muito habita naquelas hostes, em especial uma pulsão dirigista que nunca os abandonou, é sem dúvida menos má do que a perspetiva de termos de novo o PS (e possivelmente uma geringonça) no poder.

Nesta matéria, embora cada vez menos enérgica, a IL ainda é, de longe, o partido com uma proposta económica mais adequada. É impossível concordar com tudo, mas a mensagem é, pelo menos em termos relativos, a única proposta partidária tendencialmente não estatista. Infelizmente, a IL parece ter perdido um pouco o rumo comunicacional (por exemplo: esta de estabelecer uma meta do salário médio para combater a insistência nas propostas do salário mínimo, não lembra ao diabo), com a honrosa excepção do deputado Carlos Guimarães Pinto.

A abstenção cínica

Para os que abominam as propostas de esquerda, mas também não reconhecem em nenhuma proposta à direita uma alternativa convincente, resta a abstenção. Esta não deixa de ser uma opção difícil pois pode beneficiar o PS. No entanto, está muito longe de ser uma opção cobarde. Pelo contrário, a abstenção consciente é a afirmação de que são todos demasiado maus; é uma percepção, certa ou errada, de que nada mudará de essencial seja qual for a votação dos partidos à direita do PS.

Agitar as águas

Para os que estão cansados duma direita direitinha, servil e cobarde, frequentemente parceira da esquerda no tom e nas ideias; para quem rejeita o politicamente correcto, o discurso do cancelamento, a ditadura moral implícita no discurso da suposta inclusão, o fascismo climático, a imigração sem critério e a fraude da ideologia do género; para quem, no fundo, está legitimamente zangado com este estado de coisas nas “guerras culturais”, o Chega e a sua comunicação extremamente simplista mas eficaz corporizam uma forma legítima de agitar as águas.

Num vídeo recentemente divulgado no Twitter, André Ventura, enquanto ajeitava o nó da gravata, comentava assim os alegados favorecimentos a Pedro Nuno Santos e Luís Montenegro em matéria de IMI: “Já viram?!…em vez de serem os que não têm nada a beneficiar de uma borla do IMI são os políticos socialistas a beneficiar da borla…” E embalado enquanto atende o telefone: “Tou, hoje vou desancar nos socialistas que é o que eu faço melhor!”

Não percebeu a gritante incoerência ou simplesmente quer agitar as águas? Então, vote Chega.

Nota Editorial: Os pontos de vista expressos pelos autores dos artigos publicados nesta coluna poderão não ser subscritos na íntegra pela totalidade dos membros da Oficina da Liberdade e não reflectem necessariamente uma posição da Oficina da Liberdade sobre os temas tratados. Apesar de terem uma maneira comum de ver o Estado, que querem pequeno, e o mundo, que querem livre, os membros da Oficina da Liberdade e os seus autores convidados nem sempre concordam, porém, na melhor forma de lá chegar.