Rádio Observador

Serviço Nacional de Saúde

“A saúde não tem preço” (ou a pós-verdade aplicada à vida dos outros)

Autor
  • Diogo Prates
109

O que se espera de uma maioria responsável é que saiba escolher os investimentos prioritários e aqueles que não o são, saiba pôr o interesse comum à frente da sua agenda ideológica e eleitoralista.

A “geringonça” tornou-se exemplar na aplicação da velha táctica do polícia-bom polícia-mau dos filmes de acção. Se por um lado BE e PCP defendem fim de propinas, fim de taxas moderadoras, nacionalização da banca, logo vem o PS, esse paladino das contas certas, chamar a atenção para a necessidade de manter as contas equilibradas sob pena de cairmos outra vez (e vão três) nas mãos de uma qualquer troika. Assim ficam todos satisfeitos: PCP e BE arrebanham os descontentes mais ingénuos, PS arrecada os responsáveis e aqueles que valorizam as contas certas, e não há forma de a esquerda não ter maioria, mesmo que estes interesses (fim de propinas e fim de taxas moderadoras, por exemplo) sejam incompatíveis com contas equilibradas.

Vamos ao exemplo da mais pura demagogia do BE para iludir incautos, os cartazes com “A saúde não tem preço” que espalharam pelas cidades deste país. Ora se a saúde não tem preço porque é que faltam anestesistas no Hospital Pulido Valente, pediatras no Hospital Garcia de Orta e no Hospital do Litoral Alentejano, obstetras no Hospital de Portimão? Porque é que não foi construído o novo hospital do Seixal que foi uma promessa deste governo? Porque é que não existem mais camas na rede nacional de cuidados continuados e continuamos a ter doentes em camas de hospital que não deviam lá estar?

Recentemente a ministra veio dizer o óbvio: “não há dinheiro” para o fim das taxas moderadoras nos centros de saúde. E continua a senhora ministra: “Em primeiro lugar, nós estamos a falar de um valor que representa 160, 170, 180 milhões de euros, neste momento, com o modelo que temos. Evidentemente que retirar este valor que, sendo de taxas moderadoras, é uma receita para o sistema, exige que o façamos por passos progressivos, estudados, para perceber de que forma é que a procura de cuidados de saúde reage, e que encontremos alternativas para repor estes 160 ou 170 milhões de euros”. Encontrar alternativas para repor estes 160 milhões de euros significa uma coisa: aumentar impostos e deixar de gastar noutras áreas tão carenciadas.

A política requer escolhas porque o dinheiro não chega para tudo. Recentemente e mais uma vez a realidade impôs-se. Uma criança de nome Matilde padece de uma doença e necessita de um medicamento que custa 2 milhões de euros. Quantos medicamentos se podem comprar com 160 milhões de euros que custa acabar com as taxas moderadoras nos centros de saúde, onde as consultas custam 4,5 euros para os que não estão isentos  sendo que aqueles que o estão são a maioria nos centros de saúde?

Naturalmente, para todos os que não vivem num mundo de ilusão, tudo tem um preço. O que se espera de uma maioria responsável é que saiba escolher quais são os investimentos prioritários e aqueles que não o são, saiba pôr o interesse comum à frente da sua agenda ideológica e eleitoralista.

O papel da oposição é exactamente este, explicar que outras escolhas são possíveis, outro caminho pode e deve ser trilhado para que todas as “Matildes” possam ter o medicamento que precisam a tempo e horas.

E no fim do dia, caberá ao eleitorado escolher qual o projecto político que melhor lhe serve, na certeza porém que o objectivo do policia-bom e do policia-mau é o mesmo, o seu voto.

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