A cena repete-se invariavelmente. Por volta das cinco da manhã entro na cozinha para fazer café e sou acolhido por uma gata que emite lancinantes protestos, algures entre o rosnar de um cão e um grito de gaivota. A mensagem é clara: Black Cats Matter. Ninguém, por mais avisado que seja, está, àquela hora, preparado para tal reivindicação sonora, mesmo que venha de uma anciã que, pelos métodos de conversão da idade dos gatos em idade humana, deve andar pelos 104 anos, e que, suspeito, anda a ler às escondidas a New Yorker, onde bebe o arsenal teórico das suas exigências. Mesmo assim, resisto ao pânico e obedeço a prioridades: o primeiro gesto é ligar a máquina de café. Só depois, com os primeiros e promissores barulhos da máquina redentora, me ajoelho, de acordo com o consagrado método Kaepernick-Pelosi, e lhe ponho a comida no prato. Segue-se alguma, sempre precária e provisória, paz.

De qualquer maneira, a experiência traumática matinal prepara-me para as adversidades do dia, abundantes graças à televisão e aos jornais. Estou, por exemplo, munido de todas as defesas contra as notícias da Agência Lusa que enxameiam os órgão de comunicação, e cuja parcialidade atinge picos memoráveis, sob a batuta do seu presidente, Nicolau Santos, e da sua directora de informação, Luísa Meireles, que não hesitam, de resto, em mostrar essa mesmíssima parcialidade em aparições televisivas com que generosamente nos presenteiam regularmente. Ah, como diria o saudoso Maxwell Smart, se pusessem todo o seu génio ao serviço do bem… As notícias sobre autarcas que têm um sublime prazer em derrubar pacatas árvores por cidades e vilas de Norte a Sul do país já não me surpreendem. Mesmo que, como se passou recentemente em Espinho, o derrube se destine a permitir a construção de uma ciclovia, essa praga contemporânea, no espírito de um “reperfilamento da via de rodagem”. A destruição de árvores nos espaços urbanos é um velho desporto nacional. As pessoas não gostam de árvores: as folhas caem e o sentimento de ordem encontra-se abalado, vá-se lá saber com que nefandas consequências para o bem-estar psíquico da população. Ou ainda, para acabar esta enumeração perfeitamente aleatória, não sinto qualquer frémito de indignação com a criatura mais unidimensional do mundo – António Costa, obviamente – achar perfeitamente natural, sendo primeiro-ministro, apoiar um candidato à presidência do Benfica, ainda por cima alguém a braços com a justiça. Vá lá! António Costa é uma pura máquina de palavras, unicamente programada para se perpetuar no poder. Pedir-lhe a subtileza de considerações de decência ou pudor entra fundo dentro do disparate.

Mas há boas novidades. O trauma matinal não se limita a ajudar-me a relativizar as desventuras quotidianas. Sublinha também, por contraste, os prazeres da vida. E um dos grandes prazeres que tenho por esta altura do ano é ver a Volta à França. Ao vivo, só a vi, em dose mínima, por duas vezes, com um grande intervalo de tempo: uma vez, muito miúdo, no tempo de Eddy Merckx, a outra, muito depois, durante o reinado de Lance Armstrong. Mas na televisão vi-a muitas, muitas vezes, e, desde há anos, sempre na companhia dos meus amigos comentadores da Eurosport. Digo “meus amigos”, não porque sequer os conheça pessoalmente, mas porque são um modelo de comentário desportivo, a milhas daquela solenidade de capela mortuária que infelizmente é quase a regra nestas matérias. Sabem imenso daquilo e não se levam nunca a sério para além do estritamente necessário. São mesmo uma lição de jornalismo, sem pontinha daquele lirismo de fancaria que é a triste sina da comunicação social portuguesa – particularmente a televisiva – em geral. Não há dia sem que, graças a eles, eu dê umas valentes gargalhadas.

Este ano, em que, ao mesmo tempo que me maravilho com a magnífica sucessão de paisagens da bela França – não há ano em que ela não me surpreenda —, sigo as aventuras dos eslovenos Roglic e Pogacar, embora com saudades do grande Chris Froome, pus-me a ler um livro publicado em 2017, que ouvi pela primeira vez referido pelos comentadores da Eurosport: traduzido o título em português, dá qualquer coisa como “Talhante, Ferreiro, Acrobata, Limpa-chaminés” (Butcher, Blacksmith, Acrobat, Sweep, no original), da autoria de um jornalista inglês, Peter Cossins. O livro é uma história da primeira Volta à França, em 1903, organizada pelo jornal L’Auto (o antepassado de L’Équipe) e o título é uma referência à profissão de alguns dos corredores, entre os quais do vencedor dessa primeira Volta, Maurice Garin (o “limpa-chaminés”). É uma pequena maravilha. Cossins retrata na perfeição os antecedentes do Tour, a visão que para ele tinha o director de L’Auto, Henri Desgrange, e os detalhes das seis etapas, todas elas com uma extensão muito maior do que as actuais (a última, Nantes-Paris, contava 471 quilómetros). As semelhanças e as diferenças com as Voltas futuras são igualmente interessantes.

Este artigo é exclusivo para os nossos assinantes: assine agora e beneficie de leitura ilimitada e outras vantagens. Caso já seja assinante inicie aqui a sua sessão. Se pensa que esta mensagem está em erro, contacte o nosso apoio a cliente.